Ressurreição x Ressuscitação PDF Imprimir E-mail

Tarciso S. Filgueiras

Desde que foi publicamente anunciada, a ressurreição de Jesus suscitou dúvidas e perplexidades. Os primeiros a duvidar não foram pessoas estranhas ao movimento, mas justamente aquelas mais próximas a Jesus, que constituíam o núcleo duro de seus seguidores: Pedro e os demais apóstolos.

Os evangelhos estão repletos de referências a pessoas do círculo íntimo de Jesus que duvidaram da ressurreição. A recusa em não crer nesse fato é algo totalmente inesperado, levando-se em conta que os discípulos haviam sido preparados pelo próprio Jesus para esse evento. Preparação bastante minuciosa, com detalhes sobre a prisão, sofrimentos, crucificação. Tudo isto culminaria com a ressurreição, "ao terceiro dia". Contudo, parece que os apóstolos ou não leram o script desse drama ou não prestaram a mínima atenção às profecias do Mestre. Por isso reagiram de maneira negativa ao anúncio de que ele havia se levantado dos mortos, expressando uma descrença que não condiz com o que é anteriormente descrito nos evangelhos canônicos. O famoso teólogo Geza Vermes, usando da fina ironia que o caracteriza, chama a isso "vaticinium ex eventu", uma profecia após o acontecido! Com essa explicação do prestigiado exegeta húngaro, professor emérito da Universidade de Oxford, tudo parece fazer sentido.

O sudário e os linhos

Na descrição apresentada por João (20:1-10), por ocasião da ressurreição, o soudarion (peça de tecido colocada ao redor da cabeça, como um diadema) parece ter sido "enrolado" com certo cuidado e depositado à parte, enquanto que "os linhos" jaziam, no chão do túmulo. A própria natureza escorregadia do linho deve ter facilitado seu deslizamento para o chão. Para mim, os panos no chão sugerem que, ao voltar a si, ainda meio zonzo, fazendo movimentos algo descoordenados, Jesus não tinha total controle corporal. Por isso, os linhos rolaram para o chão, displicentemente. Porém, uma vez sentado, ele recuperou o equilíbrio, pôde retirar o sudário e arranjá-lo de uma maneira que chamou a atenção de quem o viu.

Sepulcro vazio?

O sepulcro vazio é freqüentemente apresentado como prova de que Jesus ressuscitou dos mortos. Esta alegação não se sustentaria em nenhum tribunal sério. Ela prova apenas que quando alguém examinou o sepulcro não havia um corpo lá dentro. O que aconteceu com o corpo, pode ser matéria especulativa, mas não é prova de ressurreição. Somente o sepulcro vazio não prova nada. Se assim não fosse, muitos cemitérios seriam palco de inúmeras ressurreições. Mas, o sepulcro estava realmente vazio?

Quando se lê atentamente os textos canônicos, constata-se que houve uma grande movimentação dentro e nas imediações do sepulcro. Marcos (16:1-7) relata que havia um "jovem" lá dentro, enquanto que Mateus (28: 2-5) diz que o anjo removeu a pedra e convidou as mulheres a averiguarem o local onde Jesus estivera. Somente em Lucas (24:1-3), as mulheres entram e não encontram o corpo do Jesus. Ao invés de Jesus, encontraram "dois homens com veste fulgurante". O relato de João (20:1-13) é um tanto ambíguo. Inicialmente, não havia ninguém no túmulo. Porém, depois que Pedro e o outro discípulo voltaram para casa, Maria de Magdala, que ficara por perto, ao espiar para dentro, notou "dois anjos, vestidos de branco, sentados no lugar onde o corpo de Jesus fora colocado, um à cabeceira e outro aos pés" (Jo: 20:1-12). Os evangelhos canônicos indicam que nenhuma mulher teve participação ativa no sepultamento. Ao contrário, há indicações de que elas permaneceram, inexplicavelmente, à distância. Apesar disso, aparentemente, Maria sabia o local exato onde o corpo de Jesus havia sido deixado. De qualquer modo, três dos quatro evangelistas não confirmam a afirmação generalizada de que o sepulcro estava "vazio". Há claras indicações de que havia algo lá dentro. Anjos? Homens? Mas, vazio não estava!

O texto de João, acima referido, é bizarro porque ele narra que Magdalena concluiu que o corpo de Jesus não estava dentro do sepulcro antes mesmo de examiná-lo! Veja: "No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro e, vê que a pedra fora retirada do sepulcro. Corre, então e vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava e lhes diz: "Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram" (Jo:20:1-2).

De acordo com João, Maria de Magdala constatou que a pedra tinha sido removida da entrada do túmulo. Isto bastou para ela sair correndo e contar aos discípulos: "Retiraram o Senhor...". Ela estava sozinha neste episódio, no entanto, usou o plural ao afirmar: "não sabemos". Quem, além dela, não sabia para onde Jesus havia sido levado? Esta é uma pergunta válida já que o emprego do plural majestático aqui seria totalmente descabido. Note-se, sobretudo, que, segundo o evangelista, "ainda estava escuro". Portanto, dentro da caverna deveria estar mais escuro ainda. Apesar da pouca luminosidade e sem ter entrado na caverna, Magdalena concluiu: "Retiraram o Senhor do sepulcro..."!

Reações à notícia da ressurreição

Segundo Marcos, com a morte de Jesus, os discípulos "estavam aflitos e choravam". Porém, ao ouvirem a boa notícia da boca de Magdalena tiveram uma reação inesperada. Simplesmente, "não creram" (Mc 16: 9-11). Segundo Lucas, eles não acreditaram nas palavras das mulheres, classificando-as como "léros" (lero-lero, lorota, desvario, "viagem"!) e não lhes deram crédito (Lc 24:11). Essa incredulidade não estava ligada unicamente a questões de gênero, já que mulheres desfrutavam de baixíssima credibilidade na misógina sociedade patriarcal da época. Tampouco discípulos homens lograram convencer seus congenéricos da veracidade da ressurreição corporal. Quando dois homens de Emaús relataram aos apóstolos que haviam visto, conversado e compartilhado uma refeição com Jesus, "nem nestes creram", lamenta Marcos. Por esta "incredulidade" e "dureza de coração" foram apenas "censurados" pelo Mestre (Mc16:13-14). Jesus demonstrou infinita paciência com esses recalcitrantes discípulos.

A incredulidade na ressurreição persistiu ainda por um bom tempo entre os discípulos, mesmo depois de várias aparições. Por exemplo, depois de enfrentarem uma longa caminhada a pé de Jerusalém até "à montanha que Jesus lhes determinara", na distante Galiléia, ao vê-lo fizeram algo inusitado: "prostraram-se diante dele". Mesmo assim, alguns "duvidaram" (Mt 28:16-17).

Alguns teólogos independentes levantam a hipótese de que Jesus teria sido sedado com veneno de efeito temporário, que depois teria sido expelido com a administração de drogas apropriadas. A mistura de mirra e aloés, deixada dentro do sepulcro, não era usada, ordinariamente, na "preparação" de defuntos. Tanto a resina da mirra quanto a substância gosmenta retirada das folhas do aloés (a nossa popular "babosa") eram usadas como purgativo e cicatrizante. Esses ou outros medicamentos semelhantes poderiam ter sido ministrados ao moribundo Jesus que, expelindo o veneno, cambaleante, porém vivo, saiu do túmulo para receber cuidados especiais, provavelmente das mãos das mulheres que o serviam durante sua vida pública.

Na descrição dos eventos relativos à ressurreição de Jesus, os evangelistas parecem pisar em ovos frescos ou, às vezes, em brasas vivas. Os textos são bem engendrados, os parágrafos extraordinariamente esculpidos em estilo emocional, cru. Mesmo assim, quem os lê com atenção encontra micro-fissuras por onde penetram muitas dúvidas. As famosas contorções teológicas de certos autores cristãos refletem essa mesma insegurança inicial dos evangelistas. Uma ressuscitação parece muito mais lógica e convincente. Seguindo-se esse raciocínio, a verdadeira ressurreição teria sido espiritual e não física, como advogam certos teólogos contemporâneos e à qual o próprio Paulo já aludira (1Cor 15:42-44).

O grande desafio dos apóstolos e dos primeiros missionários nas décadas que se seguiram foi explicar a judeus e gentios a morte e subseqüente ressurreição de Jesus. O método adotado foi demonstrar que o que ocorrera (sofrimento, morte, ressurreição) estava previsto no Velho Testamento, portanto fazia parte do plano de Deus. Tais referências foram, posteriormente, inseridas nos evangelhos com o objetivo de justificar esses fatos. Para isso, os redatores lançaram mão de vários recursos, entre eles o uso da vaga expressão padrão segundo as Escrituras (por ex., Lc 24:27; 1 Cor15:3), porém sem se arriscar a dizer a que passagem específica das Escrituras se referiam.

A possível ausência de uma ressurreição corporal de Jesus não deveria causar demasiada ansiedade a cristãos psicologicamente adultos. Afinal, a tradição judaica predominante não advogava que o messias morresse nem que depois de três dias ressuscitasse dos mortos. Na opinião de Vermes, foi a Igreja Primitiva que assinalou Jesus com o selo do messias sofredor e fisicamente ressuscitado.

Segundo Paulo de Tarso,"a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade". Talvez se esconda aí o mistério da ressurreição espiritual do homem que "vem do céu" (1 Cor 15: 45-49).

Bibliografia

  • - Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Ed. Paulus, 2002.
  • - Crowfoot, J.W. Early churches in Palestine. Oxford University Press. 1941.
  • - Farrer, A. A study in St. Mark. Dacre Press. 1951.
  • - Filgueiras, T.S. Ensaio sobre Jesus: Revelando o homem. São Paulo, Livro Pronto, 2ª ed., 2006.
  • - Metzger, B.M. The text of the New Testament. Clarendon Press. 1964.
  • - Thiering, B. Jesus the man, Corgi, 1978.
  • - Vermes, G. O autêntico evangelho de Jesus. Tradução de R. Aguiar, Ed. Record, 2006.
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Comentarios (3)add
A ressurreição Corporal de Jesus Cristo.
escrito por Sanio F. de Belo , 08 dezembro 2007
Entendemos a história através de seus registros, o evangelho de Lucas diz claramente que após a ressurreição jesus comeu peixe e mel, São Lucas 24:41-43.A propósito, Lucas também era médico e todo médico sabe que é o corpo físico que precisa de alimento. Dentro deste fato histórico creio e entendo que Jesus ressuscitou corporalmente e não apenas em espírito como querem afirmar alguns religiosos. Cristo ressuscitou em corpo!
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A ressurreição Corporal de Jesus Cristo
escrito por bruno jakson , 15 fevereiro 2009
o que vocês estão tentando fazer, a mais de 2000 anos fizeram tenta desacreditar da ressurreição de Jesus; principais dos sacerdotes pagarram uma soma de dinheiro aos soldados para eles alegarem que Jesus não ressucitou e sim seu corpo foi roubado.
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Morrerei e resuscitarei ao sétimo dia para comprovar a credibilidade dste plano de paz e salvação planetária.
escrito por Ubiracir Batista Miranda. , 12 maio 2010
Angra dos Reis (RJ) Brasil, Segunda,12 de maio de 2010.

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