O Veneno do Corporativismo PDF Imprimir E-mail

Mário Porto

 

INTRODUÇÃO

  Dentre as características humanas desenvolvidas na vida em grupo ou na sociedade, o corporativismo é um dos aspectos mais destrutivos e mal compreendidos da natureza humana. É um veneno perigoso que se apresenta camuflado com um face virtuosa.

Muitas pessoas ao se referirem ao corporativismo apenas estão considerando a conotação boa ou positiva do aspecto. O "sprit des corps" decantado pelos grupos militares ou mesmo pelas corporações sejam comerciais ou não. Se nos determos apenas neste aspecto, não há o que discordar, desde que o conceito não signifique a exclusão de todos aqueles que não façam parte do grupo como traduzido na máxima corporativista: Aos amigos tudo, aos inimigos nada aos indiferentes a lei . Como se vê o corporativismo revestido de virtude é uma jóia rara, extremamente, difícil de ser encontrada separada da iniqüidade ou mesmo do crime por uma linha muito tênue.

O CORPORATIVISMO VENENOSO

  Estamos nos referindo a um corporativismo muito mais comum e que conduz as pessoas a se desviarem dos conceitos morais e éticos no afã de proteger objetivos de corporações e grupos.

É com base nesta distorção do conceito puro de corporativismo é que muitas corporações defendem suas ações e empregados mesmo se esta defesa representa jogar na lixeira todos os valores fundamentais do humanismo.

Os exemplos de aplicação deste veneno são inúmeros ao longo da era industrial e setores como o do tabaco, químico e nucleares tem se colocado na vanguarda da aplicação do corporativismo venenoso para encobrir ou justificar suas ações deletérias aos seres humanos e ao ambiente em geral.

Nos dias de hoje, inicia-se no Brasil uma discussão importante sobre o enorme passo que o setor militar, de uma indústria nuclear ainda mal sedimentada, pretende dar através do estabelecimento de um programa de construção e operação de
submarinos de propulsão nuclear.

Se os problemas de instalação e manutenção de um programa nuclear de sustentação à construção e operação de usinas nucleares termelétricas já são grandes, mormente pela indefinição da questão dos depósitos definitivos de rejeitos nucleares, que dizer de um programa nuclear militar no qual os controles da sociedade são bem menores e portanto sujeitos integralmente ao corporativismo militar.

Como exemplo, bastante atual, para balizar os riscos de um programa nuclear militar sem controle da sociedade, é interessante descrever o grande problema ambiental, desvendado com o desmembramento da União Soviética, relacionado com a desmobilização de 75% da frota naval russa, outrora de 240 submarinos nucleares, sediada no mar do norte

MARINHA RUSSA - UM EXEMPLO DESTE CORPORATIVISMO [1]

  O colapso da antiga União Soviética e a transformação da Rússia em uma sociedade mais aberta revelou um vasto cabedal de ameaças ambientais não só para a própria Rússia como também para os países limítrofes, em especial a Noruega, distante apenas 45 km de algumas bases russas.

O complexo de bases da Marinha Russa no Mar do Norte é situado na Península de Kola, cerca de 2.000 km ao norte de Moscou. A Frota do Mar do Norte opera reatores em submarinos sem possuir instalações adequadas para o depósito do combustível usado.

 
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Localização geográfica das bases de Submarinos Nucleares da Frota Russa do Mar do Norte

Reatores de submarinos já foram despejados no fundo do Mar de Kara à leste das ilhas Novaya Zemlya. Mais de 11.000 m 3 de rejeitos radioativos sólidos e uma grande quantidade de rejeitos líquido de baixa radioatividade também foram jogados no Mar de Barents e Karas. Os despejos são parte da história. De ainda maior importância, são os submarinos inativos hoje atracados e as velhas instalações para estocagem de combustível usado e outros rejeitos radioativos nas diversas bases e estaleiros da região.

Mais de 130 submarinos nucleares, dos cerca de 250 fabricados no período 1958 a 1995, já foram retirados pela Marinha Russa do serviço ativo estando estacionados nas bases/estaleiros ou parcialmente desmontados. Mais de 90 destes submarinos pertencem à Frota do Mar do Norte. Eles ou estão docados ou atracados no cais das bases e estaleiros de Gremikha, Severodvinsk, Vidyaevo, Polyarny, Svemorput, Gadzhievo e Zapadnaya Litsa.

Os problemas mais graves estão relacionados com os submarinos da primeira geração de submarinos russos das classes November, Hotel e Echo. Estes submarinos foram retirados do serviço no começo dos anos 80. Quinze a 20 anos depois ninguém conhece as condições do combustível usado nos seus reatores.

A maioria desses navios estão em estado precário e alguns dos elementos combustíveis a bordo estão tão seriamente avariadas que é impossível fazer-se a recarga com os equipamentos disponíveis. Existe uma enorme carência de recursos humanos qualificados somados com uma falta de recursos financeiros para levar a cabo o serviço.

O estado de deterioração cada vez pior dos submarinos, levou as autoridades a tomar algumas medidas de segurança paliativas que incluem a manutenção da capacidade de flutuação dos navios através de constante bombeamento de ar comprimido para o interior dos cascos, soldas de tamponamento e docagens periódicas. Estas medidas visam diminuir o risco de estabelecimento espontâneo de reação em cadeia no combustível nuclear através de contato acidental com a água do mar. Apesar disso existe um risco significativo de vazamentos de radioatividade se o submarino afundar.

Os reatores dos submarinos que não tiveram o núcleo do reator descarregado tem que ser constantemente refrigerados pela água de circulação através do circuito primário. Isto é conseguido através do suprimento de energia elétrica de terra ou dados geradores diesel ou baterias do próprio submarino. Se todas estas fontes de energia faltarem existe o risco do refrigerante congelar no primário causando avarias aos elementos combustíveis tornando mais difícil e custoso removê-los no futuro.

Em outubro de 1995 a companhia local de eletricidade "Kolernergo" desligou o suprimento de energia elétrica para a base naval de Gadzhievo onde vários submarinos estão estacionados no cais. Uma conta não paga de eletricidade no valor de cerca de $4,5 milhões precipitou a atitude. A força foi restabelecida após 40 minutos quando a Frota do Norte enviou soldados armados para o transformador da usina. Após este incidente o Comando em Chefe da frota do Norte liberou um comunicado à imprensa afirmando que nunca mais a Companhia Kolernego "ousaria" cortar a energia. Menos de uma semana depois a energia foi cortada novamente, por 20 minutos, desta vez no estaleiro militar de Svemorput em Murmansk, onde dois submarinos nucleares estavam docados.

Apesar de vários decretos e resoluções governamentais o descomissionamento dos submarinos nucleares está com o cronograma bastante atrasado. Até agora nenhum submarino foi descomissionado de uma maneira responsável inteiramente de acordo com os procedimentos.

Alguns submarinos foram completamente desmontados, mas o compartimento de seus reatores (a maioria dos submarinos de projeto russo possui 2 reatores) foram jogados no mar de Kara ou ainda estão flutuando. Mais de 10 destes compartimentos de reatores estão armazenados no estaleiro naval em Severodvinsk, aguardando para serem rebocados para a Baía de Sayda. A distancia de Severodvinsk para a Baía de Sayda são aproximadamente 350 milhas náuticas, no duro clima do Ártico.

De acordo com as autoridades navais em Severodvinsk, um descomissionamento seguro dos submarinos nucleares não será possível por outros cinco ou 10 anos, devido ao tempo necessário para o desenvolvimento da infra-estrutura necessária. Estão faltando equipamentos essenciais incluindo equipamento para descarregar o núcleo dos reatores, instalações para desmonte do navio e sobretudo instalações para o tratamento e armazenamento dos rejeitos radioativos e do compartimento dos reatores. Foi conseguido financiamento através do projeto U.S. Cooperative Threat Reduction (VTR) novos arcos de plasma para corte de aço temperado das chapas do casco para os estaleiros de Nerpa e Severodvinsk mas isto não resolve o problema relativo ao estoque dos combustíveis usados e outros rejeitos radioativos.

Uma vez que as instalações de terra estão abarrotadas não há outra solução do que deixar o combustível usado a bordo dentro dos reatores. Não existem também equipamentos adequados para manusear o elemento combustível enquanto o transporte para a planta de reprocessamento em Mayak na Sibéria é no mínimo difícil.

Para tornar as coisas piores o Comando da Frota do Norte dá prioridade ao recarregamento dos submarinos em operação sobre os descarregamento ou descomissionamento dos navios inativos. No período de 1988 a 1998, somente 20 submarinos inativos da Frota do Norte foram descarregados.

Os submarinos inativos possuem apenas um terço da tripulação normalmente utilizada em um submarino operativo, ou seja menos do que 40 homens. A Frota do Norte tem cerca de 2000 pessoas locadas nos submarinos inativos, trabalhando em turnos. Os membros das tripulações estão na sua maioria destreinados ou estão designados para um navios inativo ou porque lhes falta competência ou estão desabilitados para servir em submarinos operativos. A falta de pessoal treinado aumenta o potencial para problemas no caso de necessidade de um procedimento de emergência se tornar necessário na eventualidade de um acidente sério envolvendo o reator.

A situação das instalações de combustível usado em terra são tão graves como as relatadas para os submarinos, já tendo ocorrido uma série de vazamentos e algumas instalações estão completamente deterioradas. Por ser um assunto mais técnico deixaremos de reportar

SOMOS POR ACASO MAIS SÉRIOS?

  Em face do exposto, a pergunta natural é a seguinte:

Qual é a diferença de qualidade e de potencial econômico que nos garante afirmar que isto não pode acontecer no Brasil, país com menos conhecimento científico e tecnológico do que a Rússia?

Um programa de menor envergadura não é argumento para afastar os riscos pois basta uma só operação desastrosa para causarmos danos irreparáveis ao pessoal envolvido diretamente e à população mais próxima. Lembremo-nos de
Goiânia . Um simples fonte de Césio137 colocada no lixo causou os males que todos conhecemos.

Conhecendo-se um pouco da mentalidade de nossos chefes navais quais aspectos do corporativismo, entre os relacionados abaixo, podem estar movendo os defensores desta opção estratégica para a Marinha?

  • Supremacia Naval no Continente;
  • Desejo, legítimo de uma marinha moderna;
  • Desconhecimento da realidade do problema dos rejeitos nucleares;
  • Disputa pela supremacia tecnológica entre as Forças Armadas.

Existe a noção entre os militares de que segurança nacional não é um tema sobre o qual se deva explicações detalhadas à população, pois esta disseminação de informação prejudicaria o próprio objetivo da segurança. Mas estamos exatamente nos referindo à segurança da população nacional que, paradoxalmente, os submarinos pretendem defender. Como se falar em Segurança Nacional desvinculando-a da segurança da população nacional?

O DEPÓSITO "DEFINITIVO" NA MONTANHA DE YUCCA NOS E.U.A.

  Os Estados Unidos estão construindo um depósito para armazenamento permanente de rejeitos radioativos nas montanha de Yucca, no sul do estado de Nevada, cerca de 100 milhas a noroeste de Las Vegas, sendo adjacente ao local dos primeiros testes com bombas atômicas.

O Complexo de Yucca Mountain está em estudos desde 1983, juntamente com outros 9 (nove) sites em 6 (seis) estados. A partir de 1987 apenas Yucca continuou sendo estudado. Já foram gastos oito bilhões de dólares até hoje de um custo total estimado em US 58 bilhões, mas que pode atingir US$ 100 bihões. Um milhão de dólares, do Fundo de Rejeitos Radioativos são gastos, por dia por uma equipe de trezentos cientistas, nos testes para analisar a área e predizer o seu comportamento nos próximos milênios.

Já, foi alcançado um importante marco do cronograma; O site foi recomendado ao Presidente Bush pelo Secretário de Energia e, em 15/02/2002, o Presidente Bush enviou sua
notificação ao Congresso Americano. Este marco é importante para a previsão de uma data para o licenciamento das instalações.

A data de sua abertura foi empurrada de 1985 para 1989, para 1998, para 2003, 2010, 2012 e agora para 2017, estes últimos adiamentos num espaço de poucos meses. Ninguém deseja um depósito radioativo em seu quintal.
Muitas pessoas duvidam de que o sítio esteja pronto nesta data ou mesmo seja completado. Outras rejeitam o projeto e apresentam alternativas .

O projeto em execução na Montanha Yucca, prevê uma capacidade de armazenamento de 70.000 toneladas de rejeitos radioativos. Infelizmente, as usinas nucleares americanas terão acumulado até 2030 algo em torno de 87.000 toneladas de rejeitos radioativos que permanecerão radioativos pelos próximos 10.000 anos.

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Clique para aumentar a figura, mostrando as barreiras naturais e de engenharia para proteger o meio ambiente.

Apesar dos cronogramas abaixo o projeto Yucca encontra dificuldades de orçamento e com ações na justiça . O DOE continua trabalhando para obter a licença com a Nuclear Regulatory Commission. Entretanto, o projeto está atrasado e sofre problemas orçamentários. As ações do estado de Nevada cujas audiências estavam, inicialmente, previstas para outubro de 2003, na Corte de Apelação, em Washington D.C., somente deverão ter estas audiências cumpridas no final de 2003 ou em 2004.

 
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Cronograma do Projeto Yucca

 
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AONDE SERÃO DEPOSITADOS OS REJEITOS BRASILEIROS?

  Novamente a pergunta: Devemos de embarcar num projeto desta magnitude? Os países que por irresponsabilidade tecnológica se aventuraram tão profundamente na aventura nuclear tem obrigação de tentar uma solução para o caos que criaram. Porque temos que entrar na mesma aventura quando outros países claramente estão demonstrando a inviabilidade desta solução?

Que países tenham entrado na aventura nuclear, desconhecendo os problemas do gerenciamento dos rejeitos é uma coisa. Entrar na mesma aventura, conhecendo-se estas dificuldades e problemas e tendo consciência que não existe ainda uma solução viável é no mínimo um irresponsabilidade imperdoável para com gerações futuras.

Aonde serão depositados os rejeitos de nossas usinas nucleares e dos reatores dos pretendidos submarinos nucleares?

Será em
Goiânia , aonde existe o único depósito nuclear licenciado pelo órgão regulador entre os cerca de trinta depósitos não licenciados existentes no Brasil com existência conhecida ou não pelo mesmo órgão e, conseqüentemente, sem controle pela Sociedade?

Qual o município que aceitará ter um depósito em seu quintal?

Será que a nossa realidade será diferente daquela existente nos E.U.A?

Podemos dispor dos bilhões de dólares despendidos pelo governo americano para um depósito que nem se tem a certeza que irá ser usado?

Temos um Fundo de Rejeitos radioativos para financiar testes de locais para depósitos definitivos?

Estas são perguntas para as quais os nossos almirantes não buscaram as respostas, antes de empurrar o país dentro desta aventura, de contornos nitidamente corporativos, da Marinha Brasileira.


Não deixe de acessar o artigo  Submarinos Nucleares: Descomissionamento  

NOTAS:

Nota 1:
Este tópico é uma tradução de trechos do relatório da Bellona Foundation, responsável por desvendar toda a situação da Marinha Russa, em especial da Frota do Norte. O relatório completo pode ser consultado em http://www.bellona.no/imaker?sub=1&id=8187    Voltar



Energia Nuclear Parte 1 , Parte 2, Parte 3


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Comentarios (2)add
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escrito por Anónimo , 20 julho 2012
Desculpe, mas quando escrever de facto uma análise do regime corporativista talvez tenha paciência para ler tudo. O que aqui tentou fazer foi colocar uma série de acções à cerca das quais discorda - legitimamente - por baixo do manto corporativista quando pouco têm a ver com o mesmo.
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Crítica
escrito por Mario Porto , 21 julho 2012
Respeito sua opinião, mas esclareço que não pretendi escrever um tratado sobre corporativismo e sim listar algumas atitudes corporativistas em um setor que conheço.
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