Sem Voz, Sem Vez PDF Imprimir E-mail
Tarciso S. Filgueiras

Quando em campanha para arrebanhar eleitores, os políticos brasileiros prometem tudo. Prometem, sobretudo, ser os representantes dos sem-voz, isto é, aqueles que não conseguem se expressar por si mesmos, na defesa de seus legítimos interesses. Nesta categoria eles incluem, infalivelmente, os pobres, em geral, mas, principalmente, os analfabetos e certas "minorias". Negros e Índios, por exemplo.

Mas, é claro, eles falam metaforicamente. Metaforicamente falam eles porque todos esses grupos comunicam-se verbalmente e articulam-se, com maior ou menor eficiência. Na verdade, no duro da batata, quem não tem voz mesmo, quem não consegue articular uma única palavra em defesa de seus legítimos interesses, é a Natureza. Águas, solo, plantas e animais silvestres não falam. Não se organizam em sindicatos, não pagam tributos a igrejas, não fazem passeatas, não boicotam supermercados, não invadem fazendas produtoras de grãos transgênicos, nem terras devolutas. E, principalmente, não votam!   

Todos os grupos humanos que se vêem à margem do processo produtivo, que não foram incorporados ao sistema econômico, que não conseguiram uma fatia do bolo, organizam-se para reivindicar. Fazem eles muito bem! É a democracia em sua mais lídima expressão. Donas de casa reclamam de preços altos. Sem-terra clamam por terras e meios para produzir. Desempregados madrugam por empregos, pequenas empresas querem uma fatia dos grandes, militares lutam por soldos dignos, funcionários públicos pela garantia de aposentadoria condigna, até prisioneiros fazem greve. Nas pequenas comunidades, os cidadãos assediam o prefeito para que construa uma nova escola, um hospital, abra uma estrada vicinal... Porém, nunca alguém viu animais nem plantas reclamarem de nada. Eles não têm o privilégio da palavra. Portanto, a cena que se descreverá a seguir, não se tornará, jamais, realidade. Permanecerá, para sempre, peça de perfeita ficção. Veja:

O cenário é o gabinete de um prefeito, no interior de um Estado do Brasil central. Chamemos o Estado Goiás e a cidade, Copaíba. O chefe-de-gabinete entra  apressadamente  e diz:

Senhor Prefeito, aí fora está uma comissão de mais de duzentas árvores e uns cento e tantos animais do mato! Querem ver o senhor, agora!

Boquiaberto, o prefeito não consegue articular palavra. Pensa que seu auxiliar pirou.

O chefe-de-gabinete aproveita o espanto do prefeito e despeja:

- Eles estão aqui representando aquela enorme faixa de Cerrado da Fazenda Volta Grande. Segundo eles, o IBAMA já autorizou o desmatamento total da área, o Banco do Brasil já liberou o dinheiro e os tratores estão no local. Prontos para iniciar a derrubada! Vão transformar as árvores em carvão, arar o solo e depois plantar soja. Eles estão apavorados, senhor prefeito...         -

- Estão lá fora - continua o bom homem, de olhos esbugalhados - uns 50 pés de angico, uns 60 de angelim-do-campo, 20 pequizeiros e muitas outras plantas que nem conheço. E mais ainda, 16 pacas, 10 cotias, 12 guaribas e 13 tamanduás! Falaram também que representam dois rios e quinze nascentes que, infelizmente, não puderam vir. Dá pena ver como estão apavorados por ver a morte tão próxima! Eles querem uma audiência com o senhor para dizer que não querem morrer assim, sem lutar. Querem explicar que também se sentem com direito à vida, que habitam aquela área antes mesmo que essa cidade existisse. Os jatobás mais antigos do local dizem que se lembram perfeitamente quando os primeiros bandeirantes passaram por ali, no século dezessete...

Olhe, eles também alegam que não são improdutivos! Mostraram trabalhos científicos provando que produzem toneladas de matéria orgânica, durante todo o ano, todos os anos, incluindo madeira, folhas, flores, frutos e sementes. E tem mais, senhor prefeito, segundo eles, o que produzem serve de alimento para centenas de animais que vivem naquela comunidade. Dizem que, se árvores, arbustos e ervas forem eliminados, os animais morrerão de fome, porque simplesmente não terão o que comer. Esses insensatos alegam, ainda, senhor prefeito, que existem lá centenas de outros animais que dependem deles indiretamente, para seu sustento. Essa eu não entendi bem, mas deve ser porque uns comem os outros, assim como passarinho come inseto e tamanduá come cupim...

Nesse ponto, o assessor do prefeito parou um instante. Mirou o prefeito que continuava perfeitamente estupefato e retornou.

- O fato é, senhor prefeito, que, segundo eles, se o senhor, como autoridade máxima deste município não fizer algo para salvá-los, milhares de vidas desaparecerão em questão de horas. E que outras, centenas de outras, desaparecerão, em seguida. Alguns mais exaltados entre eles estão dizendo que, quando o senhor foi eleito, tornou-se o representante legal não só das pessoas que moram nesse município, mas também das plantas e dos animais que aqui vivem. Imagine! Eles pensam que têm direitos! E o senhor prefeito, o que acha?

E o leitor, o que acha? E o eleitor, o que acha?

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