Felipe Mogan
Tenho sido rotulado de ateísta, um rótulo que na verdade não se encaixa naquilo em que hoje penso e acredito embora tenha sido uma fase pela qual passei e que foi bastante interessante ainda que nem sempre agradável devido aos inúmeros preconceitos.
A trajetória até alcançar a conscientização de ateísmo não é uma viagem corriqueira e sim uma longa jornada com a duração de quase uma vida. [1]
Antes de continuar é importante, se você ainda não leu, que leia a nota no título deste artigo, pois ateísmo é apenas um rótulo teísta.
As impressões gravadas durante uma infância, e principalmente adolescência, submetidas a uma rigorosa disciplina católica, no colégio marista, nunca poderiam ser deletadas com um só comando.
No âmbito familiar, embora não no mesmo grau de rigor exercido no colégio, o ambiente paterno reforçava os mesmos princípios. As dúvidas da fé na teoria criacionista eram afogadas e sublimadas pelo sentimento de culpa gerado pela doutrina. A saída camuflada que devo ter encontrado, foi o interesse pelo misticismo, esoterismo, e todas as manifestações de ocultismo do tipo ufos, atlântida, visitantes extraterrestres, textos da sociedade rosa-crusis, tudo isso, aliado ao interesse real sobre cosmologia, astronomia, estudos sobre as diversas religiões professadas pela humanidade e a pesquisa constante sobre fatos bíblicos com o fim de estabelecer seus correspondentes históricos. A origem destes interesses estava na busca constante por respostas aos mistérios do universo.
No período que vai dos 15 anos aos 40 devorei toda a literatura que estivesse ao meu alcance e que tratasse de fenômenos não-explicados. Foi assim que passou pelas minhas mãos autores cujo nível de seriedade variaram de Daniken a Giorgio de Santillana, com passagens por Jean Sendi, Zecharia Zitchin, e muitos outros. Neste mesmo período assinava e comprava regularmente livros e revistas de astronomia.
Por volta de 1985 esse interesse cessou subitamente.
Durante cerca de 6 anos os livros ficaram nas prateleiras cumulando poeira e deixei de pensar de uma maneira sistemática sobre esses temas. Não tinha chegado a conclusão alguma e uma onda de ceticismo me invadia cada vez, com mais força. Alguns fatos, que no período do ocultismo minha avaliação os considerava aceitáveis, tornavam-se ridículos sob minha nova ótica de julgamento.
Em finais de 1985 travei conhecimento com uma organização política internacional que curiosa e paradoxalmente, como demonstro em artigo abaixo referenciado, iria lançar-me definitivamente nas portas do ceticismo, que afinal conscientemente abracei, em 1995. A citada organização, cujo braço brasileiro se intitula, hoje, MSIA [1a] - Movimento de Solidariedade Ibero-Americano, tem sede nos EUA, ramificações em todo o mundo e é liderada pelo político, economista e filósofo, Lyndon LaRouche Junior.
A organização LaRouche encanta, intelectualmente, à primeira vista, por força do forte embasamento filosófico de suas ações e pelo entusiasmo, dedicação e capacidade intelectual e de trabalho da maioria de seus membros. Este encantamento inicial pode até encobrir, parcialmente, e para muitos até definitivamente, os aspectos totalitários e radicais de suas posições.
No meu caso, embora eu fosse sempre polêmico na afirmação dos meus pontos de vista, este encantamento turvou parcialmente, minhas convicções durante cerca de 5 anos. Somente em 1991 desliguei-me definitivamente do convívio e de minhas obrigações com a organização.
Como toda experiência na vida sempre traz aspectos positivos e negativos extraí, como saldo desse contato, uma maior compreensão filosófica das principais correntes do pensamento humano fruto do autodidatismo necessário para tentar compreender, aceitar ou recusar as proposições da organização. O artigo, Minha Passagem pela Organização LaRouche traz um relato da forma de atuação, a nível mundial, deste grupo.
Pois bem, o forte conteúdo cristão dos argumentos do grupo LaRouche, que enfatiza a todo momento a "chispa divina da criação existente no ser humano", acabou orientando-me exatamente para o lado oposto, onde na verdade eu sempre quis estar, i.é, a teoria evolucionista.
Esta passagem não foi um processo instantâneo e teve como prelúdio, a volta em 1991do meu interesse por desvendar "o Homem Jesus Cristo", através da busca de um Jesus histórico em contraposição àquele mostrado pela fé cristã. Neste período, a leitura de dois livros; Jesus dentro do Judaísmo de Charles Charlesworth e Jesus um Judeu Marginal de John P. Meir [2] foram fundamentais para mostra-me o quão perto eu estava de livrar-me da culpa religiosa. Estes brilhantes autores, o primeiro teólogo protestante e o segundo um padre teólogo católico conseguiram de forma inteiramente honesta separar suas crenças do compromisso com as fontes históricas e produziram documentos isentos que traduzem o que existe de concreto como resultado da pesquisa do Jesus histórico. Vale a pena a leitura desses livros tanto para crentes como também, principalmente, para os descrentes.
Entramos, finalmente, no ano de 1995 e o início das facilidades da Internet no Brasil vieram me proporcionar as leituras e conseqüentes respostas para as dúvidas que faltavam. O primeiro momento como ateu, posso descrever como comparável à sensação de um alívio de peso que vinha sendo cada vez mais difícil de sustentar. Um momento, embora solitário, repleto de felicidade interior. Algo que Somerset Maugham descreve, maravilhosamente, em seu livro semi-biográfico Servidão Humana (Of Human Bondage). Este trecho está reproduzido em Somerset Maughan e o Ateísmo.
A fase seguinte, é que de uma certa forma se estende ou não pelo resto da vida, é denominada pelos americanos de "come out" e é na verdade a etapa mais difícil dessa descoberta, constitui-se ela do momento da própria identificação como ateu, num mundo dominado pelo deísmo. Nela temos que exercitar o convívio com a família ainda cristã, incluindo ocasiões como Páscoa, Natal etc., sem impor a nossa nova condição, sem desrespeito a esses cultos.
Na verdade, isto não me causa nenhum desconforto, embora eu não me sinta a vontade em cultos de seitas como a IURD, aonde o obscurantismo brota em todas as cerimônias, a presença numa missa, dirigida por um daqueles párocos que ainda cultiva o cuidado com seu rebanho, produz em mim uma ótima vibração interior mesmo considerando que meu entendimento sobre a maioria do que é pregado seja bastante diferente. Para alguém que acompanha os progressos da pesquisa histórica sobre Jesus é praticamente impossível se deixar levar pela idéia de que os evangelhos trazem aquilo que realmente Jesus disse, fez e foi submetido.
Durante este período eu pensava estar enquadrado naquele ateísmo que George Smith classificou como ateísmo forte.[3] Com o tempo e mais recentemente, em função de experiências pessoais, ajustei minha posição para aquilo que eu chamo de Ateísmo Antropomórfico ou Cósmico. Na minha definição de ateísmo antropomórfico existe espaço para o Deus metafórico identificado como força, conjunto de leis ou consciência, apenas não existe espaço para a maioria dos deuses do deísmo que se apresentam na forma de um Pai antropomórfico. Como o deus de nossa civilização judaico-cristã é exatamente um deus desta natureza é comum taxar-se uma pessoa que não acredita neste deus como ateu.
A fase seguinte, presente na vida de muitos ateus, é "o retorno". Na maioria da vezes este retorno se faz em novas bases. No meu caso credito à insistente influência da minha esposa que às vezes até de forma nem tão muito delicada contribuiu para que uma pequena abertura fosse feita na represa por onde pouco a pouco vazou intensamente a luz.
A meu posicionamento dentro deste rótulo do ateísmo durou cerca 10 anos. Continuei e continuo buscando uma verdade que me satisfaça. Acredito em uma inteligência superior, mas nada que se louve. Quais seus exatos atributos não sabemos e ficamos com aqueles tradicionais que as religiões propagam, mas com certeza não são atributos antropomórficos. A doutrina que menos me agride é a Doutrina Espírita de Allan Kardec embora tenha algumas restrições quando ela prega a aceitação de um Deus-Pai ao qual rogamos nossas súplicas. O que me aproxima da doutrina espírita é exatamente aquilo que caracteriza o afastamento desta idéia na medida que os espíritos humanos seriam nossos interlocutores e auxiliares para chegarmos ao nível de vibração mais próximo possível da inteligência superior.
A evolução do universo é a inteligência ou o Universo Inteligente. O que faríamos quando nossa inteligência (homem + máquina) atingir o nível de 1069 cps, índice esperado para o fim do século 21? Uma possibilidade seria a criação de alguma superinteligência em outro universo. O Nosso universo nitidamente se assemelha ser um projeto inteligente. A menor discrepância em algumas das variáveis físicas que o regem e a vida seria impossível. A questão do Universo na direção da inteligência e o papel da vida biológica nesta caminhada é um tema interessante que está atraindo a atenção de cientistas e teoristas complexos como James Gardner, autor de Biocosm e Intelligent Universe.
A razão e o estudo inerentes na doutrina espírita tornam muito mais fácil ao racionalista senão a adesão pelo menos o convívio. Reparem inclusive uma coisa interessante muitas vezes esquecida. É costume associar-se os ateístas a um completa descrença em tudo. Isto não é verdade, ateismo como a palavra indica é ausência de Deus e eu ainda limitaria aos tipos de teísmos conhecidos. Nada impede a crença em espíritos por parte de um ateu. Aliás, não é muito do meu agrado o termo espírito, prefiro denominar consciência.
Acreditando ter feito um resumo do meu caminho até ser rotulado como ateu sugiro a visita aos links mencionados na página principal que tratam, com seriedade, do assunto. A intenção não é abalar a fé de quem quer que seja, muito pelo contrário, acredito que o verdadeiro teísta quando em contato com argumentos contrários fortes pode até reforçar sua fé, na medida em que encontre a refutação destes argumentos dentro de sua própria fé. Em contrapartida, aqueles que tem as mesmas dúvidas que um dia tive, podem ter a oportunidade de trilhar um novo caminho para chegar às respostas de suas indagações.
NOTA 1:
Você precisa estar ciente das definições de ateísmo para poder situar este artigo em sua verdadeira realidade. Portanto caso não conheça bem estas complexas definições não se impressione pela palavra ateu como, necessariamente, a falta de crença em Deus. Leia o artigo "O que o Ateísmo é o que o Ateísmo não É" para conhecer os diversos tipos de ateísmo.
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NOTA 2: Na ocasião em que escrevi este artigo (1997) não conhecia outros trabalhos mais modernos e mais precisos, que me fizeram reavaliar o valor destas obras. Embora mantenha a recomendação da leitura das mesmas, e ainda as considere como da primeira linha na pesquisa do Jesus Histórico, existem textos com abordagens mais aprofundadas. Voltar para o texto.
NOTA 3:Na primeira versão deste artigo em 1997 eu ainda não havia chegado às definições que apresento a partir deste parágrafo. Voltar para o texto
NOTA 4:Hoje o MSIa está desvinculado da Organização LaRouche Internacional. Em 2003 o MSIA rompeu com o Grupo LaRouche devido à acusações do comando do Grupo LaRouche quanto ao MSIA ter se transformado em uma operação de inteligência fascista, sinarquista e nazista. É curioso os fascistas se acusarem, mutuamente, de fascistas. Ler as acusações da EIR, principal publicação do Grupo LaRouche. A defesa do MSIA esteve algum tempo no site do MSIA no Brasil, mas depois desapareceu. Voltar para o texto
Adalberto Aparecido Pimenta. Franca/SP/Brasil.