Sustento & Sustentabilidade PDF Imprimir E-mail

 

Tarciso Filgueiras*

A metáfora do pão de cada dia continua tão atual quanto no passado. A maioria de nós precisa trabalhar para garantir o próprio sustento e o de quem de nós depende. Sobre isso todos concordam. A discordância começa quando tomamos consciência de que, para ganhar esse pão, temos que atuar sobre o meio ambiente e todas as nossas ações sobre o meio em que vivemos têm consequências diretas ou indiretas. No final das contas, as demandas sobre o ambiente natural são o fator mais impactante. Algumas ações exercidas pelo homem apresentam consequências imediatas, enquanto outras só vão aparecem anos ou mesmo décadas depois. Na prática, muito do que fazemos hoje só vai surtir efeito, positivo ou negativo, daqui a vinte, trinta, cem anos. Se alguém despeja um litro de óleo de fritura usada na pia, aparentemente, nada acontece. Porém, aquele óleo vai poluir centenas de litros de água potável, que, mais dia menos dia, vai fazer falta. Importante lembrar que não há substituto para a água. Temos várias alternativas alimentares, mas nenhuma para a água, porque nada substitui este precioso líquido. Igualmente, se alguém recupera uma floresta, vão decorrer anos para que os processos ecológicos voltem a atuar adequadamente na nova floresta que se forma.

Todos os países querem crescer, todas as cidades, todas as vilas, bairros, famílias e indivíduos. Todos querem expandir seus negócios, sua área de ação, sua abrangência. Isto parece e é natural. Também todas as plantas e animais tendem a aumentar o número de indivíduos de suas respectivas espécies. É uma lei da Natureza, o famoso “crescei e multiplicai-vos”. No entanto, é preciso lembrar que há limites para o crescimento. Nenhum sistema biológico expande-se infinitamente. Com o tempo, a própria Natureza impõe seus rígidos limites. Isto se aplica tanto a uma colônia de bactérias mantida em laboratório, quanto às sociedades industrializadas. Alguém já reparou na quantidade de sementes que existem dentro de um mamão maduro? Pois é. Cada uma delas quer se transformar em um pé de mamão. Igualmente, todos os milhões de espermatozoides presentes numa ejaculação querem porque querem fecundar um óvulo!

O Brasil encontra-se agora em plena carreira desenvolvimentista. Ainda bem. Muitas gerações se passaram até que isso começasse a acontecer. Parece que, finalmente, chegou a nossa vez. Parece. Mas, o modelo de desenvolvimento que estamos perseguindo, aquele no qual nos espelhamos é o americano. Aliás, praticamente todo o mundo se espelha nesse modelo. Todos almejam, um dia, serem os Estados Unidos. O Brasil é um súdito fiel desse modelo. A coisa é tão escancarada que houve uma época que o nome oficial do nosso país era “Estados Unidos do Brasil”. Quem se lembra?

Ocorre que o modelo americano, em escala mundial, é insustentável. Não há como cada pessoa no bairro, na cidade, no país, no Planeta, ter um, dois, três carros, comprar, consumir tudo que seu coração sonha e deseja. Há limites para tudo porque todos os recursos naturais deste Planeta são finitos. Se a exploração desenfreada, sem planejamento nem controle continuar sua escala ascendente, vai chegar uma hora que as florestas vão sumir, a biodiversidade vai se reduzir a quase zero, a água potável vai se exaurir, as terras habitáveis vão acabar. Isto porque há limites para todo crescimento, repito.

O que fazer, pergunta o cidadão de boa vontade. Ninguém tem respostas prontas, infalíveis. No fundo, tudo que temos são meras tentativas. Só podemos especular, sugerir. Veja estas sugestões, todas baseadas no bom senso e nos princípios da cidadania: Mudar as atitudes de consumo, reduzindo, por tabela, os níveis de poluição. O consumo consciente parece ser outra resposta. Reciclar é preciso. Neste esquema, educação é fundamental. Depois, conscientizar-se de que não há solução individual. Estocar alimentos, água, dinheiro não vai resolver o problema. As soluções têm que ser gerais, globais e atingir toda a sociedade. Neste contexto, as redes sociais podem ter papel preponderante, se bem orientadas e atuarem para o bem de todos. E, é claro, todos têm que fazer sua parte, diariamente, individualmente. Mesmo que ninguém veja e, principalmente, quando ninguém está vendo. Devemos agir sempre como eco-cidadãos: Economizar água e energia, não sujar as ruas, obedecer às leis de trânsito e as do bom convívio social, visando sempre o bem comum. O bem de todos que estão aqui agora e daqueles que virão depois de nós. Ou seja, nossos descendentes diretos e indiretos. Aqueles que carregam nossos genes e nossos sobrenomes.

Utopia? Talvez. Contudo, se sonharmos juntos, agiremos juntos, teremos vitórias e derrotas juntos. Parece que esta é a mensagem daquele poeta de Liverpool, tragicamente assassinado em frente ao prédio onde morava. A mensagem dele é, resumidamente, algo assim: “Você pode achar que sou um sonhador, mas não sou o único. Quem sabe você resolve juntar-se a nós e, então, o mundo será como se fosse um!”.


*Tarciso Filgueiras é pesquisador e professor.




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