William Somerset Maugham e o Ateísmo PDF Imprimir E-mail

  maugham

Felipe Mogan 

 O "quote" a seguir é uma maravilhosa descrição da descoberta do ateísmo experimentada por Philip Carey, personagem central em Servidão Humana (Of Human Bondage) , obra prima de Somerset Maugham.

      O texto em questão encontra-se nas pags. 78 e 79 da 13º edição de Servidão Humana, da Editora Globo, tradução de Antônio Barata. Agradecemos à
Editora Globo , que gentilmente autorizou a inserção do texto na MPHP.

      Antes de reproduzir o relato é conveniente situar-se, dentro da obra, o ambiente e a cena em que se dá a reflexão do autor bem como informar alguns dados sobre o mesmo, principalmente para aqueles que não leram o livro ou não conhecem Maugham.

      
William Somerset Maugham nasceu a 25 de janeiro de 1874, em Paris, quando seu pai era procurador da embaixada britânica, lá vivendo até os dez anos. Em 1927 fixou residência na Riviera Francesa, onde veio a falecer em 1965.

      Frequentou a King's Scool de Canterbury, e formou-se médico em 1897, no St. Thomas Hospital; nunca, porém exerceu a profissão.

      Estreou na literatura com O Pecado de Liza (1897), livro que não teve muito sucesso, pois feriu a mentalidade vitoriana de então. Suas primeiras peças ao contrário, tornaram-no popular.

      Em 1915 escreveu Servidão Humana , considerado sua obra prima e no qual, a par de traduzir as experiencias juvenis como médico, deu livre expressão a seu pontos de vista sobre a vida e o homem em sociedade.

      Autor de uma extensa obra, que inclui contos, novelas, romances, peças teatrais, ensaios e narrativas de viagens, Maugham é considerado um mestre da narrativa curta e da comédia de costumes e conceituado como um dos maiores escritores da lingua inglêsa. Os problemas religiosos e morais são frequentes em seus livros, como em O Véu Pintado (1925) e O Fio da Navalha (1944) que como também Servidão Humana foi tema de filme em
Hollywood, este último em 3 versões (1934 - Leslie Howard e Bette Davis 1946 - Paul Henreid e Eleanor Parker 1964 - Laurence Harvey e Kim Novak, respectivamente, nos papéis de Philip Carey e Mildred Rogers) [1] . Entre suas obras mais conhecidas estão Um gosto e seis vinténs (1919), inspirada na vida de Gauguin, e Histórias dos Mares do Sul .

      Philip Carey, de certa maneira é o próprio Somerset Maughan, visto ser Servidão Humana um romance que reflete intensamente a vida de Maugham.

      A cena acontece após Philip, então com 17 anos, interromper os estudos na King's Scholl em Tercanbury e decidir ir para a Alemanha estudar alemão.

      Em Heidelberg, Philip se hospeda na casa do Prof. Erlin onde pagaria 30 marcos por semana e ainda teria aulas de alemão. Lá trava conhecimento com os dois personagens cujas discussões provocariam seu "coming out of the closet".

São eles o inglês Hayward que dizia acreditar apenas no Integral, no Bom e no Belo, pertencente à Igreja Anglicana mas com tendências ao catolicismo romano e o americano Weeks estudante de teologia, pouco ortodoxo e descrente não assumido, mas que Philip reconhecia ser virtuoso e levando uma vida de pureza cristã, o que contrastava com a sua noção de que o descrente é um homem perverso e viciado, incutida por seu tio que o criara e era vigário da igreja anglicana em Blackstable.

      As discussões entre os dois, com a presença de Philip, só não acabavam degenerando em briga pelo comportamento calmo do americano. "
Nem Hayward nem Weeks imaginavam que essas conversas em que se entretinham durante noites de ócio eram depois esmiuçadas pelo cérebro ativo de Philip."
      

Segue abaixo o diálogo com Weeks que desencadeou a descoberta da descrença de Philip e suas reflexões posteriores:

-- Mas porque razão haverias tu de estar com a verdade, enquanto estariam erradas criaturas como Santo Anselmo e Santo Agostinho?
-- Queres dizer que eles foram homens inteligentes e cultos, ao passo que alimentas grandes dúvidas quanto aos meus predicados intelectuais, não é assim?
-- É -- respondeu Philip num tom de incerteza, pois feita daquela forma sua pergunta parecia impertinente.
-- Santo Agostinho acreditava que a terra fosse chata e que o sol girasse em torno dela.
-- Não vejo o que isso possa provar.
-- Ora, prova que cada um tem as crenças de sua geração. Teus santos viveram numa era de fé, quando era praticamente impossível deixar de acreditar em coisas que hoje nos parecem positivamente inacreditáveis.
-- Então como sabes que agora estamos com a verdade?
-- Mas, eu não sei!
Philip refletiu um instante e volveu:
-- Não vejo razão para que as coisas em que acreditamos presentemente não sejam tão errôneas como aquelas em que se acreditava no passado.
-- Nem eu.
-- Então como podes acreditar no que quer que seja?
--Não sei dizer.
Philip perguntou a Weeks o que achava da religião de Hayward.
-- Os homens sempre imaginaram os deuses segundo sua própria imagem -- disse Weeks. -- Hayward acredita no pitoresco.
Após pequena pausa Philip observou:
-- Afinal, não compreendo por que se deva acreditar em Deus.

      Mal as palavras lhe haviam saído da boca, concluiu que não tinha mais fé.

      Perdeu o fôlego de repente, como se houvesse mergulhado em água fria. Voltou-se para Weeks, com os olhos espantados, e de súbito teve medo. Na primeira oportunidade despediu-se do amigo. Queria estar sozinho. Era a coisa mais extraordinária que já lhe tinha acontecido. Tentou refletir; aquilo era emocionante, uma vez que o caso parecia interessar toda a sua vida (julgava que qualquer decisão nesse terreno alteraria profundamente o curso de sua existência) e um erro poderia conduzir à condenação eterna.

      Quanto mais refletia, porém, mais reforçava a sua convicção, e embora durante as semanas que se seguiam devorasse livros de tendências cépticas, não o fez senão para confirmar aquilo que sentia instintivamente. O fato é que cessara de acreditar não por esta ou aquela razão, mas porque lhe faltava o temperamento religioso. A fé lhe fora incutida do exterior. Era uma questão de ambiente e exemplo. Novo ambiente e novo exemplo proporcionavam-lhe agora, a oportunidade de encontrar-se a si próprio.

      Descartava-se facilmente da crença que alimentava em criança, como uma capa de que não mais necessitasse. A princípio a vida lhe pareceu estranha e solitária sem a fé que, embora nunca o tivesse percebido, representava um apoio infalível. Sentia-se como um homem que, costumado a andar apoiado ao bastão, fosse de repente compelido a dispensá-lo. Parecia realmente, que os dias eram mais frios e as noites mais tristonhas.

      A novidade da sensação animava-o, entretanto, parecia transformar-lhe a vida numa aventura emocionante. Em pouco tempo, o bastão que jogara longe e a capa que lhe caíra dos ombros assemelhavam-se a um fardo insuportável de que tivesse sido aliviado. As práticas religiosas que durante tantos anos lhe foram impostas afiguravam-se-lhe partes integrantes da própria religião. Lembrou-se das coletas e epístolas que fora obrigado a decorar, e dos prolongados ofícios na Catedral, a que assistia sentado, com as pernas e os braços a ansiar por movimento. Lembrou-se das caminhadas à noite, através de estradas lamacentas, em demanda da matriz de Blackstable, austero e desolado edifício. Oh! Como aquilo tudo o enfastiava! Seu coração saltava de alegria ao ver que agora estava livre daquelas maçadas.

      Admirava-se de se ter desvencilhado da crença com tanta facilidade e, ignorando que tudo tivera origem nos processos sutis de sua natureza íntima, atribuía à sua própria faculdade de raciocínio a convicção inabalável a que chegara. Experimentava grande contentamento. Com a falta de simpatia que a mocidade revela por atitudes diferentes da sua, Philip desprezava Weeks e Hayward por se contentarem com a vaga noção a que davam o nome de Deus, sem coragem de darem o passo final que a ele pareceu tão simples.

      Certo dia subiu, sozinho a uma colina para descortinar uma vista que, não sabia por que razão, sempre o inundava de sensações eufóricas. Era então outono, mas os dias ainda se apresentavam quase sempre sem nuvens e o céu parecia brilhar com mais esplendor. Dir-se-ia que a natureza procurava aumentar a magnificência dos últimos dias de bom tempo. Olhou para a planície, lá embaixo, reverberando ao sol numa extensão infinita; à distância viam se os telhados de Mannheim e muito além os contornos mal delineados de Worms. Aqui e ali o Reno cintilava num reflexo penetrante. Toda aquela vastidão estava impregnada de pura luz dourada. Com o coração a bater de alegria, Philip lembrou-se de como Satanás mostrara a Jesus, do alto de um monte, os reinos da Terra. Inebriado pela beleza do cenário, parecia-lhe que o mundo inteiro se estendia diante dele; estava ansioso por descer e desfrutá-lo. Sentia-se livre de temores degradantes, livre de preconceitos. Poderia seguir o seu caminho sem o insuportável medo aos fogos do inferno. De súbito verificou haver-se também descartado daquela responsabilidade que transformava todas as ações de sua vida em questões de premente importância. Respirava mais livremente numa atmosfera menos carregada. Só a si mesmo tinha que dar satisfação do que fizesse. Liberdade! Era, afinal, senhor de si próprio. Obedecendo ao velho hábito, agradeceu inconscientemente a Deus por não mais acreditar nEle.

      Somerset Maugham em que pese julgarmos ser essa descrição condizente com sua habilidade para descrever emoções e tipos humanos, não se agradou desta passagem ao referir-se a ela em 1939 quando publicou "The Summing Up", um livro que ele próprio não considerava uma biografia ou livro de lembranças. Sobre "The Summing Up" Maugham escreveu: " Neste livro vou tentar relacionar minhas considerações sobre os assuntos que marcadamente me interessaram no decurso de minha vida "

      Maugham assim se refere ao episódio da perda de fé de Philip nos capítulos LXV a LXIX de "The Summing Up", pags 162 a 179 da edição da Pan Books Ltd, de 1976: (texto com interrupções por ser muito extenso)

      O primeiro assunto que atraiu minha atenção foi religião. Parecia para mim de grande importância decidir se este mundo em que eu vivia era o único que eu tinha que reconhecer ou se eu deveria encará-lo como um lugar de experiências que me prepararia para uma vida futura. Quando escrevi Servidão Humana, dediquei um capítulo sobre a perda, que sofrera meu herói, da fé em que fora criado. Os originais do livro foram lidos por uma mulher muito inteligente que naquele tempo tinha a bondade de interessar-se por mim. Disse-me ela que aquele capítulo era inadequado. Eu o reescrevi; mas não penso que o melhorei. Dado que ele descrevia minha própria experiência, eu não tinha dúvidas que minhas razões para chegar às conclusões que cheguei eram inadequadas. Elas eram as razões de um menino ignorante. Elas vinham do coração não da cabeça.

      Quando meus pais faleceram eu fui morar com meu tio que era um pastor. Ele era um cinquentão, sem filhos, e eu estou certo que era um grande aborrecimento ter sobre si a responsabilidade das pressões de um pequeno garoto. Ele dizia orações pela manhã e à tarde, e íamos à igreja duas vezes no domingo. Domingo era o dia ocupado. Meu tio sempre dizia que ele era o único homem que trabalhava sete dias por semana. Na verdade ele era incrivelmente preguiçoso e deixava todo o trabalho da paróquia para seu cura e seus tesoureiros. Mas eu era impressionável e logo me tornei bastante religioso. Eu aceitava o que me era dito como verdade inquestionável, tanto no vicariato do meu tio, como posteriormente na escola.

      Havia um ponto que imediatamente me afligiu. Eu não estava há muito tempo na escola antes de descobrir, através do ridículo pelo qual eu era exposto e das humilhações que eu sofria, o infortúnio que representava para mim, a minha gagueira; e eu tinha lido na Bíblia que se você tem fé você pode mover montanhas. Meu tio assegurava-me que isso era literalmente um fato.

      Certa noite, nas vésperas de voltar para a escola, eu rezei a Deus com todo meu espírito para que ele levasse embora minha limitação; e com essa fé fui dormir, seguro de que quando acordasse na manhã seguinte eu seria capaz de falar como qualquer pessoa. Eu me imaginei diante da surpresa dos garotos (eu estava ainda no primeiro grau) quando eles descobrissem que eu não gaguejava mais. Acordei cheio de exultação e foi um choque real, terrível, quando descobri que eu gaguejava mais do que nunca.

      Eu cresci. Fui para a King's School. Os mestres eram religiosos; eram estúpidos e irascíveis. Eles eram impacientes com minha gagueira, e se não me ignoravam completamente, o que eu preferia, me intimidavam. Pareciam considerar como minha culpa o fato de eu gaguejar. (.......Eu estava muito aborrecido com todo o dia-a-dia de igreja que era jogado sobre mim, tanto em casa quanto na escola e, ao partir para a Alemanha eu saldei a liberdade que me permitiu ficar fora disso. Mas duas ou três vezes, movido pela curiosidade, eu fui à Santa Missa na Igreja Jesuíta em Heidelberg. (....... O Paraíso foi reservado para os membros da igreja da Inglaterra. Eu aceitava como uma grande graça de Deus o fato de eu ter sido educado naquela comunhão. Era maravilhoso ter nascido Inglês.

      (.......E agora na Santa Missa em Heidelberg eu não podia deixar de notar que os estudantes que enchiam a igreja até às portas, pareciam bastante devotos. Eles tinham, realmente, toda a aparência de acreditar em sua religião tão sinceramente quanto eu acreditava na minha. Era estranho que eles pudessem porque, com toda a certeza, eu sabia que a deles era falsa e a minha a verdadeira.
(.......Assolou-me a idéia de que eu poderia muito bem ter nascido na Alemanha e então teria sido naturalmente criado como um católico. Achei muito duro que, sem ter nenhuma culpa própria, assim eu seria condenado ao tormento eterno. Minha natureza ingênua revoltou-se com essa injustiça. O próximo passo foi fácil. (........Mas as crenças que me haviam sido instiladas se apoiavam uma nas outras e quando uma delas veio a ser ofendida as demais participaram do mesmo destino. Toda a horrível estrutura, baseada não no amor de Deus mas no medo do inferno, ruiu como um castelo de cartas.

      Com o espírito em disponibilidade, deixei de acreditar em Deus; Eu senti a felicidade de uma nova liberdade. Mas nós não acreditamos unicamente com o espírito; em algum profundo recesso de minha alma ainda permaneceu o velho temor do fogo do inferno, e por muito tempo minha exultação foi temperada pela sombra dessa angústia ancestral. Eu não acreditava mais em Deus; mas no fundo,ainda acreditava no Diabo.

      (.......Eu me denominava agnóstico, mas no meu sangue e nos meus ossos eu considerava Deus como uma hipótese que um homem racional tem que rejeitar.       (.......Eu ainda não resolvi com o Diabo. O problema oprime quando você considera se Deus existe, e se existe, que natureza deve ser atribuída a ele.

      (.......Eu não consigo penetrar nesse mistério. Permaneço como agnóstico, e a consequência prática do agnosticismo é que você age como se Deus não existisse.


      Finalmente, por ser Maugham meu autor preferido, só tenho a recomendar a sua leitura aos que não o conhecem, independente de credos, pois afinal esta é apenas uma passagem. Embora possa correr o risco de ser chamado de elitista, sugiro àqueles que puderem lê-lo no original, que o façam, mesmo levando-se em conta que Maugham é, suficientemente, traduzido em português. Somerset Maugham é daquele tipo de escritor difícil de ser reproduzido fielmente em outro idioma. Desejo, inclusive, desculpar-me por qualquer imprecisão na tradução do texto de "The Summing Up", pois não conheço tradução dessa obra em português. [2]


Nota 1

Durante algum tempo cometi um erro ao indicar que uma das versões (1964) tinha sido estrelada por Montgomery Clift e Elisabeth Taylor. Acho que confundi Kim Novak com a Elisabeth Taylor e o erro permaneceu por mais de 6 anos na página. Agora em 2004, faço a devida correção. Voltar para o texto

Nota 2 :

Recentemente, tomei conhecimento de uma tradução de "The Summing Up" intitulada Confissões, feita por Mário Quintana e editada em 1951 pela Editora Globo, fazendo parte de uma coleção de nome Nobel, certamente esgotada. Aqueles que apreciam Maugham e quiserem ler estas "Confissões", em português, terão que pesquisar em sebos. A liberdade poética empregada por Mario Quintana ao traduzir "The Summing Up" como " Confissões" só é mesmo permitida a um poeta do porte de Mario Quintana. Eu ouso dizer que no afã de classificar o autor em um nível elevado dentro da literatura, o nosso Mário tentou estabelecer um título que fizesse com que os leitores interpretassem o livro da mesma maneira, por exemplo, que o sentido dado por Rousseau às suas "Confissões" ou por Sto. Agostinho às suas e acabou por exagerar no uso dessa liberdade, tirando do título em português o sentido que Maugham queria empregar. Se fosse somente isto, permaneceríamos apenas no campo da liberdade poética. Infelizmente, existem outras imprecisões, algumas graves, como na pag. 184 quando o sentido do relato de Maugham é invertido no episódio da gagueira (pelo menos no exemplar que possuo, 1ª edição 2ª impressão - 1958). Por situações como esta é que reafirmo minha recomendação sobre a leitura da obra de Maugham no original. Notem que a tradução não foi realizada por qualquer um, mas por um consagrado literato brasileiro.

Acesse também:   Sim, Sou Rotulado Como Ateu e O Quê o Ateísmo É e o Quê O Ateísmo Não É. Se você é fã de Maugham leia O Zelador da Igreja.


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Maugham: agnóstico, cínico, infeliz
escrito por Alvaro Pacheco Rodrigues , 25 março 2007
Como Bertand Russel, W. S. Maugham também se proclamava agnóstico. Por muito tempo, as obras de ambos partilhavam minha cabeceira. E mesmo hoje, volta e meia, ainda o fazem. Na prática, agnosticismo e ateísmo se confundem. Mas são diferentes. Se Deus é uma resposta necessária para explicar o porquê do tudo, ser ateu é afirmar que o porque de tudo pode
ser explicado sem Deus. Salvo se ele considerar tal explicação desnecessária. O agnóstico é mais humilde. Afirma apenas que, se Deus existe, sua existência não pode ser por nós apreendida. É incognoscível. Em Russel, isso é bastante para contentá-lo e ele se
mostra confortável com a resposta que se dá. Em Maugham, ela não parece conclusiva. Se Deus é inatingível, talvez porque não exista, o porquê da vida fica sem resposta, sem um sentido coerente. Não passa de uma grande farsa, ou como ele preferia dizer, uma grande ?comédia?.

Como escritor, Maugham era, acima de tudo, um contador de história. Sua extrema paciência para escutar, aliada a uma refinada perspicácia, eram as armas que dispunha para compor personagens e situações, sendo a ficção um modo de rearrumar a realidade. Se ?Of human bondage? é uma obra em grande parte autobiográfica, todos os seus demais escritos
são, de alguma forma, biográficos.

?Servidão Humana? é um Maugham que não se traduz nas outras obras. Um homem infeliz, que aprendeu a conviver com a infelicidade, dedicando-se à vida dos outros para esquecer a sua, construindo para si mesmo um refúgio feito de ironia e descrença. Um cínico - como o rotularam vários de seus contemporâneos.

Nunca teve ilusões sobre sua posição literária. Embora, em certa época, tenha conquistado uma expressiva legião de leitores e admiradores, jamais foi reconhecido como um grande escritor. Seu lugar no panteão da literatura anglo-saxônica não foi além do segundo escalão.
Ele mesmo diz que apenas dois críticos literários se deram ao trabalho de levá-lo a sério.

Para o tipo de histórias que ele contava, o conto era o gênero literário apropriado, e ele o cultivou com maestria crescente, atingindo ápice com ?Histórias do Mares do Sul?. Quem as leu há de ter gravada na memória, com letras de fogo, o post-scriptum inesquecível:

?Quando nosso navio parte de Honolulu, penduram-nos ao pescoço ´leis`,que são grinaldas de flores, levemente odoríficas...?

Maupassant, que muitos consagram como o ?pai do Conto?, definiu sua fórmula. A história sempre há de acabar com uma situação ou revelação surpreendente, talvez chocante. Em ?Histórias do Mares do Sul?, a história do pregador missionário, que se dispõe a salvar a alma de uma pecadora, é Maupassant puro: ?- Homens...são todos iguais...Todos! Todos! Ele estremeceu. Tinha compreendido.?

Em ?Servidão Humana?, Phillip Carey é Maugham. Claro que é. Até nos complexos. Carey é coxo, Maugham era gago. Imagine-se o quanto lhe deve ter sido sofrida a maldade verbal de seus colegas e desafetos. Nos ouvidos de Maugham/Carey não para de ressoar a palavra temida, que Mildred dispara em sua ira de mulher vulgar: ?Aleijado!?

Os leitores/admiradores de Maugham, consideram ?Of human bondage? sua obra-prima. Pena que a tenha conspurcado, cedendo às críticas de quem, lendo os rascunhos, considerou-a demasiado amarga ou pessimista. O romance Carey-Sally, no final do romance, é uma excrescência. Empobreceu a obra. Não é Maugham. Ele não sabia escrever sobre um relacionamento amoroso com ?final feliz?. Como poderia, se jamais experimentou um ?beijo de amor correspondido??

Como o Sinhuê, de Mika Waltari, Maugham foi um homem que viveu sozinho todos os dias de sua vida.

Nota da MPHP: Comentário originalmente postado em 17/03/2007
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Maugham e a Crítica
escrito por Administrador , 25 março 2007
Obrigado Alvaro pelo excelente comentário.

Só faço uma observação quanto a Maugham ser do segundo escalão o que acontece é que a crítica não perdoa o sucesso financeiro aliado ao sucesso literário e por isso diminuem sua importância.

Ele assim se refere à crítica:

"Quando me achava na casa dos vinte anos, diziam os críticos que eu era brutal, aos trinta que era irreverente, aos quarenta cínico, aos cinqüenta entendido e agora aos sessenta que sou superficial. Fiz o que pude, seguindo o curso que eu próprio me tracei e, procurando com as minhas obras amoldar-me ao padrão desejado. Creio que os autores que não lêem críticas fazem muito mal. E' salutar exercitarmo-nos para não ser mais afetados pelas censuras do que pêlos louvores; pois naturalmente é fácil dar de ombros quando nos vemos descritos como um génio, mas já não é tão fácil a gente não se, importar quando nos tratam de nulidades. Aí está a história da crítica para mostrar como é falível a crítica dos contemporâneos. E' uma delicada questão saber o leitor até que ponto deve considerá-la e até que ponto a deve desprezar. É tal é a diversidade de opiniões, que é muito difícil ao autor chegar a qualquer conclusão acerca de seu próprio mérito."

Por outro lado, Maugham escrevia muito na primeira pessoa do singular o que não quer dizer que tudo que escrevesse fosse autobiográfico. Esta é uma das três formas de se contar histórias; do ponto de vista superior ou divino, com um narrador e na primeira pessoa; neste último caso o narrador poder ser um protagonista ou um observador, preferência de Maugham em muitas de suas histórias.

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Nota da MPHP: Comentário originalmente postado em 17/03/2007
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escrito por Alvaro Pacheco Rodrigues , 25 março 2007
Quem colocou Maugham no ?segundo escalão? da literatura britânica foram seus pares, tanto os contemporâneos quanto os pósteros. E ele, ao dizer (?Confissões?) que não tinha nenhuma ilusão quanto ao seu lugar na escala literária, mostra-se conformado, quase concorde com os que lhe negam uma importância maior.

Escritor fascinante para mim (e tantos outros), ainda assim é possível que lhe faltasse uma certa dose de imaginação e criatividade que, não raro, percebe-se naqueles que são grandes no que fazem. Maugham não criava; ele descrevia. Se pintor fosse, haveria de ser um retratista. A rigor, ainda que contista e romancista, sua obra não é de ficção. É realidade tratada com os instrumentos da ficção. Por isso, seus personagens se nos figuram tão verossímeis. É também por isso que afirmei que, excetuando ?Servidão Humana - com seu forte acento autobiográfico ? o resto de sua obra é ?biográfica? (espero agora ter sido entendido).

Talvez por ser fã de Maugham, eu me ressentia ao perceber que não lhe conferiam a importância que ele para mim tinha. Quando soube que ?Of human bondage? tinha sido filmada (a versão de 1964), corri ao cinema, tão logo o filme estreou em Belém. Literalmente, eu ardia de ansiedade.

Esperava assistir a uma película inesquecível.

Que decepção! Diante da grandeza do livro, o filme chega a ser medíocre. A começar pelo elenco, sem nenhum brilho. Laurence Harvey (ator geralmente coadjuvante, como em ?Álamo?, de John Wayne), nada tem de Phillip Carey. E Kim Novak, esplendorosa nas mãos de Hitchcock, já mostra sua condição de atriz decadente. Saí do cinema frustrado.

Nota da MPHP: Comentário originalmente postado em 17/03/2007
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Recolocação de comentários deletados inadvertidamente
escrito por Administrador , 25 março 2007
Aos visitantes
Devido a um problema técnico causado por um erro de operação tive que recolocar alguns comentários que foram, inadvertidamente, deletados por mim. Todos estes comentários recolocados ficaram na data de 25/03/2007, quanto a isto nada posso fazer não ser indicar dentro do próprio texto,em uma nota P.S.,a data em que foi o comentário foi, originalmente, postado. Isto foi feito.

Minhas desculpas

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A falha na Tradução de Summing Up por Mario Quintana (nota 2 do artigo)
escrito por Administrador , 04 abril 2007
As pessoas têm me perguntado sobre a falha na tradução de Mario Quintana do livro Summing Up, a que me refiro na nota 2 deste artigo.

Pois bem, quando Quintana traduz as lembranças de Maugham relativas à oração que fizera antes de dormir, quando ainda um menino, visando ver-se livre da gagueira que o atormentava, ele assim traduz o relato de Maugham ao acordar:

"Despertei cheio de alegria, e foi um verdadeiro, terrível choque quando descobri que não mais gaguejava tanto como antes." (Editora Globo 1ª Edição 2ª impressão, 1958, pg 184)

Mas não é isto que Maugham escreve em Summing Up:

I woke full of exultation and it was a real, a terrible shock, when I discovered that I stammered as badly as ever.

Como se vê ele inverteu completamente o sentido para não dizer traduziiu errado.

Quanto ao título acho que a liberdade poética foi longe demais. Summing Up não tem o sentido de confissão e sim de resumo, balanço.

2 results for: summing up
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Roget's New Millennium? Thesaurus - Cite This Source
Main Entry: resume
Part of Speech: noun
Definition: outline
Synonyms: CV, abstract, bio, biography, brag sheet, curriculum vitae, digest, epitome, précis, recapitulation, review, rundown, sum, summary, summation, summing-up, synopsis, vita, work history
Source: Roget's New Millennium? Thesaurus, First Edition (v 1.3.1)
Copyright © 2007 by Lexico Publishing Group, LLC. All rights reserved.

Roget's New Millennium? Thesaurus - Cite This Source
Main Entry: summary
Part of Speech: noun
Definition: statement
Synonyms: abbreviation, abridgment, abstract, analysis, apercu, brief, capitulation, case, compendium, condensation, conspectus, core, digest, epitome, essence, extract, inventory, nutshell*, outline, pandect, prospectus, précis, recap*, recapitulation, reduction, rehash*, report, resume, review, roundup, run-through, rundown, sense, skeleton*, sketch, substance, summand, summing-up*, survey, syllabus, synopsis, version, wrap-up*
Source: Roget's New Millennium? Thesaurus, First Edition (v 1.3.1)
Copyright © 2007 by Lexico Publishing Group, LLC. All rights reserved.
* = informal or slang

O próprio Maugham explica porque escolheu este título e assim se expressa nas próprias palavras da tradução de Quintana:

Isto não é uma autobiografia, nem tampouco um livro de memórias. É inevitável que diga aqui coisas que já tenha dito antes; eis por dei a esta obra o nome de "Summing up". Este livro tem que ser egotista. Trata de certos assuntos que me parecem importantes. E trata de mim mesmo, pois só posso tratar desses assuntos da maneira como me afetaram. Mas não trata de meus atos. Não desejo desnudar meu coração, e ponho limites à intimidade que desejo se estabeleça entre mim e o leitor. Há assuntos que me é grato conservar privativos. Ninguém pode dizer toda a verdade a respeito de si mesmo.

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A GAGUEIRA DE MAUGHAM
escrito por José Hunaldo de Souza , 29 março 2009
Imaginemos o menino Maugham, tão zeloso com suas obrigações religiosas e mesmo assim tendo que enfrentar sua gagueira, algo que lhe parecia tão deprimente. É bem possível que esta gagueira foi o ponto de partida para sua Descrença em Deus.
Lembrando o também ateu Machado de Assis, será que sua gagueira também não teve o mesmo impacto que em em William Somerset Maugham?
É possível que suas mentes brilhantes que os faziam penetrar na profundidade das letras e do Esclarecimento, não adimitiam que um Deus amoroso lhes negasse, por conta de um problema psicossomático o ingresso magistral no mundo da Oratória.
Mais do que imaginamos, conflitos aparentemente insignifantes para outros, são suficientes para que pessoas admitam a conclusão que não há um Deus bondoso cuidando dos que nele creem ou cultuam.
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