Felipe Mogan
INTRODUÇÃO
Causa-me bastante espanto que o discurso da Igreja Universal do Reino de Deus ainda seja aceito pelas massas que são conduzidas a esta pregação.
Os argumentos e as artimanhas são tão evidentes que mesmo considerando o baixo nível cultural da média dos freqüentadores destes cultos é surpreendente que o que existe por trás da pregação da Universal não seja entendido por estas pessoas.
Uma explicação possível é o fanatismo apoiado no cinismo dos líderes e na credulidade das camadas menos cultas da população catalizado pela miséria, a falta de expectativas econômico-sociais e a ausência de senso crítico. Lembremo-nos do nazismo. No caso religioso se acrescenta a fé e o mistério de uma prometida vida após a morte.
Nos dias atuais de julho de 2005 estamos vivenciando uma das campanhas em que a Universal mais se esforça. A chamada "Fogueira Santa do Monte Sinai".
Proliferam nestes dias os testemunhos que dão conta das mudanças de vida nas pessoas que "exercitaram a fé inteligente" com "atitudes de fé" perante Deus.
O discurso na televisão, um dos maiores instrumentos da Universal, obviamente não é inteiramente transparente, pois se fosse teriam que dizer claramente o que significa possuir uma"atitude de fé". Na televisão procura-se o novo fiel da Igreja. Nisto a temática difere bastante do discurso nas Igrejas nas quais as ofertas são solicitadas abertamente pelo menos em três momentos em cada culto quando pregam a necessidade destas atitudes.
E o que significa ter "atitudes de fé" ?
Simplesmente acreditar que Deus vai mudar sua vida e oferecer o melhor dos sacrifícios que você pode sacar. Aquele que vai fazer falta demonstrando assim sua fé inteligente, conceito inventado pelo Bispo Macedo para distinguir o que ele chama de fé emocional da fé sobrenatural.
Observe-se que, criminosamente, os pastores da Universal ensinam aos membros que eles devem doar dízimos com base na renda que desejam receber. E assim acaba sendo ofertado aquele dinheiro do aluguel que você entrega na certeza que Deus vai prover muito mais, aquela poupança que você construiu durante anos. Os bispos e pastores da Universal chegam a afirmar de que nada vale você ser uma boa pessoa, honesta, cumpridora de suas obrigações para com a sociedade e até para o seu Deus. Deus não irá mudar a sua vida se você não tiver uma "atitude de fé".
Neste ponto eles misturam um pouco da controvérsia teológica entre a salvação pelas obras e a salvação pela fé. A apelação é de tal monta que afirmam, para não criar problemas, que ser bonzinho e honesto pode até salvá-lo, mas não vai mudar a sua vida aqui na Terra. De uma certa forma os pastores, provavelmente, sem o saber professam uma das heresias mais condenadas após a reforma, o antinomismo que prega que as obras são desnecessárias em uma salvação providenciada pela fé.
Se trocassemos a palavra ou o sentido de Indulgência por Oferta as 95 teses de Lutero se encaixavam muito bem como libelo contra a orgia de solicitações de ofertas promovida pela IURD.
Como exemplo vejam as teses 43 e 67 com esta substituição implementada:
43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se "ofertassem".
67. As "ofertas", apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça, decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.
Assim, abstraindo-se aquelas que fazem menção específica ao Papa, quase todas se prestam a esta substituição e fazem bastante sentido.
TEOLOGIA UNIVERSAL
Mencionando teologia aproveito para traçar um perfil médio dos bispos e pastores da Universal.
A julgar pelo crescimento da Igreja e da crescente proliferação de seus enormes e suntuosos templos um observador desavisado imaginaria estar diante de uma organização religiosa com forte embasamento teológico.
Ledo engano, a maioria dos bispos e pastores da universal é completamente ignorante em teologia e repete frases da Bíblia quase sempre mecanicamente porque escutou outros as repetindo.
Não demonstram nenhum conhecimento histórico e dos tempos em que estes textos foram escritos e quando se aventuram neste terreno tentando explicar algum comportamento, por exemplo, do povo de Israel, são inteiramente amarrados àquilo que leram, textualmente, na Bíblia.
Nenhum "Doutor da Igreja Universal" conhece o que se vem estudando na moderna pesquisa do cristianismo.
Há no entanto aqueles que afirmam (1997, Leonildo Silveira CAMPOS, Universidade metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP) que a IURD tem sim uma teologia:
A IURD, ao contrário do que alguns pensam, possui uma teologia e tem mecanismos apropriados para inculcar essa teologia nas novas gerações de fiéis e pastores. Porém não se trata de uma teologia sistematizada, tal como aquelas elaboradas por grupos religiosos já secularmente institucionalizados. Por outro lado ela possui, como toda a reflexão pentecostal, um ranço anti-intelectualista muito forte. Macedo propõe uma teologia antiteológica e afirma : « todas as formas e todos os ramos de teologia são fúteis ». A teologia da IURD se articula ao redor de quatro pontos fundamentais:
- centralidade do corpo, pois ela prega a recuperação do corpo e não o seu desprezo platônico ;
- exorcismo de maus espíritos e libertação de suas influências negativas ;
- cura como sinônimo de salvação e prosperidade na vida ;
- e sucesso material como comprovação da presença de Deus na vida do crente.
Pode-se dizer com certeza que todo o doutrinamento é oriundo da liderança do Bispo Macedo e do seu círculo mais próximo de colaboradores. Isto pode ser comprovado pela vasta produção literária religiosa de sua autoria. No entanto, sua pregação se define exatamente pela condenação à teoria teológica.
Macedo tem aversão à erudição teológica, e mostrou isto claramente quando publicou A libertação da teologia, livro em que critica o "cristianismo de muita teoria e pouca prática; muita teologia, pouco poder; muitos argumentos, pouca manifestação; muitas palavras, pouca fé" (Macedo, pp. 11 e 128). Outro exemplo de suas idéias quanto à erudição foi o cancelamento após algum tempo da iniciativa da Faculdade Teológica Universal do Reino de Deus (Faturd), quando Macedo entendeu que ela afastaria os pastores de sua atividade principal de angariar recursos para o empreendimento da fé. Foi na mesma ocasião que publicou o livro acima.
A sua teologia se resume à produção de interpretações para episódios da Bíblia na maioria das vezes buscando aliar um sentido de prosperidade ao texto bíblico. "Deus deseja o seu sucesso aqui na Terra", "a prosperidade é de Deus" "Deus é o dono do ouro e da prata" e "temos direito à herança divina, mas precisamos buscar."
Na verdade o sucesso da Universal é um sucesso empresarial e ai sim, demonstram saber o que estão fazendo. A rotatividade dos bispos nas funções pastorais a eles delegadas é uma estratégia dentro dos objetivos da Universal. Diferentemente, por exemplo, da Igreja Católica, aonde as funções são mantidas por longos períodos, um bispo da IURD dificilmente fica muito mais de 1,5 anos em uma função.
Isto evita muitos problemas principalmente aqueles ligados à popularidade individual dos membros da Igreja.
Assim nos últimos 5 anos tivemos 3 bispos responsáveis pelos trabalhos no Templo Maior, em Del Castilho, no Rio de Janeiro. Bispo Romualdo Panceiro, Bispo Clodomir Santos e agora Bispo Gerson Cardozo. Assim também ocorre com outro grande programa da Universal, a chamada Nação dos 318, carro chefe das mudanças financeiras nas vidas dos fiéis, no momento tocado pelo Bispo Wagner Negrão que substitui desde cerca de 6 meses o bispo João Leite.
Conforme estudo sobre a Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal, publicado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, o autor RICARDOMARIANO afirma que:
"Apesar de eficiente, o governo vertical e centralizado coíbe inteiramente a autonomia de pastores e adeptos. Tanto que os mais de quinze mil pastores titulares e auxiliares, responsáveis pelos mais de quatro mil templos no Brasil, são remanejados freqüentemente de local de trabalho e não gerenciam os recursos que arrecadam, enquanto os fiéis não escolhem seus líderes locais nem participam da deliberação sobre a aplicação dos dízimos e ofertas."
A igreja Universal aplica com eficiência os melhores instrumentos do marketing moderno como veremos.
TESTEMUNHOS
Testemunhos se bem usados são uma poderosa ferramenta de marketing, se assim não fossem não seriam tão utilizados por todos os gurus de marketing online na Internet. Testemunhos na TV ainda têm um poder maior que na própria Internet.
O que observamos nos testemunhos utilizados pela universal é que seguem um padrão extremamente constante. Indivíduos assolados por vários tipos de problemas sejam de ordem sentimental ou financeira são recuperados para uma vida de prosperidade e felicidade após chegarem à Igreja Universal. Todos afirmam que o processo não ocorreu da noite para o dia, mas sim após perseverarem na fé e, principalmente, atenderem às campanhas da Igreja rigorosamente de acordo como instruído pelo "homem de Deus" (pastores), dentre elas a famosa Fogueira do Monte Sinai.
Recentemente, na madrugada de 02/07/2005, um testemunho prestado no programa Ponto de Luz da TV Record, caracterizou bem a estranha lógica do Deus da Universal.
Uma senhora afirmava que mesmo após 15 anos de convívio dentro da Universal, orando, louvando e sendo uma pessoa cumpridora de suas responsabilidades em todos os níveis inclusive o religioso, não lograva alcançar a graça da felicidade e comunhão com Deus. Isto não acontecia em função dela não usar a "fé inteligente". Como explicava o Bispo Gerson Cardozo, condutor do programa em êxtase com o depoimento, era ela esperando por Deus e Deus por ela. Nada acontecia.
Somente após ela ter se "lançado" na Fogueira Santa do Monte Sinai, as bênçãos que a tornaram uma pessoa feliz e realizada em todos os planos começaram a acontecer. Conforme afirmava o Bispo Gerson ela até poderia ter alcançado com os seus quinze anos de devoção a própria salvação, mas não havia garantido uma vida de felicidade na Terra.
Que estranha lógica esta!
De nada vale uma boa conduta!
Há que se demonstrar a este Deus soberbo que realmente se acredita Nele, se "lançando".
E todos sabem o que significa se lançar, no jargão da Universal.
O perfil das pessoas que se apresentam para testemunhar também não vária muito. Com raras exceções, são pessoas do extrato social mais baixo da sociedade, principalmente, sob o aspecto cultural. A respeito destas pessoas é preciso considerar que para muitos as aparições em entrevistas de programas de televisão caracterizam seu minuto de fama e isto me parece particularmente verdade nos patéticos episódios de exorcismos das seções de descarrego. Pode até parecer estranho, mas na cabeça destas pessoas serem exorcizadas perante a multidão lhes confere um status dentro na comunidade da Igreja.
Um outro aspecto que incentiva os testemunhos encontramos na seção de prosperidade denominada Nação dos 318 Homens de Deus, reunião que a Universal qualifica, sem falsa modéstia, de maior congresso empresarial do pais. Somente a astúcia dos "marqueteiros" da Igreja Universal é que ousaria denominar mais esta histriônica seção de trombetas, 900 horas de jejum e orações, de congresso empresarial.
Afirmam ainda para aumentar as vantagens, que se trata de um congresso gratuito e o único com "cobertura espiritual". Desta maneira, visam convencer aos crentes-empresários que, na sua grande maioria pertencem a um estrato de empresas cujos membros dificilmente teriam acesso a congressos empresariais reais em razão do elevado custo destes congressos, de que a Nação, como é chamado o grupo, é na realidade um congresso empresarial e não um culto religioso. Com certeza, muitas pessoas podem ter comparecido a estas reuniões na ilusão de receberem orientações empresariais. Afinal, a IURD é um exitoso empreendimento empresarial.
A Nação dos 318, propriamente dita e que é denominada de Congresso Empresarial, acontece às segundas-feiras no Templo Maior de Del Castilho, no Rio de Janeiro, segundo dizem os organizadores porque não seria possível juntar 318 pastores no palco, desculpem no altar, de outros templos. No entanto, acontecem nas segundas-feiras reuniões de prosperidade para empresários, com o mesmo intuíto, em todos os demais templos da Universal.
Na verdade, segundo artigo escrito por Diogo Mainardi, que compareceu a uma destas reuniões no templo de Ipanema, publicado na Revista Veja, edição de 19 de março de 2003, página 111,
"Nenhum dos presentes tinha um aspecto propriamente empresarial. Reconheci dois fiéis: a moça do pão de queijo e o rei das embaixadinhas, que apresenta seu espetáculo futebolístico pelas ruas do bairro. Inicialmente, o pastor Wendell explicou que Deus é dono de todo o ouro e de toda a prata do universo, e que é inaceitável que seu povo não possa usufruir plenamente desse tesouro. A miséria, segundo ele, é obra do demônio, que assola a vida econômica do país, fecha as portas do comércio, espalha o olho gordo e incute o espírito de derrota nos vendedores de planos de saúde. Para afastar o ser maligno, o pastor Wendell conclamou seus auxiliares, os obreiros e as obreiras, a formar um túnel de fogo. Imediatamente, os obreiros, de gravata, e as obreiras, com o uniforme da Viação Cometa, dispuseram-se em duas filas, uma de frente para a outra, e entrelaçaram as mãos, como numa quadrilha. "
A estratégia de chamar o culto da prosperidade de congresso empresarial faz convergir para o Templo Maior novos futuros membros que, como veremos em mais uma artimanha de marketing, não são distingüidos por religião e são convidados tanto católicos, espíritas, budistas como os sem religião. Este, é na realidade o objetivo maior de todo o esquema da Nação dos 318 realimentado todas as semanas com os testemunhos de sucesso.
Na Nação dos 318, para se assemelhar às práticas em congressos empresariais, as pessoas são orientadas a colocar seus propósitos escritos em pastas de onde serão lidos e solucionados por Deus. Nestas seções, que acontecem todas as segundas-feiras no Templo Maior em Del Castilho, no Rio de Janeiro, os testemunhos têm mais um atrativo para quem os oferece. Trata-se da propaganda televisiva de seus negócios que é disponibilizada em vinhetas com informações de endereço e telefone para milhares de telespectadores. Estas mesmas pessoas são quase sempre apresentadas em outro programa da rede de programações da Igreja Universal, denominado Empresários Em Foco. Lá a exposição e a propaganda gratuita são ainda maiores.
TRANSE E POSSESSÃO
Como todo culto pentecostal a Universal dá ênfase à pregação do Evangelho, às orações coletivas, feitas em voz alta por todos os fiéis e aos rituais de exorcismos e de curas, realizados em grandes concentrações públicas.
Para evitar problemas jurídicos com as religiões afro-brasileiras a Universal cunhou e popularizou um termo novo para definir os maus espíritos que segundo sua pregação são causa dos males do mundo. Eles os denominam de encostos .
Os episódios de possessão são caracterizados como prova viva da realidade das pregações da Universal e muito impressionam seus fiéis, constantemente, doutrinados de que todas as mazelas da humanidade são oriundas de "problemas espirituais" .
A grande e científica verdade é que não passam de manifestações de histeria patrocinados por pessoas carentes por atenção. Infelizmente, o termo histeria foi popularizado de forma errada escondendo o significado real fornecido pela medicina.
O Texto do Psique Web , reproduzido abaixo, esclarece bem esta confusão:
O termo histeria escapou, há tempos, do âmbito da medicina e passou ao uso popular. Na realidade xinga-se de histérico e não se diagnostica histérico. Essa postura cultural descaracteriza a histeria doença, influindo inclusive no médico não psiquiatra, o qual também acaba vendo o histérico como o "malandro" da medicina.
A maioria dos médicos não psiquiatras costuma adotar duas atitudes diante do paciente histérico; a expressiva maioria deles adota uma atitude de rejeição, achando que os histéricos ... não são doentes de verdade ou são doentes que não têm nada, e uma minoria, infelizmente, podem achar que a ... histeria é uma doença como as outras.
Surpreendo tanto aos médicos quanto aos leigos, essa misteriosa "doença" pode apresentar sintomas sem qualquer substrato físico, sintomas que mudam segundo a época, os costumes e as conveniências, sintomas que podem desaparecer como em um passe de mágica... E se procurarmos os motivos pelos quais os histéricos recorrem a esses sintomas, bem como o sucesso que se consegue com eles, é bem possível nos deparamos com uma inquietante dúvida: "teremos todos somos um quê de histéricos".
A histeria sempre existiu na história humana, sempre acompanhou o ser humano desde sua introdução na vida gregária. Continuando a acompanhar as histéricas através dos séculos, no final da Idade média elas começaram a ser identificadas com as bruxas. A histeria passava a agregar genitália com o demônio. Aquelas criaturas femininas que curavam com poções mágicas, copulavam e faziam pactos com o demônio, entravam em transe e, como castigo, acabavam condenadas à fogueira.
Os estados de transe e de possessão são classificados pela medicina como transtornos do tipo dissociativo da personalidade histriônica. O fenômeno da possessão tem caráter universal e a psicopatologia tenta explicá-lo em termos de sugestão ou auto-sugestão ou como resultado de desdobramentos do eu. Evidentemente a crença cultural em espíritos desempenha papel importante no aparecimento dessas possessões.
Nas Igrejas, o som, o tom e freqüência da voz do pastor ao evocar textos previamente escolhidos e seguidamente repetidos acabam por provocar o estado de transe e de possessão nas pessoas com comportamento histérico. Segundo os psicólogos, a repetição das orações em voz alta, de olhos fechados, conhecida pela medicina como respiração holotrópica, produz um fenômeno de superoxigenação no cérebro. Sobrevém um rebaixamento dos níveis de consciência. Quem está no meio de um agrupamento tomado pela euforia tende a se deixar contaminar pela emoção. Há um mecanismo do sistema límbico do cérebro, o mais básico da área nervosa, que induz a pessoa a se comportar segundo as atitudes da multidão que a cerca.
A questão do transe e da possessão é bastante ampla e não caberia sua discussão em um artigo como este. Só para se ter uma idéia da influência do conceito de demônio em nossa civilização basta fazer uma consulta no Google com as palavras "demônio" em português e "satanism" em inglês. A primeira traz 388.000 resultados e a segunda 1.780.000.
São mais de 3000 anos que estas crenças vêm se enraizando no imaginário popular e seria muito difícil, se não impossível, substituir estas manifestações de caráter mitológico dentro de uma perspectiva de fenomenologia científica. Fica fácil explicar diante de tantas demandas econômico-sociais a prevalência do obscurantismo representado pelo crescimento surpreendente das seitas pentecostais embora estejamos vivendo a era da decodificação do genoma humano e das grandes descobertas da biologia. São os mesmos fundamentos que acabam influenciando os currículos das escolas como fruto do embate entre a Teoria da Evolução e Criacionismo.
Para complicar ainda mais este quadro alguns profissionais de psicanálise e psicologia começam a aliar o trabalho das igrejas ao conjunto de terapias de tratamento de doenças mentais. O psiquiatra Fernando Portela Câmara assim se expressa em seu trabalho denominado, Psiquiatria Popular Brasileira: a Função Reguladora do Transe (ler artigo na íntegra) ao se referir ao trabalho assistencial das seitas religiosas:
O modelo assistencial da saúde mental é extremamente caro e muito se beneficiaria se os órgãos oficiais interagissem com estas seitas que, via de regra, são mantidas pelas próprias comunidades e desempenham um importante papel social. Lideres espirituais poderiam ser treinados nos rudimentos da psicoterapia para aperfeiçoarem o seu trabalho e ampliar o alcance assistencial de seus grupos. O papel regular biopsicossocial que elas desempenham é extremamente significativo, mormente nas camadas sociais menos favorecidas que tendem a crescer mais ainda dentro do atual modelo econômico brasileiro.
Fernando Portela Câmara parece aceitar como normais os exdrúxulos e dantescos rituais de exorcismo da Universal quando afirma que "As culturas ditas "primitivas" têm seus próprios métodos para abordar e lidar com os transtornos mentais e do comportamento."
Evidentemente que a implementação deste tipo de políticas ainda sedimentaria mais a crença nas possessões embora se possa compreender a busca de realização de um trabalho clínico aproveitando a penetração das lideranças religiosas. Apesar da aparente inocência da idéia esta abertura nas mãos do bem articulado marketing da Universal seria mais uma arma a serviço de sua estratégia objetivando atingir maior grau de poder e influência em nossa sociedade.
Outro trabalho interessante, aproximadamente na mesma direção quando tenta conciliar espiritual e mental ao afirmar "para os pacientes, atos rituais são tão eficazes em relação ao que percebem ser o problema espiritual, quanto o medicamentos é em relação a insanidade. Mas os médicos não parecem treinados para distinguir ou compreender a extensão cognitiva do que está sendo trabalhado", é a tese de doutorado de Hulda Stadtler da PUC-SP; Conversão ao pentecostalismo e alterações cognitivas e de identidade - Revista de Estudos da Religião Nº 2 / 2002 / pp. 112-135 , no qual ela apresenta alguns estudos de casos de possessão que são identificados, até pelos próprios grupos de crentes, como histerias.
Apesar de sua aparente posição conciliatória ela, em sua conclusão, assim se expressa:
Sugiro que o ponto inicial das alterações cognitivas é estar convencido por um novo "sistema cognitivo" que além de promover uma identidade forte é mais poderoso para explicar as adversidades da vida cotidiana. Acredito que essas alterações têm origem nas alterações da concepção de pessoa geradas por mensagens religiosas poderosas cuja assimilação desobstrui a cognição na direção do sistema ideativo do grupo. Isto fica demonstrado quando os crentes recorrem sistematicamente as doutrinas para raciocinar sobre problemas formais e do dia-a-dia. Isto, entretanto, não ocorre apenas com os crentes, os dados demonstram que outros grupos fazem o mesmo tipo de raciocínio vinculado. Existe um lado pouco explorado nas mudanças cognitivas que esses movimentos religiosos promovem. Pentecostalismo, por exemplo, trabalha para transformar as mentes das pessoas através da reconstrução, com elas, da realidade (raciocínio), e isto provoca, por sua vez, mudanças nas formas de interação dos seguidores com o mundo ao redor.
Como vemos, na medida em que a ciência não conseguindo convencer os crentes de seus pressupostos ela se alia aos seus métodos, mesmo que com intenções benéficas, jamais nos livraremos destas mitologias de possessão demoníaca que nos nivelam aos nossos ancestrais mais primitivos.
CAMPANHAS CONTINUADAS
Uma grande ferramenta para atrair as pessoas são as campanhas continuadas e perfeitamente coordenadas. Esta coordenação demonstra uma gerência centralizada no planejamento destas campanhas, pois todos os pastores e bispos falam exatamente a mesma coisa, sem deslizes de termos ou conceitos.
Aliados aos pomposos nomes dos templos estas campanhas também ostentam nomes grandiosos como Concentração de Fé e Milagres. A tentativa da Universal é demonstrar que os milagres não são privilégios dos antigos, eles se realizam hoje pelo Deus vivo que habita a Universal.
Conforme afirmei no artigo 2000 Anos do Mito Cristão - Parte 1 a Igreja Universal do Reino de Deus, parte de um crescimento espantoso, para se sentir credenciada na comunidade evangélica a representar um novo Deus Vivo, não o Deus da Bíblia do passado, e assim reivindicar para o seu novo templo no Rio de Janeiro, sede mundial, o título de templo do novo Israel.
De certa forma, a IURD está assumindo uma posição análoga aos primeiros cristãos que rompiam com a antiga tradição, incluindo em seu ritual características únicas dentro das denominações evangélicas. Só que diferentemente dos criadores do cristianismo a IURD não pretende criar nada de novo, apenas valer-se da credulidade das pessoas para sedimentar seu negócio milionário.
Para representar as atitudes são criadas palavras de ordem repetidas amiúde por simpatizantes quase como num coro orquestrado. Assim são repetidas em uníssono: sacrificar, conquistar, lançar, buscar, determinar, perserverar, propósito. Nos testemunhos, estas palavras são utilizadas em discursos claramente ensaiados.
Cada uma destas palavras tem um significado específico na estratégia da prosperidade. Os membros acabam conhecendo claramente o significado destes termos.
É comum nas reuniões os participantes alegarem curas, normalmente problemas nos membros superiores ou inferiores ou dores não especificamente localizadas que as incomodam por longos anos e que somem ao soar das trombetas ou pela imposição de mãos. São curas de doenças cujo diagnóstico é o testemunho da própria pessoa.
Uma grande arma nas chamadas, o que mais uma vez comprova a excelência do marketing da Universal, é a não distinção das religiões. Assim os pastores televisivos clamam pela presença de católicos, espíritas, budistas, umbandistas e até dos sem religião. Esta é uma grande farsa como se fosse possível a um católico comparecer aos cultos da Universal e ainda ser considerado um católico praticante, um budista se valer das práticas da Igreja ou um ateu se deixar levar pela argumentação iurdiana. O discurso pretende separar o cidadão religioso daquele que, simplesmente, busca a Deus independente de religião e não passa de mais uma grande jogada de marketing.
Ao lado do carro chefe da Campanha do Monte Sinai existem inúmeras e freqüentes campanhas continuadas, normalmente, mantidas durante sete semanas e que sempre estão sendo renovadas. Elas são inspiradas às vezes em obscuros textos da Bíblia.
Os compromissos que são apresentados aos fiéis têm a finalidade de provocar a constante presença nos templos e são sempre auxiliados por catalisadores de retorno que veremos a seguir.
CATALISADORES DE RETORNO E SINCRETISMO
A Universal em pródiga em pequenos talismãs que funcionam como catalisadores para prover a volta do fiel nas reuniões seguintes e também o retorno financeiro da produção.
Assim, folhinhas, recipientes com óleo de unção, alianças, correntes, arcas, rosas, cartelas tipo raspadinhas e toda a série de badulaques são manufaturados e distribuídos, gratuitamente, aos participantes do culto sempre com uma instrução de que devem ser trazidos nas reuniões seguintes para que se obtenha uma graça ou se quebre um feitiço ou se cumpram as promessas de Deus.
Acreditamos que embora o custo individual de cada badulaque deste seja pequeno o montante para preparar e distribuir uma enorme quantidade em todos os templos atinja uma soma considerável de dinheiro.
O retorno dos fiéis como também o retorno financeiro certamente é bem grande! Cada templo da Igreja é um ponto de vendas deste imenso "Marketing do Sagrado" ou talvez ainda pior, da "Mercantilização do Sagrado".
A Universal se vale da diversidade religiosa do povo brasileiro para obter vantagens explorando o sincretismo religioso. Não existem limites para angariar fiéis. Assim utilizam uma seção que denominam de seção de descarrego para exorcisar o mal incrustado em seus adeptos, ou melhor, "encostado". Vestidos de branco como em uma seção de umbanda os pastores promovem espetáculos dantescos de expulsão de demônios nos altares dos templos. O texto abaixo extraído de O Dia online, 6/8/2001 e incluído também na obra acima citada de Ricardo Mariano, mostra de maneira sarcástica a apropriação de cultos da Umbanda:
Um homem todo de branco comanda o culto, cercado por pomba-giras, exus e pretos-velhos. Os auxiliares também se vestem do branco mais puro e acreditam nos poderes do sal grosso e do galho de arruda. Que religião é essa? Ihih, se vossuncê, respondeu umbanda, está errado, mizim fio. O culto - bata a cabeça - é da Igreja Universal do Reino de Deus. Saravá. A Sessão do Descarrego - esse é o nome propagado pela própria igreja - faz sucesso às terças-feiras, na Catedral da Fé [...]. É o momento, pregam os pastores, de retirar os encostos dos fiéis.
Nestas seções os pastores ou bispos "dialogam" com os encostos advertindo-os e mostrando à platéia que todos os males do homem provém dos espíritos imundos que são dominados pelo poder de Deus e somente afastados com a perseverança dos adeptos na fé, bem entendida na Igreja Universal, aonde deixarão suas contribuições e doações.
CONCLUSÃO
O que se depreende de tudo isto é que aparentemente existe uma diferença entre a ação dos planejadores do marketing da Universal e sua linha de frente de pastores. Estes, provavelmente, acreditam na mensagem da Igreja e não são partícipes da orientação dos líderes.
Nota-se claramente, com as exceções creditadas aos exemplos de vida, que os bispos são selecionados na população mais preparada dos pastores e entrar neste seleto grupo significa tomar conhecimento das estratégias. Este é um grande desafio da Igreja, pois a grande maioria de seus pastores carece de uma formação mais escolarizada e, por exemplo, quando enviados ao exterior confundem missão evangélica com problemas culturais. Mesmo aqueles que possuem certa erudição acabam por renegá-la. Sobre isto, ler uma notícia no Blog da MPHP relativa ao bispo escolhido para ser presidente do PR (Partido da IURD, recentemente fundado).
Alguns pastores no caminho do bispado já falam a mesma linguagem. Arrisco prognosticar que o pastor Marcos Carotti, responsável até julho de 2005 pelo novissimo e grandioso templo do bairro do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, e agora em São Paulo acompanhando o bispo Clodomir Santos é um dos próximos bispos a serem nomeados. No entanto, alguns são promovidos furando esta peneira, pois existem bispos que se expressam mal e não possuem nenhum carisma. Curiosamente, o atual (julho2005) responsável pelo templo da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Bispo Sérgio, se enquadra nesta categoria. Digo curiosamente, pois o bairro é considerado de classe média alta, supostamente mais exigente culturalmente e por isto mesmo deveria merecer um cuidado maior na escolha estratégica de seu bispo.
Os pastores da tropa rasa, com raras exceções, simplesmente repetem as estratégias, sempre acreditando como mencionei anteriormente na mensagem religiosa e desconhecendo os aspectos prioritários do marketing.
Não tenho conhecimento de manuais ou regras internas de conduta, mas elas certamente existem e dependendo do nível devem ser documentos com classificação de sigilo bastante elevada. De outra maneira não seria possível manter a coerência interna nas manifestações públicas e na televisão dos membros da Igreja.
Estas regras visam um objetivo claro.
Sustentar o grande negócio, a grande farsa teológica que se chama Igreja Universal que a revista Veja, já desde1 de dez. de 1997, considerava a "maior multinacional brasileira", cuja renda estimada pela revista teria superado a da Petrobrás.
Discordo com muitas de suas colocações.
Em primeiro lugar, seus argumentos são preconceitusos afirmando que a grande maioria das pessoas que frequentam a IURD são pessoas de baixo nível cultural acho que deveria interagir melhor com os frequentadores e assim se surpreenderia com a quantidade de pessoas sócio econômica e cultural com nível bastante elevado e muito satisfatório dado as circunstâncias que vivemos neste país.
Não sou nenhum defensor de qualquer que seja a denominação,não sou obreiro, pastor ou bispo da Universal e nem de outra igreja, mas sou Cristão e era de outra denominação e houve a oportunidade de participar das reuniões da Universal foi quando realmente minha vida mudou.
Acho que deveria ver quantas vidas foram libertas nesta denominação, quantas pessoas tinham uma vida triste infeliz e hoje desfrutam de perfeita paz, cura e libertação. Naõ devemos criticar o que as pessoas da IURD tem feito e sim parabenizá-las, o que podemos observar são resultados concretos em muitas vidas inclusive na minha, e contra fatos não temos argumentos. E acho que deveria parar de falar mal de qualquer que seja igreja, pois a palavra de Deus nos afirma que a Igreja é a noiva de Cristo e acredito que Cristo como noivo não gostaria de ninguém falando mal de sua noiva. Veja os trabalhos sociais desta denominação também e ai pergunto o que você tem feito para mudar a vida de alguém?
Nota da MPHP: Comentário originalmente postado em 12/03/2007