Ascensão de Jesus PDF Imprimir E-mail

Tarciso S. Filgueiras

O que teria acontecido com Jesus, após sua morte e ressurreição? Fora do âmbito da explicação teológica, que tudo acolhe sob o manto de chumbo da fé, a resposta a essa pergunta é espinhosa. Adotando-se o ponto de vista dos relatos evangélicos, prima facie, ele deixou a terra e subiu "ao céu". A explicação alternativa, oferecida por certos autores fora do circuito religioso, diz que ele teria imigrado e vivido na Índia, na China e, até nas Américas.

Estas duas correntes de explicações têm algo em comum. Para ambas, Jesus desapareceu de cena, por via aérea (explicação teológica), terrestre (viagem para a Ásia) ou aquática (viagem para a América).

A explicação teológica baseia-se em três relatos bíblicos, apresentados a seguir. O episódio é conhecido como "ascensão de Jesus" e teria ocorrido cerca de 40 dias após sua morte/ressurreição. Ele caracteriza-se pela saída de Jesus do planeta Terra, na presença de testemunhas. O evento é descrito por Marcos (16:19-20), Lucas (24:50-53) e nos Atos dos Apóstolos (At 1:9-11). Nas três narrativas, relata-se que Jesus foi "arrebatado ao céu", "elevado ao céu" e "elevado à vista deles", respectivamente. Nos três casos, subtende-se que uma força (própria ou externa) elevou Jesus aos ares, à vista dos presentes, até que desapareceu por completo. O livro Atos dos Apóstolos fala até numa nuvem, que teria envolvido o corpo em ascensão.

A presença da nuvem é sintomática da introdução da teofania, enraizada na tradição do Velho Testamento (por ex., Ex 13:22, Dn 7:13) e também do Novo (por ex., Lc 9:34-35; Mt 24:, Ap 1:7, etc.). A nuvem anuncia a manifestação da divindade. Este aspecto indica o caráter teológico da narração, em contraste com a possibilidade da narrativa de um evento histórico. Note-se que a nuvem bíblica nada tem a ver com a nuvem grega, dos filósofos clássicos.

A ascensão de Jesus, apesar de bizarra e peculiar, aparentemente, não causou estranheza aos expectadores. Nada que lembrasse a ressurreição. Esta, sim, abalou a comunidade de seguidores de Jesus. A ascensão foi tranqüila. Não causou polêmica, perplexidade, nem mesmo ansiedade. Céu de brigadeiro. É, de fato, curioso que os redatores desses textos não tenham registrado qualquer reação esboçada pelos expectadores/testemunhas do evento. Nos Atos, afirma-se apenas que eles olhavam "atentamente" o céu. Em nenhum lugar se diz que alguém ficou estupefato, maravilhado ou estarrecido com o ocorrido. Era como se aquilo fosse coisa rotineira. Não era. Há um único outro caso de ascensão nos relatos bíblicos. É a historia de Elias que "subiu ao céu no turbilhão". Quando ocorreu, e apesar de um certo número de pessoas já saber, antecipadamente, que o fato era iminente, a comoção foi geral (2Rs 2:1-16). Que diferente a reação das pessoas nestes dois relatos! Isto sugere que a calmaria das testemunhas da ascensão de Jesus é mais um indício de que não se trata de fato histórico, mas, sim, de pura invenção teológica.

As alegações de Kersten de que um homem chamado Yuz Asaf, identificado por ele como o Jesus histórico, teria vivido e, posteriormente, morrido na Caxemira (Índia) tem certo suporte lingüístico e arqueológico, mas essas evidências ainda não foram analisadas com rigor cientifico. Os indícios da passagem de Jesus por outros lugares do planeta são ainda mais tênues e, igualmente, carecem de análise séria, independente. A alegada tumba de Jesus em Caxemira (hipótese de Kerstern) ou nos arredores de Jerusalém (hipótese de Jacobovici & Pellegrino), verdadeira ou não, aponta em direção contrária a uma ascensão corporal para o "céu".

As explicações oferecidas por Thiering são distintas das anteriores. Para a teóloga australiana, Jesus não subiu ao Paraíso. Ele simplesmente foi, fisicamente, elevado ao lugar mais alto do mosteiro de Qumran (chamado de "céu", na linguagem essênia), onde permaneceu, por determinado tempo, como membro graduado da comunidade essênia, à qual ele pertenceria. De lá, teria continuado a "dirigir" o movimento dos apóstolos. De fato, Paulo de Tarso, sintomaticamente, relata vívidos relatos de conversa, estilo "tête-à-tête" que ele manteve com Jesus (cf. Filgueiras, 2006, p.171-172). Essas interpretações, não místicas, podem conter grãos de registro histórico que, juntamente com outras evidências, podem ajudar na melhor compreensão deste enigmático relato do Novo Testamento.

 

Bibliografia

- Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Ed. Paulus, 2002.

- Filgueiras, T.S. Ensaio sobre Jesus: Revelando o homem, Livro Pronto, 2ª ed., 2006.

- Jacobovici, S. & Pellegrino, C. A tumba da família de Jesus. Tradução A.N.Teixeira, Ed. Planeta do Brasil, 2007.

- Kersten, H.Jesus viveu na Índia. Tradução J.V. Santos, Ed. Best Seller, 2005.

- Thiering, B. Jesus the man, Corgi Books, 1978.

- Thiering, B.E. Jesus of the Apocalypse, Corgi Books, 1993

 

 

 

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