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Tarciso Filgueiras 

A Igreja Católica tem uma postura, ao mesmo tempo ambígua e contraditória em relação à sexualidade humana, em geral, e em relação ao homossexualismo, em particular.

Se por um lado, ela, revestindo-se de argumentos bíblicos e teológicos, posiciona-se contra a homossexualidade, seus setores mais avançados advogam que ela não é contra os homossexuais, mas contra os atos sexuais praticados por eles. Levando esse raciocínio para o caso das drogas, seria como se as autoridades policiais dissessem que não são contra as drogas em si, mas contra o ato de consumi-las. Francamente, dá pra ser mais ambíguo?

A contradição está no fato de ela ser contra os homossexuais e estar repleta deles. Homossexuais são encontrados tanto entre membros do chamado clero secular, quanto entre os do clero chamado regular. Ou seja, existem homossexuais tanto entre os padres diocesanos, que atuam nas paróquias sob a responsabilidade de um bispo e não fazem nenhum voto religioso, quanto entre aqueles que pertencem às inúmeras ordens religiosas, fazem os três votos famosos (castidade, pobreza, obediência) e, geralmente, vivem em comunidades.

Quem se der ao trabalho de visitar conventos e mosteiros masculinos espalhados pelo Brasil, vai ficar pasmo com o número de religiosos e monges gays que circulam por entre as arcadas coloniais de suas clausuras. Uma visita igualmente interessante é aos seminários diocesanos e das diversas ordens religiosas. Alguns seminaristas comportam-se mais como senhoritas de fino trato que como jovens varões que se preparam para os desafios da evangelização no século 21. Tudo indica que alguns levam muito ao pé da letra o convite de Jesus para se tornarem "pescadores de homens".

Recentemente, um professor italiano em viagem ao Brasil visitou, por necessidade profissional, um mosteiro situado numa cidade do interior do Brasil, onde entrevistou, além de religiosos, o próprio abade. Alguns dias depois, este religioso foi visto divertindo-se em um estabelecimento gay na capital do Estado e, no dia seguinte, foi flagrado, em atitude altamente comprometedora, em um banheiro público na mesma cidade.

Na década de 1980, havia um competente professor de filosofia no campus de uma das maiores universidades privadas brasileiras que, embora fosse sacerdote e tivesse feito os três votos, quando relaxando na companhia de amigos, declarava-se gay. Naquele ambiente, isto, aparentemente, não escandalizava ninguém. Já a declaração seguinte era mais problemática. Segundo ele, rapazes de programa eram itens regulares em sua dieta sexual. Ele falava isso de maneira natural, sem culpa nem constrangimento. Ponto para ele. Questionado se isso não representava uma quebra em seu voto de castidade, ele respondia que não, já que ao fazer o voto, havia prometido não ter relacionamento sexual com mulher. Portanto, tecnicamente falando, não estava quebrando nenhum juramento. De fato, esse aspecto do voto ele cumpria à risca, tirava de letra!

Claro que a presença gay na Igreja não é um fenômeno contemporâneo. Ele existe desde épocas muito antigas. Não é minha intenção, neste curto espaço, traçar um perfil histórico do tema na história da Igreja. Contudo, quem se interessar, basta arranhar a superfície que a verdade aparecerá. Antigo também parece ser o hábito de os superiores encobrirem os pecadillos de seus subordinados. O autor do livro "A vida sexual dos papas" (Ed. Sinergia-Ediouro ) relata um fato curioso. Um papa medieval recebeu a denúncia de que um de seus assessores mais próximos estava convivendo maritalmente com o próprio filho. A atitude papal foi muito compreensiva, além de criativa. Sua Santidade disse que não poderia fazer nada, afinal de contas, os dois homens envolvidos eram ambos solteiros...

Não pense o leitor que apenas membros do sexo masculino se envolvem em atividades homoeróticas dentro da Igreja. Há, também, registros de freiras e monjas adeptas do lesbianismo, exercido de maneira extremamente discreta, é óbvio. O livro "Atos impuros" (Ed. Brasiliense) relata a história de uma freira lésbica, abadessa num convento na Itália renascentista, que alegava ter visões noturnas de Jesus. Uma investigação revelou que ela mantinha, há anos, relações sexuais com outra freira. Mais recentemente, uma ex-freira brasileira publicou um livro intitulado "Outros hábitos" (Ed. Garamond) onde relata atividades sexuais da madre superiora com ela e com outras noviças do convento. Há algum tempo atrás, a mídia brasileira, estarrecida, divulgou fotos das múmias de duas monjas do Mosteiro da Luz, um convento de virgens enclausuradas na cidade de São Paulo, que haviam sido enterradas juntas, nos braços uma da outra. Ao invés de investigar o achado inusitado, a decisão foi, simplesmente, fechar o túmulo novamente, ou seja, optou-se por colocar uma pá de cal em cima do caso. Na ausência de uma explicação satisfatória pelas autoridades religiosas, o fato permanece aberto para interpretações diversas. Uma delas, é claro, seria a de que se tratava de um caso de amor entre as freiras.

Aliás, este não parece ter sido o caso único de um religioso enterrado junto com alguém muito próximo. O famoso teólogo inglês cardeal Newman (1801-1890) está prestes a ser elevado à glória dos altares. Durante os procedimentos relativos à sua beatificação, seu túmulo foi aberto e o corpo exumado. Ao fazer isso, ocorreu uma descoberta inesperada. Newman havia sido enterrado junto com um padre com o qual manteve uma longa, estável e íntima amizade (30 anos). O processo de canonização do cardeal parece estar em seus estágios finais. Espera-se que esta incômoda descoberta não venha à tona de maneira negativa durante o processo de santificação do famoso intelectual católico, verdadeiro baluarte da infalibilidade papal. Espera-se, igualmente, que este fato não venha enodoar sua perfeita biografia.

Vários pesquisadores nas áreas de psiquiatria e psicologia têm se manifestado sobre o tema do homossexualismo dentro da Igreja. Para esses profissionais, muitos jovens com inclinações homossexuais (conscientes ou não) se sentem atraídos pelo ministério sacerdotal e religioso porque intuem que dentro da Igreja serão acolhidos, protegidos, envoltos por uma aura de respeitabilidade, não correrão o risco de serem expostos, nem tampouco forçados a um casamento que não corresponderia a seus anseios. Além disso, é forçoso admitir, alguns se sentem, legitimamente, atraídos pelo estilo de vida que, pelo menos em teoria, preenche a necessidade de religiosidade e misticismo que muitas pessoas procuram.

O que aqui escrevo não é um libelo contra nem a favor do homossexualismo e dos homossexuais. Menos ainda contra a Igreja, pois é bem conhecido o papel positivo exercido por ela enquanto força ativa da sociedade. É, sim, uma veemente manifestação contra a hipocrisia e a desfaçatez com que a Igreja enche a boca para condenar os homossexuais, sendo que sem eles ela não subsiste. Se fossem retirados todos os homossexuais da Igreja, ela logo entraria em colapso, por falta de quadros. A Igreja está assentada sobre o trabalho de muitos destes homens e mulheres que ela condena. Seria o caso de se formular a Sua Santidade Bento 16 e ao alto clero atualmente reinante a seguinte pergunta:

- Quem, dentre os membros atuais da Igreja, nunca se envolveu em atos homossexuais, atire a primeira pedra contra esses seres humanos!

Será que, como na história da Madalena, Jesus ia se achar sozinho no meio da praça, escrevinhando algo na areia, com a ponta do dedo?

 

 

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Comentarios (1)add
Igreja x homossexualidade
escrito por Magnus , 16 janeiro 2012
O fato de a homossexualidade feminina, ou lesbianismo, na Igreja Católica, não ser tão divulgado quanto os casos que envolvem padres, frades, seminaristas ou coroinhas, é compreensível. Reflete o comportamento de toda a sociedade. Em primeiro lugar, mulheres sempre foram mais discretas do que os homens nessas questões de sexualidade. Uma lésbica, se não adotar postura do tipo caminhoneira, passa mais despercebida do que o homossexual masculino. Segundo, a sociedade ocidental não estranha o fato de duas mulheres se beijarem em público, o chamado beijo social, é claro. O beijo entre dois homens, mesmo social, ou seja apenas na face, é visto com muita suspeita. Terceiro, a sedução lésbica, de uma moça ou adolescente por uma mulher experiente, é processo bem mais sutil e suave, menos traumático, do que o de um rapaz ou menino por um homem mais velho. É claro que há exceções, mas é o que ocorre na maioria dos casos.
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