Tarciso S. Filgueiras
José de Arimatéia é uma daquelas personagens enigmáticas e contraditórias do Novo Testamento. Ele conversou com interlocutores, executou diversas ações significativas, porém não há registro de uma única palavra que tenha proferido. No entanto, sobre ele são ditas muitas coisas. Afinal, quem era esse homem?
Sabe-se que seu nome era José, provinha de um lugar chamado Arimatéia, "cidade dos judeus", era simpatizante do movimento liderado por Jesus, mas não queria que este fato se tornasse público, "por medo dos judeus" (Jo 19:38). Sabemos, sobretudo, que era "ilustre membro do Conselho"(Mc 15: 43), "um homem rico" (Mt 27: 57) e, sem dúvida, "bom e justo" (Lc 23:50). Pelo menos duas destas credenciais o qualificam para membro do partido dos Saduceus que dominava, numericamente, o Sinédrio. Como membro desse aristocrático partido, deveria ser também proprietário de terras e, pertencer àqueles 15 por cento mais ricos da população. Abastado, com prestígio dentro da comunidade judaica e junto ao establishment romano, José gozava de posição social, econômica e política bem acima da média. Um homem de prestígio. Por isso, certos relatos sobre ele não são facilmente explicáveis.
Naquela fatídica Sexta-feira em que Jesus foi crucificado, quando já caía a tarde, José procurou Pilatus e fez-lhe um estranho pedido. O evangelista diz que ele adentrou o palácio ousadamente e, chegando onde o governador estava, "pediu-lhe o corpo de Jesus" (Mc 15: 43). Assim, ex abrupto. José entrou no palácio com a desenvoltura de quem está habituado ao poder, como quem sabe onde pisa. Aqui aparecem várias contradições que merecem certo escrutínio.
Já que ele era discípulo "secreto"de Jesus, como se atreveu a pedir o corpo do Mestre ao seu próprio algoz? Isto seria o mesmo que se declarar aliado do crucificado, simpatizante daquele que estava sendo punido por crime de sedição contra Roma! No entanto, Pilatus não achou esse pedido estranho, nada questionou. Informado de que o crucificado já estava morto, aquiesceu ao pedido. José chegou, pediu, ganhou, levou. Tudo muito rápido, expedito, clean. Por que Pilatus concordou tão rapidamente? Teria José subornado o facilmente subornável Pilatus? Certamente esta é uma possibilidade. A cultura do suborno é antiga e já foi comentada por mim neste mesmo contexto, neste Portal.
Causa também certa estranheza ver um membro do Sanhedrin, a mais alta instância religiosa em Israel, entrar em contato direto com um gentio, na véspera do Sábado! Contatos com estrangeiros tornavam o judeu ortodoxo impuro e José deveria estar puro para poder celebrar o Shabat no dia seguinte. Convém recordar aqui um fato muito esclarecedor, ocorrido pouco antes da crucificação de Jesus. Certos dignitários judeus, entre eles membros do Sinédrio, apesar de precisarem conversar com Pilatus, recusaram-se a entrar no Pretório, onde este se achava. O imbróglio chegou a tal ponto que Pilatus teve que ceder e sair do prédio e ir "ao encontro deles" (Jo18:28-29). Isto ocorreu porque esses homens não queriam se contaminar para poder comer a Páscoa, que se aproximava. Tendo esse fato em mente, é forçoso admitir que, ao entrar destemidamente no palácio de Pilatus, Arimatéia foi mais que ousado. Foi temerário e transgressor dos costumes de seus pares e de seus ancestrais. Algo muito sério motivara essa quebra de paradigma.
Obtida a permissão de Pilatus, o texto de Marcos ganha novo alento. O evangelista dispara numa narrativa apressada, quase aos galopes. Segundo ele (Mc 15: 46), José comprou "um lençol, desceu Jesus, enrolou-o no lençol e o pôs num túmulo que fora talhado na rocha. Em seguida, rolou uma pedra, fechando a entrada do túmulo". Marcos parece ter pressa, por isso, talvez tenha condensado, em demasia, ações tão distintas quanto complexas. Vamos desacelerar um pouco, para examinar algumas delas mais de perto.
A descida da cruz já foi comentada por mim, aqui neste Portal. De imediato, José comprou um lençol de linho, por definição, um tecido fino, leve e caro. Provavelmente, ele comprou mais que o lençol, pois alhures (Jo 20:6-7) João informa que, no sepulcro, foram encontrados "os panos de linho" e o "sudário que cobria a cabeça de Jesus". Provavelmente, todas essas peças fossem compradas em conjunto, como parte de um "burial kit" para pessoas de cabedal, disponível em algum lugar de Jerusalém.
José deve ter sido um homem extraordinariamente forte e saudável, pois, depois de fazer tudo isso, depositou Jesus no túmulo e fechou a entrada, rolando uma grande pedra. Considerando-se que ele era "membro ilustre do Conselho", é razoável supor que não fosse jovem, já que do Conselho participavam homens maduros e experientes e não jovens em pleno vigor de suas forças físicas. Mesmo assim, Marcos e Mateus afirmam que ele "rolou" a pedra que bloqueava a entrada da caverna. Esta pedra é descrita como "grande". De fato, remover essa pedra grande tinha sido a principal preocupação das santas mulheres naquela manhã de Domingo, enquanto se dirigiam ao túmulo de Jesus: "Quem rolará a pedra da entrada do túmulo para nós?" (Mc 16: 3). Se três mulheres, juntas, achavam que não conseguiriam rolar uma pedra, esta deveria ser, realmente, avantajada. No entanto, o robusto José, membro do Conselho de Anciãos, conseguiu...
No evangelho de João, há uma indicação de que o "jardim" onde estava o túmulo pertenceria ao próprio José de Arimatéia. Este jardim seria, na verdade, um horto ou pomar. Uma propriedade rural, onde se cultivavam oliveiras, figueiras e outras árvores frutíferas próprias da região mediterrânea. Ali José mandara cavar um túmulo novo, na rocha viva. Trabalho braçal e artesanal, já que a dinamite ainda não fora inventada.
Disso tudo conclui-se que Jesus foi levado ao túmulo às pressas, numa tarde de sexta-feira, quando "o sábado começava a luzir" (Lc 23:54). O túmulo ficava numa propriedade particular, nas terras de um rico Saduceu, "membro ilustre do Conselho", que o admirava "secretamente". Mesmo morto Jesus mostrava que tinha boas conexões. Havia pessoas de posses e poder que o protegiam, zelavam pelos seus interesses maiores. O misterioso homem de Arimatéia era uma delas.
Bibliografia
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- Azevedo, A.C. A. & Geiger, P. Dicionário histórico de religiões, R. de Janeiro, Ed. Nova Fronteira,2002.
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- Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Ed. Paulus, 2002.
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- Filgueiras, T.S. Ensaio sobre Jesus: Revelando o homem. São Paulo, Livro Pronto, 2ª ed., 2006.
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- Le Moyne, J. Les sadducées. Gabalda. 1972.
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- Thiering, B. Jesus the man, Corgi, 1978.
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- Vermes, G. O autêntico evangelho de Jesus. Tradução de R. Aguiar, Ed. Record, 2006.
Parabéns por mais um artigo.
Para outras leituras sobre José de Arimatéia recomendo:
http://www.mphp.org/forum/inde...sg38#msg38