Homossexualidade Anacrônica I PDF Imprimir E-mail

INTRODUÇÃO

Quando por entretenimento assistimos um filme de época muitas vezes nos vem à mente o nível da precisão histórica sob a qual o diretor atrelou à obra. As pessoas menos familiarizadas com os fatos históricos nem sempre se dão conta de que a ficção muitas vezes se apresenta sob o véu da História induzindo impressões equivocadas aos espectadores. Esse problema se torna ainda mais crítico para relatos da antiguidade e se a ficção envolve aspectos de costumes ou comportamentos característicos da época, que muitas vezes não podem ser traduzidos para comportamentos que conhecemos nos dias atuais, criando situações inteiramente anacrônicas. Infelizmente, isso é mais comum do que parece e pode ser utilizado de forma política como acontece dentro da comunidade LGBT, quando grupos defensores da igualdade de direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais interpretam comportamentos sociais dos antigos gregos e macedônios em favor de suas orientações sexuais.



O mundo antigo oferece um campo excepcional para entretenimento na tela. Mais de 600 filmes sobre a antiga Grécia, Roma e Egito foram produzidos desde o épico Quo Vadis (1912) de Enrico Guazzoni. Um período particularmente rico em produções foi a década de 1950-1960, até 1963 quando um grande fracasso financeiro atingiu a produção Cleópatra, que de forma compreensível gerou um intervalo de mais de trinta e cinco anos sem que outra grande produção épica fosse lançada.
Gladiatior
Todavia, o período 2000-2004 assistiu o lançamento de três grande obras: Gladiador em 2000, dirigido por Ridley Scott, Tróia de Wolfgang Peternsen na primavera de 2004 e Alexander de Oliver Stone, no outono de 2004. O sucesso do primeiro do trio encorajou a produção dos outros que em grande parte foram baseados a partir de percepções dos estúdios sobre as preferência do público embora no caso de Alexandre o compromisso pessoal do diretor foi muito forte.
troia
Alexandre



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vamos concentrar muito de nossa exposição em aspectos apresentados no filme de Oliver Stone, um prato cheio para as teses que pretendemos demonstrar. O filme de Oliver Stone, apesar de se valer do historiador Robin Lane Fox [RF1] como consultor, encerra no roteiro muito da percepção do próprio Stone, além disso o próprio Lane Fox sofrreu várias críticas de outros renomados "schollars", como Ernest Badian, [RF2] que lançou e, setembro de 1974, no New York Review of Books, ácidos comentários sobre o livro "Alexander The Great", escrito por Lane Fox em 1973, quando este tinha apenas 23 anos. Outro autor que ainda vamos mencionar bastante foi também utilizado por Stone. Trata-se de Mary Renault [RF3] , escritora inglesa, homossexual assumida, autora do livro "The Persian Boy", publicado em 1972 como parte de uma trilogia e que retrata a vida de Alexandre do nascimento até a morte de Felipe II, trilogia em grande parte responsável pela visão anacrônica de um "Alexander The Gay", que veio a ser tornar herói histórico do movimento pelos direitos dos gays. Esses autores são bastante criticados por suas visões estereotipadas do comportamento de Alexandre, sem embasamento nas fontes históricas primárias e mais fundamentado em especulações e imaginações. Especialistas afirmam que este fato afetou o sucesso comercial do filme de Stone, que dos três aqui citados foi o que arrecadou menos; 173 milhões de dólares contra, respectivamente, 493 milhões e 457 milhões de Tróia e Gladiador. Na verdade, a análise do desempenho do filme é muito mais complexa, pois este obteve críticas até da própria comunidade LGBTs, mas esse também não é o nosso foco nesse artigo.



Antes de entrar no tema, preciso deixar claro que não pretendo afirmar que os antigos gregos e macedônios não exerciam comportamentos homoeróticos, mas sim que esse comportamento precisa ser entendido dentro do contexto social de então e não trazido para nossos dias através de traduções anacrônicas. Estamos conscientes de que os gregos eram diferentes na tolerância e mesmo glorificação de certas formas de hemoerotismo. Portanto, em princípio, nenhuma reserva moral conservadora deveria ser levantada nos cinemas que apresentaram Alexandre, incluindo a relação de amizade lida com frequência como quasi-erótica entre Alexandre e Hefastion, uma vez que em certa medida alguns fatos biográficos foram reportados pelas fontes antigas, todavia, os intensos protestos que se levantaram parecem indicar que o público não especialista se sente confortável sobre os protocolos da antiguidade apenas de forma abstrata, pois quando mostrados na tela ainda emanam desconfortos, especialmente tratando-se de um herói.



Em vista disso, vamos tentar mostrar nesse artigo como o código sexual da antiga Grécia e Macedônia funcionava socialmente. Embora esse comportamento pode ser entendido como sendo comum desde o período arcaico (7º e 6º A.E.C) em territórios tão diversos como Creta e Esparta, vamos focar nosso holofote na cultura Ateniense do 6º ao 4º século, pois é dessa região que possuímos a maior parte das evidências. Fazemos sempre questão de citar a Macedônia ao lado do nome Grécia, pois estamos entre aqueles que aceitam a polêmica étnica existente entre esses dois povos, que até hoje ocasionam disputas judiciais. No entanto, não vamos entrar no mérito desse tema no desenvolvimento do tema atual, assunto que na verdade e tratado em um de nosso artigos nesse site, intitulado a "Questão Macedônica".



Sex_PotteryA primeira coisa que temos que considerar ao comparar a prática do sexo nas culturas Greco-Romanas e nossos dias é que o sexo não era percebido como recíproco e igualitário, com os parceiros buscando dar prazer um ao outro.[RF4] Em vez disso, o sexo refletia a estrutura hierarquizada da sociedade e em todos os encontros pelo menos um dos participantes era um adulto livre em conformidade com o paradigma dominação-submissão no qual o adulto desempenhava o papel de participante ativo penetrando um orificio corporal da outra pessoa, a qual sendo penetrada assumia o papel passivo feminino, não importando o seu sexo, embora a despeito de figuras em vasos sobre jogos obscenos, a sodomia propriamente era um tabu e mesmo nos tendo chegado cenas explicitas em vasos, a posição usual era intercrural, a qual não envolve penetração, popularmente, denominada de "sexo nas coxas". Na figura [RF5] ao lado, um homem e um menino se preparam nessa posição.



Modernamente a preferência sexual é um elemento determinante da sexualidade, constituindo-se de um componente essencial da personalidade, estabelecendo dicotomias de comportamento e para muitas pessoas fixa a moralidade de uma determinada atitude. A ditadura do politicamente correto inclusive determina os termos a serem utilizados e hoje já condena o termo opção sexual em favor do termo orientação sexual, que seria o aceito como politicamente correto. Já os antigos não agiam dessa maneira, no modelo de penetração a sexualidade não é baseada na preferência por um determinado sexo como objeto, mas na noção de gênero ativo/passivo que não correspondem aos gêneros biológicos homem/mulher. Na sociedade ateniense o gênero ativo era compatível com a condição de cidadão masculino e qualquer cidadão masculino ateniense, não importanto a classe social, era igual em sua superioridade para com os outros e essa igualdade era caracterizada por uma absoluta integridade do corpo, não importanto quão pobre o cidadão, ele era fisicamente inviolável. O estupro era hybris, um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento" e que atualmente alude a uma confiança excessiva com frequência termina sendo punido, até com a morte.



Por outro lado a passividade não era relacionada ao sexo, mas imputada a categorias de pessoas, homens ou mulheres os quais eram considerados deficientes. Cidadãs mulheres, escravos, estrangeiros, prostitutos homens, adultos masculinos efeminados e cidadãos mais jovens eram todos considerados inferiores em certo grau. As mulheres eram olhadas como passivas por natureza e não havia qualquer vergonha em sua submissão sexual intrínseca, mas a sua incapacidade putativa de refrear seus desejos sexuais as tornavam naturalmente carentes de custódia masculina imperativa. Os kinaidos, ou homens efeminados que preferiam o papel passivo no sexo, eram objeto de amargo despreso, um desvio moral que quebrava as regras essenciais da masculinidade. Esses aspectos da sociedade Grega antiga são negligenciados quando os movimentos de defesa dos direitos LGBTs, que defendem modernamente leis mais duras contra homofobia, vão buscar exemplos na antiguidade para reverenciar a homossexualidade.



Dentro desse esquema dominação-submissão, os jovens ocupavam um lugar ambíguo. Os corpos nus sarados dos jovens da elite, torneados nos ginásios era a incarnação do ideal de beleza. O desejo por um rapaz entre os quinze e dezoito anos, embora um grau de tolerância fosse aceitável em ambas as extremidades, era portanto, considerado tão normal como o desejo por uma mulher. Homens "normais" deveriam estar interessados em rapazes e mulheres ou, altenativamente, poderiam estar parcialmente por um ou por outro sem que isso fosse considerado uma tendência e sim simplesmente gosto. Devido ao fato dos jovens serem considerados cidadãos inferiores aos adultos somente em virtude de sua idade ou e relativa inexperiência e pelo fato que em apenas mais alguns anos eles assumiriam as posições de seus pais como soldados, chefes de família e membros votantes da assembleia, a comunidade devotava um interesse em seu bem-estar e se preocupava com as possíveis consequências negativas desse relacionamento erótico.



Mesmo que nenhuma lei ateniense determinasse proibição não comercial para o intercurso entre dois cidadãos adultos, vários dispositivos protegiam a castidade dos jovens, proibindo parentes de os prostituírem, regulando acesso à escola e mesmo punindo tais intercursos quando processados pela lei do hybris. Os Gregos também temiam que a imoderada submissão na adolescência pudesse produzir um desejo habitual incontrolável pelo papel passivo. Mas uma vez vemos ai um entendimento sobre comportamento sexual que difere profundamente do que entendemos hoje como homossexualismo. Como muitas famílias tinham preocupações sobre a perniciosa influencia de um amante menos virtuoso, que buscava mais seu próprio prazer do que o bem da sua companhia, a sociedade impunha sobre as relações eróticas entre adultos e jovens um completo conjunto de práticas, direcionadas a distinguir afeição verdadeira de mero impulso carnal. O amor aos rapazes era valorizado, mas também ritualizado, tinha que ser acompanhado de convenções, regras de conduta e obstáculos. Os impulsos naturais eram assim canalizados em um sistema altamente artificial de propriedades, definidos em termos dos especialistas modernos como a instituição do amor-com-rapazes ou paiderastia.



Mais do que a beleza ou fisicultura, supostamente, era o caráter do rapaz, seu potencial para desenvolvimento moral que idealizava o amor no seu admirador. O homem mais velho (erastes - amante) precisava conquistar seu amado (eromenos) através de promesas e súplicas, mas do jovem se espera resistência a esses avanços até o erastes provar seu valor. Uma vez que se tornam amantes, o erastes assume a responsabilidade para treinar seu protegido nas habilidades da mente e corpo servindo como exemplo de excelência. Em uma sociedade de expectativa de vida baixa, o casamento tardio para os homens em seus 30 anos, e com a frequência de guerras, significava que muitos adolescentes já tinham perdido seus pais e tal relacionamento tinha um estilo mentor-mentorado, com o mais velho guiando a transição da juventude para a fase adulta. A pederastia institucionalizada era de fato caracterizada como uma forma de "substituição da paternidade."

Durante o ato sexual que como já dissemos antes poderia não envolver penetração apenas sexo intercrural, o amante tinha que mostrar grande consideração pela reputação do eromenos, agindo com tato e autocontrole. Por seu turno, o jovem, sentia propriamente afeição (philia) pelo seu parceiro, mas não desejo sexual e nem poderia experimentar prazer corporal do ato, pois isso envolveria gosto pelo papel passivo. Na verdade, ele era compelido (charizesthai) a seu mentor ao permitir-lhe liberdades, mas somente por gratidão em troca da instrução. Com o passar do tempo e à medida atingia a maioridade, os aspectos sexuais do relacionamento precisavam cessar, deixando em seu lugar uma amizade para toda a vida. O objetivo comum de ambas as partes era então, idealizadamente, o crescimento em virtudes.

Na prática, a paiderastia era elitizada. Somente os ricos poderiam arcar com ginásios e tomar parte nas festas (symposia) que eram o local de cortejo. na democracia radical ateniense do quinto e início do quarto século A.E.C., atitudes populares contra o costume se endureceram e seus praticantes caíram na defensiva para explicar seus valor para a comunidade. A comédia antiga sempre direcionada para os interesses populares nunca representou a pederastia sob holofotes positivos e algumas mostravam os apologistas da prática como hipócritas nojentos e os rapazes como prostitutos insensíveis. Aconteciam frequentes procedimentos judiciais com acusações de comportamentos corruptores envolvendo jovens. Todavis, se a óbvia hostilidade era mera provocação devido a tensão entre classes ou era baseada em considerações éticas é uma questão em disputa porque a evidência é ambígua.

Deve-se acrescentar ao propósito de iniciação do jovem nos comportamentos e atitudes próprias da elite, a pederastia era uma estratégia de manutenção de privilégios de classe ao contribuir para estabelecer laços sociais que poderiam, por exemplo, serem solidificados através de um pacto de casamento onde o amado em questão esposaria uma mulher parente de seu amante. Apesar de todas as regras dessa instituição, parece difícil imaginar que um laço altruístico seja gerado atraves de uma união motivada, em certo grau, por desejo sexual e auto-interesse. Aristóteles em seu tempo já alertava quanto a isso e negava a justificação de que a pederastia poderia servir ao estado, inclusive encorajando bravura no campo de batalha. Tebas, por exemplo, tinha um batalhão, o chamado batalhão sagrado, que era formado por pares de amantes ou ex-amantes.

É preciso salientar que existem pontos importantes de diferença entre a antiga pederastia e os atuais pares homossexuais. Primeiro, mesmo se a diferença de idades entre o erastes e o eromenos fosse apenas alguns poucos anos, o relacionamento era visto como intergerações. Segundo, os intercursos físicos, geralmente, cessavam uma vez que o parceiro junior atingisse a maturidade, embora saibamos de casais que eram aparentemente ativos sexualmente, através da vida. As peças teatrais frequentemente ridicularizam a manutenção da relação de pederastia além do tempo regular, identificando o fato não só como danoso para a formação proposta, como pela exposição ao risco de criar um efeminado (kinaidos).

A mais séria divergência entre a ideia contemporânea de relações masculinas do mesmo sexo e a pederastia grega é que a última não estabelece a exclusiva preferência sexual. Os homens gays de hoje, como regra, não mantém envolvimentos heterossexuais simultaneamente com sua homossexualidade, embora reconheçamos a existência da bissexualidade como uma orientação sexual, mas com uma participação minoritária. Os antigos reconheciam a eventual preferência sexual por membros do mesmo sexo, mas impunham sobre o homem chefe de família a obrigação de gerar filhos, não importanto suas inclinações. O sexo como recreação não reprodutiva era uma escolha, mas o casamento era uma obrigação e dever familiar que se esperava fosse cumprido pelos homens.

Parece claro, pelo exposto acima, que a transferência dos conceitos de sexualidade grega transcritos para os dias de hoje não se encaixam nos conceitos modernos de homossexualidade e é preiso muito cuidado com interpretações como a que vamos agora nos ocupar: a transferência equivocada de conceitos homossexuais modernos para as atitudes de Alexandre, O Grande.

ALEXANDRE VISTO POR OLIVER STONE


A razão de darmos esse sub-título a essa parte do artigo deve-se à enorme influência que o personagem Alexandre espelhado na película de Stone tem sobre a percepção das pessoas em relação à personalidade real de Alexandre, principalmente, porque Stone fez a heterossexualidade de Alexandre parecer mais tênue do que realmente foi. Evidentemente, esse não é um trabalho ao longo do tempo, apenas de Oliver Stone, pois ele valeu-se de escritores modernos que enfatizaram, a partir de relatos de relacionamentos homoeróticos de Alexandre mencionados nas fontes primárias, estes sim tênues, a suposta homossexualidade de Alexandre. Dentre estes, como citamos acima, a escritora inglesa Mary Renault e Robin lane Fox, seu consultor para essa película.

hefastion_JaredLetoA mais referenciada, inclusive acolhendo fãs em grupos de discussão na Internet que configuram praticamente um culto, principalmente em função do filme, é a suposta relação homoerótica entre Alexandre e Hefastion, que por sinal é a mais tênue historicamente, mas bastante explorada no filme através do ator Jared Leto com seus robes de seda e olhos maquiados, no papel de Hefastion. As referências sobre Hefastion nas fontes históricas primárias são muito escassas, a despeito dele ter sido quiliarca [NT1] e amicorum carissimus de Alexandre e de ter sido mencionado nessas fontes pelo menos tão frequentemente quanto os generais que o sobreviveram para lutar pelo espólio de Alexandre. Mesmo em produções artísticas anteriores Hefastion foi totalmente esquecido, como na versão cinematográfica de 1957 de Alexandre, dirigida por Robert Rossen, protagonizada por Richard Burton e na série para a TV em 1964, de William Shatner. Hefastion só aparece em alguns romances de ficção e na obra de Stone onde então a bissexualidade de Alexandre é relatada. Parece então, que ele só surge em versões populares que exploram a questão das preferências sexuais de Alexandre, que negligenciam o fato de que ele foi um general do exército macedônico e desempenhou várias missões a mando do próprio Alexandre, sejam de combate ou diplomáticas.

A amizade de Hefastion com Alexandre tem sido apontada como a causa de sua ascensão na corte e alguns autores chegam a citar nepotismo, mas Hefastion não era um parente, cresceu sim com Alexandre, mas possuia habilidades e foi treinado com Alexandre sendo provavelmente um dos amigos, que com Alexandre, estudaram sob a orientação de Aristóteles em Mieza. Ele começou sua carreira como um dos pagens de Felipe II, pai de Alexandre, e em algum momento se tornou um companheiro (syntrophos) do príncipe. Ele se mostrou um melhor logístico e diplomata do que estrategista de combate militar e Curtius (3.12.16) [RF6] afirma que ele era o conselheiro do rei o que pode sugerir mais cérebro do que músculos.

 

Nenhum dos biógrafos existentes de Alexandre, gregos ou romanos, jamais se referiram a Hefastion como nada além de amigo de Alexandre, conforme o epiteto que o próprio Alexandre dedicou em seu túmulo, philalexandros (amigo de Alexandre). O uso do termo eromenos ou insinuações que existia algo mais em sua relação, é posterior e fictício. Até mesmo a angústia de Alexandre após a sua morte não pode ser considerada como sinal de relacionamento homoerótico a menos que alguém queira insistir que um sofrimento dessa natureza só possa ser fundamentado em sexo. Portanto, insinuações séculos depois não são exatas e devem ser encaradas com as mesmas suspeitas que as distorções das modernas discussões sobre se Alexandre seria gay.

O outro relacionamento apontado para classificar Alexandre como homossexual é mais repulsivo em termos da sensibilidade moderna. Trata-se da conexão de Alexandre com o eunuco Bagoas. Aliás, esse relacionamento foi de certa forma, na versão liberada para os cinemas do filme de Stone, mostrado de forma bastante sutil. Apenas na versão revista, corte final do diretor, três anos após o lançamento do filme, Stone ousou liberar em DVD as cenas de sexo com Bagoas. Sendo sob certo aspecto, nos padrões antigos, inferior a Alexandre, um oriental estrangeiro de uma população subjugada, um adolescente e acima de tudo eunuco, castrado para preservar a beleza de sua juventude, Bagoas se encaixa perfeitamente como parceiro passivo no esquema dominação-submissão. Não havia teoricamente nada errado com a situação de acordo com os protocolos gregos embora os macedônios ridicularizavam os sentimentos de Alexandre para com o eunuco e exibiam desprezo pela sua fascinação com criatura oriental tão exótica. Sobre o crescimento do mito envolvendo o relacionamento entre Alexandre e Bagoas dedicaremos um novo artigo visto que o assunto tem outras implicações.

A conclusão que chegamos é que não podemos negar, que de acordo com a cultura grega e macedônica de sua época, Alexandre possa ter tido relacionamentos físicos com outros homens, mas dai classificar sua condição em termos do moderno termo homossexual é não só ridículo como extremamente anacrônico. [NT2]


Ler também: A Absurda Teoria Queer 

 

Referências e Notas:


 

Referências: Referência em inglês correspondem às obras consultadas nesse idioma e que eventualmente poderão ter edições em português.

Lane Fox, Robin. 1973 - 2004. Alexander the Great, New York, Penguin Books. retorne ao texto.

The Alexander Romance, Ernst Badian, 19 Set 1974, The New York Review of Books. retorne ao texto.

Renault, M. 1974. The Persian Boy. Harmondsworth: Penguin Books. retorne ao texto.

Responses to Oliver Stone’s Alexander : film, history, and cultural studies / edited by Paul Cartledge and Fiona Rose Greenland. retorne ao texto.

Figura R520 Greek Homosexuality, K. J. Dover, Harvard Universe Press, 1989. retorne ao texto.

Quintus Curtius Rufus The History Of Alexander, Penguin Classics,2001. retorne ao texto.


 

NOTAS:

Nota1: Quiliarca. Palavra de origem grega que tem diferentes significados. En primeiro lugar, o quiliarca era o comandante de uma tropa de mil homens, também chamada quiliarquía. Tanto na Pérsa como na Macedônia se deu este título ao personagem de maior trascendência política depois do soberano. Por último, no exército grego moderno este título se equivale ao posto de coronel. retorne ao texto.

Nota 2: Compomos parte do nosso texto com traduções seletivas de vários "quotes" de Responses to Oliver Stone’s Alexander : film, history, and cultural studies / edited by Paul Cartledge and Fiona Rose Greenland. retorne ao texto.

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