Mário Porto
Aos cristãos se exige como fato real uma série de acontecimentos visionários os quais no dizer do maior propagador da fé cristã são culminados e validados em 1 Coríntios 15:14 com a afirmação "E, se Cristo não ressuscitou logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé."
Essa peculiaridade da religião cristã talvez seja um dos maiores obstáculos hoje ao seu desenvolvimento nas camadas mais informadas das populações inundadas de descobertas e aplicações científicas que cada vez mais transformam a humanidade e seus costumes. Isto não quer dizer que não haja ainda crescimento da população cristã, haja vista que existe um enorme distanciamento entre este conhecimento e uma grande parcela da população mundial que ainda se encontra na penumbra do obscurantismo e da ignorância.
Como um historiador, abstraindo de qualquer tipo de fé religiosa encara os relatos de visões e aparições fundamentais no estabelecimento da fé cristã?
De que maneira esses sentimentos serão retratados de modo a explicar sua força no desenvolvimento de um movimento religioso que originado na Galiléia percorreu o mundo e se transformou 21 séculos depois em uma religião influente nos destinos do dia-a-dia do mundo ocidental quer queiramos ou não?
Para entendermos isso teremos que voltar no tempo pelo menos em 20 desses 21 séculos decorridos desde então e nos determos na segunda metade do século II quando foi travada uma luta feroz do cristianismo considerado ortodoxo contra os movimentos Gnósticos e então foram lançadas as bases para a unificação do cânone cristão.
Sabemos hoje que sem visões e revelações o movimento cristão não teria começado, foi a notícia do Cristo ressurreto que deu nova vida ao movimento que começava a se recolher após sua prisão como é descrito em Mc 14:50. Precisamos registrar, entretanto, que os relatos dos acontecimentos da Páscoa não seguem uma estrutura clara como os da paixão a ponto de Joaquim Jeremias[i] relatar:
"O mais notável problema literário que enfrentamos quando nos preocupamos com as histórias da Páscoa é a grande diferença estrutural entre as narrativas da Páscoa e as histórias da paixão. Nas narrativas da paixão, em todos os evangelhos, a menos dos detalhes, existe uma estrutura básica de tradições comuns: entrada - última ceia - Getsêmani - prisão - audiência diante do Sinédrio - negação de Pedro - a história de Barrabás - condenação por Pilatos - crucificação - sepultamento - tumba vazia. As histórias da Páscoa são bastante diferentes. No máximo podemos falar de uma estrutura na seqüência - tumba vazia - aparições. De resto o quadro é bastante variado".
Não vamos aqui escrutinar todos os aspectos dos relatos da ressurreição e das primeiras aparições que estão na base de toda a crença cristã, pois nosso objetivo não é esse, vamos apenas antes de mencionar as visões e aparições "heréticas" que foram objeto da luta contra os gnósticos, deixar evidente que as aparições "ortodoxas" encerram os mesmos tipos de restrições à sua aceitação que aquelas que foram objeto de ferrenho combate dos padres da Igreja no afã de preservar o ensinamento que consideravam reto.
Gerd Luedmann[ii] classifica as afirmações sobre a ressurreição de Jesus em seis (6) categorias que não vem ao caso desfilar aqui, mas como conseqüência desta categorização ele aponta alguns resultados intermediários dos quais destaco os dois seguintes:
Relativamente ao local das aparições da ressurreição, como é sobejamente sabido, existe a escolha de duas localidades: Galiléia e Jerusalém (e suas vizinhanças). Mas como as aparições na Galiléia dificilmente podem ser explicadas diante da suposição de uma prioridade para aparições em Jerusalém podemos hoje considerar se as aparições tiveram lugar na Galiléia e aquelas em Jerusalém ocorreram apenas algum tempo mais tarde.
Esta observação de Luedmann só faz sentido ao considerarmos que o próprio Cristo afirmou estar em carne e osso nas aparições, causando espanto aos discípulos ao solicitar alguma coisa para comer para comprovar isso.
Prossegue Luedmann:
"A época da ressurreição ou da aparição do Cristo ressurreto tem sido governada por respostas à controvérsia Galiléia/Jerusalém. Pelo menos pode já ser dito que uma aparição ao terceiro dia é incompatível com a prioridade da tradição Galiléia. Os discípulos dificilmente poderiam ter viajado de Jerusalém para a Galiléia entre Sexta e Sábado. Ainda mais com o Sabath entre essas datas quando eles dificilmente viajariam nesse dia."
Meier[iii] corrobora esta idéia:
"Deus fez um milagre nesta cura em particular' é na verdade um julgamento teológico e não histórico. Um historiador pode examinar alegações quanto a milagres, rejeitar aquelas que têm explicações naturais óbvias e registrar casos em que não há explicação natural. Um julgamento puramente histórico não pode seguir além disso [...] na Busca pelo Jesus Histórico, as "regras do jogo" não admitem apelo ao que é sabido ou sustentado pela fé; [...] a fé não pode ser usada como prova ou argumento nos limites extremamente restritos da pesquisa sobre o Jesus da história."
Os estudiosos do NT de há muito reconhecem que as aparições pós-ressurreição estão associadas com a hierarquização na Igreja Primitiva, sendo uma maneira de posicionar bem um personagem na tradição. O maior exemplo disso nós encontramos no mesmo capítulo de Coríntios citado no início, 15:
5 E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze.
6 Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também.
7 Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos.
8 E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.
9 Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus.
Eisenman[iv] denomina a parte em 15:5 como parte ortodoxa e a considera uma interpolação realizada no 4º século, enquanto a parte em 15:7 é denominada como não ortodoxa e autêntica e afirma que Paulo, provavelmente, não atinou com a importância do que estava relatando com relação a Tiago bem como as implicações que isto ocasionaria na sua relevância na Igreja Primitiva. Alguns apontam que este seria inclusive o momento da conversão do incrédulo Tiago tal como reportado nos evangelhos, de certa forma inventando sobre o personagem um acontecimento supostamente histórico.
Quanto ao próprio Paulo a afirmação em 15:8 procura nivelá-lo aos apóstolos que conheceram Jesus em carne. Como já escrevi em outro artigo, Paulo mantinha perfeita consciência da natureza questionável de seu status como apóstolo e este era, segundo afirma Geza Vermes[v], o seu calcanhar-de-aquiles.
Embora com estes exemplos já tenhamos iniciado nossa leitura das visões e aparições vamos, como nos referimos antes, precisar voltar aos primórdios do cristianismo para tentar encontrar uma maneira bem clara de situar a questão em moldes racionais bem mais palatáveis tentando fazer uma ponte entre fé e fato histórico.
O personagem que nos ajudará nesta empreitada é Irineu, o Bispo de Lyon, na Gália hoje França e que foi o grande opositor das idéias que surgiam entre os anos 100 e 200 e que em última análise tinham uma visão que situava os discípulos reconhecendo a si mesmos e a Jesus "como filhos de Deus", idéia encorajada pelo Evangelho de Tomé em contraposição às idéias do evangelho de João que proclamava Jesus "como o único filho gerado por Deus".
Diz o Logion 50 do Ev. De Tomé:
Disse Jesus: Se os homens vos perguntarem donde viestes, respondei-lhes: Nos viemos da luz, do lugar' onde ela nasce de si mesma, surge e se manifesta em sua imagem. E se vos perguntarem: Quem sois vos? Respondei-lhes: Nos somos os seus filhos [da luz] os eleitos do Pai Vivo.
Contra essa idéia e toda sorte de novas interpretações surgidas no que se convencionou chamar de movimento gnóstico Irineu iniciou sua batalha contra as interpretações satânicas das escrituras que autorizavam previsões, visões, profecias, curas por imposição de mãos. Irineu contestou quem sugeria essas interpretações das histórias dos evangelhos e afirmou que milagres já não existiam mais.
Em sua maratona Irineu valorizou o quarto evangelho que na realidade reconhecia como primeiro evangelho e o uniu aos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas formando as quatro colunas, "pois assim como há quatro regiões no universo e quatro ventos principais a Igreja mesmo requer apenas quatro coluna".Foi o início do estabelecimento do que conhecemos hoje como conjunto de textos canônicos.
Sob o ponto de vista objetivo tudo quilo que era rejeitado continha o mesmo tipo de fatos ou fenômenos que recheiam os textos que foram considerados como ortodoxos ou retos ou de inspiração divina.
No movimento gnóstico, baseados na liberdade conferida pelas interpretações do Evangelho de Tomé, cada um podia a partir de seus próprios sentimentos e experiências interiores manifestar suas visões de Deus e interpretar a doutrina.
Paulo através de sua experiência no caminho de Damasco tornou-se apóstolo e passou a divulgar o seu Cristo vivo que acabou por influenciar todo o pensamento cristão até hoje. Por isso mesmo, muitos associam Paulo ao gnosticismo.
Não podemos mais entender a ressurreição de Jesus e os seus subseqüentes aparecimentos "post mortem" no sentido literal, pois do ponto de vista histórico não conhecemos, absolutamente, nada sobre o sepultamento e a tumba vazia ou sobre o destino final do corpo de Jesus. A tentativa de alguns teólogos de colocar a ressurreição no campo da história é um completo "non sense" e carece de qualquer seriedade.
A ressurreição precisa ser entendida na sua forma simbólica, ou seja, a presença de Jesus depois da crucificação desempenhou um papel importante para o crescimento do cristianismo e se assim não fosse, possivelmente, tudo estaria acabado e parafraseando Crossan[vi] "É isso a ressurreição: a presença de Jesus do passado no seio da comunidade, numa nova forma transcendental de existência presente e futura".
[i] Joachim Jeremias, New Testamente Theology, 1971
[ii] Gerd Luedmann, The Resurrection of Jesus, Fortress Press, Minneapolis, 1994
[iii] MEIER, J. P. Um judeu marginal: Repensando o Jesus Histórico, Rio de Janeiro: Imago, 1996 (Vol. II, livro I).
[iv] Eisenman, Robert, James The Brother of Jesus, Watkins Publishing, 2002
[v] Vermes, Geza, As Várias Faces de Jesus, Record, 2006
[vi] O Jesus Histórico, Crossan, John Dominic, Imago, 1994
J.P. Meyer coloca no seu livro (depois posso buscar a citação na íntegra) que qualquer tentativa de reconstrução histórica de Jesus que não leve em consideração seu ministério de milagres fale e cai como a minguada tentativa de Benjamin Franklin. Isso você e um outro personagem da internet (Francisco) que costumam citar seletivamente Meyer para faze-lo parecer um cético ou minimalista não apontam. Considero necessário citar depois.
O que a honestidade conclama a explicar sobre Meyer é que ele é extremamente cauteloso neste ponto, haja vista que ele colocara na sua ?carta de intenções? no primeiro volume que pretendia que sua obra manifestasse pontos que poderiam ser consensuados entre um católico-romano,um protestante, um judeu e um agnóstico, e expressar os milagres como históricos por si já implicaria que o agnóstico teria de deixar de ser agnóstico e o ateu de ateu.
Também temos outro crítico, menos conservador ainda do que Meyer, B.L. Blackburn, que apontam em :"Miracles and Miracle Stories" (in Jesus and the Gospels, p. 556), "Entre os estudiosos do Novo Testamento há um acordo quase universal que Jesus realizou o que ele e seus contemporâneos consideraram como curas milagrosas e exorcismos".
Mais honesta é Paula Fredriksen, judia liberal, que admite que sua rejeição dos milagres é de caráter filosófico, não histórico. Ela coloca "Sim, eu penso que Jesus provavelmente realizara atos que os contemporâneos viram como milagres", e complementa na mesma página ?não acredito que Deus, ocasionalmente, suspende a operação do que Hume chamou "lei natural ". (Fredriksen, Jesus of Nazareth, King of the Jews, p. 114).
Isso é honestidade, pelo menos.
Essa sua ?metodologia? é temerária, para não dizer infantil e auto-complacente ao extremo. Seleciona arbitrariamente estudiosos que dizem o que você ideologicamente estabeleceu de antemão e afirma ?OS especialistas dizem isso?, ?O historiador afirma isso?, pior, ?a ciência diz isso?; e me parece que convenceu a si mesmo que isso lhe dá o direito a se manifestar de forma intelectualmente fanfarrona para com cristãos (e alguns judeus que eventualmente creram na ressurreição de Jesus). Isso é o extremo da falta de auto-crítica ? sem contar a falta de um exame crítico para com as alegações bizarras de Eisemann sobre o credo pré-paulino de I Co15 e alegações de problemas textuais que são simples blefes caprichosos. Temos estudiosos de primeiro calibre tal como Murray Harris, Tony Thiselton, George Eldon Ladd, Martin Hengel, N.T.Wright, Richard Bauckham, etc., que se pronunciaram e defenderam magistralmente a ressurreição de Jesus como histórica. Vou ser temerário em dizer ?isso estabelece que aconteceu? ou ?a história diz isso e isso?? Não. Isso chama-se escrúpulos. Vamos ser mais centrados.