O Gene do Nepotismo PDF Imprimir E-mail

Os recentes episódios no Congresso Nacional mais especificamente no Senado causam uma impressão de que o nepotismo e a imoralidade no trato da coisa pública estão incrustados na mentalidade nacional e que por mais que lutemos contra essas ameaças à democracia, criando mecanismos de defesa do Estado, elas conseguem penetrar as barreiras e se instalam no centro do poder, para a "aparente" indignação da sociedade.

Usei o termo "aparente", colocado entre as aspas, com a intenção de trazer à discussão a possibilidade de já termos inserido no genoma nacional um gene que determina a inexorabilidade do nepotismo. Sendo tudo apenas uma questão de oportunidade. Os membros da sociedade que hoje se mostram indignados do lado de fora do serviço público não nos oferecem qualquer garantia de que quando na posição de praticar o nepotismo não o exerçam da mesma forma que os políticos que lhes causam indignação.

A nossa história recente tem nos dados exemplos surpreendentes de que isto acontece. Políticos que se apresentam como guardiões da honestidade e moralidade quando instalados no poder são apanhados nas mesmas situações duvidosas cujo combate os ajudou a se elegerem.

A identificação da presença do gene do nepotismo em nossa sociedade, embora obviamente sem utilizar esse termo, já nos foi apresentada pelo brilhante estudo de Raimundo Faoro, em 1958, na sua obra "Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro".

Quando vemos políticos importantes e de destaque no cenário nacional e até juristas das altas cortes não encarando o nepotismo como crime e até justificando a contratação de parentes, chegamos à conclusão óbvia de que estamos frente aos resultados do Estamento Burocrático definido por Faoro.

O típico Estado patrimonialista, além de não reconhecer a separação entre o público e privado, mantém relações características e diferenciadas com seu quadro administrativo. Como camada dirigente desse Estado forma-se o Estamento Burocrático... Nossa origem Portuguesa deixou como herança uma busca incessante por posições de nobreza perante a sociedade. Ser nobre representava repulsa a qualquer tipo de trabalho manual. Desprezo pelo trabalho e verdadeira paixão pelo ganho fácil são traços que definem nossos colonizadores. (Castiglioni Lopes (UFRGS/UNIFRA)).

É sintomático o fato de que a maioria, se não a totalidade, dos políticos nacionais têm uma enorme dificuldade de identificar a imoralidade contida em atos que até podem ser suportados pela omissão da lei.

O Senado Federal ou pelo menos sua seção dona do poder dá uma demonstração clara de que não deseja que nada seja investigado ao eleger como presidente da comissão que julgará os atos de nepotismo e atentado ao decoro, um senador com um perfil capaz de agüentar a pressão que emanará após um eventual novo arquivamento das denúncias.

O presidente escolhido da Comissão de ética tem um perfil marcado pela pouca ambição política do alto de seus 81 anos e pelo fato de ter sido levado ao cargo como segundo suplente, sem ter recebido qualquer voto popular. Seu desprezo pela opinião pública ficou patente em suas primeiras manifestações.

"A sociedade brasileira não sabe separar o público do privado (...). Tanto a sociedade civil como os próprios servidores legitimaram o nepotismo". (Prof. Caldas da UnB ao comentar pesquisa sobre Ética Pública em 2008).

No entanto, não devemos desanimar da mesma forma que a ciência evoluiu para desvendar o genoma humano os mecanismos sociais também evoluíram. Esse momento é crucial para que possamos reverter uma situação que tem origem na colonização portuguesa e neutralizar esse gene através de mobilização de todas as forças da sociedade utilizando-se da imprensa e dos novos meios que são hoje postos à disposição da população como a Internet e suas redes sociais tipo o Twitter.

 

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Uma comprovação ilustre
escrito por Mario Porto , 04 agosto 2009
Após escrever esse despretensioso artigo encontrei uma comprovação ilustre para a tese que defendi no mesmo:

Felix Garcia Lopez Junior, (A meritocracia possível ? Felix Garcia Junior Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor visitante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro UERJ), analisando ?In praise of nepotism?, livro do jornalista norte-americano Adam Bellow, afirma:

"Um dos principais argumentos do livro é o fato de que o nepotismo na política (e também nos negócios, esportes etc.) americana tem um sentido duplo. Primeiro, mostra que o nepotismo venceu parte das resistências do sistema meritocrático porque é constitutivo da natureza humana. Bellow aponta as evidências da sociobiologia para sustentar a persistência das diversas formas de nepotismo nas sociedades humanas, recorrendo por vezes à comparação com comportamentos de outros animais para mostrar os impulsos naturais que nos levam a favorecer nossos parentes. A propensão natural que fomenta o nepotismo é canalizada de acordo com os diferentes padrões culturais que, nas sociedades modernas dos últimos dois séculos, sob o manto da ideologia meritocrática, passaram a se contrapor de modo crescente a qualquer prática de nepotismo. Para Bellow, a sociedade americana experimenta, em parte, uma tendência em sentido contrário. Baseado em sociobiólogos como Steven Pinker, Mary Maxwell e Edward O. Wilson, o autor escreve que "nosso bias cultural contra o nepotismo pode estar mascarando nossa visão sobre seu verdadeiro caráter." A sociobiologia adverte que o nepotismo é natural (daí o subtítulo do livro) e que a prática existe porque está inscrita em nossos genes. A bióloga Mary Maxwell diz que o nepotismo é a norma para as espécies sociais?. [...] a prática ?do nepotismo define as espécies sociais".

Mário Porto
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