O Professor e o Poder PDF Imprimir E-mail

Mário Porto 

Reflexão: "qual deve ser o perfil do professor nos cursos de graduação e de que modo podemos lidar com a questão do poder que é inerente a essa posição?".

Em 2005, como preparação para assumir como professor-tutor, no FGV Online em cursos de EAD, fiz um curso de Metodologia do Ensino Superior no próprio FGV-Online e a reflexão acima foi uma das primeiras tarefas e este texto é uma adaptação para a Internet do que desenvolvi naquele trabalho. No primeiro momento que tomei conhecimento desta atividade fiquei de certa forma, mentalmente, paralisado.

Pensei; Aonde fui me meter para ter que comentar um assunto que nunca foi objeto de minhas preocupações nestes últimos 60 anos. Cheguei a julgar que não estava devidamente preparado, para escrever sobre este tema.

No meio destas divagações e induzido por algumas leituras que havia feito no próprio material do FGV-Online assolou-me a certeza de que estava reagindo exatamente da maneira esperada num modelo pedagógico burocrático fundado na relação de dominação, no saber formal transformado em mercadoria de consumo e no qual o aluno não é estimulado a produzir conhecimento, a amalgamar seu saber ao do professor.

Em outras palavras, não tendo assistido a uma exposição específica do "professor expositor controlador" sobre o conteúdo do trabalho ou não tendo decorado nada sobre o assunto o raciocínio do aluno não acostumado a receber o incentivo para pensar, fica circulando no nada e não constrói saber.

Na minha memória pude enquadrar ao longo da minha vida, em três fases de minha formação, alguns tipos de professores tal como categorizados no próprio material didático do FGV-Online.

Bem no início da minha vida lembro-me da Dona Zezé do primário. Professora austera, disciplinadora, avessa a brincadeiras, mas que se apresentando como modelo de caráter e integridade respeitava as crianças e contribuiu, por décadas a fio, para a boa formação de muitos brasileiros na cidade de Volta Redonda. No pós-guerra e pós-ditadura Vargas sua austeridade e formalidade constituíam um padrão para a época e seria muito exigir que ela substituísse a rigidez pela maleabilidade; substituísse o fechamento pela abertura e substituísse o olhar único pelo olhar plural.

Caminhando um pouco mais pela vida deparei-me com um certo professor que vou denominar aqui, por razões éticas, de Marcelino Champangnat, no Colégio Santo Inácio no Rio de Janeiro. O professor Marcelino lecionava Matemática e apesar da importância exagerada que esta disciplina ainda exerce em nossa cultura ele deve ter contribuído bastante para a formação de muitos advogados no Brasil. O Professor Marcelino não ensinava nem tinha desejo de ensinar ele apenas desejava provar sua própria inteligente, ao ser capaz de dominar uma matéria "incrivelmente difícil", e demonstrar quão estúpidos eram os 95% de alunos de suas classes que ele, anualmente, encaminhava para a segunda época. Se eu não tivesse ignorado sua docência e me voltado para minhas próprias aptidões teria, certamente, engrossado esta lista. E o mais surpreendente: ele era considerado pelo "establisment" como um patrimônio da docência no Rio de Janeiro.

Um ano depois de conhecer o professor Marcelino fui aluno de um dos professores que mais me impressionaram em minha vida de estudante. Foi no Colégio Naval, em Angra dos Reis, que conheci o professor Pitta, que ensinava Física.

Ele tinha uma aguçada inteligência interpessoal e certamente nunca tinha ouvido falar de nenhuma das teorias pedagógicas que estamos tendo contato neste curso, mas sabia que o aluno tinha que ser estimulado a produzir conhecimento e misturar seu conhecimento ao do professor e também conhecia que nessa relação dialética entre o mestre e o discípulo não há saber ou ignorância absoluta. Confrontam-se dois tipos de saber: "o saber do professor inacabado e a ignorância do aluno relativa". As aulas do professor Pita eram disputadas por todos. Havia alunos que assistiam às aulas várias vezes em turmas diferentes, pois ele nunca se repetia e suas aulas eram verdadeiras experiências em que todos participavam.

Chegando ao curso superior notei logo uma diferença. O professor era mestre.

A mudança do termo parecia também sugerir uma mudança de atitude. Ora, mestres orientam, mestres encaminham, mestres desenvolvem seus discípulos.

No entanto, apesar do novo termo, entre alguns raros mestres, encontrei os velhos e conhecidos tipos de professores autoritários, prepotentes e senhores da verdade. Mesmo aqueles mais críticos eram obrigados a seguir um ritual burocrático. Como afirma Tragtenberg, o professor é delegatário dessa ordem hierárquica junto aos estudantes. Como tal, expressa "o símbolo vivo" da dominação e "instrumento da submissão", cuja função é, principalmente, "impor a obediência". Tragtenberg observa que nesta relação professor-aluno temos o encontro de dois tipos de adolescentes:

"o adolescente aluno a quem ele deve educar e o adolescente reprimido que carrega consigo".(TRAGTENBERG, 1985: 43) [1] .

O modelo pedagógico vigente nas nossas instituições exacerba e legitima as relações dominadoras, o uso do conhecimento como forma de poder opressivo. Os próprios alunos imbuídos de valores individualistas acabam se tornando agentes fomentadores do sistema.

Completa esta construção um sistema de avaliação que transformou a prova no objetivo principal do ensino deixando para segundo plano a produção e transmissão do conhecimento. Alunos que sabem fazer prova são classificados como os melhores. A preparação passa a ser orientada para o tipo de prova aplicada.

Onde fica neste ambiente a construção do saber?

Para mudar este quadro é preciso uma mudança de paradigmas que está muito bem exposta no artigo de Louis Raths [2] e que pode ser sintetizado nas frases: "Quando se dão oportunidades para pensamento, quando se aceita e se discute o pensamento dos alunos, quando estes são apoiados e admirados, são estimulados a pensar. Não há autoritarismo do professor".

Permitam-me continuar a citar Tragtenberg:

Trata-se de inverter a ordem dos procedimentos pedagógicos. Em vez de se colocar como tarefa "dar um curso", por que não se perguntar: "em que medida o saber acumulado e formulado pelo professor tem chance de tornar-se o saber do aluno?" (TRAGTENBERG, 1985: 45[3]

Para que isto ocorra é preciso contrapor à pedagogia burocrática uma pedagogia crítica fundada na:

Autogestão: gestão da educação pelos diretamente envolvidos no processo educacional e a "devolução do processo de aprendizagem às comunidades onde o indivíduo se desenvolve (bairro, local de trabalho)";

Autonomia do indivíduo: "O indivíduo não é um meio: é fim em si mesmo. No universo das coisas (mercadorias) tudo tem um preço, porém só o homem tem uma dignidade. Negação total de prêmios ou punições";

Solidariedade: crítica permanente de todas as formas educativas que estimulam ou fundamentem-se na competição; crítica a todas as normas pedagógicas autoritárias. (TRAGTENBERG, 1980: 58) [4]

Quando me sentei para redigir este texto e ainda me encontrava meio que paralisado uma imagem fornecida por minha esposa provocou a fagulha que acendeu meu raciocínio para desenvolvê-lo. Disse-me ela: "eu vejo o professor como um maestro desenvolvendo e aproveitando os talentos de cada um para, conjuntamente, apresentarem a obra".

Maestro e orquestra se exercitam na interdependência para que um bom trabalho seja apresentado. Não existe autoritarismo, existe condução, liderança e respeito mútuo. Um completa o outro na consecução do objetivo que no concerto se traduz em apresentar a sinfonia da melhor maneira possível e na sala de aula em construir o saber.

O cinema oferece sempre boas referências para todas as atividades e neste caso o próprio FGV-Online sugeriu como referência um filme interessantíssimo e que se passa no campus da Universidade de Harvard, trata-se do filme "With Honors", Destaco como brilhante a manifestação de Simon Wilder (Pesci), quando visitando uma aula de Harvard levado por Monty Kessler (Fraser) ao ser questionado pelo poderoso mestre  Pitkannan sobre " The Genius of the Constitution" dá a todos uma lição ao questionar o discurso acadêmico profissional e o conhecimento institucionalizado. Suas atitudes e idéias fazem brotar em Monty as idéias nas quais verdadeiramente ele acredita rompendo seus limites e refazendo prioridades como, por exemplo, uma graduação com honra tão valorizada pelo "establisment".

As mudanças libertárias que se exigem não são feitas da noite para o dia e se confrontam com outro poder, o poder dominante na sociedade e que tem relação evidente com a educação que como nos ensina o próprio material do curso da FGV "é na essência algo político, não apenas técnico".

De certa forma a metodologia de cursos à distância como o FGV-Online são excelentes exemplos de mecanismos de descobrimento de talentos nos quais os alunos são estimulados a pensar. As discussões geradas nestes ambientes poderão, certamente, ajudar nas mudanças necessárias à educação em nosso país.

 


[1] Antônio Ozaí da Silva - Maurício Tragtenberg e a Pedagogia Libertária acesso em http://www.culturabrasil.pro.br/tragtenberg.htm 09/01/2005 Voltar

[2] RATHS, Louis E. et al. A sala de aula e o pensamento. In: ______. Ensinar a pensar: teoria e aplicação. Tradução de: Dante Moreira Leite. 2ª ed. São Paulo: EPU, 1977. p. 323-7. Voltar

[3]Referência acima citada Voltar

[4]  Referência acima citada Voltar

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Comentarios (6)add
O Professor e o Poder
escrito por José Amaro Lanes , 28 junho 2010
Eu me orgulho de ter sido aluno do Professor Hélio da Rocha Pitta.
Não gostava de ser chamado de Mestre, pois dizia que Mestre era aquele lá de cima,e, com razão.
Era um Professor titulado para lecionar em nível superior, sem no entanto, tê-lo.
O título dele era: Professor por Honoris Saber dado pelo Ministério da Educção, a pedido do Diretor do Instituto de Física da França, na época.
A história é longa mais muito bonita e real.
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Professor Universitario
escrito por Juarez Barboza da Cunha , 29 novembro 2012
Tambem, com muita honra, quando jovem, fui aluno do prof. Helio da Rocha Pitta.
Naquela epoca lecionava diversas disciplinas na area de Ciencias Exatas na Universidade Iguacu-UNIG, no Municipio de Nova Iguacu. Matematico, Pesquisador e Filosofo que empolgava sobremaneira seus alunos com aulas de verdadeira arte pedagogica. Ele dizia: "genios sao voces que conseguem aprender alguma coisa com certos professores..." Hoje tenho certeza que ele tinha razao.
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Professor Pitta, gênio e mestre.
escrito por Marcelo Câmara , 04 dezembro 2013
Hélio da Rocha Pitta, o célebre Professor Pitta, foi um gênio, um educador, um humanista. Um grande homem, cidadão, trabalhador. E um homem grande, com quase dois metros de altura, um touro, que praticava todos os esportes. Conheci-o ainda na infância, na minha terra, Angra dos Reis, ele professor do Colégio Naval, remando uma canoa canadense, ao lado da mulher, Gertrudes, uma alemã, com dos filhos Áurea e Sérgio. Era natural de Araxá, MG, me disse certa vez, era filho de mãe russa e pai brasileiro, negro. Não tinha o curso médio (científico), mas poderia dar aula de Matemática, Física, Biologia, Química e Desenho, em qualquer universidade do mundo. Foi professor do IME. Formou gerações nas áreas das Ciências Exatas. Centenas de engenheiros, químicos, físicos, economistas, arquitetos, foram seus alunos na Cidade e no Estado do Rio de Janeiro. Tinha o título de "Notório Saber", expedido pelo MEC, que o qualificava e o habilitava para isto. Li, certa vez, que o Instituto de Física de Paris, França, solicitou ao governo brasileiro, ainda na década de 1940, que concedesse o título ao Prof. Pitta. Foi convidado por Hitler para ir viver na Alemanha e promover pesquisas visando à produção de uma bomba atômica. Recusou o convite. Planejou uma viagem à Lua, projetando foguete, nave e tudo o mais. Chegou a formar uma tripulação de brasileiros para a viagem. Conheci um dos selecionados. O projeto não foi adiante. Previu, ainda nos anos 1940, e afirmava, com convicção, que o Homem chegaria à Lua ainda na década de 1960. E chegou. Acertou. Os norte-americanos chegaram em 1969. A última vez que nos vimos foi em 1997. Estava com 80 anos. Era abstêmio. A exceção: tomava uma pinga de Paraty, RJ, com muito gosto, alegria e prazer. E, incrivelmente, se exercitava, no supino, levantando 120 quilos. Estava lúcido, com boa saúde, mas com dificuldades na fala. Dedicou-se, também, à Filosofia e à Parapsicologia. Nosso último encontro foi no Clube Naval, na Av. Rio Branco, no Centro da Cidade, quando do lançamento do seu último trabalho, um livro, provando através da Física, a existência de Deus. Perguntei-lhe: "Como é Deus?" Ele respondeu: "É severo, ri pouco. Tem cara de bravo. Mas é justo, generoso". O Professor Pitta está com Deus agora. Partiu. E deixou saudades. Muitas boas lembranças, doces, ternas, dos seus alunos e de quem teve o privilégio de conhecê-lo. Um homem, um espírito extraordinário. Inteligência, maestria, energia, genialidade.
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prof.helio da rocha pita
escrito por cesar augusto soares de souza , 06 dezembro 2013
Foi meu professor de física em 1955/1956 no colégio naval em angra dos reis. Fomos amigos- Tinha memória fotográfica o que lhe transformou num monstro ( no bom sentido).
Trocava correspondência com Einstein tendo corrigido um de seus trabalhos sôbre mvt brownianos- Infelizmente não suportou a morte de sua amada Gertrudes ficando desnorteado até seu fim- oxalá esteja bem no outro lado.
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professor
escrito por Dilço de Souza Gomes , 15 agosto 2014
Eu cursava a faculdade de letras na decada de 70 e o conhecia somente de nome. Mas como sou uma pessoa de sorte, tive a oportunidade de conhêce-lo no dia a dia da faculdade. Por várias vezes, eu e outros alunos tivemos a oportunidade de ouvi-lo falando de seu trabalho, de sua trajetória como professor : muito linda. Considero-me privilegiado por ter convivido com uma pessoa tão genial, tão competente, tão humano. Que Deus o abençôe e o ilumine.
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Marcou nossas vidas
escrito por Carlos Cesar , 23 novembro 2016
Helio da Rocha Pitta,.
Meu professor de matematica no Colegio Estadual Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, na decada de 60.
Marcou minha vida. Tinhamos 11-12 anos, primeiros anos do Ginasio.
Seu vozeirao, suas mangas sempre arregacadas, brincadeiras de queda de braco com a turma. Piadas e trejeitos...
E como ensinava bem !!!
Morava na Ilha e tinha um Guanabara, pesadissimo, puxava ele nadando !!!

Nao da para esquecer uma figura dessas !!!



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