Cristianismo PDF Imprimir E-mail

Tarciso S. Filgueiras

 

O Cristianismo é uma religião muito peculiar. Embora tenha inúmeras semelhanças com as duas outras grandes religiões monoteístas da Antiguidade (Islamismo e Judaísmo), sua maior afinidade é, sem sombra de dúvida, com o Judaísmo. Na verdade, o movimento que, posteriormente, foi denominado Cristianismo foi, no início, considerado pelos judeus ortodoxos, simplesmente como uma heresia judaica. Embora tenha surgido no seio do judaísmo, a nova religião não encontrou respaldo significante entre os judeus. Ela só se expandiu e floresceu ao atingir o mundo grego. Há razões históricas e culturais para que isso tenha ocorrido.

Um dos dogmas centrais do Cristianismo, isto é, um Deus que assume forma humana, que “morre” e ressuscita, era inteiramente alheio aos judeus do século I, entretanto, era extremamente familiar para a cultura do mundo helenizado deste mesmo período. Por esta razão, quando Paulo de Tarso começou a pregar essa nova doutrina entre os habitantes de Jerusalém e arredores, eles ficaram escandalizados e queriam matá-lo.

A reação é, até certo ponto, esperada, compreensível. O Deus dos judeus não tinha nem nome, este era apenas representado por um tetragrama sagrado (YHVH). Ele não era jamais representado por estátua, imagem ou qualquer tipo de ilustração feita por mãos humanas. Pode-se, portanto, imaginar a choque ao ouvirem dizer que Ele havia se encarnado, que havia morrido pregado numa cruz e, depois ressuscitado. Quem pregava isto cometia uma imensa blasfêmia, merecedora da punição máxima.

Quando, porém, Paulo iniciou a pregação da mesma doutrina entre os gregos, em plena Atenas, encontrou pessoas receptivas e curiosas sobre esta nova história de um deus ressuscitado. Ainda mais esse que havia nascido de uma virgem. Isso se enquadrava perfeitamente dentro da cultura grega da época, recheada de histórias de deuses que engravidavam mocinhas virgens que perambulavam sozinhas pelos bosques. Invés de pedradas, açoites e ameaças de morte, os sofisticados e cultos atenienses tomaram Paulo pela mão, conduziram-no ao “Areópago”, com o seguinte convite: ”Poderíamos saber qual é essa nova doutrina apresentada por ti?” (Atos 17:16-20).

Volto a afirmar que o Cristianismo, na forma que chegou até nós, é extremamente peculiar enquanto religião. Uma das peculiaridades mais extraordinárias é o fato de o Deus cristão ter forma humana. Ou seja, uma vez encarnado, é um mamífero, bípede, ereto, quase sem pelos. Talvez por não apresentar pelagem densa, comum nos demais membros da classe Mammaria, traz o corpo coberto por roupas confeccionadas com tecidos elaborados, frequentemente privilegiando o vestuário renascentista. Uma mente contemporânea pensa, automaticamente, no desing anterior à confecção daqueles trajos.

A noção de que o Deus cristão é representado como um mamífero pode ser chocante para alguns leitores. Mas, os chocados devem olhar as representações da Madonna amamentando o infante Jesus e tudo se esclarecerá. Outra peculiaridade é o fato de que Deus, embora seja único, Ele é composto por três Pessoas, todas do sexo masculino. Para fins de argumentação, vamos tomar como base as representações da Santíssima Trindade, amplamente divulgadas pela Igreja Católica e examiná-las em certo nível de detalhe.

Nessas representações, destaca-se a Primeira Pessoa, o Pai, claramente, a mais velha das três. A outra, Jesus, consideravelmente mais jovem, coloca-se a seu lado direito. Essas duas Pessoas são obviamente da raça branca, com nítidos traços europeus, feições aristocráticas, serenas. Sob o ponto de vista biológico, enquadram-se como excelentes espécimes de Homo sapiens do final da última Era Glacial (cerca de 12 mil anos atrás). Vale lembrar que, segundo dados antropológicos universalmente aceitos, os indivíduos classificados como pertencentes à espécie Homo sapiens de épocas anteriores tinham aspecto físico bastante diverso dos atuais, embora pertencessem à mesmíssima espécie.

Falar da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade é algo problemático, pois não se trata propriamente de uma pessoa, mas sim de uma ave. O aspecto geral dessa ave lembra, com nitidez, indivíduos da espécie Columba livia, o pombo comum. Penas com vários padrões de cores e formatos são conhecidas nessa espécie, contudo o espécime que representa a Terceira Pessoa exibe penas perfeitamente sobrepostas, de um branco imaculado. Essa ave representa o Espírito Santo. Nas representações mais divulgadas da Trindade, o Espírito Santo adeja, asas abertas e corpo na posição quase vertical (posição difícil para uma ave comum), entre as duas outras Pessoas da Trindade.

A teologia cristã insiste na doutrina (na verdade, dogma) de que todas as três Pessoas são, individualmente, Deus. O conjunto das três é também Deus, porém não há três deuses. Apenas um, único, verdadeiro. Alguns catecismos católicos, no passado, citavam a folha do trevo (Trifolium) como possibilidade real da existência de algo que tem três partes, mas representa uma unidade. De fato, a folha do trevo apresenta três partes distintas que juntas formam o todo, isto é, uma única folha. O exemplo escolhido não é muito esclarecedor, pois na folha do trevo cada unidade não é uma folha completa, mas sim um folíolo, isto é, uma parte integrante da folha, mas não sua totalidade.

Outra peculiaridade notável do Cristianismo é a idéia, amplamente divulgada, de que a Divindade está voltada inteiramente para nós humanos. Ou seja, tudo que fazemos ou somos é parte integrante dos planos, dos desígnios e das atividades divinas. Ou seja, a divindade existe para nos proteger, nos guiar, nos blindar contra todas as armadilhas e imprevistos que a natureza possa colocar no nosso caminho. Uma vida muito acima da média de todos os outros seres vivos na natureza. E depois de vivermos uma vida assim protegida e blindada, ao morrer, esperamos sobreviver à morte e encontrar a felicidade eterna. Pode-se constatar que nossas expectativas são amplas e nada modestas. Queremos simplesmente tudo, do bom e do melhor. Vida boa, saúde, blindagem contra as adversidades e, no final, coroando tudo, uma vida eterna, repleta de felicidade e bem-aventurança.

Este esquema, assim delimitado, deixa claro que a divindade foi elaborada para responder às nossas necessidades e anseios mais profundos. Uma divindade cuja prioridade é o homem. Uma divindade para a qual a natureza, com toda sua diversidade, complexidade e riqueza pouco ou quase nada representa. Talvez um enfeite curioso para amenizar nossa passagem pelo planeta. Ou pouco mais que isso. O Deus cristão existe para prover as necessidades materiais e espirituais do homem e se tornou refém dele.

Analisada sob este prima, não há outra religião capaz de competir com o Cristianismo quando se considera o quadro custo x benefício. Uma religião, sob vários pontos de vista, extraordinariamente antropomórfica e antropocêntrica: do homem, com o homem, pelo homem, para o homem.

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