Bornkamm, Günther. Bíblia, Novo Testamento PDF Imprimir E-mail
 

BORNKAMM, Günther. Bíblia, Novo Testamento: introdução aos seus escritos no quadro da história do cristianismo primitivo, trad. João Rezende Costa. São Paulo: Editora Teológica, 2003, 192 pp.

Júlio Fontana

A Lei foi entregue nas mãos de Moisés por Deus, portanto, para os judeus a Torá é de origem divina. Diferente é a origem do Novo Testamento. Este é o produto de uma história terrena e humana. Não caiu do céu como revelação (p.13). Em face dessa origem, devemos analisar todas as dificuldades encontradas em seus escritos sob o prisma de ter sido eles alvos de progressivas seleções. O Novo Testamento, como conhecemos hoje, contendo 27 livros, nem sempre se apresentou assim. Livros que hoje são denominados apócrifos eram em determinada época "autorizados", ou seja, considerados como "sã doutrina". Houve um intenso processo seletivo de livros os quais estavam em circulação nos primeiros séculos do cristianismo. O que aconteceu? Qual é o elo que uniu esses 27 livros para que se tornassem representantes da doutrina apostólica? Na introdução de seu livro, Bornkamm, já suscita essas questões mostrando a dificuldade imposta pelos escritos neotestamentários aos estudantes da Bíblia.

Günther Bornkamm nasceu em 1905, na cidade de Görlitz, lecionou disciplinas relacionadas com o Novo Testamento de 1934 até 1937 nas Universidades de Königsberg e Heidelberg, Alemanha. Sob o regime nacional-socialista, foi-lhe retirada em 1937 a permissão para lecionar. Após a guerra, atuou como professor do Novo Testamento na Universidade de Göttingen e por fim na Universidade de Heidelberg. Faleceu em 1990 aos 85 anos de idade. Não precisamos salientar o quanto a teologia de Bornkamm foi profícua para o pensamento teológico atual. Bornkamm, aluno do maior expoente de estudos neotestamentários de todos os tempos, Rudolf Bultmann, assumiu a responsabilidade de representar essa escola, contudo, ele se destacou não por seguir os caminhos de seu professor, e sim, por abordar de forma independente a questão histórica do Novo Testamento[1].

 Bíblia, NovoTestamento é um livro que introduz o estudante da Bíblia nos escritos neotestamentários. Como Bornkamm mesmo alerta no prefácio da obra, não se deve esperar de uma introdução uma visão global e exaustiva dos conteúdos de todos os livros do Novo Testamento. Ele declara que a intenção da obra é dar uma impressão ao leitor das diversidades de idéias e conceitos existentes dentre os escritos neotestamentários. Entretanto, admite Bornkamm, que deu atenção especial aos Evangelhos Sinóticos e as cartas paulinas. Adotando certo rigor científico, contudo, não deixando de ser sucinto nas suas explicações, Bornkamm enfrenta as dificuldades das autorias, das datações, do sitz im leben, das fontes e da mensagem de cada livro neotestamentário. Discute também o problema do cânon, do texto "Q", da tradição oral e da autenticidade dos escritos que compõem o Novo Testamento.

O livro é dividido em quatro capítulos. O primeiro capítulo trata de mostrar o escopo da mensagem de Jesus. Segundo Bornkamm, pode-se resumir o tema da proclamação de Jesus em um único conceito: o Reino de Deus. Esse para Jesus, ensina o autor, "é tanto a vinda de Deus para salvar o mundo como a vida terrena presente do homem enquanto vista à luz da proximidade libertadora de Deus" (p. 20). Nessa primeira parte, Bornkamm, também reflete acerca da historicidade dos Evangelhos, analisa a pesquisa em torno do Jesus Histórico durante os últimos séculos e distingue os significados dos termos "evangelho" e "Evangelho".

O segundo capítulo aborda todo tema relativo aos Evangelhos Sinóticos. Bornkamm descreve a teoria das duas fontes, a primazia do Evangelho de Marcos, a tradição oral e os temas de cada um dos Sinóticos.  A teoria das duas fontes, explica ele, admite que Mateus e Lucas basearam-se em duas fontes: Marcos e "Q". O "Q" consiste quase inteiramente em "ditos do Senhor" (p.36), não possui existência física e não se assemelha ao Evangelho de Marcos (p.38). Para Bornkamm, Marcos e "Q" não exaurem as fontes da tradição sinótica, havendo também a tradição oral. Muitos especialistas não dão importância à tradição oral, pois para nós ocidentais, a forma oral é muito descredibilizada, no entanto, no oriente, e mais intensamente naquela época, a forma oral possuía talvez mais autoridade do que a forma escrita. Observamos que até a elaboração da Mishná, no século III, os judeus seguiam a tradição oral, a Halaká gozava da mesma autoridade do que a Torá. Finalizando o segundo capítulo, Bornkamm, analisa minuciosamente, as características de cada um dos Sinóticos.

A terceira parte do livro traz um texto contendo informações claras e precisas acerca da vida de Paulo, do seu ministério e sua teologia. Bornkamm faz mais do que isso nessa terceira parte. Destaca-se na análise histórica muito bem pesquisada e elaborada. Revela a importância da estrutura literária das epístolas paulinas. O que mais impressiona é sua pesquisa do acontecimento de Damasco, da conversão de Paulo e do Concílio de Jerusalém. Ele explica o que motivou a perseguição dos cristãos pelos judeus. No início, explica Bornkamm, os cristãos em nada ameaçavam o judaísmo, eles observavam a Lei e suas prescrições. A única coisa que os distinguia de outros judeus era sua crença de que, depois de sua morte na cruz, Jesus tinha ressuscitado e retornaria em breve como Messias. Isto, para os judeus, na pior das hipóteses, era uma ilusão estranha, mas com certeza não causa para levar os cristãos aos tribunais ou expulsá-los da comunidade (p. 95). Entretanto, após o desenvolvimento de tendências radicais judaico-helenistas sob a liderança de Estevão, o cristianismo passou a ser uma ameaça intolerável aos fundamentos da religião judaica. Essa terceira parte trata de inúmeras outras matérias, porém, em virtude do espaço limitado, não podemos nos estender pelo tema exposto pelo Dr. Bornkamm.

Encerrando a quarta parte de sua obra, Günther Bornkamm analisa os últimos escritos do Novo Testamento. O que mais chama a atenção do leitor é o fato de Bornkamm mostrar que o cristianismo do fim do século I era sem brilho em comparação com a época gloriosa de seus primeiros dias (p. 131). Esse fato influenciou no teor dos escritos tardios que em sua maioria abandonaram muitos dos temas paulinos e outros tomaram nova definição e terminologia. Mostra Bornkamm, que essa literatura do fim do século recebeu alguns traços apologéticos, pois era intenso o combate às falsas doutrinas e falsos mestres.

Essa obra de Günther Bornkamm é muito eficaz no que propõe que é facilitar ao moderno leitor achegar-se ao Novo Testamento. O autor mostra a riqueza de detalhes constantes nos escritos neotestamentários, sem, contudo, esquecer do tema central desses livros - Jesus Cristo e sua história interpretada como evento divino de significação última e decisiva (p. 159).


 


[1] Bultmann não aprofundou suas pesquisas no âmbito histórico, pois, cria que uma Teologia do Novo Testamento se iniciava no querigma.

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