A Justificação pela Análise Textual PDF Imprimir E-mail
Mário Porto


A prevalência nos dias de hoje, ainda com força, de crenças como o cristianismo é algo que extrapola o nível de entendimento do senso racional comum do homem do século 21 e provoca profundas reflexões sobre o futuro da humanidade pós-desenvolvimento científico e tecnológico alicerçado no tripé GNR (Genética-Nanotecnologia-Robótica).

Enfocando o cristianismo, que é a crença que influencia a maior parte do mundo ocidental, temos que ressaltar que nos últimos 200 anos extensa pesquisa histórica nas fontes ortodoxas e não-ortodoxas do cristianismo resultou em um quadro bem diverso daquele pregado e doutrinado nos altares e púlpitos das igrejas ao redor do mundo. No entanto, esses resultados dificilmente chegam aos crentes nessas igrejas sendo restritos às universidades a ao círculo de especialistas que muitas vezes se não abandonam suas crenças acabam transformando-as em algo dificilmente palatável nos púlpitos de suas igrejas.

Assim, várias obras de renomados especialistas do NT discutem os ditos que realmente saíram dos lábios de Jesus e aqueles que foram na realidade colocados em seus lábios pelos cristãos primitivos e seus líderes no ato de firmarem uma nova crença.

Ao lado disso encontramos também os erros de tradução, as interpetrações equivocadas que acabaram por criar ensinamentos absolutamente diversos daqueles que um judeu que jamais pretendeu criar uma nova religião pregava. No caso de nosso idioma temos, principalmente, no segmento evangélico a terrível tradução de João Ferreira de Almeida que é a utilizada na totalidade das Bíblias cristãs desse segmento cristão.

Para ilustrar como esses estudos levam a conclusões bastante distantes daquelas professadas nos cultos vou começar com uma questão de extrema importância e complexidade, A instituição da eucaristia um dos pilares do culto cristão. Recentemente, topei no Twitter com uma usuária que fazia em seu perfil louvores ao Jesus eucarístico e isso me trouxe uma grande sentimento de pena para uma pessoa que me parecia sincera em seu credo, mas que com toda a certeza despejava seu amor por um grande erro histórico. Desçamos aos fatos.

Vamos exemplificar com uma questão na qual a crítica textual no NT tem uma altíssima implicação indo muito além de questões de tradução e clareza para afetar a natureza e a prática de um dos ritos mais centrais e importantes da cristandade. Estamos nos referindo à instituição de um sacramento, a Eucaristia, que supostamente teria sido instituído pelo próprio Jesus em sua última ceia se levarmos em consideração Lc 22:19 e explicitamente utilizando-se a notação dos manuscritos, Lc 22:19b (denominado leitura longa).

Neste versículo Jesus teria dito: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isso em memória de mim. Esta parte denominada 22:19b é a mais comum nos manuscritos e é denominada, como dissemos acima, de leitura longa. No entanto o Codex Bezae e alguns outros que o seguem omitem as palavras após Isto é o meu corpo. esse trecho passa então a ser denominado leitura curta e ficaria descaracterizada a instituição de uma ação continuada. A partir da leitura curta jesus estava apenas cumprindo um ritual Judaico de comemoração da Pessach, a Páscoa dos Judeus que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito.

Esta questão do Codex Bezae é extremamente estudada e considerada uma das análises mais fundamentais e críticas no estudo do NT e a despeito da grande evidência em torno da leitura longa ela não pode ser aceita de forma nenhuma como inquestionável ou como genuína enquanto a presença e origens da leitura curta permanecerem não resolvidas.

Algumas considerações que levam em conta a proximidade de Lucas e do Apóstolo Paulo reforçam o lado daqueles que questionam o texto em Lucas, não repetido em Marcos e Mateus e somente similar ao correspondente nas cartas de Paulo (Co 11:23-26). Poderia ser uma harmonização de Lucas no sentido de compatibilizar o texto de Paulo com o seu Evangelho. Não são poucos os que consideram ter sido Paulo o criador da Eucaristia e por conseguinte da propria religião Cristã.

Chegamos ao ponto que desejávamos, mostrando que por simples análise textual, nos documentos fontes, podemos ameaçar a destruição de todo um edifício em que se baseia a religião cristã. Como compatibilizar esses estudos com a fé nas igrejas? Como aceitar que Paulo e não Jesus foi o criador da religião cristã? Esses temas nunca serão discutidos neste nível. Algumas denominações mais tradicionais como a presbiteriana, com certeza tem entre seus membros estudiosos conhecedores dessas questões textuais, mas elas se restringem aos elevados círculos de estudos não são jamais levadas à discussão com o corpo de crentes.

Vamos agora no valer para um segundo exemplo de um dos maiores teólogos cristãos. Rudolf Karl Bultmann, que ocupou-se com muitos temas da teologia, filologia e arqueologia. Levantou questões importantes que dominaram a discussão teológica do século passado e são relevantes até hoje, como, por exemplo, o problema da demitologização.

Em uma de suas obras mais conhecidas, Jesus, de 1934, Bultmann aborda a questão do Universalismo e Individualismo, Dualismo e Pessimismo no qual afirma que o conceito humanístico era totalmente estranho a Jesus e assim todo individualismo humanístico era rejeitado assim como toda cultura individualística do espírito, todo misticismo é excluído. O Reino de Deus não é para ser entendido como metafísico ou dualismo cosmológico. Nenhuma palavra de reclamação sobre o mal do mundo, de que seria melhor nunca ter nascido, que a besta é melhor do que o homem como nos apocalipses judaicos, dominava a pregação de Jesus, mas um de seus ditos tem na verdade essa conotação: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.. Essa inclusão entre os ditos de Jesus causou uma má interpretação. "O Filho do Homem" (ser humano) foi entendido como "O Filho do Homem" como se na mensagem Jesus estivesse se referindo a si mesmo.

Assim como estes dois exemplos, podem ser identificados centenas deles, mostrando que o que o leigo chama de palavra de deus são apenas textos nem sempre produzidos pelo próprio Jesus, com origem em algum escriba e muitas vezes mal interpretados ou mal traduzidos.

Não tenho a intenção de abalar a fé de ninguém, mas simplesmente mostrar que a fé não pode mais ignorar as pesquisas textuais e históricas que vêm sendo feitas nos últimos dois séculos e continuar cegamente a manter mensagens equivocadas e desvinculadas de seu contexto social e histórico.
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escrito por Salomão Fernandes Nobre , 18 outubro 2010
Querido e amado. Que Deus continue a te iluminar!
Gostei da argumentação que supracitou. Como historiador e teólogo de fato percebemos que a sua análise em muito tem enfase bíblica, mas como falastes bem, as pesquisas avanção e a arquiologia bíblica tem trazido muita coisa boa e que infelizmente muitos não tem conseguido ter o acesso.
O fato é que devemos continuar a estudar e principalmente permitir que o Espírito Santo de Deus nos revele as verdades inerentes ao ser humano, segundo a vontade Dele.
Obrigado.
Salomão
1ª Igreja Batista do Valentina de Figueiredo em João pessoa - Pb
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Filologia
escrito por Baltazar santana , 02 abril 2011
Olá Mario, parabéns novamente! Você sempre surpreende e ataca a RAIZ do problema! A filologia é fundamental na elucidação dos parcos documentos (evangelhos)que temos. Muito foi feito pelo estudo histórico por Geza Vermes, Justim Taylor e outros, mas a filologia tem muito mais a proporcionar. Tenho a esperança que neste momento, alguém, inspirado, o esteja fazendo ou já tenha feito e eu desconheço, portanto, se voce sabe de algo já feito anuncie para nós. Esse pequeno trecho, "Esse é meu corpo..." é surpreendente mesmo! Era apenas a páscoa e nada mai. Quanta pompa, quanta teologia se fez, criando esse monstro chamado criastianismo. Como isso é arraigado na mente humana, como parece verdadeiro! Como é difícl combatê-lo! Nietzsche, que tinha intenso interesse nisso e era tão bom filólogo morreu tão cedo, e começou tão bem! Mas teve que combater contra a filosofia alemã e com as doenças.
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