Energia Nuclear - Parte 3 - Angra 3 PDF Imprimir E-mail
 

Mário Porto

Com o anúncio pelo governo da retomada das obras de Angra 3 também é hora de publicarmos a continuação do Artigo Energia Nuclear, escrito nos anos 1999-2002, incluindo nele a Parte 3 que trata, exclusivamente, desta iniciativa seus prós, contras e dificuldades.

Não achamos que o caminho será tranqüilo para os defensores da energia nuclear no Brasil como apregoa o assessor de Comercialização de Energia da Eletronuclear, Sérgio Matias, ao afirmar que as obras de fundação devem ficar prontas em fevereiro de 2009, e a previsão é que a usina entre em operação em 2014 e a licença prévia do Ibama saia ainda em junho de 2008.

Sérgio Matias de forma bastante otimista informou ainda que está prevista a construção de, pelo menos, mais quatro usinas nucleares no país, até 2030, sendo que duas seriam no Nordeste e as outras duas no Sudeste. Ele minimiza o problema dos depósitos de rejeitos afirmando que, as usinas de Angra têm todas as condições de armazenamentos desses rejeitos radioativos.

As coisas não são e não deveriam ser colocadas de forma tão simples e pensando assim o Ministério Público Federal entrou em março de 2007 com uma Ação Civil Pública na Vara Federal de Angra dos Reis objetivando instalar, em até dois anos, um depósito definitivo de rejeitos radioativos do lixo atômico das usinas nucleares.

Segundo o procurador André de Vasconcelos Dias autor da ação:

"Enquanto o lixo atômico é amontoado em depósitos iniciais e não se providencia a solução definitiva para sua deposição, põem-se em estado de risco permanente a saúde e a segurança das pessoas e a preservação do meio ambiente, considerando a alta periculosidade dos rejeitos radioativos", diz o procurador André de Vasconcelos Dias. "A seleção do local desse depósito tem sido adiada por razões políticas, para evitar o desgaste junto às populações prejudicadas."


Em junho de 2002, a CNEN e a Eletronuclear fizeram um acordo para implantar um depósito final, previsto para até o fim de 2007. Até hoje, porém, não foi sequer escolhido o local para o reservatório. Por sua vez, a União não tem disponibilizado as verbas necessárias para a construção do depósito definitivo.


"Quem cria o perigo é responsável por ele. Se o Estado brasileiro pretende produzir energia termonuclear, deve arcar com o passivo atômico. E a posição do governo federal é ainda contraditória, pois, ao mesmo tempo em que cogita a construção de Angra III, nada faz para minimizar os riscos de um acidente nuclear, cujos efeitos seriam catastróficos", diz o procurador

Posição semelhante aparece no Congresso Nacional onde o Deputado Antônio Carlos Mendes Thame propôs o PROJETO DE LEI Nº 4.709, DE 2004 que dispõe sobre a proibição da construção de novas usinas nucleares até o término da construção do depósito definitivo de rejeitos radioativos.

Estariam os representantes destas duas importantes instituições exagerando?

Vamos mostrar que definitivamente NÃO em que pese as pífias respostas da Eletronuclear e da CNEN. Uma afirma que "Impedir a Eletronuclear de erguer mais depósitos iniciais de rejeitos enquanto não houver um depósito final através da ação impetrada pelo MPF, seria totalmente incoerente com a busca de segurança para a população e para o meio ambiente" e a outra aparece com uma resposta que fere a nossa inteligência ao afirmar que não existe qualquer problema com a promiscuidade entre as funções de promover e fiscalizar a energia nuclear ao coexistirem dentro do mesmo orgão. È ainda o restício militarista que impregnou a CNEN e do qual ela ainda não se livrou.

A ação do MPF atende perfeitamente ao bom senso e à segurança da população e gostaria de invocar o exemplo dos E.U.A, país pioneiro na utilização da energia nuclear e com sólidas instituições independentes de fiscalização. Estou me referindo ao projeto de Yucca Mountain que pretende ser o primeiro repositório definitivo de rejeitos nucleares naquele país.

Este projeto vem sendo discutido e implementado desde 1954 na alvorada da era nuclear e até agora, em 2008, cinqüenta e quatro anos depois, não existe uma licensa emitida e a data para entrada em operação (chegada do primeiro carregamento) está prevista, especulativamente, para 2017 e vem sendo adiada nos últimos 10 anos.

Algumas das perguntas que têm de ser respondidas são:

Seremos mais eficazes que os norte-americanos que tem razões ainda maiores para apressar este projeto devido à quantidade enorme de rejeitos nucleares civis e militares?

Temos recursos para implantar uma política nuclear que leve em conta todos os aspectos inerentes a esta opção energética?

Até 2002, somente com os estudos dos cientistas americanos, foram gastos cerca de US$ 5 bilhões e esta quantia e esforço ainda não foram capazes de determinar se o repositório de Yucca Mountain poderia efetivamente isolar os rejeitos altamente radioativos através de 250.000 anos durante os quais eles permanecem perigosamente radioativos.

Enquanto isso, por aqui, a Eletronuclear apresenta um Relatório de Impacto Ambiental - RIMA da Unidade 3 da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto que é um documento, ridiculamente, pobre e que pelo grau de minimização de importância conferido pela empresa poderia ter sido escrito por um estudante secundarista. Em um determinado trecho no qual descreve a questão dos rejeitos afirma:

Os rejeitos sólidos radioativos que serão produzidos na Unidade 3 da CNAAA necessitarão de um processo de gerenciamento, inclusive após a sua disposição final, que acarretará na necessidade de ocupação de espaço físico (repositório final), recursos humanos e financeiros. É importante frisar que, a partir do encaminhamento dos rejeitos radioativos para o depósito final, o gerenciamento fica a cargo da Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN. O repositório final, ou depósito final, até o presente momento, não foi construído. O projeto encontra-se em fase de definição do local para a sua instalação.

É com esta seriedade que pretendem levar a questão nuclear ignorando o senso crítico mínimo da sociedade brasileira e nos assemelhando a "boi de piranha."

Não somos, definitivamente, contra a energia nuclear, mas somos contra a implantação de uma política nuclear irresponsável dotada daquele inefável jeitinho brasileiro que acaba transformando o provisório em definitivo por força de lei, somos contra uma política nuclear do faz de conta como este RIMA e que brinca com a segurança da sociedade brasileira presente e futura.

Esperamos com afinco que a justiça ofereça guarida à ação do MPF e que os congressistas encontrem uma maneira de barrar esta aventura até que ela esteja pautada em parâmetros seguros e que igualmente evite também o seu direcionamento para a ridícula pretensão da Marinha de operar Submarinos Nucleares.

Com relação à recente polêmica sobre custos de Angra 3 levantadas em função de um documento publicado pela organização Greenpeace eu prefiro, a menos de algumas considerações que farei a seguir, ficar com os cálculos da Eletronuclear que agrega aos R$ 1,5 bilhões já contabilizados desde 1984 o custo total de mais R$ 7,2 bilhões. Isto porque a organização Greenpeace não é parâmetro de seriedade para discutir esta questão. Pois as paixões e os direcionamentos tendenciosos com os quais impregnam seus estudos não a credenciam com a credibilidade necessária para ser levada em consideração.

O que a Eletronuclear não fala, mas sabe que enfrentará são as dificuldades durante a construção e que certamente atrasarão a obra e elevarão seus custos. São atrasos motivados pelo despreparo e requalificações necessárias no conjunto das especialidades necessárias ao empreendimento nuclear e que se desqualificam ou perdem a validade com a falta de continuidade desta indústria.

Durante a montagem de Angra 2, nos primeiros 6 meses, praticamente, não se produziu na montagem de tubulações. Foram necessários esforços junto a sindicatos profissionais para requalificar pessoal em tecnologia de soldagem. Certamente qualificações serão necessárias na construção civil e montagem do vaso de contenção que antecedem a montagem de tubulação, elétrica e de componentes.

Portanto, os 66 meses previstos correspondem a uma estimativa otimista que não condiz com a realidade do próprio empreendimento, lembrando ainda que a montagem de Angra 2 iniciou-se numa condição de completeza da construção civil acima do normal devido aos constantes adiamentos da montagem por restrições orçamentárias. Isto diminuiu as interfaces o que permitiria uma avanço mais célere da montagem, mas mesmo assim pelos problemas citados acima esta só deslanchou praticamente um ano após o início.

Assim ao final de 1997, 18 meses após o início da montagem o consórcio montador alegava desequilíbrio econômico-financeiro dos contratos e pleiteava custos adicionais que deveriam ser ressarcidos pela Eletronuclear visando restabelecer aquele equilíbrio.

As mesmas dificuldades alegadas sobre revisões do projeto executivo, fornecimento de desenhos, recebimento e estocagem de materiais, dificuldades no sistema de gerenciamento da Eletronuclear, duvidas de projeto não vão deixar de existir, pois embora Angra 3 seja uma unidade do mesmo tipo de Angra 2 muita coisa do projeto será alterada para acompanhar o estado da arte devido ao enorme período decorrido entre a construção das duas. Unidades. Arrisco a dizer que a instrumentação e sistemas de controle de Angra 3 serão consideravelmente diferentes dos de Angra 2.


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Leia também: Minc X Cnen - Despreparo Nuclear

Sobre Depósito Finais de Rejeitos Nucleares leia: O Veneno do Corporativismo

Leia também Submarinos Nucleares: Descomissionamento.

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