FAQ do Problema Sinótico (The Synoptic Problem FAQ - by Stephen C. Carlson) PDF Imprimir E-mail

FAQ do Problema Sinótico

Esta é uma tradução autorizada do logo Synoptic Problem FAQ de Stephen C. Carlson.

1. Fundamentos

1.1 O que é o Problema Sinótico?

O problema sinótico é uma investigação na existência e natureza do interrrelacionamento literário entre os três primeiros evangelhos "sinóticos." Mateus, Marcos e Lucas são chamados evangelhos "sinóticos", em contraste com João, porque eles podem ser facilmente dispostos em três colunas harmônicas, como uma "sinopse." Diferentemente de João, os evangelhos sinóticos compartilham um grande número paralelo de acontecimentos e parábolas, dispostos, na maior parte na mesma ordem, e relatado muitas vezes com as mesmas palavras. Qualquer solução a ser proposta para o problema sinótico, deve portanto levar em conta essas similaridades entre os sinóticos, não tanto em termos do seu conteúdo factual, mas na seleção desse conteúdo, no arranjo do material e na redação dos paralelos.

1.2 Por que o problema sinótico é importante?

O problema sinótico é a pedra angular do estudo histórico crítico dos evangelhos. Como resultado, uma solução do problema sinótico influenciará a exegese , a crítica redacional e a crítica de forma dos evangelhos, bem como afetará a questão do Jesus histórico, a história da igreja primitiva e até mesmo os textos dos evangelhos.

1.3 Que tipo de soluções tem sido propostas para o problema sinótico?

Nos estudos alemães do problema sinótico, tem sido usual classificar as teorias sinóticas de acordo com a natureza das interrelações entre os evangelhos sinóticos. [ Reicke 1978a :50-52] Uma hipótese não-documental ( Traditionhypothese ) se apoia na tradição oral como explicação, na qual cada evangelista compôs, independentemente, seu evangelho, baseado em relatos da tradição e, possivelmente, testemunho ocular. Uma relação documental pode ser direta ou indireta. A hipótese da dependência direta ( Benutzunghypothese ) sustenta que um evangelista conhecia e usou o evangelho de outro.

Um exemplo de dependência direta é a tradicional Hipótese Agostiniana, que sustenta que Mateus foi o primeiro, seguido de Marcos que utilizou Mateus, e então por Lucas que usou tanto Mateus como Marcos. A dependência indireta ( e.g. Urevangeliumhypothese ) propõe que pelo menos dois dos evengelistas utilizaram uma mesma fonte escrita.

Algumas soluções são híbridas. Por exemplo, a Hipótese Fragmentar ( Diegesentheorie ) propõe que a redação comum dos sinóticos é devida à dependência indireta de vários documentos menores, mas sua ordem comum é devida à tradição oral. [ Ver, e.g.,
Schleiermacher 1832 ; Lachmann 1835 ].

Como outro exemplo, a Hipótese das Duas Fontes ( Zweiquellenhypothese ) apela para a dependência direta de Mateus e Lucas sobre Marcos com relação à "tripla tradição" e para uma dependência indireta sobre uma fonte escrita hipotética "Q"
com relação à "dupla tradição."

1.4 Não caminhemos tão rápido. Existe um problema sinótico?

Se propriamente definido, a resposta é "sim." Esta questão, entretanto, foi recentemente respondida no título de um livro provocativo e controverso de Eta Linnemann [ Linnemann 1992 ], o qual acusa muitos livros textos por assumirem, antes de estabelecer a proposição, que o interrelacionamento entre os evangelhos sinóticos é mais documental do que oral.

1.5 Então, existe um relacionamento documental entre os evangelhos sinóticos?

Embora uns poucos especialistas em diversas ocasiões tem sustentado uma ampla solução oral [ Westcott 1888 , Linnemann 1992 ], tem-se desenvolvido um forte consenso entre os estudiosos de que existe realmente nos evangelhos sinóticos, e entre cada um deles, um relacionamento documental. Existem 5 razões cumulativas principais para essa conclusão:

  1. Concordância Literal . É raro que dois relatos independentes de um mesmo evento compartilhem mais do que umas poucas palavras em comum, mas os evangelhos sinóticos, com frequencia, apresentam um número substancial de concordâncias com suas palavras exatas. Por exemplo, em uma passagem sobre João Batista, Mateus e Lucas concordam em 61 de 63 palavras Gregas de um discurso, presumivelmente, Aramaico. Geralmente, a concordância literal entre Mateus, Marcos e Lucas alcança cerca de 50% das palavras, contrastando com João, onde a concordância em episódios paralelos cai para cerca de 10%.
  1. Estensiva concordância na ordem , especialmente quando a disposição do material não é estritamente cronológica, mas temática ou exibindo alguma apresentação criativa. Nesses casos, é difícil atribuir relatos independentes à narrativa não-cronológica temática. Por exemplo, Mateus e Marcos relatam a morte de João Batista como um retrospecto não-cronológico, no mesmo ponto de suas narrativas. Como outro exemplo, os sinóticos concordam na ordem em que certas parábolas e milagres são relatados, numa disposição que, provalvelmente, intenciona ser temática.
  1. Seleção substancialmente similar do material , quando essa seleção apresenta certa quantidade de escolhas editorias criativas. Jesus fez e falou muitas coisas, desta maneira, qualquer relato de seu ministério tem que incluir algum julgamento editorial do que incluir e do que deixar de fora. Os evangelhos sinóticos, por exemplo, relatam muitos dos mesmos milagres, mas esses milagres, dificilmente, sobrepõem-se aos relatados por João.
  1. Presença de comentários editoriais e outro material redacional nos sinóticos que não são requeridos por uma mera narração de um fato histórico. Por exemplo, tanto Mateus como Marcos apresentam um comentário idêntico para o leitor ("para entendimento do leitor") no apocalipse sinótico.
  1. Um padrão literário consistente entre os três documentos, que estabelecem Marcos como o "meio termo" ligando Mateus e Lucas. Concordâncias, especificamente, entre Mateus e Lucas em contraposição a Marcos são, consistentemente, muito menos predominantes do que concordâncias na disposição e na redação contra Mateus ou Lucas . Deveriamos esperar que documentos compostos de forma independente não exibissem tal padrão.

1.6 O que é tradição tripla?

A tradição tripla refere-se ao material que é comum a todos os três sinóticos. Quase todo o conteúdo em Marcos é encontrado em Mateus, e cerca de dois terços de Marcos é encontrado em Lucas. A tradição tripla consiste, em grande parte, de material narrativo ( milagres, curas e a paixão) mas também contem algum material de doutrinação.

1.7 Qual é a observação fundamental da tradição tripla?

A observação fundamental da tradição tripla e efetivamente do problema sinótico é que Marcos é o "meio termo" entre Mateus e Lucas. Quando a tradição tripla é analisada, um padrão muito interessante emerge. Na tradição tripla, a ordem das passagens é largamente compartilhada entre Mateus e Marcos, entre Lucas e Marcos, ou entre todos os três. Entretanto, ao dispor-se a tradição tripla é raro o caso em que Mateus e Lucas concordam em oposição a Marcos. Este padrão também se aplica ao conteúdo, dimensão e redação das passagens da tradição tripla.

Existem quatro abordagens documentais que podem responder pelo fato de Marcos ser o meio termo entre Mateus e Lucas:

  1. Hipótese da prioridade de Marcos: Marcos foi o primeiro e foi copiado tanto por Mateus como Lucas.
  1. Hipótese da prioridade de Mateus: Mateus foi o primeiro e foi copiado por Marcos o qual foi copiado por Lucas.
  1. Hipótese da prioridade de Lucas: Lucas foi o primeiro e foi copiado por Marcos o qual foi copiado por Mateus.
  1. Hipótese de Griesbach: Marcos, o qual foi o terceiro, combinou e compilou Mateus e Lucas.

1.8 O que é a dupla tradição?

A dupla tradição é a substancial quantidade de material (cerca de 200 versículos) que são compartilhados entre Mateus e Lucas mas não são encontrados em Marcos. Seu conteúdo é, principalmente, constituído de ditos ( a maior parte de Jesus, mas alguns de João Batista) mas inclui pelo menos uma estória de milagre também (O Servo do Centurião). A tradição dupla exibe, em certas passagens, algumas das mais estritas concordâncias literais mas versões bantante divergentes em outras passagens.

Três abordagens documentais tem sido propostas para responder pela tradição dupla:

  1. Hipótese Q : Mateus e Lucas copiaram a tradição dupla de uma fonte escrita comum (ou fontes), normalmente, denominada Q do Alemão Quelle , significando "fonte."
  2. Hipótese da posterioridade de Lucas: Lucas copiou a dupla tradição de Mateus.
  3. Hipótese da posterioridade de Mateus: Mateus copiou a dupla tradição de Lucas.

1.9 Quais são as maiores soluções para o problema sinótico?

Sem dúvida, a solução mais amplamente aceita para o problema sinótico é a Hipótese das Duas Fontes (2SH) . Entretanto, duas outras soluções propostas emergem como sérias alternativas: a Hipótese dos Dois Evangelhos (2GH) na América e a Hipótese Farrer (FH) na Inglaterra. Na França a Multiple Stage Hypotheses [1] tem alguma popularidade. Outras soluções que atraíram a atenção de uma pluralidade de estudiosos incluem a Hipótese Agostiniana (AH) e a Hipótese da Escola de Jerusalém (JSH) .

2. A Hipótese das Duas Fontes

2.1 O que é a Hipótese das Duas Fontes (2SH)?2sh

A 2SH adota a hipótese da prioridade de Marcos para a tradição tripla e a hipótese Q para a tradição dupla. Consequentemente, entre os sinóticos, Marcos foi escrito primeiro . Mateus e Lucas, independentemente, copiaram Marcos na sua estrutura narrativa (a Tradição Tripla) e também de forma independente adicionaram material discursivo de uma fonte de ditos hoje não mais existente denominada "Q", do alemão 'fonte', Quelle.

A despeito de recentes objeções, a 2SH permanesce como teoria sinótica dominante entre os estudiosos de Novo Testamento através do século 20 e durante a maior parte do século 19. Ultimamente, muita atenção tem sido devotada ao estudo de Q e da história de sua própria composição.

2.2 Qual é o argumento para a 2SH

Uma vez que 2SH é uma síntese da hipótese da prioridade de Marcos e da hipótese Q , é melhor tratar separadamente os argumentos para cada tese.

2.3 Qual é o argumento para a hipótese da prioridade de Marcos?

Cerca de cem anos atrás, considerava-se que o argumento para a hipótese da prioridade de Marcos se fundamentava como consequência da observação de que Marcos era o meio termo entre Mateus e Lucas. Em 1951, entretanto, Butter expôs essa falácia (ele a chamou de "falácia de Lachmann" mas um termo mais preciso é "falácia do meio termo") e demonstrou que outras soluções podem sustentar satisfatoriamente a observação.

Como consequencia, defensores cautelosos da
prioridade de Marcos reavaliaram suas provas como um acúmulo de vários argumentos sugestivos. Por exemplo, argumentam que é mais fácil aceitar alguns fatos (relatos de infância, Sermão da Montanha) serem adicionados a Marcos por Mateus e Lucas do que serem omitidos destes por Marcos e entender, tanto Mateus como Lucas melhorando o estilo de Marcos, do que Marcos piorando o estilo dos outros (fazendo o reverso).

2.4 Qual é o argumento para a hipótese Q?

O argumento para Q se fundamenta na independência de Marcos e Lucas e está emoldurada sobre o malogro em provar que Lucas é dependente de Mateus (ou vive-versa). Se Mateus e Lucas são independentes, a tradição dupla tem que ser explicada através de uma relação indireta com o material em comum, chamado Q. Argumentos à favor da independência de Mateus e Lucas incluem: o desuso de outras inclusões dentro da tradição tripla e a aparente primitividade mútua da tradição dupla.

2.5 Quais são os argumentos contra a Hipótese das Duas Fontes?

Os argumentos contra cada um dessas duas teses, prioridade de Marcos e a existência de Q, serão tratadas respectiva e separadamente, em maiores detalhes, com a Hipótese dos Dois Evangelhos (Q3.2) e com a Hipótese Farrer (Q4.2). As concordâncias menores, entretanto, colocam um dilema especial para a 2SH .

As concordâncias menores são aquelas concordâncias entre Mateus e Lucas contra Marcos (ou "concordâncias anti-Marcos") que ocorrem na tradição tripla. Algumas das concordâncias menores são bastante surpreendentes; por exemplo, tanto Mat. 26:68 quanto Lucas 22:64 e não Marc 14:65 incluem a pergunta "Quem foi que te bateu" no flagelo de Jesus. Por conseguinte, as concordâncias menores são sugestivas de uma conexão literária entre Mateus e Lucas, externa tanto a Marcos quanto a Q, criando dúvidas sobre a relativa independência de Mateus e Lucas.

2.6 Qual é a resposta de 2SH para a questão das concordâncias menores?

A resposta de 2SH para a questão das concordâncias menores é enfraquecer sua significância atribuindo várias causas para elas. Por exemplo, B.H. Streeter dedica um capítulo a esta questão com uma análise que é largamente sustentada hoje. [ Streeter 1924 ; ver também Neirynck 1974 ] As concordâncias menores são geralmente tratadas na 2SH por uma combinação de razões de como Mateus e Lucas teriam, independentemente, chegado a seus acordos anti-Marcos, tais como redação coincidente, sobreposições com Q ou tradição oral e corrompimento textual.

3. A Hipótese dos Dois Evangelhos

3.1 O que é a Hipótese dos Dois Evangelhos [2GH)?2gh

2GH adota a Hipótese de Griesbach para a tradição tripla e a Hipótese da posterioridade de Lucas para a tradição dupla. Desta maneira, Mateus foi escrito primeiro e Lucas o usou na preparação de seu evangelho. Marcos compilou os dois usando um procedimento que, em grande parte, acompanhou onde Mateus e Lucas concordavam na ordem, exceto para o material discursivo. Assim, a tradição tripla é o resultado da escolha editorial de Marcos sobre o que incluir. A tradição dupla é o material que Lucas se agradou em Mateus e que não foi copiado por Marcos.

Revisada por Farmer em 1964, a 2GH é o maior desafio para a 2SH na América. Incluem-se entre reconhecidos especialistas da 2GH Stoldt, Duncan, Longsaff, Cope, Walter e MacNicol.

3.2 Qual é o argumento para a Hipótese dos Dois Evangelhos?

[2]

3.3 Qual é o argumento contra a Hipótese dos Dois Evangelhos?

4. A Hipótese Farrer

4.1 O que é a Hipótese Farrer (FH)?fh

A FH adota a hipótese da prioridade de Marcos , para a tradição tripla e a hipótese da posterioridade de Lucas para a tradição dupla. Desta maneira, Marcos foi escrito primeiro, adotado por Mateus e então usado por Lucas. A tradição dupla é explicada pelo uso posterior de Mateus por Lucas, assim dispensando Q.

A FH , denominada pelo seu produtivo defensor A.M.Ferrer (1955), é atualmente a mais séria antagonista à 2SH na Inglaterra. Michael Goulder é, presentemente, seu mais vigoroso advogado, mas entre outros propositores inclue-se Goodacre.

4.2 Qual é o argumento para a Hipótese de Farrer?

[2] Esta seção está em desenvolvimento. Enquanto isto o leitor interessado deve visitar Ten Reasons to Question Q de Mark Goodacre.

4.3 Qual é o argumento contra a Hipótese de Farrer?

5. Outras Fontes de Teorias Sinóticas

5.1 O que é a Hipótese Agostiniana (AH)?ah

A AH adota a hipótese da prioridade de Mateus para a tradição tripla e a hipótese da posterioridade de Lucas para a tradição dupla. Desta maneira, Mateus foi escrito primeiro e Marcos usou Mateus como um "lacaio e editor." Lucas, finalmente, usou tanto Mateus como Marcos para compor seu próprio evangelho. Assim, cada evangelista dependeu daquele que o precedeu (dependência sucessiva).

A AH foi a teoria tradicinal sinótica e foi suportada por muitos críticos estudiosos Católicos Romanos até meados do século 20. Hoje, o apoio para a AH é não-sectário porém esporádico, incluindo Butler and Wenham.

5.2 O que é a Hipótese da Escola de Jerusalém (JSH)?jsh

A JSH adota a hipótese da prioridade de Lucas para a tradição tripla e a hipótese Q para a tradição dupla. Desta maneira, a JSH é uma das poucas teorias que afirma que, entre os sinóticos, Lucas foi o escrito primeiro embora baseado em uma "Primeira Reconstrução." Marcos foi baseado em Lucas, e Mateus então usou Marcos. Além disso Mateus e Lucas, independentemente, copiaram uma fonte hoje não-existente denominada a "Antologia."

A JSH é popular entre um grupo de estudiosos, cuja maior parte, vive em Jerusalém. Este grupo, fluente em Hebreu, está interessado em aproximar o problema sinótico do ponto de vista de um substrato Semita. O fundador da JSH , o finado Rober Lindsey, adotou a hipótese da prioridade de Lucas quando preparava a tradução de Marcos para o Hebreu, porque ele descobriu que as frases de Marcos que não eram adaptáveis ao idioma Semita eram, em sua grande parte, faltantes em Lucas.


Notas de tradução

[1] O nome desta hipótese foi, preferencialmente, deixado no original em inglês, visto que a palavra "stage" possui traduções com diversos sentidos em português. Para escolher-se o sentido correto seria necessário conhecer em profundidade a hipótese, que como se verifica não está detalhada nem na página original. O autor sugeriu a tradução pela palavra "nível" que foi adotada (niveau) no original em Francês, por M.-E.Boismard, o que me parece adequado. Deixaremos, por enquanto, essa nota e quando da inclusão da hipótese detalhada traduziremos o nome da hipótese para o Português. Voltar

[2] Alguns tópicos não estão detalhados no original em Inglês. Ainda serão implementados. Voltar


English Version Author: Stephen C. Carlson
Translation into Portuguese by Mário Porto, based on page created: January 24, 1999 and
Revised: September 15, 1999
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