Tarciso S. Filgueiras
Na narrativa da crucificação de Jesus, o centurião e os soldados aparecem como figuras apagadas, meros coadjuvantes no sangrento drama que se desenrolava. Entretanto, alguns detalhes constantes dos evangelhos canônicos sugerem que eles, talvez, tenham desempenhado papéis mais relevantes que a primeira leitura desses textos parece indicar.
Na curta análise a ser aqui apresentada, vamos escrutinar os quatro evangelhos, tomando como base a Bíblia de Jerusalém, para propor a hipótese de que esses homens não seriam meros executores da crucificação, porém que estavam ativamente envolvidos em certos detalhes essenciais da mesma.
Jesus já estava crucificado. Em torno das três horas da tarde (a "hora nona"), ele deu um grande grito: "Eloi, Eloi, lemá sabachtáni". A exclamação, em aramaico (Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?), foi interpretada como um pedido de socorro que Jesus fazia ao profeta Elias. Segundo os evangelistas, isto aconteceu porque os soldados acharam que Eloi queria dizer Elias. Um deles chegou a dizer: "Deixai! Vejamos se Elias vem descê-lo!" (Mc15:13-37). Difícil aceitar essa explicação. Esses soldados eram romanos e, portanto, o latim era sua língua mãe, não o aramaico ou hebraico. Difícil acreditar que simples soldados fossem capazes de entender uma exclamação tão complexa numa língua que desconheciam. Além disso, eles teriam que ter enorme familiaridade com a cultura judaica da época para, de imediato, relacionar Eloi com o nome de um profeta judeu que vivera muitos séculos antes. Como eles podiam saber tanto sobre os judeus, um povo provinciano, insignificante no contexto dos demais povos do Império? A explicação aqui oferecida é que este trecho, em sua forma atual, representa um acréscimo editorial, posterior ao período evangélico.
O centurião, comandante de cem soldados, também apresenta comportamento esdrúxulo para um oficial romano. Ao presenciar a morte de Jesus e suas últimas palavras, exclamou: "Verdadeiramente este homem era filho de Deus!". Como? Filho de Deus? Que Deus? Como cidadão romano, o centurião seria politeísta, seria familiarizado com um grande número de deuses do panteão romano, provavelmente Júpiter, Apolo, Mitra, etc. Mas, no texto evangélico ele se refere, claramente, ao Deus dos judeus. Estaria ele tão familiarizado com a cultura judaica a ponto de reconhecer a divindade judaica como o Deus único e supremo? Isto é muito improvável.
Assim que se ouviu o grito de Jesus clamando por Eloi, "imediatamente" um dos soldados presentes "saiu correndo, pegou uma esponja, embebeu-a em vinagre e, fixando-a numa vara, dava-lhe de beber" (Mt 27:48-50). As ações desse soldado parecem suspeitas. Ou melhor, parecem algo ensaiado, recomendado ou encomendado. Ele correu, pegou uma esponja, embebeu-a em vinagre, fixou-a numa vara, levou-a até a boca de Jesus. Este conjunto de ações, seu encadeamento lógico, parece algo previamente delineado. De acordo com os evangelhos, logo após a oferta do "vinagre" ocorreu a morte de Jesus.
Volta à cena a figura do centurião. Agora estamos no palácio de Pilatus. É o episódio em que José de Arimatéia comparece à presença do governador para solicitar-lhe o corpo de Jesus. Pilatus estranhou a rapidez da morte e, "chamando o centurião, perguntou-lhe se fazia muito tempo que morrera". Aparentemente, o centurião não se deslocou do palácio para verificar in loco a veracidade dessa alegação. Mas, embora sua resposta não tenha ficado registrada, deduz-se que tenha sido favorável, pois o governador "informado pelo centurião, cedeu o cadáver" de Jesus(Mc 15:44-45).
Se o soldado acima mencionado atuara de acordo com certas instruções, seguramente, não agira por iniciativa própria. Sugere-se aqui que ele agiu sob ordens do centurião, seu superior hierárquico, que, especula-se, tenha recebido propina para agir de tal maneira, beneficiando o crucificado. Propinas não eram exatamente novidade naquela época e naquele ambiente. O episódio seguinte pode ajudar a esclarecer esta afirmação.
Mudemos agora par outro conjunto de soldados. Jesus já havia sido levado ao túmulo, aberto na rocha. Temerosos de que seus seguidores roubassem o corpo, os chefes dos sacerdotes apresentaram-se a Pilatus, solicitando uma guarda "até o terceiro dia". Irritado, achando que eles já estavam pedindo demais, Pilatus dá uma resposta que demonstra bem seu humor: "Tendes uma guarda, ide e guardai o sepulcro, como entendeis" (Mt 27: 62-66). Em bom latim, o praefectus deve ter dito que se eles estavam tão preocupados assim com o possível desaparecimento do corpo, deveriam usar a própria guarda do Templo, cujos membros eram recrutados entre levitas de sua confiança, para executar essa tarefa. Assim eles fizeram.
Em seguida, o evangelista (Mateus) relata a ressurreição de Jesus, o anúncio dos anjos, o encontro de Maria de Magdala com Jesus, etc. Em todas essas narrativas, os guardas não são mencionados. Mas, o texto dá entender que eles presenciaram tudo, atentamente. Enquanto Maria de Magdala e suas companheiras se apressaram para comunicar aos apóstolos todos esses sucessos, "alguns da guarda foram anunciar aos chefes dos sacerdotes tudo que o acontecera" (Mt 28: 11). Atônitos e preocupados com a repercussão de tais eventos, os sacerdotes, após reunir-se com os anciãos, decidiram pelo suborno: "deram aos soldados uma vultosa quantia de dinheiro" para que eles disseminassem a notícia de que enquanto eles dormiam, os discípulos de Jesus tinham vindo e roubado o corpo. Eles indicam, ainda, que se, no futuro, houvesse alguma complicação, eles usariam sua influência para eximi-los de qualquer culpa perante as autoridades romanas. Espertos, os soldados"pegaram o dinheiro e agiram de acordo com as instruções recebidas", diz Mateus acrescentando que por isso "espalhou-se essa história entre os judeus até o dia de hoje" (Mt 28: 12-15).
Não há registro da disseminação dessa "história" fora desse relato evangélico, especialmente "entre os judeus", como diz Mateus. Portanto, é mais provável que os guardas do Templo tenham repartido o dinheiro entre si e não tenham dito nada a ninguém. Por que iriam contar uma versão que poderia comprometê-los, se já tinham o dinheiro consigo? Estariam dando um tiro no próprio pé, ao admitir que tinham dormido durante o expediente. Todos eles, ao mesmo tempo...
Pode-se questionar o caráter desses soldados, dos anciãos e dos chefes dos sacerdotes por se envolverem com tais práticas ilegais e antiéticas. Mas, esse fato nos permite também admitir que os seguidores de Jesus pudessem ter agido da mesma maneira, subornando o soldado e o centurião romanos para que agissem de acordo com suas instruções. Por que não? Esta suposição é coerente com muitos relatos da época e é também compatível com o próprio texto evangélico.
Naquela época, como agora, cada grupo político/religioso lançava mãos de meios lícitos e ilícitos para alcançar seus objetivos.
Bibliografia
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- Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Ed. Paulus, 2002.
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- Filgueiras, T.S. Ensaio sobre Jesus: Revelando o homem. São Paulo, Livro Pronto, 2ª ed., 2006.
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- Thiering, B. Jesus the man, Corgi, 1978.
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- Vermes, G. O autêntico evangelho de Jesus. Tradução de R. Aguiar, Editora Record, 2006.
Muito bom seu artigo.
É lógico que interpretar intenções e identificar o que realmente
aconteceu requer uam análise muito mais aprofundada do que a que você
nos ofereceu, ou do que é possível aqui nesse breve comentário.
No entanto, de tudo o que li, uma coisa se pode dizer com certeza: depois
do terceiro dia o túmulo estava vazio.
E com isso concordam os díscípulos e os membros do Sinédrio.
Como isso aconteceu é que se discute desde o tempo em que esse trecho de
Mateus foi escrito.
Um grande abraço,
Gildemar
Nota da MPHP: Comentário originalmente postado em 19/03/07