A Insana Doutrina do Pecado Original PDF Imprimir E-mail

Mário Porto

Uma das minhas primeiras grandes dificuldade com a religião e que contribuíram para a minha crescente curiosidade intelectual que acabou por me levar a caminhos diversos da religiosidade foi a Doutrina do Pecado Original. Lembro-me que do alto dos meus 10 anos já era difícil aceitar o que me era diuturnamente doutrinado no Colégio São José, no Rio de Janeiro, de orientação marista, quanto a eu ter que carregar uma culpa por um ato de um personagem na alvorada da humanidade. Nessa época nem levava em conta o mérito do caráter mitológico da história de Adão e Eva, era muito criança para conjecturar sobre isso, condição que não me impedia de questionar a razão pela qual eu precisaria de um Salvador.

Não levei muito tempo para perceber que não estava sozinho nestas dúvidas e que desde a antiguidade mais próxima da vida do nosso suposto Salvador outros levantavam com maior propriedade a mesma questão e, consequentemente, eram tratados como heréticos. Bom, fiquei sabendo muito cedo de que era um hereje, mas naquela época, ainda um católico que guardava a missa aos domingos, não podia revelar isso.

Teodoro, bispo de Mopsuéstia (350-428) foi o primeiro a abrir essa controvérsia ao negar que o erro de Adão seria a causa da morte nos humanos, outros lhe seguiram na antiguidade, mas o verdadeiro criador do que conhecemos como Doutrina do Pecado Original foi Paulo de Tarso em sua epístola aos Romanos (Ro 5:12-20), o nosso conhecido Paulo o qual já tratamos aqui de Apóstolo Virtual.

É inegável a capacidade de Paulo de adaptar conceitos teológicos judaicos expressos no Antigo Testamento em prol de seus objetivos que eram estabelecer um novo credo em torno de Cristo. Antes de entramos na questão de Romanos 5:12, vamos exemplificar contundentemente essa habilidade paulina. Um dos documentos em que Paulo mais mostra essa habilidade é na epístola aos Gálatas. vamos nos valer da análise de [R1]Burton L. Mack

Nos Gálatas a situação desenvolvida envolve um desafio crítico ao evangelho de Paulo, no verdadeiro âmago do seu raciocínio básico. Algumas pessoas indicaram a figura de "outro evangelho" (Gl 1:6-7;4:17) e como um pesadelo para Paulo, estavam dizendo que os cristãos de Gálatas teriam que ser circuncidados (Gl 5:2-12;6:13). "Sejam amaldiçoados", Paulo escreveu "sejam amaldiçoados" (Gl 1:8-9). "Tomara até se mutilassem os que vos incitam à rebeldia" (Gl 5;12). Fica claro que um nervo central Paulino tinha sido oprimido.

Paulo desenvolveu dois argumentos em resposta a este problema. O primeiro, foi o que ele com sucesso defendeu no debate com Tiago e Pedro, os líderes do povo de Jesus em Jerusalém. Já mostramos a importância desta narrativa para reconstruir a conversão de Paulo. O ponto que ele reafirmou em relação ao problema galaciano era que, tanto sua autoridade como "apóstolo" como o conteúdo de seu "evangelho para os incircuncisos" tinham sido aceitos, até mesmo pelos "colunas" em Jerusalém. Devemos imaginar que os galacianos já conheciam alguma coisa sobre o povo de Jesus em Jerusalém e que o centro da argumentação de Paulo tinha sido entendido, independentemente, de ser ou não aceito.

O segundo argumento era um pouco mais complexo e contém um enorme interesse para o nosso projeto de mostrar a habilidade de Paulo, pois enfrenta francamente o desafio galaciano ao seu evangelho, e força este a empreender uma grande revisão do épico de Israel. Se os gentios não precisam se transformar em judeus e não precisam viver como judeus, então a questão poderia ser colocada em como eles poderiam reivindicar serem judeus? A estratégia de Paulo é voltar às histórias de Abrãao onde as primeiras promessas e predestinações de Israel estavam alojadas. Se os cristãos não podiam reivindicar serem judeus, talvez eles pudesse reivindicar serem "filhos de Abrãao". O pensamento era engenhoso. Se Paulo pudesse exteriorizá-lo, ele teria redefinido a construção de Israel e encontrado uma maneira de ancorar o "era uma vez" do mito cristão na história humana recente e no épico de Israel. A carta de Paulo aos Gálatas é, na verdade, um longo, apaixonado e enroscado argumento na defesa desta reivindicação. É a mais antiga revisão registrada da história de Israel que tenta alinhar o mito cristão com esta história. É a primeira argumentação sistemática de que as alianças fundadoras de Israel foram estabelecidas como antecipação das vinda do Cristo. É a primeira elaboração da lógica do mito cristão em que os gentios podiam pertencer ao povo denominado Israel e ela documenta o primeiro esforço sério de pesquisar as escrituras hebraicas com o propósito de sustentar tal reivindicação.

Resumidamente, Paulo partiu de Abrãao como o reconhecido patriarca de Israel, e entre as estórias de Abrãao ele encontrou repetidas menções sobre uma promessa que Deus fez a ele de que "sua descendência", ou crianças seriam inúmeras e que "todas as nações seriam abençoadas nele" (Gn. 12:1-3,7;15:5-7;17:1-8;18:17-19;22:17-18). Não importa que a referência óbvia aqui era quanto à linhagem física. Não importa que a referência tenha sido feita a Abrãao e seus filhos, enquanto a benção era para as nações. Observe-se, Paulo disse, que a bênção foi prometida por causa da fé e virtude de Abrãao pois Abrãao acreditou em Deus, " e disse "isso lhe foi imputado para justiça" (Gn.15:6;Gl. 3:6-9). O que aconteceu, Paulo perguntou, à promessa e à bênção? A promessa para Abrãao ocorreu 430 anos antes da revelação da lei Mosaica (Gl. 3:17). Isto significa que a lei foi "adicionada" à promessa, afirmou Paulo. Porquê? Por causa das transgressões (Gl. 3:19). A lei, ele disse, não poderia fazer ninguém justo; era uma maldição para quem confiava nela e servia apenas como guardiã " até que a descendência trouxesse aquele para o qual a promessa tinha sido feita" (Gl 3:10-24). E quem você supõe era este? Uma vez que a lei não pode ab-rogar a promessa, ele conclui, que a promessa feita a Abrãao teria que ser cumprida na pessoa de Jesus Cristo que como Abrãao, era devotado e justo e em função dele, Deus tinha considerado as nações (gentios) também como devotadas e justas.

Como todos podem verificar, tópicos, objetos, antecedentes e o sentido completo das passagens em Gênesis foram todos violados de maneira a colocar a construção como Paulo desejava. Para fazer com que o argumento soasse plausível, Paulo tinha que revirar as escrituras pelo avesso. Ele esquadrinhou as escrituras e não só aquelas que se referiam às estórias de Abrãao. Ele selecionou textos ao longo do Pentateuco e também achou algumas citações dos profetas sobre as quais poderia tirar alguma vantagem. Ele escrutinou todas elas com olhos agudos e astutamente arranjou-as para produzir efeito. O método de interpretação que ele usou variou da observação da seqüência histórica passando pela lógica de transações legais e chegando a alegorizações francas. Foi um esforço, extremamente, destemido para dar suporte cognitivo e conceitual à visão que Paulo tinha quando ele cambiou para o mito de Cristo.

Paulo exerce a mesma habilidade em Romanos 5:12 e nos versículos seguintes, "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram" e estava criada a doutrina do pecado original. Um dos primeiros efeitos dessa insana doutrina foi a consideração de que os recém nascidos estão manchados pelo pecado original e portanto, para os livrarem desse "mal" teve que ser instituído o batismo. Nesse aspecto os cristãos protestantes são mais honestos, pois aguardam o momento do batismo para quando ele puder ser exercido por vontade própria e embora não utilizem muito o termo, reconhecem a queda da humanidade e Jesus Cristo como salvador o que configura o mesmo significado. Na verdade, o termo Pecado Original não existe em nenhuma outra parte do Antigo Testamento, embora possamos identificar a doutrina em Salmos 51:5 e Jó 14:1.

Hoje, sem mais me esconder no armário após anos a fio de estudos, e como hereje convicto, o que me causa angústia e indignação é o fato de no ano 50-60 da era cristã um oportunista, pregador de uma nova religião, interpretar à sua maneira um mito da religião judaica criando assim outro mito ainda maior que prevalecerá sobre eras da história da humanidade, subjugando o homem comum a uma culpa que ele definitivamente não tem e estabelecendo uma herança atávica fictícia para justificar a necessidade de um Salvador de onde partirão novas amarras ao povo inculto e suceptível a crenças obscurantistas.
 
Sobre as palavras de Romanos se seguiram estudos teológicos dos ditos doutores da Igreja, como Agostinho e Aquino pelo lado católico e Lutero pelo protestantismo, para tornarem ainda mais complexa essa construção erguida sobre alicerces de barro, fazendo sofrer no final da linha o homem comum, crédulo e assustado pela busca da necessidade de uma salvação inventada pelos mantenedores da Igreja cristã seja qual for a denominação.


Mack, Burton L, Who Wrote The New Testament, Harper san Francisco,1996
Trackback(0)
Comentarios (4)add
angústia: superável pela razão?
escrito por Pedro , 17 setembro 2010
Um hereje convicto teria por que ter angústia? Indignação, talvez seja admissível, pela exploração do sentimento das pessoas a que doutrinas como as do pecado original são dirigidas, mas angústia? A razão não dá conta de superar essa angústia?
report abuse
vote down
vote up
Votes: -1
A moléstia judaica
escrito por Baltazar santana , 16 março 2011
Parabens Mario. Agradeço-o de todo coração. Não pare. Continue. Faça. Produza.Trabalhe. veja isso como sua missão, sua contribuição para a verdadeira libertação. A libertação desta molétia maldita que transtornou, desviou a humanidade.
report abuse
vote down
vote up
Votes: +2
Desmistificando a Bíblia!
escrito por mario , 12 maio 2013
Abraão era um mito sem comprovação, do Velho Testamento! Falha da Bíblia ou algo impossível de se comprovar e não-verdadeiro!? Vc escolhe...
Como disse alguem, 'Quem dos apostolos de Cristo cobrava dizimos? Nenhum..Quem deles enrriquecia as custas das igrejas? nehum..Quem deles cantava e pregava por dinheiro? nenhum..Quem deles vendiam epistolas? Nenhum...'

report abuse
vote down
vote up
Votes: +0
...
escrito por Joel , 01 junho 2013
Muito boa explanação sobre esses "delírios" atribuídos a Paulo. Bém como as "Mordomias" vividas pelos chamados "Ministros do Evangelho", que é sem dúvida vergonhoso. Só não posso concordar com o que descreveu sobre Abraão. Mas.. é tua opinião particular.
report abuse
vote down
vote up
Votes: +2
Escreva seu Comentario
quote
bold
italicize
underline
strike
url
image
quote
quote
smile
wink
laugh
grin
angry
sad
shocked
cool
tongue
kiss
cry
smaller | bigger

security image
Escreva os caracteres mostrados


busy
 
< Anterior   Seguinte >

Recomendar a MPHP

Fala para um amigo Seu nome:

Seu e-mail:

E-mail do seu amigo: