Fé e Blindagem PDF Imprimir E-mail

Tarciso Filgueiras

Gosto de prestar atenção quando as pessoas falam de sua fé. De modo geral, elas falam com prazer e alguma emoção. Um traço que parece comum aos crentes é o fato de acreditarem na divindade com objetivos práticos. No entanto, esse fato não é jamais admitido e, se trazido à tona, é negado, peremptoriamente.

Ou seja, as pessoas acreditam em Deus (ou nos deuses, orixás, entidades, etc.) para obter alguma vantagem material ou espiritual. Elas rezam para serem protegidas contra todas as vicissitudes da vida: doenças, desemprego, problemas familiares, problemas no trabalho, contra os desastres aéreos, terrestres e náuticos. Em outras palavras, rezam e pedem à divindade uma blindagem total, completa. Algo semelhante ao que as melhores companhias de seguro oferecem.

Um diálogo profundo entre o crente e sua divindade favorita teria, possivelmente, essa clausula pétrea: eu acredito em você, propago essa fé, cumpro os rituais prescritos, faço contribuições financeiras, porém, em troca, quero ter proteção total contra todas as coisas ruins que possam acontecer comigo, com minha família, com os parentes de quem gosto e todos os meus amigos. Quero atenção especial aos meus filhos, principalmente quando estiverem fora de casa!

Esse parece ser o tratado implícito entre o crente e a divindade. Óbvio, se alguém questiona essa relação de troca, essa espécie de escambo espiritual é negada com a desfaçatez de um político brasileiro do século 21. Na verdade, os crentes perecem negar com convicção, pois não têm consciência clara dessa relação que se estabelece. A coisa não chega a aflorar com tanta clareza. Fica apenas latente.

Algo semelhante ocorre no plano puramente humano. Quando uma criança nasce, os pais logo percebem que ela é praticamente inválida e precisa de proteção total ou irá perecer em breve. Cuidam, então, de estabelecer uma rede de proteção ao recém nascido, que inclui os parentes, mas também pessoas fora do círculo familiar, os padrinhos. Desse modo, se acontecer algo horrível com os pais, a criança não ficaria sem proteção afetiva e econômica. Famílias de poder aquisitivo baixo procuram padrinhos de padrão mais alto que o seu. As já de padrão alto procuram padrinhos de sua igualha social ou econômica.

Este sistema é bastante sensato e, por isso, tem persistido na cultura humana, especialmente no ocidente. Esse mesmo sistema, que funciona tão bem no plano humano, nós o transportamos para o plano espiritual e esperamos, com toda a força da nossa fé e da nossa esperança, que dê certo.

Diz a sabedoria popular

"vamu, cum fé eu vô, que a fé não costuma faiá..."

Tradução: eu acredito que tudo em que creio é verdade, minha fé não vai falhar, mas, mesmo assim, no fundo, reconheço que existe uma possibilidade de falha. Apesar disso, prefiro acreditar. É mais confortável acreditar. Melhor que enfrentar as dificuldades da vida de peito aberto, como qualquer animal na natureza! Eu preciso dessa bengala...

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