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O texto abaixo é uma colaboração
de Carlos Alberto Reis Lima, médico.
Amaral Ferrador, maio de 2000
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Em Portugal, agora, dia 13 de maio de 2000, se travou o último ato, o da revelação da terceira "profecia" de Lúcia, a única sobrevivente dos pastorzinhos que alegaram ( ou alegaram por eles) terem avistado a mãe ( ou a sua imagem) de Jesus Cristo em 1917. Se eu não tivesse assistido ao vivo pela televisão ( a RTP a cabo portuguesa), eu não acreditaria no que vi e ouvi.
Dentre as centenas de milhares de pessoas presentes, somente uma minoria percebeu que a última "profecia" tinha sido revelada, e mesmo assim, muitos só se deram conta disso quando souberam dela pela televisão. A repórter das TV portuguesa recolhia de suas entrevistas com o público presente opiniões desapontadas quanto a não revelação do mistério, e para aquelas pessoas que chegaram a saber naquele momento que algum mistério tinha sido revelado, quase todas se diziam decepcionadas e um pouco constrangidas com a interpretação oficial que o tão esperado terceiro segredo de Fátima se referia à pessoa do Papa João Paulo, "milagrosamente" salvo das balas assassinas daquele turco em 1981, e não a algum evento ou fato significativo para toda a humanidade.
Tudo soou muito falso, quase tão improvável ( inverosímil é uma palavra melhor) quanto às aparições da santa àquelas crianças no longínquo ano de 1917, ano da graça da ditadura salazarista que muito faturou politicamente com aquilo. Vale lembrar, se iniciava a tradição das ditaduras fascistas negociarem com a Igreja Católica um compromisso recíproco de não agressão. Ao Salazar se seguiu Mussolini, e depois dele, Hitler.
O "terceiro segredo" não dizia respeito à humanidade, mas à vida (respeitável como toda a vida) ou à integridade pessoal de João Paulo II, algo de muito menor expressão e que não necessitava 19 anos para ser revelado. É fato que o tempo dos milagres vem terminando; resta apenas o medo e a ameaça do inferno, o inferno real, fabricado por todos os atores daqueles compromissos (concordatas), como o inferno fictício, aquele fabricado na imaginação supersticiosa de milhões de pessoas. Havia de se concretizar a "profecia", numa época escassa de milagres.
Contentou-se a Igreja com a promoção do Papa ao status de representante e intérprete das aflições da humanidade. Gostaria de ouvir a irmã Lúcia! Será que ela quis dizer isto na sua charada nostradâmica?
Outro fato por mim testemunhado no mesmo dia me convenceu que a era dos milagres e das aparições terminou: a TV portuguesa ( a mesma RTP) depois de dar a palavra a um bispo português por mais de uma hora, o qual se contorcia para justificar a interpretação pessoal dada pelo Vaticano durante a manhã, levou ao ar um programa humorístico com bonecos que ridicularizavam o Papa e o presidente português, sabidamente ateu, e que por coerência suprema não emprestou o seu nome a esta mistificação encenada pela Igreja. Louvável coragem de uma televisão que cumpriu um papel de desmistificadora e educadora do seu povo.
O quê a Globo não faria no seu lugar?
A isenção da TV portuguesa, notem, portuguesa, não italiana ou francesa, mas portuguesa, que muita sardinha teria para as suas brasas caso permanecesse do lado da mistificação, é digna de homenagem. Ela, retratando de algum modo o pensamento de parcela significativa do seu povo, por certo, um povo não supersticioso, não caiu no conto da Igreja Católica, que por certo perdeu muitos pontos da sua decrescente credibilidade.
O quê é incrível, é como pode a Igreja sustentar uma fantasia explorada por motivos políticos com uma mistificação tão grosseira em pleno limiar do século e do milênio! Não se fazem mais milagres como antigamente! Será que cresceu a inteligência da humanidade, ou diminuiu agudamente a sensibilidade da Igreja Católica, a ponto dela não perceber que a razão, a lógica, e o bom senso, ainda que muitas vezes desumanos, não estão mais deixando lugar para a fantasia, o sobrenatural, ou pelo menos para o erro, ou o equívoco tolerável a pequenas crianças de uma pequena aldeia de um pobre país?
Se o povo pelos menos soubesse como foi construído historicamente o mito de "Nossa Senhora", mãe de Jesus; se o povo crédulo pelo menos soubesse como se construíram e se fabricaram na tradição milenar e secular, os santos e os fazedores de milagres... É claro que não sabem; nunca lhes foi ensinado! Como é bom poder acreditar numa fantasia, num milagre, e justificar tudo pela fé, ou pela palavra "fé". É preferível isso ao estudo, à reflexão penosa, ao sacrifício do saber. Deixemo-nos enganar como crianças, como tolos de espírito, por que é nosso o reino da Terra!
Neste ano da graça de 2000, muitos arrependimentos estão em curso. A própria Igreja anda se desculpando. Agora está chegando a vez dos seus fiéis mais lúcidos fazerem um mea culpa , mea maxima culpa !
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O site está bom. Foge consideravelmente ao uso e costume dos ateus, que é o de confundirem religião com Espiritualidade. As religiões fabricam mitos, hierarquias, salvacionismos. A Espiritualidade é outra coisa. E é possível ser-se espiritualista (crer em Deus e na imortalidade da alma) com base em provas científicas, em evidências empíricas, em raciocínios filosóficos tão válidos como os dos ateus. É o meu caso, como adepto da filosofia espírita, acerca da qual vos acho bastante desinformados, diga-se de passagem. Também não é para admirar, pois o Espiritismo no Brasil apresenta por vezes e erradamente contornos de religião.
Que Deus vos abençoe, e não o digo para ofender.