Tarciso S. Filgueiras
Biofilia pode ser conceituada como
sentimento de amor à vida, e por extensão, a tudo que é vivo, a todas as
manifestações da vida. Ou seja, o apreço e o respeito a todos os organismos
vivos do Planeta, sejam eles diretamente ligados à vida humana ou não. No
extremo oposto a esse sentimento, situa-se a biofobia. Este, em sua
forma mais radical e em diferentes matizes, hostiliza a vida de maneira frontal
ou disfarçada. Enquanto a biofilia conduz à tolerância, à convivência pacífica
e enriquecedora, a biofobia é intolerante, preconceituosa, exclusivista.
A biofilia é um atributo humano e brota espontaneamente nas
crianças, nos adultos bem formados e bem informados. Porém, precisa ser
cultivada, incentivada e, principalmente, praticada. O ponto central desta
discussão é que a humanidade (Homo
sapiens) é parte integrante da Natureza. Não podemos nos separar dela nem
agir à revelia de suas leis e preceitos. Compartilhamos com todas as demais
espécies existentes um número maior ou menor de genes. O parentesco mais
próximo é, sem dúvida, com os chimpanzés, dos quais os humanos se separaram, na
África, a cerca de cinco milhões de anos. Mas, há ligações genéticas
surpreendentemente próximas com inúmeras outras espécies, inclusive bactérias!
Importante entender que esse parentesco não diminui a humanidade, mas eleva o status
dos não humanos!
A continuidade genética
entre os humanos e os demais seres vivos deveria ser razão suficiente para uma
convivência pacífica e harmoniosa. Mas, não é. Esses conflitos são ainda mais
claros no mundo ocidental, já que o oriental é, em média, culturalmente, mais
próximo da Natureza. A convivência harmoniosa entre diferentes grupos étnicos é
uma conquista da civilização, porém deve ser recriada e re-interpretada por
cada nova geração. No passado, mulheres, crianças, estrangeiros e grupos
minoritários eram sistematicamente discriminados. Hoje, um comportamento
preconceituoso em relação a esses grupos é inaceitável e é socialmente
condenável.
A aceitação do outro deveria
se estender para todas as criaturas vivas do Planeta, com base nos princípios
éticos universais da irmandade genética que nos fortalece e nos incentiva a
compartilhar espaços e recursos de maneira harmônica e não através da eliminação
sumária do "outro", visto como "competidor".
O
homem mata outro homem pelos motivos mais fúteis. Sempre foi assim. Com mais
facilidade ainda, ele mata outras formas de vida, seja uma raposa que
atravessava a rodovia, uma lagarta encontrada sobre a folha, um grilo que
pousou na blusa, um periquito que descansava na mangueira, uma cobra que
apareceu no quintal. A muda de árvore plantada na praça, só escapa se for
protegida por arame farpado, até que escape do alcance das pessoas.
Mata-se tudo. Tudo que é
vivo. Esse comportamento biofóbico evolui para o despeito à vida humana, na
cidade e no campo. Ele também está na raiz de muitos desajustes de
personalidade, assim como de certas injustiças sociais.
O
sentimento de biofilia é extremamente útil à humanidade e contribui de forma
decisiva para sua sobrevivência porque conduz à idéia da preservação dos
ambientes e das espécies. Deve-se preservar por motivos éticos e também por
motivos egoístas, pois para garantir a vida de nossos descendentes, a biosfera
precisa sobreviver. Se a biosfera não sobreviver, nós pereceremos com ela.
Devagar, porém, inexoravelmente.
Claro, o sentimento de
biofilia em estado puro poderia levar ao engessamento do progresso humano, por
tolher qualquer iniciativa que implicasse modificação ambiental. Contudo, o
extremo oposto (biofobia) é, seguramente, mais pernicioso ainda. A sabedoria
está em encontrar o equilíbrio. Aquele ponto em que a Natureza passa a ser
percebida como uma unidade, porém uma unidade que contempla a pluralidade. Para
que a biofilia conquiste os sentimentos biofóbicos, endêmicos na índole humana,
a singularidade precisa ser vista como parte da complexidade. E complexidade,
vale lembrar, é marca registrada da Natureza.
Compreender, analisar,
ajustar e administrar as variáveis desta imensa equação representa grandes
desafios para a humanidade. No entanto, é fundamental fazê-lo, pois da condução
equilibrada desse processo dinâmico depende nossa sobrevivência, no médio e no
longo prazo.
Porquê o universo é tão nitidamente amigável à vida (biofriendly)?
A resposta a esta pergunta já suscitou diversas teorias incluindo a mais nova, lançada por James Gardner, intitulada Selfish Biocosm que foi objeto de seus dois últimos livros; Biocosm e Intelligent Universe, este último nada mais nada menos que prefaciado por Ray Kurzweil.
Toda esta polêmica resulta do fato das constantes do universo parecem ter sido especialmente escolhidas para permitir a vida; constante de Plank, gravitacional, porcentagem de oxigênio na atmosfera, quantidade da chamada dark energy cuja causa ainda não foi descoberta, funções da fotosíntese, a química do carbono e algumas outras constantes que se fossem ligeiramente desviadas de seus valores a vida se tornaria impossível. Tudo isto acaba por instituir o princípio Antrópico em suas vertentes fraca e forte.
Esta crônica me anima a escrever em breve um artigo sobre esta questão da Teoria do Selfish Biocosm.