Mário Porto
Tiago referido, nos evangelhos e em duas das principais cartas atribuídas a Paulo (Coríntios e Gálatas) como o irmão de Jesus e referido em Atos, embora sem a mesma qualificação, teve importante participação na liderança da Igreja primitiva, embora seja uma figura apagada para a maioria dos cristãos.
Este Tiago, importante na Igreja primitiva, é sem dúvida aquele referido como irmão de Jesus, não poderia ser o apóstolo Tiago, filho de Zebedeu, porque este foi morto prematuramente por Antipas I e não poderia ser o outro Tiago o filho de Alfeu, pois aquele não exerceu nenhuma influência notória na vida da Igreja.
A oposição a Paulo e a subseqüente prevalência de sua teologia na Igreja Primitiva ajudaram a colocar Tiago ao longo do crescimento e desenvolvimento do cristianismo, como nova religião do império romano, numa situação de obscuridade em relação às demais figuras da Igreja.
Pierre-Antoine Bernheim ajuda a resgatar este papel explorando os detalhes e minúcias que envolvem a relação de parentesco de Tiago com Jesus e a posição que esta condição lhe conduziu.
Bernheim faz uma detalhada análise do parentesco de Tiago com Jesus explicando minuciosamente as teorias existentes neste debate: Helvidiana, Jeronimiana e Epifaniana. O autor opta pela teoria Helvidiana que afirma que Tiago e seus irmãos eram irmãos uterinos de Jesus.
Toda a polêmica com Paulo e os judaizantes são abordadas com bastante riqueza de informações, bem como suas relações com Jesus e o seu legado.
A visão dos primórdios da Igreja que nos é mostrada por Bernheim é apresentada com bastante coragem fugindo dos padrões mais ortodoxos. Segundo ele, Tiago foi o representante mais eminente de uma Igreja primitiva profundamente enraizada na tradição judia.
O autor desenvolve no capítulo 6 uma análise da história incerta de Tiago e é bastante crítico com as contradições dos relatos de Paulo conforme suas epístolas e nos Atos, documento a respeito do qual, claramente, coloca dúvidas quanto ao seu valor histórico qualificando-o de incompleto e seletivo.
No capítulo 8 o autor faz a pergunta: Tiago, O Primeiro Papa?
Esta é uma questão extremamente delicada para a igreja católica e Bernheim, não chega ao ponto de respondê-la afirmativamente, mas deixa bem clara a importância de Tiago.
O capítulo 9 oferece um bom estudo sobre a carta de Tiago, a "epístola de palha", e é também uma parte do livro aonde, novamente, as comparações com Paulo são abordadas.
Finalmente, as notas apresentadas por capítulo apresentam uma extensa bibliografia e referencias sobre Tiago e de certa forma esta tradução do livro de Bernheim se constitui em uma das poucas obras sobre a vida de Tiago editadas em nosso idioma. São mais de 550 notas oferecendo uma enorme quantidade de novos rumos e opiniões sobre o tema.
Tiago, irmão de Jesus, Pierre-Antoine Bernheim, Editora Record, Rio de Janeiro - São Paulo, 2003.
Leia também nosso ensaio sobre Tiago, o Irmão de Jesus, em duas partes.