Delírios Laroucheanos PDF Imprimir E-mail

 
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Delírios LaRoucheanos

Mário Porto

 

1 – INTRODUÇÃO

        A organização LaRouche sempre foi notória por suas paranóicas teorias conspirativas. Larouche possui um ego insaciável. Convencido de que é um gênio, ele combina suas arraigadas opiniões radicais com uma habilidade incrível de inserir qualquer acontecimento mundial dentro de um contexto maior, que tenciona dar ao evento um significado adicional, mas seu pensamento é sistemático, sofre de detalhes factuais e de profundidade. É contraditório e tem sempre respostas para tudo.

        Seus delírios viajam através do tempo para rastrear e encontrar na antiguidade as origens de todos os males atuais da civilização.

2. AS MOTIVAÇÕES DE ARISTÓTELES SEGUNDO LYNDON LAROUCHE JR.

        É justamente na antiguidade que escolhemos, como ilustração, um dos grandes delírios laroucheanos. Trata-se da interpretação, por Larouche e seu grupo, da vida e obra de Aristóteles, um dos maiores filósofos gregos, o qual é considerado por LaRouche como criador de um dos maiores venenos que afligiram e afligem a humanidade, "
veneno este que tem que ser destruído, destruindo-se a autoridade e influência de Aristóteles."

        LaRouche coloca Aristóteles como patriarca de uma tribo à qual pertenceram Santo Anselmo, Guilherme de Ockham, John Locke, Francis Bacon, John Stuart Mill, Bertrand Russel e Arnold Toynbee. Entre os membros contemporâneos desta tribo figuram Bernard Lewis e Karl Poper. Estes indivíduos teriam utilizado o aristotelismo " para manipular politicamente grandes setores da população valendo-se para isso de certas universidades e outros centros de difusão ideológica financiados pela oligarquia britânica e seus organismos de inteligência que promovem a versão mais recente do aristotelismo conhecida como empirismo inglês. "

        Larouche afirma que ao contrário do que é apresentado na história, versão que seria criada por influência dos círculos oligárquicos ingleses, Aristóteles jamais foi discípulo de Platão e se infiltrou na Academia de Platão, em Atenas, justamente como agente de inteligência política a " serviço da camarilha oligárquica da aristocracia macedônica aliada do império babilônico e a seus interesses financeiros ."

        No entender e expressão de Larouche, " esta camarilha teria sempre se valido de seus serviços contra Platão e sua Academia. " Aristóteles então, " teria se infiltrado nela e ai permanecido por 20 anos para desorganizá-la e ganhar para o seu lado os indivíduos que a ela eram hostis. "

        Larouche ainda conclui que, em 323 AEC, Aristóteles participou da conspiração palaciana que resultou no assassinato de Alexandre Magno e da dissolução de seu poder. Afirma ainda que Aristóteles " era um incompetente em questões de filosofia, do qual estavam inteiramente cientes os seus contemporâneos melhor capacitados ."

3.
OS VENENOS DE ARISTÓTELES, SEGUNDO LYNDON LAROUCHE JR.

        Segundo LaRouche
, "Platão e Aristóteles representam duas concepções irreconciliáveis do pensamento, o campo de batalha da política e enquanto estas duas concepções conviverem pacificamente e os partidários de Platão não se impuserem em escala mundial, a humanidade não se livrará da miséria e continuará à deriva entre o limbo e o purgatório."

        Afirma ainda que muita bobagem se tem dito sobre a epistemologia e metodologia de Platão por " comentaristas incompetentes e professores ignorantes ." Sendo a mais absurda a chamada teoria das Formas ou das Idéias. Segundo ele Platão nunca se referiu a ela.

        No entendimento de LaRouche, Platão reconhecia três graus de desenvolvimento moral da alma, correspondendo ao Inferno ao Purgatório e ao Paraíso representados na Comédia, do grande neo-platônico Dante Alighieri. Estes três graus são o do conhecimento pelos sentidos, do simples entendimento e da razão, a qualidade divina da espécie humana que a torna exatamente humana. " Em contrapartida, o pensamento aristotélico se caracteriza por sua noção bestial do homem, por seus afastamento da idéia platônica da razão. Aristóteles se concebe como animal e juntamente com seus seguidores, os empiristas ingleses, e antes deles os sacerdotes babilônicos, sustentam que a alma humana é um receptáculo vazio que recebe impressões pelos sentidos como os animais ." A alma aristotélica, segundo ainda LaRouche, " seria incapaz de gerar novas configurações de si mesma e portanto carece da matéria prima necessária para conceber novos conceitos pela razão ."

        As redes oligarcas que criaram Aristóteles e seus sucessores, são para LaRouche, " as mesmas que idealizaram e promoveram desde a antiguidade os cultos dionisíacos que influenciam a juventude e os setores atrasados e degradados do povo. O "rock", o "soul" e as outras versões modernas do culto a Dionísio sempre associadas às drogas, são o complemento necessário do positivismo, dos "analistas de sistemas" e outras formas modernas do degradado e degradante pensamento aristotélico ." Em suma, LaRouche culpa Aristóteles pela disseminação das drogas.

4. LAROUCHE: COMO ARISTÓTELES SE INFILTRA NA ACADEMIA. {[1] Nota Muito Importante}

        Segundo Zoakos, em 367 A.E.C , quando Aristóteles, então com dezoito anos, chegou à Academia de Platão, este já havia realizado a maior parte de sua obra. Fundada 20 anos antes, a Academia havia produzido resultados espetaculares e transformado de forma sensível o ambiente intelectual, político e estratégico do mundo. A Academia mantinha relações diplomáticas e realizava acordos com todos os tipos de governos, dinastias e personalidades influentes.

         Afirma Zoakos, que o instrumento utilizado pelos inimigos de Platão para atacá-lo abertamente era a mal afamada Escola de retórica de Isócrates, orador e membro da assembléia ateniense. As operações com finalidade de limitar a influência de Platão se manifestavam em três níveis; dos quais a Escola de Isócrates era apenas um deles. Os outros dois eram os círculos "religiosos" do templo de Apolo, que se situava em Delfos, e o serviço de inteligência da corte Persa, cujo representante em Atenas era Demóstenes. Isócrates mantinha contato tanto com o Oráculo de Delfos, como com a corte Persa.

        Uma vez em Atenas, que chegou por ordem do Oráculo de Delfos, sede ocidental da inteligência mesopotâmica, Aristóteles ingressou de imediato na escola de Isócrates, na qual permaneceu cerca de um ano. Platão estava nesta época na Sicília.

        No ano seguinte Platão regressou a Atenas e imediatamente após Aristóteles abandona a Escola de Isócrates, em seguida a uma disputa nascida após ter declarado que tendo lido Górgias, de Platão, estava em total desacordo com o método isocrático de ensinar a retórica. De imediato, Aristóteles ingressou na Academia.

        Sua entrada na Academia é uma história que por si só poderia ter saído de um manual de serviço de inteligência. Uma vez na Academia, Aristóteles começou a advogar a introdução do ensino da retórica. Suas razões eram mais ou menos as seguintes: "A arte da oratória não é ruim de per si, sua moralidade depende de quem a usa, Portanto, porque devem abandonar os platônicos esta arma e desejar que nossos inimigos, os seguidores de Isócrates, a usem contra nós diante da população ?" O próprio Aristóteles começou a dar aulas informais de retórica.

        A Organização LaRouche afirma que o mito posterior de que nestes anos todos Aristóteles era discípulo preferido de Platão é pura ignorância, pois Platão tolerou a presença de Aristóteles na Academia. Não o expulsou, talvez em razão das argúcias jurídicas e das atitudes de cortesia, próprios dos círculos de inteligência, que a Academia tinha que velar para poder funcionar legitimamente em Atenas.

        Citando Plutarco em seu Adversus Colotem, Zoakos afirma que Aristóteles nunca refresca na sua oposição às idéias defendidas por Platão, levantando toda classe de dificuldades em seus apontamentos sobre ética, metafísica, física e também e em seus " diálogos esotéricos ", de maneira que havia quem o considerava mais contencioso do que filósofo, como se propusesse a minar a filosofia de Platão. Zoakos completa que na realidade ele era considerado muito mais que contencioso.

        Em princípios de 347 A .E.C. pouco depois da morte de Platão, Aristóteles preferiu fugir de Atenas ao invés de responder à acusação de que era um espião a serviço de Felipe da Macedônia. Este acabava de conquistar a cidade de Olinto, importante aliado de Atenas. Em conseqüência, ficaram expostas as vias marítimas utilizadas pela frota ateniense para o transporte de cereais, a população entrou em histeria e muitos suspeitavam que Aristóteles havia facilitado a Felipe a informação secreta que contribuiu, decisivamente, para a queda de Olinto. Demóstenes, o famoso orador, acusou a Aristóteles diante dos tribunais de Atenas.

        Zoakos considera de extrema importância que Demóstenes, agente a soldo persa, houvera acusado a Aristóteles de espionagem. Segundo sua avaliação um exame minucioso da história antiga explica por que dois dos agentes persas mais conhecidos em Atenas, Demóstenes e Isócrates, opinam de forma praticamente irreconciliável quando se referem a política exterior. Segundo ainda a Organização, o mais importante é que discrepavam até a morte quanto a se Felipe deveria ou não proteger a Aristóteles. Demóstenes, queria vê-lo destruído, enquanto que Isócrates o preferia como dirigente e unificador de toda a Grécia.

4.1 A SITUAÇÃO POLÍTICA NO TEMPOS DE ARISTÓTELES

        Aristóteles nasceu de uma família aristocrática da Macedônia e desde muito jovem tornou-se um dos instrumento mais importantes do cenário político do mundo de então. Seu pai, Nicômaco, morreu assassinado durante umas das sangrentas disputas faccionárias para o domínio do trono da Macedônia. Morreu junto com seu amigo pessoal, o rei Amintas de quem era médico de cabeceira.

        Aristóteles veio ao mundo em 384 A.E.C., quando a Pérsia era a potência suprema do mundo e predominava sobre a Grécia. Ao término da guerra do Peloponeso em 404 A.E.C, Atenas estava em ruínas após trinta anos de conflito armado e vivia das concessões oficiais outorgadas pelo governo persa. Era governada por camarilhas que se alternavam no poder ora a serviço do rei da Pérsia e sua facção ora a serviço das satrapias persas das províncias orientais que colaboravam com a seita de Apolo e sua sede no Oráculo de Delfos.

        Esparta a aparente vencedora da guerra do Peloponeso, havia cedido três anos antes do nascimento de Aristóteles à autoridade da Pérsia ao firmar a infame Paz do Rei. O propósito deste último tratado consistia em impedir que as velhas cidades da Grécia e em particular Esparta, formassem alianças que colocassem em perigo a hegemonia da Pérsia.

        A Pérsia mantinha uma formidável força de polícia na Grécia, cuja tarefa consistia em fazer valer a Paz do Rei. Esta era a recém criada força militar da cidade de Tebas que adquiriu seu poderio à custa do ouro persa.

        Por último, a Macedônia, terra natal de Aristóteles, era ao tempo de seu nascimento um estado apenas civilizado com um campesinato bárbaro. Como passou a Macedônia 20 anos mais tarde a ser a potência militar mais formidável do mundo, sob a direção de Felipe da Macedônia (amigo de Aristóteles desde criança)? O milagre foi realizado pelos sacerdotes de Apolo e sua facção política no Império Persa.

4.2 A SEITA DE APOLO

        A história da antigüidade tem sido deformada inteiramente. Inclusive, alguns dos historiadores mais renomados caíram em equívocos terríveis, simplificações ou frivolidades que raiam ao absurdo, pela simples razão de não ter sido ainda descerrado o véu da seita de Apolo. Nenhuma história do mundo antigo terá sentido a menos que se apresente em função das atividades dos adoradores de Apolo, o sistema dos sacerdotes babilônicos mais eficaz de espionagem estratégica.

        Os mitos e as propagandas distribuídas mais tarde apresentam Apolo como o deus da cultura, das letras, do comércio e da civilização. Na verdade é exatamente o contrário. Homero, na Ilíada, o apresenta como uma criatura terrível, como o deus mais sanguinário, sempre ao lado dos inimigos da Grécia.

        Apolo sempre esteve ao lado dos inimigos da Grécia. Segundo a tradição, este deus veio do Oriente para o templo de Delfos na parte continental da Grécia, aproximadamente, ao mesmo tempo que os sacerdotes babilônicos de Baal-Marduk (divindade solar tal qual Apolo) ajudaram aos aquemênidas persas a se entronizarem na Mesopotâmia.

        A lenda atribui muitos crimes aos sacerdotes de Apolo. Há muitos indícios nos diálogos de Platão que o assassinato oficial de Sócrates foi orquestrado por Delfos.

        O poder da seita se baseava em três pilares; o dinheiro, a espionagem e a manipulação psicológica. Os templos de Apolo mais importantes eram o de Delfos e de Delos os quais eram também os bancos mais importantes a oeste do rio Eufrates. Praticamente todas as cidades gregas tinham depositados seus tesouros nacionais com os sacerdotes banqueiros de Apolo. Este dinheiro podia ser emprestado, investido e em certas ocasiões doar-se a indivíduos ou países, tanto para fomentar o comércio como para a formação de exércitos mercenários, a forma de serviço militar mais formidável da época.

        Os sacerdotes mantinham além disso todo um sistema para obter informação secreta, formada pelos oráculos ou lugares sagrados dos quais o mais conhecido era o de Delfos, que se estendia por todo o litoral oriental do Mediterrâneo e sua influência alcançava a Sicília e Roma.

        Por último, quanto à sua capacidade de manipular psicologicamente os grandes setores da população, os sacerdotes dispunham com dois braços: as orgias órfico-dionisíacas e outros ritos reservados para as classes inferiores e os ritos apolônicos pseudo-intelectuais para a classe média. Sobre estes dois grandes segmentos da população, os sacerdotes exerciam cada vez mais influência podendo angariar mais votos que qualquer orador político carismático da Grécia.Todas estas armas eram utilizadas de forma implacável. O poderio militar da Macedônia surgiu do nada, para surpresa de todos, graças aos sacerdotes de Apolo, em 346 A.E.C. quando Aristóteles tinha 28 anos e seu amigo Felipe era rei há três anos.

        Nos dez anos que levou a meteórica ascensão da supremacia das armas macedônicas, certos chefetes retrógrados se viram elevados ao estrelato da noite para o dia. Estes indivíduos, Antipatro, Parmenio, Atalo, Amintas e outros amigos pessoais de Aristóteles – o estado maior do exército macedônico – sabiam que deviam sua carreira aos sacerdotes de Delfos.

4.3 O PLANO DE ISÓCRATES

        Infelizmente talvez nunca consigamos obter os dados concretos que nos informem de que maneira a Academia Platônica interferiu nos sucessos que conduziram à Guerra Sagrada.

        Do que não se tem dúvida é que à época da Guerra Sagrada, Platão e as redes da Academia haviam-se estruturado nos moldes de uma terceira potência no âmbito internacional colocada entre as duas facções rivais do Império Persa, a máquina burocrática central do rei e as satrapias ocidentais que estavam sob a influência dos sacerdotes de Delfos. Esta batalha tripartida se estenderia por todo o mundo desde Siracusa, Macedônia, Dardanelos até a Ásia Menor, rodes, Chipre, Fenícia e Egito.

        A facção realista não tinha outro programa senão manter o impossível status quo . A facção da Academia tinha um programa que foi manifesto na construção das cidades e das reformas administrativas levadas a cabo por Alexandre, o Grande.

        A coalizão formada por Delfos, os sátrapas ocidentais e os títeres gregos tinham um programa articulado em dois documentos que ainda existem; um deles são os tratados de Aristóteles, a Política e a Ética; o segundo é um discurso pronunciado por Isócrates diante da Assembléia de Atenas, juntamente com uma carta ao rei Felipe do mesmo autor. A formulação de Isócrates é muito melhor e podemos denominar a perspectiva programática de Delfos pelo seu nome: " o plano de Isócrates" .

        Segundo ele, Atenas devia desmantelar sua marinha mercante e seu império comercial e regressar aos "grandes dias" anteriores às reformas de Solon. Em segundo lugar, Atenas e toda a Grécia devia unir-se aos exércitos de Felipe da Macedônia para fazer a guerra com a Pérsia. Deveria ser criada uma linha reta desde a cidade de Sinope até a costa da Cilícia, passando pelo litoral mais ocidental do Eufrates. O império feudal persa permaneceria ao oriente da dita linha; no poente se estabeleceria o império feudal de Felipe.

        Felipe e seu estado maior aderiram ao plano de Isócrates ao pé da letra. Aristóteles que havia fugido de Atenas , se uniu à corte de Felipe em 343 A.E.C, e participou ativamente dos preparativos para os quais realizou numerosas missões diplomáticas e de espionagem.

        Em todos o sucessos que se seguiram como o extermínio da facção de Demóstenes e o assassinato de Artaxerxes III como resultado de uma conspiração dirigia por seu primeiro ministro, o eunuco Bagoas, e o comandante em chefe dos exércitos ocidentais da Pérsia, o general Mentor, de Rodes, amigo pessoal de Felipe, o mapa político permaneceria incompleto se não se levar em conta que Aristóteles contribuiu decisivamente para eles.

        Depois de haver abandonado a Academia e unir-se à corte de Felipe, Aristóteles passou os cinco anos seguintes em missões de diplomacia e espionagem na Ásia Menor. Desenvolveu trabalhos de investigação política para o Templo Délfico e juntamente com seu sobrinho Calistenes, foi premiado por seus serviços. Manteve correspondência com o general Mentor e cultivou uma relação especial com o general Antipatro, ao qual influenciou na última parte de sua vida: enquanto Alexandre fazia campanha na Ásia, Antipatro era o regente na Grécia e Aristóteles era seu chefe de inteligência em Atenas. Os dois, segundo Zoakos, colaborador da Organização LaRouche, encabeçaram a conspiração para assassinar a Alexandre como descrito no tópico seguinte.

4.4 O ASSASSINATO DE FELIPE DA MACEDÔNIA

        O plano Délfico de Isócrates nunca foi levado a cabo porque Felipe da Macedônia foi assassinado logo após cruzar a fronteira da Ásia em direção à guerra, em 336 A.E.C. Felipe foi sucedido por seu filho Alexandre, justamente cognominado de "O Grande" que após uma guerra civil em que saiu vitorioso partiu para uma campanha de conquista do mundo tendo como base o programa político da Academia Platônica.

        O assassinato de Felipe segue sendo um dos grandes enigmas da história. O assassino, um tal de Pausânias, era um pobre infeliz que havia sido sodomizado em grupo por ordens do rei Atalo. Como vingança matou o rei no dia de suas bodas com a filha de Atalo. Sem duvida, se considera, que por trás do assassino se escondia uma extensa conspiração. O próprio assassino foi morto minutos após cometer o crime, por dois homens, que segundo se pensa formavam parte da mesma conspiração. Eles mesmos foram silenciados pouco depois. Logo em seguida se produziu uma situação de caos político. Alexandre, que acabara de regressar do exílio, foi desafiado por quatro pretendentes ao trono. Iniciou-se uma sangrenta guerra civil na qual pereceram os demais pretendentes, deixando aterrorizada a maioria do estado maior.

        Aristóteles se declarou em contradição "filosófica" com Alexandre. Alexandre que contava com 22 anos de idade na ocasião, apoiou-se em um pequeno grupo de colaboradores íntimos que o haviam acompanhado ao exílio e no fato de que os demais pretendentes estavam mortos. Agora que os persas concentravam suas forças para lançar-se contra a Macedônia em nome do rei persa, Antipatro, Parmenio e outros tiveram que tomar uma decisão com rapidez. Chegaram a uma decisão intermediária mediante à qual Antipatro dava apoio a Alexandre e procedia com a campanha contra a Pérsia. Antipatro e os demais membros do estado maior, entre eles , Parmenio, se propunham a dirigir a campanha segundo o delineamento do plano de Isócrates. Alexandre, o Grande, tinha em mente algo, completamente, em contrário.

        As relações entre o novo rei e os militares macedônicos sempre foram muito frágeis e sutilmente equilibradas durante os doze anos da campanha na Ásia. Com toda justiça poderíamos chamar Alexandre de "O Grande" não tanto por suas conquistas militares mas por sua destreza política que utilizou para manter fora de equilíbrio seus oponentes macedônicos por toda sua vida até ela ser ceifada por um assassino.
A relevância histórica do assassinato de Felipe sustenta-se no programa político de Alexandre, contra o qual polemizou Aristóteles toda a sua vida e pelo qual este tramou o assassinato daquele.
O programa de Alexandre constava de dez pontos principais:

  • Primeiro : restaurar as antigas constituições republicanas jônicas;
  • Segundo: formar uma confederação que unificaria todas as cidades jônicas e protegeria o poderio comercial jônico como havia proposto Tales de Mileto dos séculos e meio antes;
  • Terceiro : eliminar o sistema público da satrapias persas e seu poderio militar descentralizado;
  • Quarto : criar somente um Tesouro mundial para substituir a autoridade fiscal que anteriormente possuíam os sátrapas para distribuir os recursos direcionados às antigas satrapias que passa riam a ser unidades administrativas;
  • Quinto : criar uma única casa da moeda imperial para todo o mundo e eliminar o direito das antigas satrapias e outras localidades de cunhar sua própria moeda;
  • Sexto : dar apoio do governo central para aumentar a escala do comércio mundial, para construir um sistema de infra-estrutura, como por exemplo um canal para unir o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo, o qual tornaria navegável o Eufrates e converteria a Babilônia em um dos maiores portos do mundo para comércio entre o oriente e ocidente.
  • Sétimo : um extenso programa para construir cidades;
  • Oitavo : um programa de educação para grandes setores da população com o propósito de introduzir a ciência e a cultura grega por todo o mundo; este programa seria acompanhado por outro de unificação cultural de todas as nacionalidades;
  • Nono : abrir a região ocidental do Mediterrâneo para a urbanização acelerada;
  • Décimo : expulsar a facção oligárquica das cidades gregas e fazer com que se observasse a forma republicana de governo local.

        Através dos séculos o mundo não tem deixado de maravilhar-se com o gênio de Alexandre ainda que poucos tenham prestado atenção ou compreendido o mais íntimo de sua alma, seu propósito reto que era apagar da face da terra, de um só golpe, para sempre, esta sociedade chamada Babilônia que repugnou o mundo por dois mil anos.

        Para este programa Alexandre inspirou-se na Academia Platônica que o armou com a resolução e a segurança de propósitos que em geral as pessoas consideram como arrojo ou arroubo juvenil. Esta resolução e esta segurança foi o que amedrontou seus ébrios generais unindo-os e tornando-os submissos. Isso mesmo os levou a planejar seu assassinato.

        Os registros da antigüidade que chegaram em nosso tempo nos chegaram deformados , fragmentados e em sua maior parte escritos por indivíduos preconceituosos ou mal informados. Em outras palavras são incompletos e considerados por si só nada ou pouco confiáveis. A principal dificuldade que impede avaliar completamente as relações de Alexandre com a Academia é que nos seiscentos anos posteriores à sua morte o mundo foi governado sem interrupção pelos inimigos mortais de ambos, interessados em destruir ou desvirtuar os registros históricos.

        Mas a fragmentação da informação não impede de chegarmos a uma firme conclusão. Os indícios fragmentários que nos chegaram contém dados decisivos.

        Sabe-se que Alexandre mantinha correspondência com os dois dirigentes da Academia, o general ateniense Fócio e Xenocrates, então diretor da Academia. De fato ele foi convidado a unir-se a Alexandre e em várias ocasiões recebeu financiamento deste para as necessidades da academia. Foi encarregado por Alexandre de escrever um documento político sobre o governo, em quatro volumes titulados De Monarchia. Infelizmente não foram preservados, mas Plutarco, Cícero e Diógenes Laércio mencionam a obra em repetidas ocasiões.

        Outro dado muito conhecido é que a Academia contribuiu para restaurar as antigas constituições republicanas das cidades jônicas e ia levar a cabo o plano de Tales de Mileto para criar uma confederação jônica.

        Imediatamente após a batalha de Granico, Alexandre emitiu um proclama no qual prometia abolir os regimes oligárquicos das cidades jônicas e restaurar as antigas constituições republicanas. O programa foi elaborado por um membro da Academia, Délio de Efeso o qual participou da execução do próprio plano. Esta primeira afronta pública ao plano de Isócrates, incluía medidas tais como liberar as cidades jônicas de qualquer tributo imperial e a organização de uma república jônica unificada e medidas para a expansão acelerada da manufatura e do comércio. Como resultados destas reformas pleiteadas pela Academia Platônica, a Jônia e o seu interior agrícola passarão a ser uma cobiçada província do Império Romano e mais tarde coração econômico, administrativo e financeiro do Império Bizantino.

        Os velhos generais macedônicos não estavam de acordo com o programa de Délio e em especial o general Antipatro que havia ficado como regente da Macedônia. Antipatro em colaboração com aristóteles havia insistido em promover a tirania como forma de governo alimentando e reforçando as oligarquias existentes ou criando outras.

        Assim, desde o início da campanha todos sabiam que havia "duas formas diferentes e opostas de governar cidades, a de Alexandre e a de Antipatro"

        Os velhos chefes militares tiveram que engolir cada uma destas medidas programáticas pela simples razão da hierarquia militar: no início da campanha os macedônicos não contavam com uma armada e os persas, que dominavam o mar, ameaçavam seriamente suas linhas de abastecimento e de comunicações. O problema dos persas, era que a maior parte de suas armada estava à cargo de marinheiros e capitães jônicos. A liberdade das cidades jônicas, proclamada por Alexandre, depois da batalha de Granico, de imediato paralisou a metade da armada persa.

        Em seus apontamentos, Plutarco escreve de passagem que "Platão enviou a Aristonômio aos arcádios, Formio a Elis, Menedemo a Pirra, Eudoxo e Aristóteles escreveram leis para Cnido e Estagira. Alexandre pediu a Xenocrates (diretor da Academia) conselhos sobre a arte de governar:; o homem enviado a Alexandre pelos gregos asiáticos e que o incitou mais para a guerra contra os bárbaros foi Délio de Efeso, associado a Platão ."

        Esta curta passagem é de grande importância porque implica no que se segue: Délio de Efeso foi enviado a Alexandre antes deste começar sua campanha, de outra maneira, que motivo teria de "incitá-lo a fazer a guerra contra os bárbaros"? Ademais isto sugere que Délio foi enviado "pelos gregos asiáticos" (os jônicos) antes do assassinato de Felipe.

        A dedução anterior não significa que houvera colaboração alguma entre Délio e Felipe, uma vez que este não necessitava ser incitado para combater aos "bárbaros". O que nos leva a conclusão de que Délio "incitou" a Alexandre ao mesmo tempo que Felipe organizava sua expedição de acordo com o plano de Isócrates.

        Neste caso, quando ocorreu isto? Sabemos que enquanto Felipe preparava sua expedição , Alexandre, na qualidade de príncipe herdeiro, estava tratando de desenvolver uma política exterior contrária e independente à de Felipe. Suas atividades foram descobertas (episódio conhecido como o assunto Pexodoro), no qual ocasionou dificuldades abertas entre pai e filho e ao exílio deste e seus partidários. Alexandre regressou do exílio aproximadamente um ano mais tarde, provavelmente na primavera de 336, e em junho do mesmo ano Felipe foi assassinado.

        Deve ter sido então quando Délio assessorava Alexandre e como conseqüência disto uma de duas coisas pode ter acontecido. Alexandre e seus amigos finalmente foram convencidos da perspectiva programática que o converteu numa opção inaceitável para os chefes oligárquicos macedônicos visto que lançaram uma campanha contra seus direitos de sucessão; ou Alexandre, já hostil aos chefes encontrou no programa de Délio o ponto de apoio necessário para lançar sua campanha contra a oligarquia. De qualquer maneira o resultado foi o mesmo. E a questão tinha que se resolver antes de se iniciar a grande cruzada helênica para o oriente. Em jogo estava a sucessão ao trono e isso era uma questão vital.

        O rei Felipe estava a ponto de empreender uma campanha militar cujo desenlace era imprevisível e como sabiam todos os chefes militares, deixar sem resolver a questão da sucessão ao trono era politicamente suicida. Os generais indicaram que consideravam a Alexandre um filho bastardo, sem direito à sucessão e Felipe anuiu em casar-se com a sobrinha do general Atalo, dama cuja fecundidade estava amplamente demonstrada e que portanto poderia dar-lhe um filho. Um novo e legítimo príncipe herdeiro apresentava a vantagem de permitir que o governo continuaria por meio de regências, etc. Coisa que permitiria a todos os generais compartilhar o poder.

        O casamento de Felipe foi convertido num grande espetáculo antes de iniciar-se a campanha militar. Durante meses a máquina propagandista de Delfos criou uma atmosfera de tensão e entusiasmo religioso por todo o país. Felipe enviou mensageiros ao oráculo de Delfos para obter uma profecia adequada para a empresa e os sacerdotes enviaram a seguinte resposta: " o touro está engrinaldado, o final há chegado, o sacrificador está próximo .

        Felipe foi assassinado quando entrava no templo para participar na cerimônia de casamento.

        Provavelmente nunca saberemos os detalhes da função que desempenhou Délio de Efeso, o "colaborador de Platão " neste drama. A julgar pelo programa político-econômico que levou a cabo na Jônia alguns meses depois, sabemos que era um homem de grande penetração e pensamento político. Da maneira que obrigou aos chefes militares macedônicos a aceitar o programa, sabemos que era um homem de extraordinária capacidade para encontrar o momento oportuno e de grande resolução e autoconfiança.


4.5 O ASSASSINATO DE ALEXANDRE

        Como acontece em todos os grandes acontecimentos históricos, a expedição grega contra a Pérsia iniciada na primavera de 334 A.E.C. significava aspectos diferentes para os diferentes setores que participavam dela.

        Para os soldados rasos macedônicos significava que poderia fazer o que sempre fizeram, seguir a seu rei em outra guerra de conquista e saque; para os soldados das cidades gregas significava uma guerra santa para vingarem-se das perversidades perpetradas contra eles pelos persas de 490 a 480. Para a maioria do corpo de oficiais significava uma boa oportunidade de fazer carreira e riquezas. O estado maior estava dividido. Alguns de seus membros, os mais próximos a Alexandre, compartilhavam do Grande Plano do rei; outros sentiam lealdade pessoal para com o rei; a maior parte dos oligarcas da velha guarda se propunha a conquistar e saquear de tal forma que pudessem garantir suas própria satrapias.

        No topo, o regente Antipatro, seu confidente Aristóteles e seu ajudante de ordens Parmenião, estavam consagrados a por em execução O Plano de Isócrates, estratégia de balanço de forças para estabelecer o governo oligárquico em ambas as margens do Eufrates. No princípio da campanha Antipatro e Aristóteles se recolheram para Atenas para poder dominar as cidades gregas e os abastecimentos (homens e material) do exército que avançava na frente de batalha. Parmenião que se encontrava na Ásia com Alexandre, coordenaria as coisas para manter-se em linha ao rei na qualidade de segundo no mando.

        Por seu turno, Alexandre, nos doze anos que durou a campanha, jamais confiaria em ninguém fora do círculo seleto de amigos íntimos que compartilhavam de seu Grande Plano. O mais proeminente deles era Hefestião que passou a ser o primeiro ministro de Alexandre. O exército não se inteirou dos alcances dos objetivos de Alexandre senão após sua morte, no verão de 323 A.E.C, quando o general Pérdicas, que havendo obtido uma série de memorandos secretos com respeito aos Hypomnemata , os levou publicamente diante de uma audiência hostil com o propósito de faze-la repudiá-los oficialmente.

        A campanha de doze anos de Alexandre se reveste de duas características políticas. Primeiro, a cada ponto crítico da guerra, Alexandre dava a conhecer uma nova declaração programática que invariavelmente gerava novas vantagens políticas para seu exército. Além disso revelava certos aspectos do Grande Plano desconhecido até então. Segundo, a cada vez que Alexandre, dessa maneira, esclarecia o conteúdo programático da guerra se produziam atentados contra a sua vida, todos os quais fracassaram com exceção do último. Em cada um dos casos que se conhecem, os conjurados eram familiares ou amigos de confiança de Aristóteles ou Antipatro.

        Os três primeiros atentados fracassaram. Porém, o terceiro atentado, realizado pelo sobrinho de Aristóteles, Calistenes de Olinto, em 327, quando Alexandre e seu exército regressavam da Índia
[2] , deixou montada a rede que tentou matar Alexandre. Calistenes, segundo os relatos, havia organizado uma conspiração entre alguns de seus parceiros homossexuais com o corpo de pajens do rei. Por intermédio destes último organizou-se o atentado final quatro anos mais tarde.

        Até o momento em que se aconteceu a conspiração de Calistenes, Alexandre havia administrado o problema com os generais com a precaução que descreveremos adiante. Depois da conspiração, este decidiu acabar com toda a oposição e construir e adestrar um exército não macedônico. Sabia que havia chegado a ocasião de ajustar contas com Antipatro e Aristóteles.

        Seu primeiro confronto com os chefes oligárquicos no plano programático, como já vimos, anteriormente, aconteceu depois de sua primeira vitória contra os persas na batalha de Granico, quando conseguiu impulsionar o programa de Délio de Efeso. Seu segundo confronto veio depois de sua segunda grande vitória na batalha de Iso, justamente ao passar as portas da Cilícia. A vitória macedônica em Iso asseguraria o êxito do Plano de Isócrates ( que dispunha dividir as esferas de influência de maneira que o rei persa se mantivesse na região ao oriente da linha Sinope-Cilícia, e os macedônicos toda a região ao poente da linha). Alexandre rechaçou o Plano de Isócrates ali mesmo.

        O confronto seguinte com os generais aconteceu após a batalha de Gaugamela , quando Dario foi derrotado e abandonou para sempre o trono. Depois da batalha, Alexandre nomeou-se rei da Ásia, deu por realizado o propósito da "Guerra Sagrada" de toda a Grécia contra a Pérsia e permitiu a desmobilização as tropas gregas que assim o desejassem. Além disto planejou seus objetivos de conquistar as regiões mais ao oriente e declarou, implicitamente, sua independência jurídica do Congresso de Corinto, a organização dos sacerdotes de Delfos, presidida por Antipatro. Declarou mais ainda oficialmente seu desejo de que se abolisse formalmente a forma tirânica de governo citadino ( o modo de Antipatro) em toda a Grécia. Ao mesmo tempo introduziu a prática de nomear indivíduos não gregos para postos administrativos.

        Tudo isto aconteceu em outubro de 331 A.E.C. Em fins do ano seguinte, outro golpe foi descoberto no qual estava envolvido quase toda a família de Parmenião. Parmenião, seu filho Filotas e outros participantes foram levados a julgamento e passado nas armas. Alexandre levou adiante suas reformas administrativas e continuou sua marcha para o oriente. Mais tarde ao regressar da Índia
[3] . Mais tarde ao regressar da Índia, o sobrinho de Aristóteles, Calistenes foi acusado de outro atentado, em 327. Foi levado a julgamento e passado nas armas [4] , fato que abre o capítulo final de nosso relato (de Larouche).

        Depois desta conspiração, Alexandre declarou a guerra a Aristóteles e Antipatro e manifestou que a hora final não tardaria muito. Plutarco refere que Alexandre enviou a Antipatro e Aristóteles a seguinte advertência:

Não obstante, em seguida, em uma carta a Antipatro, acusa a Calistenes. "Os jovens conspiradores foram apedrejados até a morte pelos macedônicos", escreveu, "com exceção do sofista [referindo-se a Calistenes]; eu me encarregarei de castigá-lo junto com os que o enviaram a mim e que hospedam em sua cidade aqueles que conspiram contra a minha vida"., declaração inequívoca contra Aristóteles em cuja casa Calistenes, por conta de sua relação, sendo o filho de sua sobrinha Hero, havia se hospedado.

        Alexandre era uma velha raposa e sabia exatamente o que o esperava. Estava decidido a encarar a ameaça. Dos indícios dos documentos antigos sabemos que planejava mover-se com rapidez e substituir o velho exército por um novo, composto de oficiais nos quais podia confiar e de pessoal e recrutas persas treinados pelos gregos, desalojando por sua vez Antipater de sua base de poder na Grécia mediante a mobilização das facções republicanas exiladas por Antipatro.

        Por outro lado, as redes de Antipatro, tal como havia previsto Alexandre, se mobilizaram para criar um cerco no entorno do rei, mediante pequenas revoltas, motins militares, desestabilizações administrativas e o desgaste de sua confinada guarda pessoal. Estando na Índia, Alexandre fez frente ao primeiro motim do exército e se viu obrigado a suspender a última campanha. No caminho de volta aconteceram vários motins e o exército se negou a lutar.

        Durante as tensões com o exército, no verão de 324, Alexandre deu um golpe temerário com o qual se abriu o telão do cenário do último ato deste drama. Em Susa, no caminho de regresso para Babilônia, não só ele como oitenta de seus oficiais da mais alta patente casaram-se com mulheres nobres da Pérsia. Ao mesmo tempo foram recrutados 30.000 jovens persas recém treinados para o exército e foi reorganizada a sua cavalaria na qual ele confiava muito. Colocou-a sob o comando de oficiais de sua confiança e incorporou a elas efetivos persas. Desativou, finalmente, 10,000 veteranos macedônicos e os enviou de regresso sob o comando do general Crátero.

        Todavia os enviou de regresso com instruções de que Crátero deveria substituir a Antipatro como regente, e instruiu a este último se apresentar na Babilônia. Além disso Crátero deveria encarregar-se de que todos os exilados das cidades gregas regressassem para casa e que se restaurassem as formas republicanas de governo. E finalmente, os representantes do culto de Apolo, no Congresso de Corinto, deveriam reconhecê-lo como Deus.

        Era um conjunto de medidas claras e implacáveis. A questão da deificação , ao contrário dos rumores surgidos em datas recentes entre historiadores modernos, era uma forma política aceita na época, que Alexandre utilizou-se para declarar oficialmente que já não estava obrigado juridicamente aos tratados que o trono da Macedônia havia assumido em relação ao culto de Apolo sob o reinado de Felipe. Naqueles tempos, a questão da deificação era entendida nestes termos.

        Ao mesmo tempo, Alexandre fez ler seu proclama sobre o Regresso dos Exilados durante os jogos olímpicos celebrados em setembro de 324, diante de uma multidão de 20 mil exilados que o receberam com transbordante entusiasmo.

        No entanto, deste momento em diante, começou-se a sentir o efeito das contramedidas tomadas por Antipatro. Em fins do outono de 324, o mais íntimo colaborador e amigo pessoal de Alexandre desde sua infância, Hefestião, seu primeiro ministro, foi encontrado morto com a idade de 35 anos. Crátero e os dez mil veteranos permaneceram bloqueados nas plagas da Cilícia e nunca chegaram na Grécia para substituir Antipatro. O próprio Antipater negou-se a ir à Babilônia e em seu lugar enviou o seu filho Cassandro, que oportunamente organizou o assassinato de Alexandre. Com a morte deste, o general Pérdicas obteve os planos secretos de Alexandre, os Hipomnemata, e os fez ler diante dos soldados encarregando-se que o rechaçassem . Os generais declararam terminada a guerra e os postos administrativos do império foram divididos. Pérdicas foi nomeado regente, em nome do filho de Alexandre que ainda não havia nascido, Antipatro permaneceu na Grécia e os outros oficiais repartiram o que restava.

        Crátero, o general que desobedeceu as ordens de Alexandre e não fez nada para desalojar Antipatro, se casou com um das filhas deste último. Pérdicas estava em processo de negociar seu casamento com outras das filhas de Antipatro. No ano seguinte, porém, decidiu casar-se melhor com a irmã de Alexandre. E então começaram as guerras de sucessão.

        Examinaremos agora as circunstâncias do assassinato e a participação do próprio Aristóteles. Os indícios políticos apoiam abundantemente a tese de que Alexandre foi assassinado. Acontecimentos posteriores também apoiam a tese. O mais importante é que os "dados concretos" também se encontram nas relações antigas. Contudo, os historiadores modernos rechaçam a tese ë o que se chama uma fraude barata, como demonstraremos a seguir.

        Arriano relata a morte de Alexandre da seguinte maneira:

Segundo alguns relatos, quando se dispunha a deixar que seus amigos continuassem bebendo e retirava-se para dormir em sua cabana, encontrou-se casualmente com Médio, que nestes tempos era o companheiro em quem mais confiava, e Médio pediu-lhe que fosse com ele e continuasse bebendo em sua mesa....

Os diários reais confirmam o fato de que bebeu com Médio...Depois continuam os diários, saiu da mesa, se banhou e foi dormir, tendo depois ciado com Médio e seguindo bebendo até a entrada da noite. Depois, voltou a banhar-se, comeu um pouco e foi, diretamente, para a cama, já com febre.

        Arriano continua sua descrição detalhada baseada nos diários reais até o ponto em que descreve o falecimento do rei. Então escreve assim:
Não se me esconde que muito tem sido escrito sobre a morte de Alexandre: por exemplo, que Antipatro enviou-lhe algum medicamento que havia sido manipulado e que este tomou com resultados fatais. Se supõe que Aristóteles preparou o medicamento porque temia Alexandre em virtude da morte de Calistenes, e se diz que quem o levou foi Cassandro, o filho de Antipatro. Alguns relatos dizem que o trouxe nas patas de um asno [porque o veneno era muito corrosivo] e que foi dado a Alexandre pelo irmão menor de Cassandro, Iolau encarregado de suas bebidas a quem aquele havia ferido de alguma maneira pouco antes de sua morte; outros dizem que Médio, que era amante de Iolau, teve alguma coisa no episódio e lembram que foi Médio quem convidou Alexandre para a festa; que este sentiu uma dor aguda depois de acabar a taça e em conseqüência se retirou da festa.
        Plutarco se refere aos rumores de envenenamento da seguinte forma:
Naquele tempo ninguém tinha a mais leve suspeita de que havia sido envenenado mas com base em informações obtidas seis anos mais tarde, dizem que Olímpias [a mãe de Alexandre] fez executar a muitos e espalhou as cinzas de iolau, já morto, como se ele houvera dado o veneno. Não faltou até quem afirmasse que Antipatro havia feito aconselhado por Aristóteles e por mediação daquele, um tal de Hagnotemis, conforme ouviram o rei Antígonas falar, trouxe o veneno que dizem era água mortalmente fria como gelo , destilada de uma rocha no distrito de Nacres, colhida na forma de uma camada fina de orvalho e a mantinham nas patas de um asno; pois era tão fria e penetrante que nenhum outro recipiente a suportava.
        Tanto Plutarco como Arriano negam mais adiante a veracidade dos rumores sobre o envenenamento. Ambos se baseiam em uma só fonte, a autoridade dos diários reais. Pois bem, isto é uma fraude.. Em primeiro lugar são documentos muito estranhos na doxologia antiga. Não chegaram de nenhuma forma em nossos tempos; não se fazem refer6encias a eles como documentos históricos em nenhuma outra correspondência histórica da época antiga salvo nestas duas de Arriano e Plutarco. O que registram os diários reais é uma versão expurgada da morte de Alexandre. De uma maneira geral se aceita que os diários reais foram escritos depois do acontecido, com o propósito de desautorizar os rumores de que o rei havia sido assassinado.

        Ainda mais, Arriano nos dá a chave que necessitamos para descartar a versão dos diários reais. Ele o faz de uma maneira muito sutil, ao mesmo tempo que deseja aceitar as versões oficiais do fato como apresentado nos diários. Escreve assim:

        Os diários dizem que Pitão, Atalo, Demófono e Peucestas, junto com Cleomenes, Menida e Seleuco passaram toda a noite no templo de Serapis e perguntaram ao deus se não seria melhor levar Alexandre para o interior do templo com o propósito de rezá-lo e talvez recuperá-lo; mas o deus os proibiu e declarou que seria melhor que permanecesse aonde estava, A ordem do deus tornou-se pública e pouco depois morria Alexandre; sendo isto depois de tudo o "melhor".

        O mesmo diz Plutarco:

        No mesmo dia Pitão e Seleuco foram enviados ao templo de Serapis para indagar se deveriam levar Alexandre ali e o deus lhes respondeu que não deviam movê-lo. No dia 28 à noite ele morreu. Este relato se encontra quase palavra por palavra nos diários.

        E agora vem o mais importante. Tanto Arriano como Plutarco, que escrevem com uma diferença de 50 anos no século dois A.E.C., sabiam muito bem que não existia nenhum deus Serapis quando morreu Alexandre. O culto de Serapis foi criado doze anos depois da morte de Alexandre, pelo general Ptolomeu. do Egito . Portanto, a única razão para que Arriano e Plutarco imputassem a informação sobre o templo de Serapis nos diários reais seria pretender advertir ao leitor que a história de que a morte de Alexandre se deveu a causas naturais era uma fabricação oficial.

        A informação sobre Serapis se reveste de outros aspectos importantes. O culto de Serapis foi elaborado até os últimos detalhes pela Escola Peripatética de Aristóteles, quando Ptolomeu se proclamou o rei do Egito. Nos relatos de Arriano e Plutarco foi o deus de Aristóteles e de Ptolomeu aquele que anunciou a sangue frio, que a morte era "o melhor" para Alexandre.

        Finalmente podemos tirar por conclusão os seguintes indícios disponíveis: imediatamente depois de morrer o rei, a junta de generais pôs as coisas na surdina. No ano seguinte, em 322, quando os acordos arranjados vieram por terra e Pérdicas se negou a casar-se com a filha de Antipatro, a história sobre o assassinato veio à luz de maneira estrepitosa. Pérdicas em aliança com a mãe de Alexandre, Olímpias e sua irmã Cleópatra deram alento aos rumores que implicariam a Antipatro, a Cassandro e a Aristóteles. Mais tarde quando Antígonas uniu forças com Pérdicas reforçou os rumores que implicavam Ptolomeu do Egito e a clã de Antipatro. Ptolomeu respondeu fazendo com que a Escola Peripatética escrevesse em seu nome um história do período, que utiliza a fabricação dos diários escritos
ex post facto para encobrir a verdade. Antipatro começou a assassinar e torturar quem na Grécia se atrevesse a sugerir que Alexandre havia sido envenenado. Tudo o que Arriano e Plutarco puderam fazer, vivendo sob um regime romano que havia se tornado império como resultado do apoio de Ptolomeu, para desacreditar sem perigo os diários reais foi apegar-se à nota de Serapis.

        E Aristóteles? Ao que parece nunca saberemos com certeza. Mas existem nos anais da história duas versões para a morte do grande conquistador macedônico. Uma diz que Antipatro e Aristóteles foram responsáveis. A outra é a versão oficial dos diários reais. Esta última está desacreditada. E nos últimos 2031 anos não surgiu uma terceira hipótese.

        Por outro lado jamais haverá tampouco um veredicto oficial contra Aristóteles. Quando chegaram a Atenas as notícias sobre a morte de Alexandre, imperava o caos. Toda a Grécia estava insurreta e a própria vida de Antipatro estava em perigo. Logo que a Escola de Isócrates - com o velho já morto - compilou a lista de acusações contra Aristóteles, o levou a julgamento.

        As acusações eram: sacrilégio, homossexualismo e lasciva. Foi acusado de haver adorado com blasfêmia a Hermes de Atarno ("sustentavam que Hermes havia sido seu amante", segundo Diógenes Laércio). Também foi acusado de haver criado um culto religioso para sua primeira esposa, a sobrinha de Hermes. Segundo Diógenes Laércio, quando Aristóteles possuiu pela primeira vez esta mulher, sua luxúria foi tanta que chegou a realizar sacrifícios em sua honra com ritos que ofendiam deusa Deméter.

        Infelizmente, no momento em que este se inteirou de que Antipatro havia perdido a batalha e de que Demóstenes, acabava de regressar a Atenas, fugiu e nunca se apresentou a seu julgamento. Morreu no ano seguinte sem que tivesse chegado a um veredicto. Deixou um testamento cujo texto nos foi legado e cujo executor oficial era o oligarca, senhor Antipatro.

5.0 COMENTÁRIOS E CRÍTICAS

        Antes de iniciarmos este texto precisamos novamente chamar atenção que todo o tópico 4.0 é constituído de um sumário transcrito literalmente da interpretação da Organização LaRouche para os eventos relacionados com a vida e morte de Alexandre, escritos em 1984, por Critón Zoakos e publicados sob o título El Veneno de Aristóteles, na Benengeli, Revista de arte, ciencia y buen gobierno, Volume 1 número 1, segundo trimestre de 1984, editada na época pela Organização LaRouche.

        Estabelecido este esclarecimento passamos a comentar as teses da Organização LaRouche.

5.1 ARISTÓTELES

        As imputações contra Aristóteles colocando-o como responsável pelo envenenamento moral de gerações de estudantes, professores e governantes só podem ter origem em uma mente corroída por algum mandado psíquico bastante complexo.

        Quanto às críticas à filosofia e ensinamentos de Aristóteles, ouçamos o que diz H.G.Wells, um dos autores mais criticados e mesmos odiados por LaRouche:
        Platão ensinou na Academia. Foi na sua velhice o mestre de um simpático jovem de Estagira, na Macedônia, de nome Aristóteles, filho do médico do rei da Macedônia. A inteligência de aristóteles era de feitio diferente da do grande ateniense. Aristóteles era naturalmente céptico a respeito da vontade criadora e manifestava um grande respeito e grande compreensão pelo fato estabelecido e provado. Mais tarde, depois da morte de Platão, fundou uma escola no Liceu, em Atenas, onde ensinou criticando Platão e Sócrates duramente. No tempo em que ensinava, a sombra de Alexandre, O Grande projetava-se sobre a liberdade da Grécia e ele defendia a escravidão e os reis constitucionais

         Os homens de inteligência estavam desanimados naqueles dias. Havia-se desvanecido a fé no poder dos homens de criar as próprias condições de vida. Já não havia Utopias.

         E o pensamento sobre este peso, voltou-se para o vasto e implacável Destino. Os homens passaram a olhar para tudo que parecesse estável e consolidador. A monarquia, por exemplo, apesar de todos os seus vícios manifestos era um governo concebivel para milhões; tinha até certo ponto funcionado; impunha uma vontade dominante onde parecia ser impossível uma vontade coletiva. Esta atitude intelectual harmonizava-se com o respeito natural de aristóteles pelo fato concebido.

        A inteligência de Aristóteles é terrivelmente sã e luminosa e terrivelmente realista e destituída de entusiasmo. Critica Platão por exilar de sua Utopia os poetas, não porque os poetas são poetas mas porque a poesia é uma força; dirige a sua energia para uma linha diametralmente oposta à de sócrates, no ponto em que este desdenha de Anaxagoras. Antecipou Bacon e o movimento moderno científico. Em sua compreensão do conhecimento ordenado e sistematizado. Dedicou-se à tarefa de reunir e formular o conhecimento. Foi o primeiro historiador da natureza. O grande mestre de aristóteles havia dito: "Tomemos o governo da vida e remodelemo-lo"; seu grande discípulo e sóbrio sucessor restringiu tremendamente o sonho de Platão: "Conheçamos primeiramente um pouco mais a vida, e enquanto isso usemos a sirvamos ao rei"

        É sabido que Aristóteles manteve boas relações com Alexandre que o habilitaram inclusive a conseguir para seus estudos meios que, antes, nunca haviam sido, em tamanha quantidade, postos a serviço da ciência e nem o seriam no futuro, por mais de 2000 anos. Aristóteles pode dispor de centenas de talentos, cada talento valendo cerca de U$ 360.graças a isso teve auxiliares espalhados pela Ásia e Grécia com incumbência de reunir elementos para seus estudos.

        Os historiadores são unânimes sobre a imensa vaidade de Alexandre com histórias de violência e atos de vaidade acumulando sobre sua memória. Falaremos um pouco mais adiante da personalidade de Alexandre para contrastar um pouco com a imagem republicana que Larouche tenta passar do conquistador.

        Pouca dúvida pode restar sobre a condenação de Calistenes que alguns historiadores usam para apontar animosidade de Aristóteles contra Alexandre. O sobrinho de Aristóteles recusou-se a dar a Alexandre honras divinas e " saiu com tal orgulho como se tivesse demolido a tirania, enquanto os jovens o seguiam como único homem livre entre milhares de escravos "


5.2 O CHAMADO PLANO DE ISÓCRATES

        Isócrates (436 - 338) esteve movido por um profundo desejo de ver a Grécia unificada e em paz e foi influenciado, entre outros, pelo sofista Gorgias o qual não só influenciou seus alunos pelo gosto da prosa Gorgiana como colocou diante deles como remédio para as doenças da Grécia, o programa Pan-Helenista, que seria a união dos gregos em um ataque ao Império Persa e às causas do empobrecimento, assegurando a paz entre e dentro das cidades. Este passou a ser o credo político de Isócrates.

        O tema foi desenvolvido em seu discurso Panegirico (380). Mais de 30 anos depois na sua carta "À Felipe" (346), Isócrates apelou ao rei da Macedônia para reconciliar os Gregos e liderá-los contra a Pérsia. Uma vez que Felipe estava a ponto de intervir na Grécia para estabelecer a Segunda Guerra Sagrada (335 - 346) muitos acreditaram que Isócrates estava preparando para submeter seu país a um tirano estrangeiro.

         Nada mais injusto para com Isócrates que, politicamente inocente não tinha muita idéia do que poderia representar esta política. Na verdade, ele já havia feito apelos semelhantes a Agesilau, rei de Esparta, a Dionísio, tirano de Siracusa e a Alexandre, tirano na Tessália, não seria concebível que nenhum deles se tornassem chefes políticos da Grécia. A verdade, é que Isócrates estava procurando puramente um líder militar.

        Estes primeiros apelos não deram nenhum resultado.

        A ascensão de Felipe deu a ele a esperança de que afinal, nem tudo estava perdido. Tinha achado seu líder militar. Mas ele nunca parou para perguntar o que aconteceria à Grécia quando a Macedônia tivesse sucesso em materializar os seus sonhos Pan-Helenistas. E quando as esperanças de relações de paz entre Atenas e Felipe se desvaneceram ele prontamente esqueceu Felipe e no seu último grande discurso "A Oração Panatenaica" Felipe não é mencionado. Após a batalha de Queroneia, na qual a independência Grega foi perdida e como resultado, Felipe realmente se tornou soberano, Isócrates se suicidou fazendo greve de fome (338).


        Alguns historiadores debatem se ele seria o profeta do mundo helênico. Embora ele tenha tido a visão, que no coração dos problemas da Grécia estava a pobreza, não tinha a visão do novo grande mercado comum que salvaria a Grécia e talvez o título de profeta seja muito para ele.

        Neste ponto cabe um comentário sobre o que Larouche chama Plano de Isócrates.

         Não existia plano algum na conotação apresentada.

        Isócrates, certamente, sequer sabia o que era a Ásia e portanto não poderia relacionar terras além do que era conhecido, ou seja, a Ásia Menor. Portanto, a afirmação de que Alexandre ignorou o plano e a tal linha Sinope-Cilícia é pura invenção e não tem sequer consistência.

5.3 IMPRECISÕES HISTÓRICAS

        O primeiro ponto importante é que se alguém deseja inovar apresentando interpretações históricas diferentes para fatos passíveis de uma segunda interpretação, deve primar pela precisão quando se referir a fatos históricos que não comportam outra versão. Assim é que o texto contém algumas imprecisões que logo de saída comprometem sua credibilidade.

        A primeira delas aparece no relato do assassinato de Felipe. Felipe não foi assassinado durante a celebração de seu casamento com Eurídice (ou Cleópatra para outros) mas no casamento de sua filha, também Cleópatra, com o rei do Epiro, Molossus, meio irmão de Olímpias de quem Felipe já havia se divorciado. Nesta mesma cerimônia, ocorrida cerca de quinze meses após o seu próprio segundo casamento, Felipe seria consagrado como capitão geral da Grécia e uma estátua dele seria colocada ao lado das estátuas dos doze deuses do Olimpo pretendendo colocá-lo no mesmo nível. Era a consagração como Felipe, o Deus. Embaixadores de toda a Grécia estariam presentes. Nesta ocasião Eurídice, esposa oficial, já tinha dado luz de um filho de Felipe, morto juntamente com a mãe por Olímpias logo após a morte de Felipe e Alexandre ter se afastado .para abafar rebeliões ao norte.
        
         A segunda imprecisão ainda deste tipo aparece quando é relatada a conspiração dos pagens na qual Larouche coloca Calistenes como efetivamente envolvido. Neste ponto é necessário fazer-se um parênteses para mencionar algo sobre fontes primárias, fontes secundarias e terciárias.

        Calistenes de Olinto era um historiador profissional que acompanhava as expedições de Alexandre para relatar seus feitos e que já havia antes publicado uma História Grega dos anos (387 - 356) Os dois homens devem ter se encontrado como membros do círculo ao redor do filósofo macedônico Aristóteles, que era tio do historiador e professor do futuro rei. Durante a campanha a principal função de Calistenes era escrever as façanhas de Alexandre embora estivesse também engajado em missões científicas. Quando Alexandre estava no Egito, ele enviou seu historiador para a Etiópia aonde ele descobriu as causas das enchentes do Nilo e na Babilônia Calistenes supervisionou a tradução dos Diários astronômicos.

         No verão de 327 Calistenes protestou contra a introdução da proskymesis ( um aspecto do ritual da corte persa) entre os Macedônicos e perdeu os favores de Alexandre. Não está claro o que aconteceu com Calistenes. Aristóbolo e Ptolomeu oficiais que estiveram presente e escreveram estórias da campanha produziram versões diferentes - ele ou morreu na prisão ou foi crucificado.

        O livro de feitos de Alexandre está hoje perdido, mas forma a base do que foi escrito depois. O trabalho parece ser o produto de um bajulador profissional que sabia como agradar a um rei que tinha desenvolvido um rivalidade vitalícia com Aquiles. Por exemplo, contém muitas alusões à Ilíada de Homero, um cálculo da queda de Tróia (exatamente mil anos antes de Alexandre visitar a cidade sagrada), e referências a cidades mencionadas por Homero e visitadas por Alexandre. Calistenes enfatizava o comportamento básico de Alexandre e a fraqueza efeminada dos persas. Outra estória que Alexandre deve ter apreciado muito é aquela do mar dando obediência ao novo Aquiles. Uma coisa é certa, Calistenes não objetou à reivindicação de Alexandre de ser o filho de Zeus.

        Não está bem claro quando o livro das Façanhas de Alexandre foi publicado. Mas autores secundários não o referenciam para descrever eventos posteriores a 329. E é provável que Calistenes tenha considerado a mortes de Besso, o último chefe dos persas, como sendo o clímax de sua história É certo que a obra não foi publicada paulatinamente aos acontecimentos de maneira a informar os que ficavam em casa (como por exemplo Julio César publicou seus Comentários Sobre a Guerra na Gália ). Ela foi publicada como uma unidade o que pode ser constatado pelo fato retratar Parmenião, o braço direito de Alexandre, consistentemente como muito zeloso. Antes de 330 não haviam razões para descrever o mais confiável e capaz general de Alexandre desta maneira, entretanto em novembro ele foi executado em razão da suspeita de golpe que recaiu sobre seu filho Filotas.

        Parece que historiadores posteriores tiveram acesso a uma continuação das Façanhas de Alexandre, de Calistenes. Este trabalho pode ou não ter sido idêntico ao Diários Reais referenciado por vários autores e que descreve a morte de Alexandre. Não se sabe quem escreveu esta continuação, quem publicou e nem o seu conteúdo é bem conhecido, embora considera-se que contenha informações cronológicas e agendamentos como a história de Calistenes.

        O livro de Calistenes, sua Seqüência e os Diários são fontes primárias, elas estão agora perdidas mas foram usadas por autores que se constituem em fontes secundárias tais como Cleitarcos e Ptolomeu. Seus trabalhos estão agora também perdidos mas podem ser reconstituídos através de fontes terciárias como Diodoro, Quinto Curtius, Arriano e Plutarco.

        Portanto, como se pode notar, a afirmação categórica feita por Larouche e Cia de que Calistenes estava envolvido no episódios dos pagens não está relatada em fontes primárias. Duas imprecisões podem ser apontadas. A primeira quanto à época dos fatos, que não se sucederam na volta da campanha da Índia, mas exatamente antes da campanha. A segunda falha aparece quando se coloca Calistenes envolvido no golpe dos pagens, quando na verdade seu problema com Alexandre deveu-se a questões de divergências nos rituais persas adotados por Alexandre. Vimos também que existem controvérsias quanto a Calistenes ter sido passado pelas armas ou morrido na prisão. Sua morte na prisão teria inclusive causado um descontentamento entre os regimentos Gregos que acabou por apressar a referida partida para as Índias.

5.4 A CHAVE DE SERAPIS

        Realmente, como relata LaRouche, em um dos fragmentos do Diário Rea l, é mencionado um deus egípcio, Serapis cujo sincretismo (Osires + Apis) foi introduzido ma Grécia por Ptolomeu, após a morte de Alexandre e que só espalhou-se no mundo helênico quase meio século depois de sua morte.

        O que este fato sugere é que o editor da desconhecida seqüência das façanhas de Alexandre ou mesmo dos Diários Reais viveu comparativamente mais tarde do que os acontecimentos e se sentiu livre para mudar a informação que encontrou.

        A interpretação que coloca a menção do templo de Serapis como uma chave para as gerações posteriores entenderem que a história oficial era uma fraude, é o mais autêntico exemplo do tipo de manipulação especulativa utilizada pelo Grupo Larouche quando objetiva orientar os fatos para explicar suas teses conspirativas.

5.5 O MEMORANDO (HYPOMNEMATA)

         Larouche faz referência aos últimos planos de Alexandre contido no memorando (hypomnemata) sem dizer que planos eram estes deixando o leitor sem a possibilidade de julgar a importância e seriedade deste documento que como veremos não ia além de um conjunto de extravagâncias e vaidades.

        A imaginação das teses conspirativas chega ao ponto de sugerir que os planos foram levados para serem recusados por uma Assembléia viciada pelo general Pérdicas. O fato é que o general Crátero, que era um de seus mais proeminentes colaboradores, tinha sido enviado antecipadamente por Alexandre à Cilícia com os miltares que haviam sidos dispensados, em número de cerca de doze mil. Ao mesmo tempo, ele recebera instruções escritas que o rei havia passado para ele executar.

        Após a morte de Alexandre, pareceu mais acertado aos sucessores não levar adiante tais planos. Pérdicas havia encontrado o memorando (hypomnemata) com as ordens do rei, que ordenavam a complementação da construção da pira em honra a Hefestião, que demandaria uma grande quantidade de dinheiro e também especificava outros projetos de Alexandre que eram muitos e grandes e exigiriam um desembolso sem precedentes. E decidiu que não era aconselhável implantá-los, Diferentemente da interpretação conveniente de Larouche, ele não queria ser interpretado como arbitrário, desprezando louvores para a glória de Alexandre e então levou esta matéria para consideração da Assembléia de Macedônicos. Os itens maiores e mais marcantes deste memorando são listados abaixo. Era proposto: [Fonte: Diodorus Siculus Book XVIII Cap 4]
  1. Construir mil navios de guerra maiores que os trirremes na Fenícia, Síria, Cilícia e Chipre para a campanha contra os Cartagineses e outros povos que se colocavam ao longo da costa da Líbia e Ibéria;
  2. Construir uma estrada ao longo da costa da Líbia, fundando portos e estaleiros em locais apropriados;
  3. Erigir seis templos caros, cada um custando cerca de 15.000 talentos
  4. Fundar cidades e transferir população da Ásia para Europa e na direção oposta da Europa para a Ásia de maneira a fazer a união dos continentes [ eis koinen homonoian ] amigavelmente, através de laços de sangue propiciados por casamentos entre as famílias.

        Os templos mencionados acima eram para serem construídos em Delos, Delfos e Dodona, e na Macedônia um templo para Zeus em Dium, para Artemis em Anfipolis e para Atena em Cirnos. Também em Ilium, em honra a esta deusa, deveria ser construído um templo que não poderia nunca ser superado por nenhum outro. Uma tumba para seu pai Felipe deveria ser construída para rivalizar com as pirâmides do Egito, incluída entre as sete maravilhas do mundo.

        Quando este memorando foi lido, embora os macedônicos aplaudissem o nome de Alexandre, perceberam que os projetos eram extravagantes e impraticáveis e decidiram não levar a efeito nenhum destes que foram listados.

5.6 ERA ALEXANDRE REALMENTE GRANDE?

        Vamos abordar agora as questões que envolvem distorções mais graves na análise de Larouche, e que na realidade, dão sustentação final ao verdadeiro objetivo do artigo, que pretende retratar Alexandre como estadista modelo cuja carreira política teria sido abreviada por uma conspiração em que Aristóteles teve papel atuante.

        Alexandre criou muito pouco enquanto permaneceu na posse do império persa. Ao contrário do que afirma Larouche , conservou a maior parte das organizações das províncias persas, nomeando novos satrapas ou mantendo os antigos. Com relação à infra-estrutura de estradas e portos a organização do império ainda devia ao que foi deixado por Ciro. No Egito e na índia pouco acrescentou. O que realmente Alexandre plantou foi a fundação de cidades e algumas iam se tornando em aglomerações humanas; fundou ao todo dezessete Alexandrias, algumas sofreram mudanças de nome como Candahar hoje nos centro dos episódios de terrorismo internacional por ser a sede do Talibã.

        Alexandre não formou nenhum grupo em torno de si, não pensou em um sucessor, não criava nenhuma tradição, só construía sua lenda pessoal conforme aponta Wells. Imediatamente após sua morte o império mundial que pretendeu construir desabou e fez-se em pedaços. Precisamos ter em mente o Alexandre real não o fantástico de que alguns escritores nos transmitiram notícia.

        Portanto, estaremos mais habilitados a julgar se acompanharmos o juízo de alguns homens notáveis sobre Alexandre. Desta maneira o julgamento poderá ser feito com justiça, isenção e imparcialidade.

        Em Justino, o Abreviador, livro nono, capítulo oitavo, encontramos o seguinte paralelo entre Alexandre e Felipe, seu pai.
"Felipe preferiu os combates aos festins, e empregava suas riquezas em expedições militares. Mais hábil em obter do que conservar o dinheiro, vivia sempre pobre, não obstante suas rapinas; clemente e pérfido a um tempo todos os meios lhe pareciam legítimos, contanto que triunfasse..."
"Alexandre seu filho e sucessor, excedeu-o nos vícios e qualidades; Alexandre empregava a força, Felipe preferia a astúcia; este gostava de enganar o inimigo aquele de vencê-lo à luz do dia. Felipe era prudente, Alexandre temerário; Felipe reinava com seus amigos Alexandre sobre seus amigos; aquele preferia que o amassem, este que o temessem."
        Deixemos agora falar Plutarco, o grande apologista do chefe macedônico.
        "Por duas coisas reconhecia Alexandre que era um simples mortal _ pelo sono e pelo amor. O cansaço e a voluptuosidade eram, na sua opinião, efeitos da fraqueza humana.
A sua inclinação ao vinho foi muito menor do que se pensa. Se adquiriu tal reputação, foi porque conservava-se à mesa muito tempo, não para beber, mas para discorrer e discutir.

        No mais era o mais amável dos reis no trato ordinário da vida; procurava todos os meios de agradar; mas tornava-se inoportuno à força de elogiar-se a si mesmo, no que se assemelhava ao soldado fanfarrão, além do defeito de exaltar os feitos próprios entregava-se aos lisonjeiros que o exploravam à vontade, e vexavam os convivas mais honestos que tinham repugnância em lutar com os aduladores, e receavam ficar aquém dos elogios. A primeira hipótese causar-lhes-ia vergonha; a segunda os exporia aos maiores perigos."
        O juízo de Quinto Cúrcio, talvez o mais imparcial de todos os historiadores antigos de Alexandre, não deve ser omitido. No seu livro dez, capítulo quinto, este autor assim se exprime:
         "Na verdade , a julgá-lo com justiça, cumpre reconhecer que suas virtudes vinham da natureza, e seus vícios, ou da fortuna ou da idade. Ele tinha uma força de espírito incomparável, uma paciência nos trabalhos capaz de fatigar todo o mundo; coragem indomável que excedia a todos os reis. Era tão liberal, que freqüentemente dava o que nem mesmo aos deuses se ousa pedir. É verdade que sua ambição não conhecia limites. Era penetrante e sensato mais do que lhe permitia a idade. A fortuna porém trouxe-lhe defeitos, o de crer-se um deus e exigir que lhe fossem prestadas honras divinas; de ter fé cega nos oráculos que lisonjeavam a sua vaidade e de irritar-se contra os que não queriam adorá-lo; o de adotar os costumes dos povos vencidos pelos quais antes da vitória manifestava o maior desprezo." No mesmo livro, cap. Primeiro, lermos o seguinte texto: "... mas no fim, ele degenerou de si mesmo por tal forma que contra os próprios sentimentos e as exigências de um infame , dava reinos a uns e a outros arrancava a vida".
        Ad. Tiers, o historiador do consulado e do império, na França, faz um juízo sobre o qual faço coro com Cezar Zama, ilustre político e escritor baiano, quando na sua biografia de Alexandre escrita em 1893 considera, entre todos, o mais exato do que foi realmente Alexandre.
"Alexandre, nutrido da sabedoria dos gregos, apaixonado pelos seus aplausos, herdando o exército do pai, lança-se na Ásia, não encontra para combater se não a pusilanimidade persa, e marcha para frente até encontrar os limites do mundo então conhecido. Se os seus próprios soldados não o houvessem obstado, ele iria até o oceano Índico. Obrigado a retroceder, só tem uma aspiração _ recomeçar suas correrias aventurosas. Não o preocupa a pátria, que nada tem a ver com tantas conquistas: mas a ambição cega do poder e a sede insaciável da glória de ter percorrido o universo, como vencedor. Sua paixão é a nomeada, a fama reconhecida, aplaudida em Atenas. Generoso, benfazejo até, ele mata Clito, seu amigo e salvador de sua vida, seus melhores lugar-tenentes _ Filotas e Parmenião, porque a língua imprudente levou-os a tocar em sua glória. A fama, eis o alvo, a sua imagem, o seu objetivo, o mais vão de todos quantos podem impelir os grandes homens; e enquanto deixa descansar o seu exército para logo correr de novo atrás desse único objetivo de todos os seus esforços, engolfado nas delícias da Ásia morre repleto de vinho. Apesar de ter seduzido a posteridade pela sua graça heróica, não há todavia uma vida mais inutilmente ruidosa do que a sua, porque, nem ao menos, levou a civilização grega além da Jônia e da Síria, onde aliás, já ela reinava. Alexandre deixou o mundo na anarquia e como que preparado para receber a conquista romana."
        O próprio Cezar Zama assim se manifesta:
        "Discípulo da filosofia grega, Alexandre foi um homem que não cumpriu a sua missão. Em vez de levar o facho da civilização de seu tempo às terras, gastas pelo despotismo oriental, espalhando os tênues clarões, que a liberdade, em seu berço, projetava no mundo conhecido, ele deu ao despotismo de seu governo a mais ferrenha e insuportável feição, incorrendo no desagrado, senão no ódio de muitos dos próprios amigos, que exterminou sem piedade. Entretanto, que grandiosos destinos lhe estavam reservados!

        Nascendo no meio apropriado ao fim de que fora predestinado, favorecido por uma força misteriosa e protetora, que jamais o abandonou nos lances mais perigosos de sua vida, Alexandre, que recebera a missão de encaminhar a evolução humanitária de seu tempo, deu aos prazeres, à vaidade, ao ódio, e à vingança o que devia dar à verdade e à justiça.

        Como tantos outros que falsearam a sua elevadíssima missão na terra, Alexandre só semeou males e ruínas. De sua obra colossal, do império imenso que construiu, que restou depois de sua morte? Não vive no tempo e na eternidade o que se assenta na injustiça, no sangue e nas lágrimas."
        Ao lermos estes julgamentos, podemos contrabalançar as versões, pois sabemos que Alexandre é um dos personagens que mais incentivou a fantasia dos biógrafos e romancistas, que acabaram atribuindo-lhe suas próprias idéias e intenções. A sua vaidade é comprovada pelo seu retrato sempre representado como um formoso jovem, com esplendidos cachos de cabelos caindo pela fronte. Até moda ditou, ao contrariar o costume da barba.

        Alexandre não sabia o que era a Ásia por uma razão muito simples: naquele tempo, ninguém o sabia. Se a conhecesse, será que tentaria conquistá-la e subjugá-la com apenas 20.000 homens? O que atraiu Alexandre contra a Ásia não foi um plano estratégico nem político. Foi, como os relatos de autores antigos afirmaram, um sonho de glória perseguido durante onze anos incansáveis.

        A propalada fusão racial que seria obtida com os 80 casamentos com noivas persa, inclusive o seu próprio, não passou de um encantamento com a pompa dos monarcas orientais.

        As vitórias de Alexandre foram brilhantes e provocaram a incondicional admiração dos contemporâneos e da posteridade. Não sabemos, entretanto se devemos atribuí-las à sua valentia e gênio militar ou à absoluta incompetência estratégica dos persas, que já haviam sido derrotados sistematicamente pelos gregos.

        Por tudo o exposto, fica claro que as idéias de Larouche, sobre um Alexandre estadista e seguidor de um plano político mundial, pertencem ao mundo da ficção histórica.


Nota 1: Importante Este tópico de nº 4 incluíndo todos os seus sub-tópicos (4.1 a 4.5) é composto integralmente da argumentação da Organização LaRouche, elaborada por seu então colaborador, Critón Zoakos. Os nossos comentários e críticas, com exceção de alguns pequenos esclarecimentos en notas de rodapé, serão feitos no tópico nº 5.
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Nota 2:
A ocasião no relato de Larouche está errada. A conspiração dos pajens na qual Calistenes foi envolvido, aconteceu antes da partida para a Índia, que teria sido apressada devido ao descontentamento causado, especialmente entre os gregos, pela morte de Calistenes.
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Nota 3:
Ver nota 2.
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Nota 4:
Ver nota 2 - Calistenes não foi executado, morreu na prisão.
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