Paulo, o Apóstolo Virtual PDF Imprimir E-mail

Mário Porto

No mundo moderno nos acostumamos a denominar de virtual aquele mundo onde executamos ações ou manipulamos objetos sem que para isto existam entes concretos que possamos sentir ou tocar. Estas ações produzem muitas vezes efeitos no mundo real na forma de mercadorias adquiridas, compromissos comerciais saldados ou comunicações efetivadas.

Não encontro uma palavra mais apropriada para definir o apostolado de Paulo.

Paulo de Tarso, jamais se encontrou com Jesus, nunca foi designado efetivamente pelo próprio Jesus como apóstolo e em sua doutrina, praticamente, ignora de forma intencional sua vida terrena transformando-o em um Jesus cósmico como produto da sua necessidade de reafirmar o seu apostolado por meio de aparições, sonhos e visões do Senhor, quando lhe teria sido transferida a sua doutrina, caracterizando assim, segundo ele, uma escolha realizada diretamente pela vontade de Deus (1Cor 1:1; 2Cor 1:1; Gl 1:1).

O Cristo cósmico, sem menção a detalhes da vida terrena, é utilizado por alguns estudiosos para negar a existência real de Jesus. Earl Doherty [1] em seu "The Jesus Puzzle" se espanta pelo fato de Paulo, ao narrar em Gálatas sua visita a Jerusalém, não tenha se interessado em visitar os locais sagrados e obter relíquias de Jesus que dariam força ao seu apostolado.

A situação é ainda mais surpreendente ao verificarmos que Paulo deixa de utilizar ensinamentos de Jesus, como, por exemplo, o não emprego, durante sua controvérsia com Pedro sobre doutrina dos fariseus (Gl 2:11-16), de apoio argumentativo calcado nos ensinamentos do próprio Jesus. Ele não sustenta seu caso com qualquer sugestão de que Jesus tenha transgredido o Sabath, tenha permitido seus discípulos o mesmo e tenha justificado tais ações em debate público, como também anota G. A Wells  [1A]. (Rev 2)

A questão da ressurreição dos mortos, tão proeminente em 1 Coríntios, não recebe de Paulo nenhuma explicação baseada nas "palavras do Senhor", mesmo levando-se em conta que nos três sinóticos Jesus repudiou os Saduceus por suas negativas (Mc 12:18) (Rev. 2).

Os ditos de Jesus considerados por Paulo como "palavras do Senhor" e reparem que são encaradas como palavras do Senhor e não de Jesus, nunca correspondem aos ditos de Jesus encontrados nos evangelhos ou na tradição. Elas não representam o que o Jesus Histórico algum dia disse ou  poderia ter dito, mas o que teria dito o "Senhor" ressuscitado (Rev. 2).

Paulo mantinha perfeita consciência da natureza questionável de seu status como apóstolo e este era, segundo afirma Geza Vermes [2], o seu calcanhar-de-aquiles.

Diversos aspectos da personalidade e história pessoal de Paulo são confusos e controvertidos e como o NT, à exceção dos evangelhos, é dominado por Paulo, fica muito questionável a obtenção de um dado histórico confiável sobre sua pessoa. Suas próprias cartas não seriam a fonte ideal para se obter o verdadeiro Paulo e nem tão pouco os Atos aonde Paulo é o herói principal de um documento escrito por um de seus mais diretos colaboradores e também autor de um dos sinópticos, Lucas.

Paulo é qualificado por seus críticos desde o homem que foi responsável pela expansão do cristianismo até a pejorativa qualificação de criador de mitos.  

Segundo Burton Mack [4], não existe melhor exemplo para caracterizar sua estratégia de criador de mitos do que sua argumentação para transformar Cristo em filho de Abraão (Gl. 3:15-29) ao buscar um ponto de contato com um momento fundamental do passado e fazer uma conexão que blinda toda a história mais recente de fracassos para obter este ideal. Para realizar isto teve que forçar bastante a lógica do mito cristão e o sentido pleno da história de Abraão. Ele percebeu como foi longe demais e ultrapassou os limites da razão tanto que em suas cartas posteriores ele volta atrás com relação ao argumento da descendência (semente) e procurou desfazer as alegações feitas em Gálatas. Uma destas alegações foi a sua afirmação de que aqueles que viviam na lei eram escravizados sob uma maldição e necessitavam redenção (Gl. 3:13, 23:4). Mais tarde ele enfatizaria que o pecado era o verdadeiro mal e não a lei que era "sagrada, justa e boa" (Rm 7;12).

Foi também capaz de distorcer o significado de uma passagem do AT e argumentar que os judeus eram escravos e fihos de Agar e os cristãos livres e filhos de Sara (Gl. 4:21-31)

Paulo muito provavelmente era injuriado por alguém de dentro da Igreja como "Mentiroso", "Sonhador", fato, perfeitamente, identificado por sua atitude defensiva em relação a estes epítetos no final da narrativa de sua importante reunião com Pedro e Tiago em Jerusalém (Gl. 1:20 e 4:16). Existem pelo menos outras oito indicações destes epítetos sobre "mentiras" no corpo das cartas paulinas. Eisenman  [5] identifica Paulo como inimigo de Tiago e além das polemicas que conhecemos em Atos e nas cartas paulinas se refere a um episódio das Pseudo-Clementinas (Reconhecimentos 1.70  [6]) no qual Paulo, antes de sua conversão, teria atacado fisicamente Tiago. Eisenman também o identifica como o "propagador de mentiras" citado nos documentos de Qumran e ao mesmo tempo o apresenta como um simpatizante de Roma em apoio da casa  de Herodes. (Rev. 3).

Teríamos outras fontes com as quais possamos fazer um contraponto?

Na verdade sim, mas elas estão espalhadas em várias outras fontes e entre elas um importante documento da seita dos Ebionitas, em um ataque disfarçado a Paulo inclui um texto do cristianismo ortodoxo e em um manuscrito árabe no qual existe um texto de judeus cristãos, seus oponentes.

Tudo em Paulo se encaixa no virtual. Ele virtualmente cresceu em Tarso e virtualmente deve ter se afastado ainda menino para implementar estudos farisaicos não disponíveis em Tarso, virtualmente tinha cidadania romana, virtualmente era um fariseu experiente na Lei e virtualmente teria sido treinado por Gamaliel.

O que parece é que a afirmação de fariseu altamente treinado na Lei serve aos propósitos de transição que sua doutrina oferece entre o judaísmo e o que veio a se transformar no cristianismo. Naquela época os fariseus gozavam de uma excelente reputação, líderes na defesa dos pobres contra a opressão dos ricos. A campanha contra os fariseus é originada nos evangelhos e foi uma campanha ditada por razões político-religiosas quando os evangelhos estavam em sua edição final cerca de 40 a 80 anos após a morte de Jesus. Paulo poderia muito bem desejar aliar seu nome e doutrina ao prestígio dos fariseus naquela época. Paulo nunca menciona Gamaliel e existem fortes razões para supor de que ele nunca foi um pupilo deste, tendo esta idéia sida plantada por Lucas para enriquecer a trajetória de Paulo.

Quando Paulo se refere às missões que desempenhou a mando do Sumo Sacerdote estava a serviço dos fariseus ou da seita dos Saduceus à qual pertence o Sumo Sacerdote, ferrenho opositor dos fariseus?

No discurso ao rei Agripa em Atos 26 Paulo afirma ter dado seu voto quando se matavam cristãos. Significaria isto que ele pertencia ao Sanedrim? Isto é muito pouco provável, pois se fosse verdade Paulo, certamente, teria mencionado em suas cartas quando apresentou suas credenciais como fariseu. Por outro lado, em duas ocasiões nos Atos, os fariseus votaram em oposição ao Sanedrim quanto à perseguição de seguidores de Jesus. Que tipo de fariseu era então Paulo que adotava posições em relação aos primeiros cristãos diferentes das adotadas pelos fariseus?

Todas estas questões criam várias dúvidas sobre a verdadeira identidade de Paulo que foram bem apontadas por Hyam Maccoby [3]:

  • a) Paulo, antes de sua conversão, jamais teria sido um rabi fariseu, mas um aventureiro de background não identificado aliado aos Saduceus, atuando como um tipo de oficial de justiça sob a autoridade do Sumo Sacerdote. Ele deliberadamente forjou esta identidade para melhor se adaptar à sua tarefa missionária;
  • b) Jesus e seus seguidores imediatos eram Fariseus, e não tinha nenhuma intenção de fundar uma nova religião. Ele se considerava como o Messias da tradição judaica no sentido intrínseco do termo. i.e., um líder humano que restauraria a monarquia judaica, expulsaria os invasores romanos, estabeleceria um estado independente judeu e inauguraria uma nova era de paz, justiça e prosperidade. (conhecida como o Reino de Deus) para todo o mundo. Jesus acreditava ser a figura profetizada na Bíblia Hebraica que realizaria todas essas coisas. Ele não era um militarista e não construiu um exército para lutar com os Romanos, uma vez que acreditava que Deus realizaria o grande milagre de quebrar o poder de Roma. O milagre teria lugar no Monte das Oliveiras, tal como profetizado no livro de Zacarias. Quando este milagre não aconteceu, sua missão falhou. Ele não tinha intenção de ser crucificado como um ser divino e teria encarado esta idéia como pagã e idólatra, um pecado contra o primeiro dos dez mandamentos;
  • c) Os primeiros seguidores de Jesus, liderados por Tiago e Pedro, fundaram a Igreja de Jerusalém após a morte de Jesus. Eles eram chamados de Nazarenos e relativamente a todos os preceitos judaicos suas crenças eram indistintas das dos Fariseus, com exceção de que acreditavam na ressurreição de Jesus e que Jesus era realmente o Messias prometido. Eles não acreditavam que Jesus era uma pessoa divina, mas acreditavam que por milagre de Deus, ele tinha sido trazido novamente à vida após sua morte na cruz e breve voltaria para completar sua missão de expulsar os Romanos e iniciar seu reino messiânico. Os Nazarenos não compactuavam de que Jesus havia ab-rogado a religião judaica ou o Torá. Por terem conhecido Jesus , pessoalmente, eles estavam seguros de que ele observara a religião judaica toda a sua vida e nunca havia se rebelado contra ela. Suas curas aos sábados não eram contra a lei Farisaica. Os Nazarenos, eram eles próprios bastante fiéis às leis religiosas judaicas. , Eles praticavam a circuncisão não comiam das comidas proibidas e demonstravam grande respeito ao Templo. Também não se consideravam como pertencendo a uma nova religião; sua religião era o judaísmo. Estabeleceram sinagogas para seu uso, mas também compareciam a sinagogas não-Nazarenas em certas ocasiões e realizavam o mesmo tipo de sacrifício nas suas sinagogas que os demais judeus praticavam. Os Nazarenos passaram a suspeitar de Paulo quando souberam que este estava pregando que Jesus havia fundado uma nova religião e que ele havia renegado a Torá. Após uma tentativa de chegar a um acordo, os Nazarenos (sob liderança de Tiago e Pedro) romperam, irrevogavelmente, com Paulo e o repudiaram;
  • d) Paulo, não Jesus foi o fundador do cristianismo uma nova religião que se desenvolveu afastada tanto do judaísmo normal quanto da versão nazarena do judaísmo;
  • e) O grupo dos Ebionitas nunca foi levado a sério como fonte sobre Paulo. Os seus escritos foram suprimidos e enterrados pela Igreja, mas algumas de suas visões e tradições foram preservadas em escritos de seus oponentes, particularmente, no enorme tratado sobre heresias de Epifânio. Dos seus escritos verifica-se que eles têm uma narrativa diferente do background de Paulo encontrado no Novo testamento e testemunhado pelo próprio Paulo. Eles afirmam que Paulo não tinha uma experiência ou treinamento farisaico; ele era filho de gentio convertido ao judaísmo em Tarso e mudou-se para Jerusalém quando já adulto e então se aliou ao Sumo Sacerdote como capanga. Desapontado quanto às suas perspectivas de crescimento junto ao Sumo Sacerdote ele teria rompido e obtido fama ao fundar uma nova religião. Esta narrativa, embora não confiável em todos os seus aspectos, é substancialmente correta e faz muito mais sentido do que a misteriosa e contraditória história de Paulo contada nos documentos oficiais da Igreja;
  • f) Os Ebionitas foram estigmatizados pela Igreja como heréticos por falharem em compreender que Jesus era uma pessoa divina afirmando ao invés que ele era um ser humano que viera para inaugurar uma nova era tal como profetizado pelos profetas judeus na Bíblia. Além disto, os Ebionitas se recusaram a aceitar a doutrina da Igreja derivada de Paulo na qual Jesus ab-rogava a Tora, a Lei Judaica. Na verdade os Ebionitas não eram heréticos como a Igreja denominava, ou re-judaizantes como alguns estudiosos classificam, mas os autênticos sucessores dos discípulos imediatos e seguidores de Jesus cuja doutrina eles transmitiam fielmente acreditando que ela provinha do próprio Jesus. Era o mesmo grupo que foi primordialmente denominado de Nazarenos, liderados por: Tiago e Pedro, que haviam conhecido a Jesus durante sua vida estavam em uma muito melhor posição para conhecer seus objetivos do que Paulo que se fiava em seus sonhos e visões. Assim a opinião mantida pelos Ebionitas sobre Paulo não pode é de extraordinário interesse e merece respeito e consideração ao invés de uma desconsideração como propaganda negativa.

A questão do papel desempenhado por Paulo dá margens a muitas controvérsias e estudos que envolvem desde as visões apaixonadas dos crentes até o senso crítico daqueles que se dedicam ao estudo do cristianismo histórico. Sua personalidade está muito mais identificada como a de um grande aventureiro, criador de um dos maiores mitos ocidentais do que para o grande apóstolo dos gentios cultuado como fundador de uma das maiores religiões monoteístas da história da humanidade.

Recentemente uma discussão no Fórum da MPHP abordou a questão da ideologia dos autores e a influência destas ideologias em suas pesquisas e trabalhos. Baseado nas discussões levada a efeito naquele Fórum tenho que reconhecer que, por exemplo, minha descrença em fatos como milagres, aparições, ressurreições e visões como a relatada sobre Paulo no caminho de Damasco venham a influenciar minha opinião sobre o apostolado de Paulo e me fazer inclinar na direção de aceitar as argumentações de Maccoby relacionadas acima. (Rev 1)

Fica então um belo tema para debate: Paulo, grande apóstolo cristão ou um aproveitador e farsante criador de mitos.


Nota [1] Doherty, Earl, The Jesus Puzzle, Did the Christianity begin with a mythical Christ?, Canadian Humanist publication, 1999  

Nota 1A  Well, A, George, The Jesus Myth, Open Court, Chigago, 1999

Nota [2] Vermes, Geza, As Várias Faces de Jesus, Record, 2006

Nota [3] Maccoby, Hyam, The Mythmaker: Paul and the Invention of Christianity, HarperCollins Canada / 1987 

Nota [4]  Mack, Burton, Who Wrote  The  New Testament, HarpersanFrancisco, 1996  

Nota [5] Eisenman, Robert, James, The Brother Of Jesus, Watkins Publishing, London, 2002 

Nota [6]   The Recognitions of Clement acesso em 20/09/2008:  http://compassionatespirit.com/Recognitions/Book-1.htm
Trackback(0)
Comentarios (3)add
Porque não no Fórum
escrito por Gildemar Gomes dos Passos Júnior , 27 fevereiro 2008
Prezado Mário,

Em que data você publicou este artigo? Foi antes de começarmos a discussão sobre Paulo de Maccoby no Fórum da MPHP? Se foi, porque você não nos comunicou sobre o artigo para que pudéssemos trazê-lo para discussão ali no Fórum?

Grato pela resposta,
Gildemar
report abuse
vote down
vote up
Votes: +1
Porque não no Fórum
escrito por Administrador , 27 fevereiro 2008
Gildemar

O artigo já estava preparado bem antes, mas não publicado, sem acesso público e foi a discussão no Fórum que me empurrou a publicá-lo.

A discussão no Fórum reza sobre alguns argumentos específicos de Maccoby contra Paulo e não sobre esta amplitude toda.

Ele poderá, se os visitantes desejarem, ser abordado lá no Fórum, mas não se refere a nenhuma das contestações da Aíla que estão movendo aquele tópico.

Quem desejar poderá ir lá, mas os comentários específicos sobre o artigo seriam mais eficazes se feitos aqui com acesso para todos os visitantes.


Link do Fórum para quem desejar: http://www.mphp.org/forum/index.php?topic=24.0
report abuse
vote down
vote up
Votes: +0
Cristianismo de Paulo
escrito por Rafael , 22 abril 2010
Está claro que o Cristo Jesus que Paulo pregava era um entidade espiritual não humana, justamente como confirma Earl Doherty. Paulo Fala de um Cristo cósmico, com muitas semelhanças das religiões de mistério que cercavam o mundo da época,inclusive os rituais como a eucaristia e o batismo e principalmente sobre a adoração de deidades de morte e ressurreição. Sobre os ebionitas, bem, tem-se que levar em consideração o fato que os evangelho dos ebionitas, um Mateus sem o nascimento milagroso, teve como referência o Evangelho de Marcos e a Fonte Q. Por outro lado, o autor de Marcos, pelo que indica, foi um díscipulo da Escola Paulina, já que no evangelho Jesus não é Deus e sim uma ferramenta usada por por Deus, ou seja, não é um argumento válido para suportar uma tal historicidade de Jesus.

Descobri um ótimo site humanista secular em inglês em que o autor do artigo, com referências bibliográficas de respeito, comenta sobre o Evangelho de Marcos http://rationalrevolution.net/...l_mark.htm

E não, pelo que meus estudos indicam, Paulo não foi nenhum mentiroso, mas um maluco obsecado. Os mentirosos foram os que usaram das "verdades de Paulo" e criação um semi-deus indestrutível.

Fontes de meus argumentos, além do site aí em cima:
EHRMAN, Bart: Jesus Interrupted
S. Acharya: The Chist Conspiacy. (livro polêmico e pouco acurado, mas provido de boas informações)
report abuse
vote down
vote up
Votes: +1
Escreva seu Comentario
quote
bold
italicize
underline
strike
url
image
quote
quote
smile
wink
laugh
grin
angry
sad
shocked
cool
tongue
kiss
cry
smaller | bigger

security image
Escreva os caracteres mostrados


busy
 
Seguinte >

Recomendar a MPHP

Fala para um amigo Seu nome:

Seu e-mail:

E-mail do seu amigo: