Evangelhos Canônicos PDF Imprimir E-mail

  Julio Fontana

1-OS EVANGELHOS CANÔNICOS

         Caros leitores, o assunto que analisaremos a seguir merece toda atenção possível, principalmente, em razão de ter me esmerado em intenso trabalho para produzir para os senhores um tema desvinculado de qualquer dogma. No Brasil, sempre se foi complicado fazer teologia. Primeiro; o estudo sistemático da palavra não é incentivado no meio cristão. Membros de seitas cristãs lêem mais a Bíblia do que os próprios cristãos. Segundo; a maioria dos teólogos brasileiros necessita do púlpito para se manterem financeiramente. Isso cria um limite doutrinário no qual ele possa trabalhar, pois ele não pode nas suas publicações ir contra aquilo que a sua denominação afirma. E assim a teologia brasileira vai se defasando no decurso do tempo.

         Portanto, caros leitores, o que exponho a seguir é inédito dentre os teólogos brasileiros por duas razões: É um trabalho independente, não comporta declaração doutrinária. Segundo: o estudo acerca do "Jesus Histórico" não pode ser realizado com tendências ou "rédeas" eclesiais. Terceiro: uma interpretação existencial moderada de Jesus e do Cristianismo.

         Ratifico ao leitor que o que será estudado a partir deste volume não será encontrado em nenhuma obra de autor nacional. Apresento idéias inovadoras e com isso, de antemão, já possuo ciência das críticas que estão por vir. Todas elas serão bem aceitas, apenas peço aos colegas que fundamentem suas opiniões, isto é, apresentem um estudo detalhado contendo fundamentação em diversas fontes, principalmente (não somente) a Bíblica.

1.1. ORIGEM E CREDIBILIDADE DOS EVANGELHOS

         Em vista da obra ser apoiada em sua maior parte nos evangelhos canônicos, obrigatoriamente, terei que entrar no mérito da credibilidade dos Evangelhos.

         Essa problemática não é moderna. Antes do ano 200[1], no chamado FRAGMENTO DE MURATORI[2], já existe uma distinção entre quatro pontos sobre a origem e utilização dos "escritos sagrados", os quais estavam em circulação na época, testemunhando as dificuldades que deviam ser superadas antes que se chegasse à nossa distinção entre livros canônicos e livros apócrifos do Novo Testamento. Portanto, a discussão acerca da aceitação de alguns textos como corretos e fidedignos já era ativa antes mesmo do ano 200 d C. O leitor deve estar se perguntando: Então, se já havia uma discussão antiga sobre possíveis adulterações, escritos de falsos autores, etc., então como podemos saber se a Bíblia que lemos hoje é exatamente aquilo que escreveram os autores dos livros bíblicos?

         Consideraremos agora quanto à re-escrita desses livros, se foram adulterados com o decorrer do tempo, ou, se devido o número de cópias feitas, sofreram modificações indesejáveis. Ninguém melhor do que o renomado biblista Oscar Cullmann para nos dirimir essa dúvida.

"Não temos documento original do Novo Testamento, mas cópias. Os manuscritos completos mais antigos que possuímos não remontam além do séc IV. Deixando à parte fragmentos mais antigos, cerca de 300 anos, portanto, separam a redação original do texto conservado. Tal espaço de tempo poderia fazer-nos duvidar da autenticidade estrita desses textos. De fato, de cópia em cópia, lograram introduzir-se deformações e impor erros. Contudo, não se deve esquecer que o Novo Testamento, desde que foi reconhecido como Sagrada Escritura, foi recopiado com minuciosidade escrupulosa que inspira o respeito das coisas sagradas. Também é preciso considerar que a distância entre o original e o primeiro texto conservado é, abstraindo de fragmentos, muito menor para os escritos do Novo Testamento do que para os outros escritos da Antiguidade"[3].

         Em face das evidências que Cullmann nos apresentou temos de concordar que o que possuímos em nossas mãos hoje reflete na maior parte aquilo o qual constava nos escritos autógrafos. O meu leitor inquiridor deve estar se questionando: Mas se os escritos que possuímos são fidedignos por que há tanta diferença, no relato acerca de Jesus, entre os evangelhos e as cartas paulinas?

         Em rápida leitura bíblica, percebemos o evidente contraste entre as epístolas do Novo Testamento e os evangelhos[4]. Notamos nas epístolas paulinas[5] que todos os elementos das biografias evangélicas de Jesus de Nazaré estão omitidos nelas, e que Paulo e outros escritores do cristianismo primitivo, nos apresentam apenas uma figura divina e espiritual de Cristo no céu, revelada por Deus através da inspiração e da escritura. Esse Jesus jamais foi identificado com um homem da história recente. Destarte, quando abrimos os evangelhos, estamos despreparados para a figura de carne e sangue que vive e nos fala através de suas páginas, que andou nas areias da Palestina e morreu no Calvário nos dias de Herodes e Pôncio Pilatos. Em suma: A humanidade de Jesus é totalmente desprezada nas epístolas tanto paulinas quanto as católicas. A única epístola que relata alguma coisa a respeito da humanidade de Jesus é a Epístola aos Hebreus, que nem ao menos sabemos o seu autor. Outra observação importante que podemos fazer é que tanto Tiago quanto Judas (irmãos de Jesus) o mencionam sempre de forma divina e distante. O lógico seria que eles, por serem próximos de Jesus, escrevessem a biografia deste.

         Vamos então separar os problemas para então poder entendê-los:

1-Paulo desconhece a vida de Jesus como homem real que viveu na Palestina.

2-Os livros de Tiago e Judas, irmãos de Jesus, não apresentam nada acerca da vida de seu irmão: o que ele fez, como ele era, o que pensava, etc.

3-A epístolas aos Hebreus é aquela que demonstra um pouco mais da humanidade de Jesus.

         Por que isso acontece? Qual explicação pode-se fornecer ao leitor da Bíblia que constata essa característica na primeira leitura? Daremos uma resposta evasiva? Justificaremos afirmando que a Inspiração dada pelo Espírito Santo achou melhor que assim fosse? Não seremos simplistas nesta obra, iremos buscar a verdade dos fatos, aquilo que é chamado no Processo Penal de "verdade real".

         Primeira questão: Não significa que, sendo do desconhecimento de Paulo[6], não se possa existir em comunidades isoladas, como no caso da "crença do nascimento virginal"[7], textos ou tradição oral acerca da vida de Jesus[8]. Entretanto, é muito difícil crer que essa lenda não tenha sido criada pelos judeus-cristão em razão da batalha apologética contra seus compatriotas ou talvez na necessidade de conversão de judeus ao cristianismo. Mais difícil ainda é que tal tradição ou fragmentos de textos existissem antes dos martírios[9] de Paulo e Pedro. Podemos até pensar que a tradição oral, o "Q" e qualquer outra fonte da vida terrena de Jesus tenha somente existido após o ano 70 d.C.

         Segunda questão: Tiago e Judas eram totalmente envolvidos com a Igreja de Jerusalém, altamente influenciada pela "seita dos fariseus". Isso faz com que esses escritores estejam em total consonância com o pensamento judaizante, que não se interessava por uma vida terrena de Jesus. Percebemos, nos evangelhos a dura crítica lançada por Jesus aos fariseus, o relato do julgamento, entre outros fatos que constam no relato da sua vida que não interessava os judaizantes mencionar. Essas epístolas provavelmente foram escritas antes da destruição do templo[10]. Essa é uma explicação, talvez forçada demais, seria mais facilmente explicado que essas cartas nem ao menos foram escritas pelos irmãos de Jesus e sim por alguma escola cristã da Palestina. Tiago parece mais uma adaptação da sabedoria judaica do que um texto cristão. Vejo que destoa totalmente da teologia da justificação pela fé de Paulo e indo totalmente contra os princípios de Jesus, onde o ser humano também era justificado pelas obras. Se assim fosse os judeus também estariam salvos. É nítida a influência da "seita dos fariseus". Judas e Tiago podem realmente ser textos muito tardios, contudo, é evidente a imitação que fazem do estilo literário da época.

         Terceira questão: O livro de Hebreus foi escrito por volta do ano 70 d.C[11]., logo após as cartas paulinas serem escritas. Podemos notar no texto uma transição[12] da Teologia Paulina a Evangelística. Como assim? Podemos acreditar que esse texto é a primeira tentativa de se confeccionar um Evangelho. Por que?

A)O autor desse texto não indica a autoria, como o faz os evangelhos.

B)A data de sua escrita (por volta do ano 70 d.C.)[13] nos mostra uma tendência à questão histórica de Jesus. Podemos perceber isso na confecção do livro de Marcos na mesma época.

C)O texto da "epístola aos Hebreus" apresenta muitas citações do Antigo Testamento, foi escrito como o próprio título do livro diz "aos Hebreus".

D)Esse livro traz as primeiras noções que podem nos levar a sentir que realmente Jesus viveu como um homem, na Palestina, sob um período de tempo, modificando os que entraram em contato com ele, nesse determinado período histórico. Não se torna um Evangelho, propriamente dito, em razão de possuir ainda como característica principal, a apresentação de Jesus como um ser divino, espiritual e distante. Contemplemos as passagens desse livro:

"Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com relação a Deus, e fazer expiação pelos pecados do povo" (Hb 2.17).

"Pois não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado" (Hb 4.15).

"Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alata voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão" (Hb 5.7).

"Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso, enfrentar o juízo, assim também Cristo, foi oferecido uem sacrifício uma única vez para tirar o pecado de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer a salvação aos que o aguardam" (Hb 9.27,28).

A epístola aos Hebreus traz "pistas" acerca da humanidade de Jesus, contudo, apresenta com mais transparência que as epístolas paulinas. Seria na verdade, um texto de transição entre o modo literário epistolar para o modo evangelístico.

         Historiadores estão cada vez mais próximos de compreender como e quando os evangelhos[14] foram escritos. Os nomes, Mateus e João[15] são aceitos como descrições posteriores; os autores reais são desconhecidos (exceto Lucas e talvez Marcos). O que "Marcos" escreveu primeiro foi seguido de "Mateus" e "Lucas", com mais material adicionado (abordaremos cada evangelho separadamente nos itens a seguir)[16].

         A precoce escrita de Marcos traz alguns problemas. Esses problemas são mais enfatizados pelo fato de existir concordância em palavras entre Lucas e Mateus, mas diferenças nas passagens similares contidas em Marcos. Esses problemas foram solucionados por outra descoberta: cada um dos evangelhos canônicos é o resultado de uma história inicial de escrita e re-escrita, incluindo adições e exclusões. Na verdade, Mateus e Lucas, eram escritores independentes e provavelmente desconheciam um ao outro, e usaram uma edição (ou mesmo edições) primitiva de Marcos.

         Há muito se foi à visão antiga e piedosa de que os quatro evangelhos eram relatos independentes e corroborativos. Em seu lugar, suas fortes similaridades são o resultado de cópia. Isso significa que para a base da história da vida de Jesus e sua morte são dependentes de uma única fonte: quem quer que tenha produzido a primeira versão de Marcos. Naturalmente, essas fontes podem ser inúmeras: missionários cristãos, supostamente guiados pelos doze apóstolos, disseminados pelo Império; transmissões orais que mantiveram viva e constantemente revitalizadas as histórias das palavras de Jesus e seus feitos e versões escritas dessa história devem ter surgido em vários centros, verdadeiramente independente e notavelmente divergentes.

1.2. QUANDO FORAM ESCRITOS OS EVANGELHOS?
1.2.1. AS CONSIDERAÇÕES A SEREM FEITAS PARA UMA DATAÇÃO APROXIMADA DOS EVANGELHOS.

         O renomado arqueólogo Willian F. Albright observou o seguinte:

"Em minha opinião, cada livro do Novo Testamento foi escrito por um judeu batizado entre os anos quarenta e oitenta do primeiro século A D.".

         Quando os evangelhos, ou suas primeiras versões foram escritos?

         As datas atribuídas a Mateus e Lucas (e mesmo João), são influenciadas pela figura que eles apresentam da "divisão de caminhos" entre o cristianismo e a cultura judaica estabelecida (estudaremos o distanciamento dos escritos da influência judaica, posteriormente) ou a melhor datação se dá em vosta da necessidade apologética de cada época do cristianismo. Analisaremos no momento, a segunda por se tratar de teoria mais fundamentada nos textos bíblicos. O meu leitor deve estar querendo saber afinal quando os três evangelhos foram confeccionados. Partirei primeiro da questão do silêncio dos pais apostólicos quanto a estes evangelhos. Segundo; iremos analisar a datação correta de cada evangelho de acordo com a necessidade apologética. Terceiro, iremos analisar a partir do texto bíblico o porquê da omissão dos apóstolos em escrever uma biografia do seu mestre.

1.2.2. A QUESTÃO DO SILÊNCIO DOS PAIS APOSTÓLICOS.

         Quando os evangelhos começaram a surgir nos escritos cristãos, grandemente documentados? Se Marcos foi escrito por volta de 70, e todos os quatros estavam escritos por volta de 100, porque nenhum dos primeiros padres - Clemente de Roma, Inácio, Policarpo, o autor da Epístola de Barnabás - que escreveram entre 90 e 130, citaram ou se referiram a qualquer um dos evangelhos? Como pode Inácio (por volta de 107), que se esforçou tanto para convencer seus leitores de que Jesus realmente nasceu de Maria e morreu sob Pilatos, de que ele havia sido um verdadeiro homem que sofreu, como ele não pode apelar a algumas passagens dos evangelhos como verificações de tudo isso, se ele realmente conhecesse algum evangelho[17]?

         Como vimos acima, somente o evangelho de Marcos e os textos Q poderiam existir por volta do ano 70 d.C., entretanto, estes não eram centralizados, os pensamentos eram diversos e principalmente; eles não circulavam dentre os cristãos. Eles estavam limitados ao uso nas comunidades de origem. Podemos notar isso analisando o objetivo pelo qual foram escritos esses evangelhos. Contemplemos a concisa explicação do reconhecido do Dr, Charles C. Ryrie:

"A rápida expansão do cristianismo acelerou a necessidade de registros escritos da vida de Cristo. Além disso, à medida que as principais testemunhas e personagens da história de Cristo começaram a morrer, aumentou a necessidade de registros do que eles haviam visto, ouvido e experimentado. Estes evangelhos escritos eram para evangelizar, catequizar novos convertidos e, provavelmente, faziam parte do culto cristão primitivo"[18].

         À época da pregação de Paulo, absolutamente, seria um erro afirmar em uma escrita dos Evangelhos. Portanto, nos resta verificar após o martírio de Paulo e Pedro, quando se iniciou a elaboração destes textos. A ordem cronológica dos livros do Novo Testamento, na Bíblia a qual utilizamos no dia-a-dia é quase que inversa a disposição real delas no tempo. As epístolas de Paulo[19] foram as primeiras a serem escritas. Logo depois se tem a elaboração da Primeira Carta de Pedro, em seguida Tiago. No final dessa fase encontram-se as epístolas joaninas, de Judas e o apocalipse[20] Essa fase eu denomino fase inicial do cristianismo (do pentecostes até a destruição do templo).  Percebemos, nessa fase, facilmente o desinteresse da comunidade primitiva na escrita de uma biografia de Jesus. A preocupação era a evangelização e expansão do nascituro cristianismo. Assim como Paulo, a maioria dos pais apostólicos também tratou Jesus como ser unicamente divino, sendo então colocado em segundo plano o Jesus da História, o Jesus humano, não interessando, portanto, os escritos dos evangelísticos. A estrutura literária era a epistolar e sua autoria era especificada pelo próprio documento. Portanto tem razão Bultmann em desconsiderar o estudo acerca do Jesus histórico em uma Teologia do Novo Testamento, esse assunto não era o escopo do Cristianismo, e sim, é agora dos historiadores[21]. Após a fase inicial, com a perda sofrida pelos cristãos, devido à morte de Paulo e Pedro, logo verificou-se a importância de se fazer um relato apologético do cristianismo - tem-se também a influência negativa dos docetistas[22]. A primeira tentativa de se estabelecer um texto que destacasse a humanidade de Jesus, sem contanto desprezar sua divindade foi verificado na Epístola aos Hebreus. Por que posso afirmar isso?

  • 1) Essa epístola é diferente das demais: não possui o nome do autor destacado no texto (pode ter sido por uma escola);
  • 2) Destaca-se muito pouco a humanidade, entretanto o faz mais do que as demais epístolas;
  • 3) Utiliza-se da estrutura literária até então predominante na época (epistolar);
  • 4) Não faz comentário a destruição do templo (o que nos faz afirmar ter sido escrita antes dos evangelhos).

         Somente após a escrita de Hebreus e posterior vista de necessidade de um trabalho mais abrangente e que se deu a escrita de Marcos.

1.2.3. A ESCRITA DO EVANGELHO DE MARCOS, MATEUS, LUCAS E ATOS DOS APÓSTOLOS.

         Há fortes argumentos para a hipótese de uma prioridade cronológica de Marcos. Contemplemos as justificativas para tal pensamento:

1-Todo o material de Marcos se acha nos outros dois sinóticos, ou em pelo menos um deles;

2-A ordem dos acontecimentos relatados por Marcos normalmente é seguida pelos outros;

3-O estilo rude e desajeitado de Marcos em relação aos demais evangelhos;

4-Em Marcos encontramos uma teologia mais primitiva do que as dos demais.

         Marcos é usualmente datado pelo seu "pequeno apocalipse" no capítulo 13, que nos fala de grandes revoltas e da destruição do Templo, dito como uma profecia por Jesus. Isto tem de ser uma referência, segundo é clamado, a Primeira Guerra Judaica (66-70); assim, Marcos teria escrito nessa época, ou pouco mais tarde. Mas mesmo Marcos, presumivelmente, teve de procurar por fontes de informações, e alguns pensam que seu Pequeno Apocalipse pode ser originalmente uma composição judaica (sem referências a Jesus), que Marcos posteriormente se apossou e adaptou. Ou, se o capítulo 13 é de autoria de Marcos, pode muito bem ter sido desenvolvido em um período posterior, já que outros documentos mostram que essa vívida expectativa apocalíptica persistiu até o fim do século. Portanto, este evangelho já possui a data aproximada de sua confecção: que foi por volta do ano 70 d C. Em vista deste "evolução" textual dos evangelhos: Hebreus; Marcos e Mateus que constatamos que o volume de informações, os dados e a própria teologia justificam as características de cada Evangelho. Mas, voltando a questão do silêncio dos pais apostólicos quanto aos Evangelhos, já verificamos que Marcos deve ter sido escrito em meados da  década de 70 d.C., enquanto Mateus deve ter sido escrito somente na década de 80 d.C. Mesmo assim ainda continuamos com o problema do silêncio dos pais da Igreja. Partiremos para a análise de outra questão fundamental para explicar tudo isso.

         Outra questão é o fato do isolamento doutrinal que algumas comunidades se fechavam. Até as cartas paulinas apenas foram divulgadas e se tornado acessíveis algumas décadas depois. Em vista disso, deve ter acontecido o mesmo com os Evangelhos. Alguns pais não devem ter entrado em contato com esses textos que não estavam em circulação no mundo gentio até aquele momento. Como nos mostra Paulo, em sua Carta aos Coríntios, cada comunidade queria possuir sua própria doutrina, todos se achavam por demais sábios e ultra-espirituais[23]. E por isso demoravam a aceitar um a doutrina estranha e também a ceder uma nova doutrina as demais comunidades. Bornkamm afirma que cada evangelho mostra claramente que foram influenciados por cada comunidade e tradição que vieram, isto é, do seu Sitz im Leben (ambiente criativo). Pode-se acreditar também que estes permaneceram em suas comunidades um bom tempo até começarem a circular no mundo cristão. Isso deve ter apenas acontecido após o ano 100 d.C.

         Em vista do que foi exposto acima, possuímos agora uma explicação plausível quanto a não citação por parte dos pais apostólicos dos evangelhos, exceto o de Marcos[24] (como já sabemos foi escrito por volta do ano 70 d C.) Eles não citaram pela razão de não terem ainda entrado em contato com estes escritos que como apoiamos nesse estudo foram confeccionados por volta do ano 90 d C. e, portanto entrado em circulação somente nas décadas seguintes[25]. Como veremos agora alguns entraram em contato com os evangelhos, mostrando que a aquisição desses textos diferia de lugar para lugar.

         Eusébio reporta que em sua agora perdida obra escrita por volta de 130, o bispo Papias mencionava duas peças escritas por "Mateus" e "Marcos". Mas mesmo esses não podem ser atribuídos aos evangelistas canônicos, já que Papias os denominou de "divulgadores do Senhor em hebraico", e a carta também soa como se não fossem trabalhos narrativos. Mais do que isso parece que Papias jamais havia visto por si mesmo tais documentos.

         Apenas em o Martírio de Justo, escrito por volta de 150, encontramos as primeiras citações identificáveis de alguns dos evangelhos, embora o autor do Martírio, os chame simplesmente de "memórias dos apóstolos", sem qualquer "alusão" primitiva a materiais como os evangelhos. É concebível que os primeiros registros da vida e morte de Jesus poderiam ter sido escritos tão cedo como por volta de 70 (ou mesmo alguma data mais antiga), e mesmo assim o mundo cristão tomou quase um século para receber suas cópias?

         Se, por outro lado, a "biografia" de Jesus de Nazaré foi algo incomum, que foi contra grande parte do conhecimento e da fé da época, podemos entender como nas versões mais antigas dos evangelhos, escritas por volta da virada do século, teriam tido apenas um uso limitado e isolado em recriações por ao menos uma geração. Também começa a parecer que Marcos, Lucas e Mateus vieram originalmente de um grupo dessas comunidades interligadas.

         Como para os Atos[26], escritos pelo mesmo autor que escreveu a versão final de Lucas, não há referências a isso antes do ano 170 - mais de um século após a data que era atribuída aos evangelhos! Eles são claramente desconhecidos mesmo para Justo. Alguns, como John Knox, vêem os Atos como uma resposta da igreja de Roma aos gnósticos da metade do segundo século, como Marcion e sua visão das coisas. O autor dos Atos compilou peças-chaves da tradição sobre a primitiva igreja palestina, mas esses fatos tiveram de ser alterados para encaixarem em uma nova linha de acontecimentos. Existem grandes discrepâncias entre Atos e o que Paulo diz em suas cartas. Historiadores foram forçados a admitir que muito dos Atos foram apenas fabricações imaginosas. Com esses descréditos, a verdadeira origem do cristianismo cai em uma penetrante sombra.

         Por que apenas um escritor, e ainda no segundo século apenas, decidiu compor a história da origem e desenvolvimento da igreja primitiva? Nenhum outro escritor menciona Pentecostes, a visitação coletiva de Espírito aos apóstolos que, de acordo com os Atos, iniciou todo o movimento missionário. Mas, se ao invés, esse movimento foi dividido e dispersado em diferentes tipos, pouco coordenados e competitivos (como as cartas de Paulo sugerem), expressando uma grande variedade de doutrinas de acordo com o tipo de revelação religiosa de seu tempo, é fácil compreender como um grupo, procurando impor a unidade perdida e dando a si mesmo autoridade, poderia criar seu próprio e único retrato do início do cristianismo.

         Essa é uma questão que merece um estudo amplamente detalhado que não pode por mim ser feito agora, entretanto, ficamos com uma resposta pragmática: Lucas[27] escreveu o evangelho por volta do ano 100, mas não escreveu juntamente com Atos (pode também não ter terminado de escrever Atos e outro escritor ter dado término ao seu livro) e sim o enviou a Teófilo separadamente muitos anos após. Teófilo poderia ter juntado essas dois relatos posteriormente.

         Concluindo ficamos com as datas da confecção dos evangelhos por volta do ano 90 e não antes como estudiosos conservadores afirmam e querem acreditar.

1.2.4. POR QUE OS APÓSTOLOS NÃO ESCREVERAM SOBRE A VIDA DE JESUS?

         Os Evangelhos podem ter sido escritos tardiamente (por volta do ano 100 d.C.), entretanto, os escritos que serviram como base para a confecção dos Evangelhos foram confeccionados logo após a ressurreição de Jesus (a partir do ano 30 d C.).

         Apenas após o Jesus lhes "abrir o entendimento" é que se pode dizer de consciência comum no nascente cristianismo. Como assim? Contemplemos o texto bíblico:

"A seguir Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco, que importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as escrituras (Lc 24.44,45)"

         Percebemos que só a partir desse momento que os seguidores de Jesus teriam condições intelectuais de confeccionarem os Evangelhos. Isso não quer dizer que logo que Jesus lhes "abriu o entendimento", eles já começaram a escrever os Evangelhos! Não pode não ter sido assim. Os apóstolos estavam preocupados principalmente com a difusão do evangelho e só depois, vista a necessidade, é que se pensou no registro dos atos e pensamentos de Cristo (esses pensamentos, falas e atos de Jesus estavam sendo transmitidos oralmente, de uma forma bem primária). E quando foram escritos relataram tudo que Jesus viveu? Não. Novamente retornamos ao texto bíblico:

"Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creias que Jesus é o Cristo, O filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em meu nome (Jo 20.30,31)".

         A Bíblia responde a todas as perguntas que os céticos fazem, retira todas as dúvidas que pairam na mente dos cristãos! É realmente um livro escrito com a supervisão de Deus, vocês não acham? Atentem para o texto bíblico. Não foram registrados todos os atos de Jesus no livro de João. Que isso quer dizer? Existiam mais informações, dados, e atos que Jesus realizara[28]. Havia certamente várias abordagens de diversos ângulos das mais diferentes comunidades cristãs existem à época (como podemos ver no pentecostes). Cada uma enfatizou de uma forma diferente aquilo que cria ser importante na vida e obra de Cristo. Assim que surgiram todos os textos primitivos (ex: o "Q"). No processo de elaboração dos evangelhos cada qual consultou os escritos conforme suas convicções e o fizeram com o fim de padronizar todos os pensamentos em circulação na época, para deste modo protegerem a sã doutrina (aspecto preocupante no início do cristianismo). Será por isso que os quatro Evangelhos são tão diferentes? Absolutamente, os Evangelhos tratam de assuntos diferentes, de forma diferente, e discordam em alguns pontos, pois, são fruto de um trabalho de indivíduos, os quais eram separados "doutrinariamente", pertenciam a comunidades cristãs diferentes, em vista disso, eles não conseguiram conciliar todas as informações (que por sinal eram muitas), vejam novamente o texto bíblico:

"Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos (Jo 21.25)"

1.2.5. A FALTA DE IMPORTÂNCIA DE UMA DATAÇÃO EXATA DOS EVANGELHOS.

         Após toda explanação acima surgi uma pergunta: Se não temos certeza da data da escrita dos evangelhos, então não podemos apoiar neles o estudo histórico de Jesus? A fé cristã, definitivamente, não necessita da historicidade dos evangelhos. Quanto à busca do "Jesus Histórico" podemos utilizar os evangelhos pelo fato de serem baseados nas fontes primárias e na transmissão oral, que mesmo com algumas deturpações e exageros, apresentam um bom grau de credibilidade. Como temos uma data aproximada (por volta do ano 100 d C.) já possuímos condições de determinar o contexto no qual está inserido cada evangelho.


 


[1] O fragmento de Muratori foi o marco inicial da busca da Igreja em distinguir quais livros seriam utilizados pela Igreja. Contudo, Marcião, conhecido pelo seu radicalismo separatista, foi o primeiro a distinguir livros que até então circulavam, acerca do cristianismo. Ele reconheceu apenas as obras gentílicas: o corpus Paulino e o evangelho de Lucas como àqueles livres de adulterações e influências judaicas.

[2] Trata-se de um texto latino, extremamente incorreto e muitas vezes de interpretação difícil, descoberto na Biblioteca Ambrosiana por Ludovico Antônio Muratori em 1740.

[3] Formação do Novo Testamento, Oscar Cullmann, Editora Sinodal, 8ª edição, 2003. Leitura recomendada para aqueles que almejam ter uma primeira visão da problemática do Novo Testamento.

[4] Bornkamm nos esclarece quanto essa acentuada diferença: É verdade que a mensagem fala de uma história particular e não de um evento intemporal e mítico. Paulo pode resumir o evangelho todo em sua frase lapidar: "a palavra cruz" (1 Co 1.18ss). Mas não há nenhum índice de que Paulo tivesse algum lugar especial no seu evangelho para a vida terrena de Jesus antes de sua morte e ressurreição. Não existe nenhuma menção do que contam os Evangelhos, nenhuma palavra sobre a pregação de Jesus ou a aproximação do reino de Deus, nada sobre Jesus expulsando demônios, curando doentes, debatendo com escribas e fariseus ou fazendo comunhão de vida com cobradores de impostos, pecadores e marginalizados. Paulo também nunca menciona as palavras de Jesus ou a oração do Senhor (Bíblia Novo Testamento, Editora Teológica, 3ª edição, 2003, 29,30pp.).

[5] Goppelt afirma que para Paulo a ação terrena de Jesus não teria tido a mínima importância.

[6] "Os autores dos outros escritos do Novo Testamento podiam ter como óbvio que os seus ouvintes e leitores estava familiarizado com a história de Jesus terreno, de tal modo que não havia necessidade que a ele se referissem com muitas palavras (Bíblia do Novo Testamento, Günther Bornkamm, Editora Teológica, 3ª edição, 2003, 32pp.)". Bornkamm não é adepto deste pensamento, somente o cita em sua obra.

[7] Bultmann afirma que o fato de Paulo não conhecer a "lenda do Nascimento Virginal" de Jesus, não prova que ela não estivesse difundida já antes dele em outros círculos (Teologia do Novo Testamento, Rudolf Bultmann, Editora Teológica, 2004, p.181).

[8] A dificuldade em se apresentar um relato detalhado sobre a vida de Jesus, como nos informa Bornkamm, sucumbe pelo fato dos cristãos das origens não demonstrarem interesse pela "mera seqüência de fatos históricos nem por descrições dos fatos do próprio Jesus". O interesse deles quando relacionado a Jesus e sua história era somente no caráter salvífico (relato da paixão).

[9] A explicação mais plausível para uma não citação de Paulo em suas epístolas da vida terrena de Jesus se concretiza no fato de que o objetivo dos escritos paulinos era catequizar (doutrinar) os cristãos, enquanto os evangelhos procuravam evangelizar (fazer cristãos). Diante disso, nota-se a diferença entre ambos estilos literários e a desconsideração de Paulo da questão histórica de Jesus.

[10] A questão da epístola de Tiago e Judas nos mostra que ambos podem até possuir conhecimento da vida terrena de Jesus, contudo, não expressam em seus escritos. Talvez omitiram esse aspecto da vida do irmão em razão de, na época, não encontrarem muitos olhos atentos a esse tipo de texto.

[11] Como podemos perceber na Introdução a Epístola aos Hebreus da Bíblia de Estudo NVI (São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 2091).

[12] Bornkamm afirma que a epístola aos Hebreus não é uma carta. Corrobora nossa opinião que a "Epístola aos Hebreus" não era carta e nem Evangelho. O que era então? Bornkamm diz que ela mais se parece com um tratado doutrinal na forma de sermão. Eu chamo isso de literatura de transição.

[13] Esse texto foi escrito antes da destruição do templo, enquanto Marcos foi escrito após. Hebreus nada afirma sobre esse acontecimento histórico, enquanto Marcos o retrata, no capítulo 13.

[14] O termo grego euaggélion, que se traduz por "evangelho", provém do grego profano. Significava, por exemplo, em Homero e Plutarco, a recompensa dada ao mensageiro por sua mensagem; ou, no plural, as ofertas de ações de graça aos deuses por uma boa nova. Por extensão, veio a designar, em Aristófano, por exemplo, a mensagem propriamente dita e, depois, o conteúdo da mensagem, a boa nova anunciada. Entre os cristãos primitivos, o euaggélion é primeiramente a boa nova da salvação realizada em Jesus Cristo, tal qual é anunciada oralmente pelos apóstolos. Somente mais tarde, o termo se aplica à forma escrita dessa boa nova apostólica. Enfim, chega a designar (por volta de 150 a C.) aqueles escritos do Novo testamento que contam mais precisamente a vida terrena de Jesus Cristo (A Formação do Novo Testamento, Oscar Cullmann, Editora Sinodal, 8ª edição, 2003, p. 15,16).

[15] Cullmann crê que o evangelho de João tenha sido escrito por Lázaro. No item 1.6 iremos abordar o assunto. Já antecipo que a teoria é fantasiosa demais e que defendemos uma data tardia para a escrita desse Evangelho.

[16] Goppelt sabe que nem todos os escritos do Novo Testamento foram formulados por apóstolos (Martin Dreher).

[17] Inácio também não citou Flávio Josefo o que nos leva a concordar em uma posterior adulteração do texto original da obra de Josefo.

[18] Bíblia Anotada, Charles C. Ryrie, Editora Mundo Cristão, 1994, p. 1179.

[19] As que são realmente de Paulo.

[20] Que foi realmente escrito pelo apóstolo João. As epístolas joaninas foram elaboradas pela mesma escola que confeccionou o Evangelho segundo João.

[21] Parece que os Evangelhos foram escritos todos a partir da destruição do templo e que a primeira tentativa de escrever uma obra com o objetivo de firmar a real existência de Jesus (contra a heresia docetista) foi a Epístola aos Hebreus. Esta epístola pode ser uma espécie de transição do Cristo Divino para o Jesus de "carne e osso".

[22] Os docetas foram os maiores responsáveis pela pressão imposta aos cristãos de uma comprovação da real existência de Jesus como homem natural, que nasceu, viveu e morreu como ser humano à época de Pôncio Pilatos. Outras heresias também influenciaram nos Evangelhos.

[23] Günther Bornkamm concorda com a opinião de que cada comunidade tenha incorporado suas próprias experiências, questões e visões na tradição (Bíblia Novo Testamento, Editora Teológica, 2003, p. 51).

[24] A não citação do evangelho de Marcos pelos pais apostólicos é de difícil solução, pode, absolutamente, nos mostrar que esse texto também fora escrito tardiamente, após o ano 100 d. C. Essa NÃO é a minha opinião que como já mostrei creio na data aproximada ao ano 70 d. C. Quanto à datação mais precisa dos Evangelhos, será minuciosamente estudada a seguir, no item relativo ao estudo de cada Evangelho de per si.

[25] A única certeza que possuímos é que os textos já eram correntes antes do ano 150 d C. Pois, há no FRAGMENTO DE MURATORI (já visto anteriormente) citação dos evangelhos de Lucas e João. Sendo Marcos reconhecidamente escrito antes do ano 70, constatamos agora que, os evangelhos tanto pelo relato desse Fragmento (Muratori) como o relado de Justino, eles já estavam em circulação antes do ano 150 d C. Existe outra evidência forte da data de confecção destes evangelhos (Lucas e João). É o fato de ter sido descoberto o PAPIRO DE RYLANDS (no Egito), contendo alguns versículos de João 18. Este Papiro é datado por volta de 135 d C. Sendo assim, este evangelho estava em circulação já na data deste Papiro.

[26] Solucionamos também o problema de Atos datando Lucas após o ano 100 d.C. e também por admitirmos que existiu um intervalo de tempo na confecção dos dois livros. Atos pode ter sido escrito por volta do ano 150 d.C. Contudo, para isso teríamos que admitir uma segunda autoria, ou seja, uma continuação pos mortum.

[27] Lucas na minha opinião foi o último evangelho a ser escrito, absolutamente, após o ano 100 d C.

[28] Notamos esse fato no prefácio do Evangelho de Lucas: "Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram (Lc 1.1)".

Trackback(0)
Comentarios (2)add
controvérsias
escrito por Rodrigo Souza , 13 fevereiro 2010
Eu fico intrigado com essa questão, o problema é conseguir manter-se tanto longe das perspectivas da crítica das fontes mais extremistas quanto do fundamentalismo maluco.

P. ex., eu vejo muitas bases para hoje a maioria dos pesquisadores datarem os evangelhos entre 70 e 95. Mas não consigo me conformar, na verdade, conceber, que Atos tenha sido escrito depois da morte de Paulo e da guerra dos judeus, e não ter alusão alguma a isto. Nesse caso, só posso imaginar que Lucas fosse escrito perto de 67. E assim, Marcos retrocederia. Mateus é um caso à parte...eu tenho uma suspeita enorme de que esse evangelho não é a versão original, mas uma transposição grega de um original feita na década de 70. Mas apenas uma forte suspeita.

J.P.Méier reflete sobre Jesus evocando a imagem do "fenômeno do judeu excepcional", como Freud, Eistein, com uma inteligência avantajada e superior à sua formação. Assim, influenciado pela sua perspectiva apocalítica, seu imaginário messiânico e sua visão do rumo dos acontecimentos, sim, pode ter pregado sobre a destruição do Templo (eu tenho por mim que historicamente falou sim). E a metáfora da galinha definitivamente não é uma imagem lucana.

Tem também o famoso Papiro Magdalen, que contém pequenos trechos de Mateus e com boa probabilidade data de perto da metade do século I. E se o trecho 7Q5 de Qumran for realmente de Marcos (onde está a controvérsia), a datação é da década de 40.
Claro, ainda que se confirme isso, ficaria a disputa se em tais datas existiam os evangelhos completos.
report abuse
vote down
vote up
Votes: +0
...
escrito por Rodrigo Souza , 13 fevereiro 2010
bliblista Ben Witheringhton III, no livro "John's Wisdom: A Commentary on the Fourth Gospel", de 1995, também defende que o 4º evangelho fora escrito por Lázaro. Eu fico mais com aqueles que apostam na tradição do "João, o Ancião", como Martin Hengel e Richard Bauckham.
Aliás,este último tem levantado sérias problematizações com as perspectivas de que os evangelhos eram frutos de indisiocrasias das comunidades, escritas por elas e circunscritas a elas. Na obra que ele organizou, "The Gospels for All Christians: Rethinking the Gospel Audiences", permanecem questões em aberto, nem tudo é demonstrado cabalmente, mas posso dizer que o mínimo que decorre dela é que os evangelhos foram escritos tendo uma perspectiva de audiência que sem dúvida ultrapassava as comunidades, provavelmente círculos concêntricos delas para as demais igrejas e destas para a evangelização. Claro que daí decorre outras implicações em outras questões. Mas já é motivo suficiente para deixar de usar a expressão "evangelho da comunidade de..."
report abuse
vote down
vote up
Votes: +0
Escreva seu Comentario
quote
bold
italicize
underline
strike
url
image
quote
quote
smile
wink
laugh
grin
angry
sad
shocked
cool
tongue
kiss
cry
smaller | bigger

security image
Escreva os caracteres mostrados


busy
 
< Anterior   Seguinte >

Recomendar a MPHP

Fala para um amigo Seu nome:

Seu e-mail:

E-mail do seu amigo: