Energia Nuclear Parte 5a - Aceitação Pública PDF Imprimir E-mail

Mário Porto

Sumário:

Nesse artigo divido em três partes vamos abordar a Aceitação Pública da Energia Nuclear enfocando sobre três aspectos básicos: Radiação, O que é quais os verdadeiros riscos — O Problema da Fusão de Núcleos, desmistificando a famosa Síndrome da China — e a questão dos Repositórios Finais de Rejeitos de Alta Radioatividade que está longe de ser um problema técnico sem solução, sendo na verdade, um problema político de difícil solução. Este é o primeiro dessa série de três artigos cuja finalidade principal não é eximir a indústria nuclear de qualquer risco inerente a todas atividade humana, mas colocar os riscos na perspectiva correta sem paixões e exageros.

Introdução

A energia nuclear sempre, desde seu nacedouro, carrega o estigma de ser ligada às armas nucleares fato que nunca favoreceu seu conceito e aceitação no público em geral. O aspecto dos rejeitos sempre mereceu um especial preocupação do público que na maioria das vezes responde à ideia de ter instalações de rejeitos nucleares de alta radioatividade (HLNW) localizado próximo às suas comunidades ou no seu estado com temor, desagrado e forte oposição. Essa tem sido a experiência internacional e não é diferente no Brasil. Apenas algumas comunidades, usualmente aquelas historicamente associadas com outras instalações nucleares tais como centrais nucleares ou instalações militares, têm mostrado concordância em hospedar um repositório próximo. Em toda a parte a população considera o rejeito radioativo o menos aceitável dos rejeitos perigosos.

Essa rejeição do público para o HLNW se tornou tão profunda que a mera associação da uma instalação de HLNW com um local é suficiente para gerar imagens extremamente negativas na mente dos residentes locais e visitantes, criando uma forma de estigma que tem importantes consequencias social e econômica. Este estigma acaba por reduzir a atratividade da comunidade e o valor dos imóveis.

Essas preocupações sociais e econômicas são compostas por um profundo e crescente descrédito nas instituições governamentais e na indústria nuclear e em dúvidas sobre suas reais habilidades de administrar grandes programas nucleares com segurança e eficiência. Os registros passados não inspiram confiança nem as ações anteriores no tratamento das preocupações e oposições políticas do público. As respostas para eventos tais como vazamentos ou eventuais incidentes têm minado a confiança do público tanto no Brasil como na longa história no exterior, mormente nos E.U.A. A confiança nas agências e na indústria nuclear tem progressivamente perdido suporte ao longo dos anos e seguramente não será fácil recuperar o nível de confiança necessário para se ter sucesso e tranquilidade para se instalar e operar um depósito de HLNW.

Ao mesmo tempo admissões de falhas nas análises de segurança aumentaram o ceticismo público na muitas vezes apaixonadas reafirmações de confiânça dos especialistas na tecnologia nuclear. Alguns cientistas e especialistas técnicos se desenvolveram nos movimentos anti-nucleares, mas a grande maioria dos especialistas continua alinhado com as agências governamentais e com a indústria nuclear. Esses reconhecimentos de falhas reforçaram a determinação do público em obterr mais controle sobre o processo de decisão e sobre o processo político. A preocupação do público é particularmente marcante na questão dos rejeitos de alta radioatividade, não somente porque os HLNW estão envolvidos, mas porque seu armazenamento deve ser gerenciado durante um longo período o que se constitui num desafio sem precedentes na experiência humana e intensifica o temor público instigado pelos fracassos passados.

Nesse momento é interessante demonstrar como a abordagem equivocada com o público tornou exagerada a avaliação sobre os riscos envolvidos na indústria nuclear no seio desse mesmo público. Segundo declarações do professor Bernard Cohen, da Universidade de Pitsburg, em 17 anos de pesquisa e ensino sobre o impacto da energia nuclear na saúde e no meio ambiente ele se viu constantemente decepcionado pela enorme falta de entendimento do público. Segundo ele, o mais importante dos desconhecimentos refere-se aos perigos da radiação. O público enxerga a radiação como algo extremamente misterioso, bastante complexo e parcamente entendido. Na verdade, é um dos mais simples e melhor compreendidos de todos as agentes ambientais, muito mais entendido, por exemplo, do que as ações biológicas dos dióxido sulfúrico, óxidos do nitrogênio ou muitos outros agentes químicos.

Outro importante mal entendido é relativo ao perigo oriundo de acidentes com fusão do núcleo do reator. Muitas pessoas enxergam esse acidente como o desastre final, imaginando dezenas de milhares de corpos mortos lançados sobre a paisagem próxima ao reator, algo que se poderia esperar de um ataque de bombas nucleares. Na verdade, é impossível que a fusão do núcleo de um reator cause qualquer coisa próxima a esse quadro de desastre. Mortes entre o público decorrentes de um acidente de fusão seriam similares àquelas causadas pela poluição do ar devido à queima do carvão. Seriam predominantes entre os idosos e somente muito raramente elas seriam reconhecidas como relacionadas com o acidente. A maior diferença em relação à analogia da poluição do ar é que seriam apenas uma minúscula fração das muitas mortes. Para o número de mortes causadas por acidentes de fusão do núcleo ser igual ao número causado pela poluição do ar nos EUA devido à queima do carvão, teríamos que ter um acidente em algum lugar do E.U.A. a cada poucos dias! Porém, após mais de 50 anos da energia nuclear naquele país ainda não tivemos o primeiro destes acidentes. Lembrando que o acidente ocorrido na Ucrânia em 1986, em um reator do tipo RBMK, não poderiam acontecer nos tipos de reatores utilizados no E.U.A., Europa e mesmo no Brasil devido às diferenças fundamentais no conceito do projeto que não vamos detalhar nesta primeira parte desse artigo, voltando a abordá-las na segunda parte que será publicada a seguir.

O terceiro principal mal entendido resulta da falha do público em quantificar os riscos e colocá-los em perspectiva com outros riscos. É necessário que o público enxergue os riscos da energia nuclear expressos, por exemplo, em termos de cigarros extra consumidos por um fumante regular, extra peso ganho por uma pessoa acima do peso ou a ação de dirigir um carro pequeno em comparação a dirigir um carro médio. Precisamos também olhar a questão do custo-benefício das medidas de salvaguarda da vida, comparando o número de mortes que estão sendo evitadas pelo investimento de uma certa quantidade de recursos para melhorar a segurança dos reatores e dos rejeitos radioativos da indústria nuclear com o número que poderia ser evitado investindo-se dinheiro em diagnóstico médico por imagens ou segurança nas auto-estradas ou mesmo reduzindo a exposição natural por radônio em nossos lares. Os resultados são surpreendentes.

O quarto principal mal entendido está relacionado com os danos causados pelos rejeitos radioativos. A maioria do público enxerga isso como um problema sem solução, com terríveis consequências, uma distinguida possibilidade se não for resolvido o problema de forma satisfatória. Na verdade, esse é um problema tecnológico trivial, e pode ser mostrado de que os riscos para a saúde são triviais se comparados com aqueles devidos aos rejeitos da queima de combustíveis fósseis.

Alguns outros mal entendidos da energia nuclear têm recebido atenção recentemente, os danos do plutônio e o possível papel do plutônio da indústria nuclear na fabricação de bombas por terroristas ou por nações não detentoras de armas nucleares e não submissas aos controles da Agência Internacional de Energia Atômica - AIEA.

Infelizmente, algumas das discussões aqui apresentadas são bastante técnicas e um dos grandes erros dos dirigentes nucleares, no níveis de governo e indústria, foi exatamente não se esforçarem em trazer esse debate de uma maneira simples para o grande público, com isso alimentaram o mistério e criaram a sua caixa de Pandora povoada de demônios que foram fermentados pelo imaginário popular. O mais curioso é que essa caixa se voltou contra eles mesmos na medida em que o público se organizou e fortaleceu-se na desinformação criando entraves para a indústria nuclear como o recente episódio do fechamento do projeto de repositório definitivo de Yucca Mountain, no Estado de Nevada, nos EUA.

Vamos tentar aqui, com a ajuda de Bernard Cohen, tentar fazer o melhor para explicar a fraqueza de alguns desses demônios.

Quais os Perigos da Radiação?

A mais importante consideração no entendimento público da energia nuclear é o conceito de perigo da radiação. O que é radiação e quão perigosa ele é?

A radiação consiste em vários tipos de partículas subatômicas, principalmente aquelas denominadas de raios gama, neutrons, elétrons e partículas alfa que se lançam através do espaço a velocidades muito elevadas, algo como 180.000 quilômetros por segundo. Elas podem facilmente penetrar bem fundo no corpo humano, danificando algumas das células biológicas das quais o corpo é composto. Esse dano pode causar o desenvolvimento de um câncer fatal ou se ocorrer em células reprodutivas, pode causar defeitos genéticos nas futuras gerações da vítima. Quando explicado dessa maneira, o perigo da radiação parece ser bastante grave e uma pessoa ser atingida por uma partícula de radiação parece ser um evento extremamente sério. Assim também parece ser na descrição a seguir encontrada naquele que talvez seja o livro mais influente dos oponentes da energia nuclear.

Quando uma dessa partículas ou raios encontram algum material, ela colide violentamente com átomos e moléculas em seu caminho....No delicado balanço econômico de uma célula, esta súbita ruptura pode ser desastrosa. A célula individual pode morrer; ela pode se recuperar, mas se recuperar-se, após passadas algumas semanas, meses ou anos, ela pode começar a se proliferar selvagemente no crescimento incontrolado que denominamos câncer.
Mas antes de derramarmos muitas lágrimas para o pobre companheiro que foi atingido por estas partículas, devemos deixar claro que cada pessoa nesse mundo é atingido por cerca de 15.000 dessas partículas de radiação a cada segundo de sua vida e isso é verdade para cada pessoa que já viveu e para cada pessoa que ainda vai viver. Estas partículas, totalizando 500 bilhões por ano ou 40 trilhões em uma existência, são de fontes naturais. Somando-se a esse número nossa tecnologia introduziu novas fontes de radiação tais como raios X médicos - um típico exame de raios-X nos bombardeia com mais de um trilhão de partículas de radiação.

Com toda essa exposição à radiação como é que não estamos todos morrendo de câncer? A resposta para essa pergunta não está na quantidade de partículas para causar o câncer. Conforme sabemos, cada uma delas têm esse potencial; e como frequentemente se diz, "nenhum nível de radiação é perfeitamente seguro" O que nos salva, é que a probabilidade de uma dessas partículas causar câncer é muito baixa, cerca de 1 em 30 quadrilhões (30x1015)! Toda vez que uma partícula de radiação nos atinge nos engajamos em um jogo fatal de oportunidades para aquele destino. Entretanto, isto não é privilégio da radiação; estamos engajados em inúmeros jogos similares envolvendo processos químicos, físicos e biológicos que podem conduzir a alguma forma de doença humana e este jogo envolvendo a radiação nos dá chances bem mais favoráveis do que a maioria dos outros jogos. Somente 1% dos cânceres humanos fatais são causados pelas 30 trilhões de partículas de radiação que nos atingem em nossas vidas (esta estimativa não inclui os efeitos da radiação por radônio a ser discutida separadamente), enquanto os outros 99% são de perdas em algum desses outros jogos.

Naturalmente, cada partícula extra que nos atinge aumenta nosso risco de câncer a ponto de algumas pessoas acham que devem fazer alguma coisa para evitar radiação extra. Se esta é a sua atitude, existem muitas coisas que você pode fazer. Você pode reduzí-la 10% morando em casas de madeira ao invés de tijolo e pedra, porque tijolos e pedras contém mais material radioativo como urânio, tório e potássio. Você pode reduzir a radiação em 20% construindo um escudo de chumbo ao redor de sua cama para reduzir o número de choques enquanto você dorme, ou você pode reduzir pela metade vestindo roupas fabricadas com chumbo como as coberturas que você veste quando vai ao dentista e se submete a um exame de raios-X.

É claro que a maioria das pessoas não se importa com essas coisas. Ao invés disso, elas reconhecem que viver é correr riscos. Cada vez que você come um determinado alimento pode existir uma química que inicialize um câncer, mas mesmo assim as pessoas continuam comendo, mais do que o necessário na maioria dos casos. Cada passeio ou caminhada que fazemos elas podem terminar em um acidente fatal, mas isso não nos inibe de passear e caminhar. Similarmente, a atitude que a maioria de nos toma é não se preocupar sobre radiação extra, afinal uma chance em 30 quadrilhões é uma aposta muito boa. A moral dessa história é que os danos da radiação precisam ser tratados quantitativamente. Se nos fixarmos apenas em razões qualitativas, podemos concluir facilmente que a energia nuclear é ruim — ela conduz à exposição da radiação que pode causar câncer. O problema com esta abordagem é que com um mesmo tipo de argumentação qualitativa, qualquer coisa que fazemos pode ser danoso: a queima de carvão ou óleo causam poluição do ar a qual mata pessoas, assim a queima de carvão e óleo e ruim; o uso de gás natural conduz a explosões as quais matam pessoas, assim a queima de gás é ruim; e assim por diante. Qualquer discussão sobre perigos da radiação deve incluir números; de outra forma pode ser completamente decepcionante como a passagem acima exposta sobre a tragédia de ser atingido por uma única partícula de radiação. Mas com qual frequencia a histórias que ouvimos sobre radiação incluem números?

Apresentamos o Milirem

De maneira a discutir a exposição de radiação quantitativamente, precisamos introduzir uma unidade associada com essa medida, chamada milirem, abreviado mrem. Um milirem de exposição corresponde a ser atingido por aproximadamente 7 bilhões de partículas de radiação, mas isso leva em conta variações nos riscos de saúde com cada tipo de partícula e o tamanho da pessoa. por exemplo, uma pessoa adulta grande e uma pequena criança se colocando lado a lado em um campo de radiação sofreriam a grosso modo o mesmo risco de câncer e assim receberiam a mesma dose em milirems, embora o adulto seria atingido por muito mais partículas de radiação sendo um alvo maior. Em praticamente todas as nossas discussões sobre radiação estaremos considerando doses abaixo de 10.000 mrems, o qual é comummente referido como baixo nível de radiação.

Frequentemente ouvimos histórias sobre incidentes nos quais o público é exposto à radiação; material radioativo caindo de um transporte; água contaminada vazada de um tanque ou brotando de um terreno de rejeitos enterrados; fonte radioativa usada para inspeção de material sendo temporariamente mal armazenada; mal funcionamento em plantas nucleares levando a liberações de radioatividade e assim por diante. Talvez uma centena dessas histórias nos últimos 50 anos têm recebido cobertura nacional de televisão no Brasil e nos E.U.A. Se você parar para pesquisar raramente nessas histórias a exposição da radiação em milirems foi divulgada.

Ocasionalmente aparece em uma revista técnica ou as autoridade de saúde informam. Em muito poucas ocasiões a exposição foi superior a 5-10 mrem, mas na maioria das vezes foi menor do que 1 mrem. No acidente de Three Mile Island, as exposições médias nas vizinhanças da área foram 1.2 mrem — isto gerou a manchete de uma só palavra "RADIAÇÃO" em um jornal de Boston. No suposto vazamento de radiação de um terreno de aterro de rejeitos de baixo nível de radioatividade perto de Moorhead, no Estado de Kentucky, não aconteceram exposições maiores do que 0,1 mrem; todavia isto foi matéria de uma série de reportagens em três partes em um jornal da Philadelphia ostentando cabeçalhos "Está derramado por todos os EUA", " Túmulo Nuclear Aterroriza KY" e "Não Existe Local para Abrigo". Em um largamente veiculado vazamento de uma usina nuclear perto de Rochester, New York, em 1982, nenhum membro do público foi exposto a mais do que 0,3 mrem. Todavia foi a notícia de ponta nos jornais da noite em uma rede de TV, por dois dias.

Para propósitos dessa discussão, vamos considerar como exposição típica nestes incidentes de altissima publicidade, a medida de 1 mrem. Mereceriam realmente esses incidentes essa publicidade? Quão perigosa é uma radiação de 1 mrem?

Talvez a melhor maneira de entender isto é comparar com a radiação natural — as 15.000 partículas de fontes naturais que nos atingem a cada segundo através da vida. Somos constantemente bombardeados de cima por raios cósmicos que chovem sobre nós do espaço exterior, nos atingindo com 30 mrems por ano; por baixo a partir de materiais radioativos como urânio, potássio e tório no subsolo — 20 mrems/ano; de todos os lados das paredes de nossas construções (ladrilho, granito e cimento) — 10 mrems/ano (esses são dados dos E.U.A. No Brasil apenas recentemente começamos a nos preocupar com essa origem de radiação e não existem ainda muitos dados); de dentro, devido à radioatividade em nossos corpos (principalmente devido ao potássio) — 25 mrem/ano. Tudo isso combinado nos dá uma dose de cerca de 85 mrems por ano de fontes naturais, ou 1 mrem a cada 4 dias. Assim, a exposição à radiação nos altamente noticiados incidentes não são mais do que a média que uma pessoa recebe a cada poucos dias dessas fontes naturais.

Mas você poderia dizer, a radiação extra é aquela com a qual devemos nos preocupar, não há nada que possamos fazer contra a radiação natural. Não é verdade. Os números apresentados acima são médias nacionais, mas existe uma ampla variação. Em regiões aonde o conteúdo de urânio no solo é diferencialmente maior e nas quais a altitude reduz a quantidade de ar acima de nós, agindo como um escudo contra os raios cósmicos a radiação natural pode ser o dobro da média nacional. Em outros locais em que essas condições não existam a radiação natural pode ser 15% a 20% menor do que a média nacional. Assim, a exposição de radiação nesses incidentes largamente nocitiados é mais ou menos igual à radiação extra que você obtém se se gastar 5 dias em um desses locais mais afetados. Nos EUA os estados nos quais essas condições se apresentam são, por exemplo, o Colorado e os outros estados das Montanhas Rochosas (Wyoming, New Mexico, Utah) e sobre eles iremos fazer algumas considerações.

É claro que milhões de pessoas passam a vida inteira no Colorado e acontece que a taxa de câncer nesse estado é 35% menor do que a média nacional. Leucemia, provavelmente o câncer mais típico da radiação, ocorre a apenas 86% da média nacional no Colorado e a 61% dessa taxa nos outros estado supostamente de elevada radiação nas Montanhas Rochosas. Esta é uma demonstração clara de que a radiação não é a causa mais importante de câncer. (lembremos da estimativa anterior de que o Radônio é responsável por 1% dos casos de câncer fatal nos E.U.A.

Diagnósticos por raios-X são nossa segunda grande fonte de exposição do corpo inteiro. Um raio-X dentário nos dá aproximadamente 1 mrem, e um raio_X de tórax n os dá cerca de 6 mrems, mas quase todos os outros raios-X fornecem exposições mais altas; pélvis, 90 mrem; abdômen, 150 mrem; coluna vertebral, 400 mrem; enema bárico, 800 mrem. Muitas vezes uma série de raios-x é tomada fornecendo uma exposição de vários milhares de milirems. Um americano médio recebe cerca de 80 mrem por ano dessa fonte, 80 vezes a exposição nos altamente noticiados incidentes de radiação. De novo, o diagnóstico por raios-X não é inevitável — muito pode ser feito para reduzir essa fonte substancialmente sem compromisso da eficácia médica e grande número de raios-X são tirados apenas para proteger médicos e hospitais contra processos legais.

Existem várias fontes triviais de radiação de corpo inteiro que nos oferecem cerca de 1 mrem: um ano em média assistindo TV, a partir dos raios-X emitidos pelos tubos de TV; um ano usando um relógio florescente, uma vez que a luminosidade é proveniente de materiais radioativos; um vôo de avião entre distâncias continentais, porque a alta altitude expõe a um aumento de raios cósmicos recebidos. Cada uma dessas atividades envolve cerca da mesma quantidade de exposição de radiação que os altamente noticiados incidentes anteriores.

Todas as fontes acima listadas bombardeiam todos os órgãos de nosso corpo, mas a mais importante exposição de radiação é o gás radônio em nossas casas, o qual somente irradia nossos pulmões causando câncer de pulmão. Isso nos dá um risco de câncer igual àquele de expor os órgão de nosso corpo a 200 mrem por ano (volto a frisar, dados dos E.U.A). Em alguns estado americanos como o Colorado e Iowa, o nível médio é 3 vezes essa média, cerca de 600 mrem por ano. Várias outras áreas americanas são reportadas como tendo igualmente elevadas níveis de radônio. As exposições à radiação naqueles acidentes altamente reportados são assim consideravelmente menores do que aquelas recebidas pelas pessoas dessas áreas todos os dias. Uma dessas áreas é a Pensilvânia que inclui a região ao redor da planta de Three Mile Island; as pessoas que vivem perto daquela área recebem mais exposição à radiação oriunda do radônio nas suas casas todos os dias do que receberam do acidente de 1979. Dentro de qualquer área existe uma larga variação no níveis de radônio de casa para casa. Em dados de 1990, cerca de 5% dos americanos, 12 milhões de pessoas, recebiam mais de 1.000 mrem por ano e talvez 2 milhões de americanos recebiam acima de 2.000 mrem por ano do radônio. Em algumas casas, a exposição foi medida como sendo mais alta do que 500.000 mrem por ano. Então quão perigoso é 1 mrem de radiação? A resposta pode ser dada em termos quantitativos, por processos que não cabe nesse texto descrever, mas na maioria das situações, para cada milirem de radiação que recebemos, nosso risco de morrer de câncer é aumentado em uma chance em 4 milhões. Este é um resultado alcançado de forma independente pela National Academy of Science Committee on Biological Effects of Ionizing Radiation e o UnitedNation Scientific Committee on Effects of Atomic Radiation. esse risco corresponde a uma redução da nossa expectativa de vida em 2 minutos. Uma redução similar na nossa expectativa de vida pode ser causada por:

  •  Atravessar a rua 5 vezes (baseado na probabilidade de ser morto enquanto atravessar a rua)

  •  Dar algumas tragadas em um cigarro (cada cigarro reduz a expectativa de vida em 10 minutos)

  •  Uma pessoa acima do peso ingerir 20 calorias extras ( por exemplo, um quarto de um pão)

  •  Dirigir 10 quilômetros extras em um carro


  • Esses exemplos deveriam colocar o risco de 1 mrem em uma perspectiva própria.

    Tem havido uma publicidade intermitente ao longo dos anos sobre o fato de que as plantas de energia nuclear, como resultado de mal funcionamentos menores ou mesmo na operação de rotina, ocasionalmente liberam pequenas quantidades de radioatividade no meio ambiente. Como resultado as pessoas vivendo nas proximidades de uma planta receberiam cerca de 1 mrem por ano de exposição extra de radiação. Dos exemplos acima vemos que se nos afastarmos da planta aumentamos o trajeto de automóvel por mais de 10 quilômetros por ano ou pode requerer que atravessemos a rua mais de uma vez extra a cada 8 semanas, concluímos que é mais seguro viver próximo da planta nuclear, pelo menos do ponto de vista da rotina de exposição à radiação.

    Nós mostramos que a discussão dos danos da radiação tem que ser quantitativa, fornecendo as doses em milirem. Se sabemos a dose em milirems podemos estimar o risco e podemos comparar com outros riscos conhecidos e familiares. Infelizmente, o público não segue esse processo racional. Em grande parte devido à cobertura da televisão, o público tem reagido irracionalmente e emocionalmente mesmo para o mais trivial dos danos da radiação. Muita educação é necessária nesse caso e grande parte dessa desinformação, como já disse, foi alimentada pela atitude reativa dos dirigentes nucleares. O perfil encastelado de donos da verdade geraram a desconfiança quando os primeiros acidentes foram super exagerados pela mídia.

    Nesse primeiro artigo sobre aceitação pública da energia nuclear enfocamos os perigos da radiação e os exageros no seio do público, em um próximo analisaremos o receio também exagerado da fusão do núcleo dos reatores e em subsequentes a questão dos exageros com relação a deposição final dos rejeitos nucleares, uma questão iminentemente política, não técnica.

Referências:
  1. The Nuclear Energy Option: An Alternative for the 90's. Contributors: Bernard L. Cohen - author. Publisher: Plenum Press. Place of Publication: New York. Publication Year: 1990.

  2. One Hundred Centuries of Solitude: Redirecting America's High-Level Nuclear Waste Policy. Contributors: James Flynn - author, James Chalmers - author, Doug Easterling - author, Roger Kasperson - author, Howard Kunreuther - author, C. K. Mertz - author, Alvin Mushkatel - author, K. David Pijawka - author, Paul Slovic - author, Lydia Dotto - author. Publisher: Westview Press. Place of Publication: Boulder, CO. Publication Year: 1995.

  3. The Careless Atom(Dell Publishing, New York, 1969), p. 105.
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