Ciência e Ética PDF Imprimir E-mail

Mario Porto 

O texto a seguir foi elaborado como pré-requisito para graduação no Curso Online da FGV de Metodologia de Pesquisa e foi desenvolvido a partir do questionamento apresentado abaixo. Em virtude de ter sido avaliado com a nota máxima ousamos apresentar aqui para nossos visitantes.

Como a ética pode evitar que a produção científica e a tecnologia  dêem origem à invenção  de artefatos  que  de algum modo  possam comprometer a existência da humanidade .

Conforme formulada, quer me parecer que esta é uma proposição de caráter absoluto e como tal jamais será cumprida, isto é, sempre haverá alguém dotado de poderes para influenciar decisões e que frente a uma determinada situação aplique uma visão ética diferente da corrente principal.

Primeiramente, vamos situar os termos ética e moral. Vou me permitir inserir parte de um artigo escrito por mim em 2004 e que pretende apresentar uma definição para Ética Racional. (1)

Observe-se a origem das palavras. “Ética“ vem do grego “ethos“, e significa hábito. “Moral“ vem do latim “mores“ e significa “hábito, costumes“. Ou seja, do ponto de vista puramente filológico não haveria motivo para se distinguir as duas expressões (a não ser, é claro, que se faça estudos filológicos muito precisos e se estude a diferença entre o significado de “ethos“ para gregos e “morus“ para os latinos).

O fato é que mesmo no mundo filosófico existe certo caos terminológico neste respeito. Especialmente na tradição teológica: o que os protestantes chamam de ética, os católicos chamam de moral. Em geral, procura-se seguir a seguinte distinção: enquanto a moral é uma ciência descritiva (descreve como os seres humanos de uma determinada cultura de fato agem) a ética é normativa (ele determina como eles deveriam agir).

A ética busca encontrar os valores humanos, clarificá-los e integrá-los num sistema coerente de princípios a ser usado pelo homem nas suas escolhas e ações.

A primeira pergunta que deveria ser respondida como precondição para qualquer tentativa de se definir, julgar ou aceitar qualquer sistema específico de ética é:

Por que o homem precisa de um código de valores?

Quais são os aspectos relevantes da natureza humana que geram a necessidade de uma disciplina ou até, como dependo, de uma ciência como a ética?

O primeiro aspecto relevante da natureza humana é obviamente especial: o homem é um ente vivo, um organismo biológico que enfrenta a alternativa da vida ou da morte. É a natureza condicional da vida, a alternativa entre vida e morte que gera o conceito de “Valor”. É unicamente o conceito da “Vida” que faz com que o conceito de “Valor” seja possível. É apenas para um ser vivo que os fatos podem ser bons ou maus.

O conceito de valor expressa para um organismo vivo a relação benéfica ou prejudicial de algum aspecto da realidade. Dizer que algo tem valor para um organismo é dizer que é condutivo para a vida daquele organismo. O juízo de valor expressa um fato é uma estimativa da relação e esta estimativa é precisa ou imprecisa, falsa ou verdadeira. Qualquer tentativa de separar o domínio dos valores do domínio dos fatos é fundamentalmente equivocada no nascedouro. É um erro falar-se dos fatos da física, da biologia, da psicologia, etc., em contraste ao domínio dos valores; ao invés devemos falar dos fatos da física, dos fatos da biologia dos fatos da psicologia, etc. e dos fatos de valor. A alegação de que a esfera dos valores não pode ser baseada ou derivada dos fatos é análogo a dizer-se que a esfera da física ou da biologia não pode ser baseada ou derivada de fatos.

Como todas as coisas animadas e inanimadas o homem tem uma natureza específica e como todo organismo vivo sua natureza requer meios específicos para a sobrevivência. Entretanto, diferentemente, de outras formas de vida o homem tem a capacidade de escolha. Enquanto as outras formas de vida respondem ao meio ambiente segundo seu nível automático de sensações ou percepções, o poder humano de distinção e conceituação permite que ele delibere antes de agir.

Em outras palavras, o homem tem a capacidade de avaliar as alternativas que se lhe apresentam e suas ações orientadas volitivamente são motivadas por suas avaliações. Os valores constituem o elo motivacional do homem para com a realidade.

No entanto, a natureza não proveu o homem com um meio automático de sobrevivência, o homem pode perpetrar ações de curso auto-destrutivo, ou seja, pode alcançar objetivos que sejam deletérios para o seu bem-estar.

Quais são então os objetivos corretos a serem perseguidos pelo homem? Quais são os valores que sua sobrevivência requer? Esta é a questão a ser respondida pela ciência da ética e é por isto que o homem precisa de um código de ética.

Se o homem quer sobreviver ele deve ter conhecimento dos princípios de ação que conduzem à sobrevivência. E além do nível da mera sobrevivência se o homem deseja alcançar a felicidade ele deve ter conhecimento daqueles princípios que conduzem á felicidade. O homem precisa descobrir através de um processo racional os valores necessários para sua sobrevivência e bem-estar.

Portanto, a Ética é uma necessidade objetiva da sobrevivência humana.

No entanto, os homens são diferentes no que diz respeito à sua capacidade moral. Como um ser humano age dependerá de como sua capacidade intuitiva funcionará diante de determinada situação. Conforme nos ensina Steiner “ O bem-estar da humanidade será interpretado por diferentes pessoas de modo diferente ”. (2)

Em duas participações anteriores fornecendo material para debates no nosso curso optei por temas em que diretamente ou indiretamente a ética na ciência era enfocada. Primeiramente e indiretamente quando coloquei para discussões a tese de Vernor Vinge sobre Singularidade Tecnológica (3) e posteriormente já no módulo 2, diretamente, quando apresentei um Einstein como comprovado plagiador.

A ética na ciência deve começar com o cientista e daí se disseminar pelas instituições e corporações. Não se conscientizam empresas e sim os homens e mulheres que a compõe.

Neste ponto é preciso mencionar outro aspecto negativo da natureza humana e que contribui de maneira decisiva para isolar a ética das decisões; Trata-se do corporativismo .

Dentre as características humanas desenvolvidas na vida em grupo ou na sociedade, o corporativismo é um dos aspectos mais destrutivos e mal compreendidos da natureza humana. É um veneno perigoso que se apresenta camuflado com uma face virtuosa. Muitas pessoas ao se referirem ao corporativismo apenas estão considerando a conotação boa ou positiva do aspecto. O "sprit des corps" decantado pelos grupos militares ou mesmo pelas corporações sejam comerciais ou não. Se nos detivermos apenas neste aspecto, não há o que discordar desde que o conceito não signifique a exclusão de todos aqueles que não façam parte do grupo como traduzido na máxima corporativista: Aos amigos tudo, aos inimigos nada aos indiferentes a le i.

Como se vê o corporativismo revestido de virtude é uma jóia rara, extremamente, difícil de ser encontrada separada da iniqüidade ou mesmo do crime por uma linha muito tênue. É, portanto, um veneno (4) que conduz as pessoas a se desviarem dos conceitos morais e éticos no afã de proteger objetivos de corporações e grupos.

O tema ciência & ética é muito vasto e de grande interesse. Se fizermos uma experiência e juntarmos as palavras (science + ethics) em uma pesquisa no Google teremos como resposta mais de 20 milhões de documentos. Por isso mesmo, num trabalho como este não é possível partir para a produção de um tratado sobre ética e sim procurar focar uma abordagem específica. Por isso, escolhi partir dos exemplos de atitudes antiéticas de cientistas para procurar chegar ao âmago desta questão.

No módulo passado a Gincana apresentou-nos vários exemplos de artefatos que foram apresentados, primeiramente, ao mundo através da ficção científica e do cinema. Neste particular destacou-se o filme Guerra nas Estrelas que também nos serve de modelo para apresentar duas metáforas para o futuro potencial da humanidade: Luke Skywalker e seu pai, Darth Vader. O filho enfatiza o caminho no qual um código de ética pautado pela antiviolência é transformado em força que é finalmente usada com o sentido de servir aos demais; o pai enfatiza o caminho da tecnologia aplicada acompanhada de vantagens egoístas visando o poder. Ambos utilizam a tecnologia, mas é o senso de moralidade de cada um que importa mais.

Que tipo de humanidade queremos nos transformar e como afetaremos as gerações futuras? Estas são questões importantes quando se considera os campos de pesquisa científica que nossa civilização deve perseguir.

Começamos então por analisar a atuação de um renomado físico, Edward Teller, considerado o pai da Bomba-H, o Doutor Morte, falecido aos 95 anos, em dezembro de 2003.

Teller foi o grande incentivador da política de armas nucleares dos EUA nas décadas de 50 e 60. Costumava dizer: “ nunca me interessei em ver fotos dos impactos em Hiroxima e Nagasaki. O meu trabalho era construir a bomba, fazer a ciência progredir. O que se fez com as minhas descobertas não me diz respeito (5) .”. Esta atitude totalmente divorciada da ética contrasta, por exemplo, com a de outro cientista russo Andrei Sakharov, morto em 1989, que foi exilado por suas idéias contra bombas e ditadura, que dizia: “ Deixei de ser o acadêmico preocupado apenas com a teoria e a beleza das descobertas científicas e percebi que era meu dever lutar contra essa falsa assepsia da física. (6) ” .

Vemos ai então um caso em que a atitude individual de um cientista influencia toda uma política com efeitos globais para a humanidade. Teller causou inclusive a demissão e destruição política de seu superior, Robert Openheimer, que era contrário às suas idéias. Teller, num ato de retaliação por ter sido anteriormente afastado de suas funções no projeto Manhatan, foi o único cientista de Los Alamos a testemunhar contra Openheimer no vergonhoso processo de "caça as bruxas" que lhe foi instaurado em 1954.

E como nem sempre a ética também é requisito para premiações, Edward Teller, foi condecorado pouco antes de morrer com uma das mais importantes comendas norte-americanas, a Medalha da Liberdade, por ninguém menos do que George W. Bush.

No caso de Teller, certamente, conforme Steiner preconiza, ele tinha uma visão para o bem-estar da humanidade que passava pelo uso de armas nucleares e a existência de conceitos éticos basilares aplicáveis ao caso de nada adiantaram para fazer com que Teller se desviasse de seus objetivos.

Continuando nesta linha de buscar a aplicação da ética a partir dos cientistas, vamos abordar mais diretamente a imensa falta de ética de um dos ícones da ciência, o cientista “pop-star” Albert Einstein.

Em seu famoso trabalho, de 1905, Zur Elektrodynamik bewegter Körper, sobre os princípios da relatividade, E instein não citou uma só referência a trabalhos de Henry Poincaré, Lorentz, James Maxwell que trataram do tema antes dele. Até mesmo a origem da famosa equação E=mc 2 deve ser creditada a outros como o Olinto De Pretto e Tolver Preston. Ver artigo Richard Moody Jr, (7) grande pesquisador sobre Einstein. Mesmo para o início do século, ignorar as referências era extremamente incomum no meio acadêmico.

Cientistas em vários níveis perpetraram a farsa como o astrônomo Arthur Eddington que com o objetivo tácito e, praticamente, declarado de confirmar Einstein fez medições imprecisas do eclipse lunar de 1919 ratificando as predições da teoria da relatividade sobre a deflexão causada pelo Sol dos raios de luz de estrelas distantes. Estas confirmações lançaram Einstein, definitivamente, sob os holofotes da mídia mundial.

Uma pergunta surge: Porque os cientistas e a comunidade científica não discutiram estas acusações de plágio e restabeleceram a verdade e porque o interesse em criar-se um herói ou mito e acabar permitindo a concretização do famoso dito:

" A little ignorance can go a long way. "

Algumas respostas podem estar contidas neste trecho do artigo de Moody, mantido aqui no original:

Science, by its very nature, is insular. In general, chemists read and write about chemistry, biologists read and write about biology, and physicists read and write about physics. But they may all be competing for the same research dollar (in its broadest sense). Thus, if scientists wanted more money for themselves, they might decide to compete unfairly. The way they can do this is convince the funding agencies that they are more important than any other branch of science. If the funding agencies agree, it could spell difficulty for the remaining sciences. One way to get more money is to create a superhero-a superhero like Einstein.

Einstein's standing is the product of the physics community, his followers and the media. Each group benefits enormously by elevating Einstein to icon status. The physics community receives billions in research grants, Einstein's supporters are handsomely rewarded, and media corporations like Time magazine get to sell millions of magazines by placing Einstein on the cover as "Person of the Century".


When the scandal breaks, the physics community, Einstein's supporters and the media will attempt to downplay the negative news and put a positive spin on it. However, their efforts will be shown up when Einstein's paper, "On the Electrodynamics of Moving Bodies", is seen for what it is: the consummate act of plagiarism in the 20th century.


Neste exemplo, parece que toda a comunidade científica contribuiu para manter o “status-quo” que dificilmente será um dia alterado para restabelecer a verdade dos fatos. E todos os cientistas envolvidos são, certamente, conhecedores de valores éticos.

Porque não usaram?

Muitas são as respostas, mas todas de certa forma vão desencadear em uma motivação fundamental. Exatamente aquela que colocamos no princípio deste trabalho e creditada a Steiner: “
O bem-estar da humanidade será interpretado por diferentes pessoas de modo diferente”.

Para concluir vou abordar novamente um tema para o qual tentei despertar o interesse dos colegas nas participações online, mas parece que não consegui.

Vamos voltar à tese da Singularidade Tecnológica.

Segundo o trabalho de Vernor Vinge 3 , publicado pela primeira vez em 1993 e de lá para cá vindo sendo constantemente aperfeiçoado, a humanidade possuirá meios tecnológicos, não antes de 2005 e não depois de 2030, para criar uma inteligência super-humana. Pouco após deste acontecimento, que Vinge denominou Singularidade, a espécie humana como a conhecemos sucumbirá.

Em sua discussão sobre a possibilidade real deste acontecimento e da viabilidade de o evitarmos Vinge afirma que a despeito da ameaça e do medo, se a singularidade tiver condições de acontecer ela irá acontecer e o progresso na sua direção continuará. Ele completa que a vantagem competitiva, militar, econômica e até mesmo artística de cada avanço na automação é tão impelente que as leis que serão votadas e a regras de costumes que proibirem estes artefatos meramente terão como resultado a obtenção dos mesmos por alguém.

Esta é uma discussão complexa e que implica que uma máquina passará no teste de Turing (TT). (8)

Mais uma vez: Steiner: “O bem-estar da humanidade será interpretado por diferentes pessoas de modo diferente”.

Evidentemente, não quero deixar margens à dúvidas quanto ao fato de que embora eu acredite que jamais os preceitos éticos evitarão por si só a construção de artefatos que possam comprometer a existência da humanidade defendo que estas questões devam ser debatidas à exaustão visando converter aquelas pessoas que “ enxergam o bem-estar da humanidade de maneira diferente ” e desta maneira diminuindo ou adiando a probabilidade de prejuízos para a espécie humana.

Ao defender a posição descrita neste trabalho não me considero de forma alguma um pessimista, pelo contrário, professo o humanismo e acredito na capacidade do homem para resolver os enormes problemas da humanidade mesmo aqueles causados pelos seus próprios semelhantes.



Bibliografia

1 Porto, Mario S. P. L; Ética Racional, 2004. Disponível em: http://www.mphp.org/racionalismo/etica-racional.html   Acesso em: 22/04/2005 Voltar
2 Steiner, Rudolf, Filosofia da Liberdade, Editora Antroposófica, 2000, pág.111 Voltar
3 Vernor, Vinge; TECHNOLOGICAL SINGULARITY, January 2003, Disponível em: http://www-rohan.sdsu.edu/faculty/vinge/misc/ Acesso em 22/04/2005 Voltar
4 Porto, Mario S. P. L; O Veneno do Corporativismo, 1998. Disponível em: http://www.mphp.org/problemas-brasileiros/o-veneno-do-corporativismo.html  Acesso em: 22/04/2005 Voltar
5 Revista Pesquisa FAPESP, n° 79, p. 88. Voltar
6 Revista Pesquisa FAPESP, n° 79, p. 88 Voltar
7 Moody Jr, Richard, Albert Einstein: Plagiarist of the Century? Disponível em: Acesso em 22/04/2005 Voltar
Turing Alan, COMPUTING MACHINERY AND INTELLIGENCE, 1950, Disponível em http://www.abelard.org/turpap/turpap.htm Acesso em 22/04/2005 Voltar

Acesse também nesta mesma seção o artigo Singularidade Tecnológica e Nanotecnologia
 
Se você leu até aqui, acesse o
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