Brown, Raymond E., O Nascimento do Messias PDF Imprimir E-mail
 

Brown, Raymond E., O Nascimento do Messias: comentário das narrativas da infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas, trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulinas, 2005 - Coleção Bíblia e História, 895pp.

Julio Fontana*

Esse comentário de Raymond Brown das narrativas evangélicas da infância de Jesus foi bastante aclamado quando de sua publicação nos EUA em 1977. Quase trinta anos se passaram até a sua tradução para a língua portuguesa, entretanto, essa obra não perdeu o seu valor. Para nós, ela acaba sendo a única que trata abrangentemente das narrativas da infância. O tema que ela cobre justifica o trabalho árduo de tradução. As narrativas do nascimento e da infância de Jesus foram as últimas fronteiras a serem cruzadas pelo avanço impiedoso da abordagem científica (crítica) dos Evangelhos. Esse retardo aconteceu em razão de conservadores e críticos históricos não concederem as narrativas da infância qualquer atenção, pois achavam que elas não possuíam a mesma importância do que as narrativas que relatavam o ministério público de Jesus.

A abordagem que Brown faz do tema segue os padrões hermenêuticos que estamos acostumados a contemplar em suas obras. Ele é fiel a crítica bíblica, contudo, não faz dela seu fim. Segundo Scherrer, Brown pratica "um tipo bastante puro de exegese, que parece estar se tornando cada vez mais raro ultimamente".[1] Quanto a sua abordagem das narrativas da infância, ele se interessa principalmente pelo papel que elas tiveram no início do entendimento cristão de Jesus. Para ele, essas narrativas são "veículos adequados da mensagem do Evangelho; de fato, cada uma delas é a história essencial do Evangelho em miniatura" (p. 8). Brown também aponta o público que almeja atingir com sua obra: "estudiosos contemporâneos, estudantes de teologia e da Bíblia e outros cristãos interessados". Para isso, o autor organizou sua exposição da seguinte forma: a narrativa bíblica foi dividida em seções que refletem unidades da estrutura dos evangelistas; cada seção começa com a citação da Escritura; seguem-se notas detalhadas que acompanham cada versículo passo a passo e que contém informações técnicas necessárias para os mais interessados profissionalmente na exegese, ou seja, questões textuais, problemas de tradução, interpretações controversas e fundamento histórico. Mas é no comentário que o autor analisa o significado básico da passagem bíblica, como foi organizada, como se adapta à teologia e mensagem do evangelista, e como recorreu ao material pré-evangélico ou à base veterotestamentária para a construção do texto.

A obra está subdividida em duas partes ou em dois livros. O primeiro livro trata da narrativa mateana e o segundo aborda a narrativa lucana da infância de Jesus. No final, ainda contamos com os apêndices e o suplemento. Os apêndices tratam dos seguintes assuntos: levirato, ascendência davídica, nascimento em Belém, concepção virginal, a acusação de ilegitimidade, outra base judaica da narrativa mateana, o recenseamento no tempo de Quirino, o midraxe como gênero literário e a quarta bucólica de Virgílio. O suplemento, o qual foi elaborado pelo autor a pedido da Doubleday (editora norte-americana), mostra a influência que as críticas narrativa e literária tiveram sobre Brown a partir da década de 80. No suplemento, Brown adentra mais profundamente nos temas tratados por ele em sua obra original e organiza melhor suas idéias.

O mais surpreendente nesse livro é o quanto é abrangente e profunda a análise realizada pelo autor, pois as narrativas da infância ocupam menos de 5% dos 89 capítulos dos Evangelhos, e mesmo assim esse erudito do Novo Testamento conseguiu escrever quase que 900 páginas sobre elas. Mas não é a sua extensão o carro-chefe desse trabalho, mas a abordagem séria, coerente e imparcial desse estudioso. As narrativas da infância, como sabemos, foram o último material a entrar na "biografia de Jesus", sendo a paixão o texto inicial. Os primeiros cristãos, principalmente aqueles que haviam "vivido" com Jesus não estavam interessados na história de sua infância, se preocupavam, sobretudo, com a sua mensagem, como nota-se em Q. Uma pergunta que fica no ar é: Então como é que tais narrativas da infância acabaram sendo incluídas no início de Mateus e de Lucas? Segundo Brown, "a curiosidade com certeza desempenhou um papel importante nas narrativas da infância canônicas e apócrifas. Os cristãos queriam saber mais a respeito do Senhor; conhecer sua família, seus antepassados, o lugar de seu nascimento" (p. 37). A apologética também foi um fator que influenciou bastante a inclusão das narrativas da infância nos Evangelhos. O autor mostra algumas teorias propostas. Há quem veja uma apologética contra os seguidores não cristãos de João Batista nas narrativas lucanas do nascimento deste (p. 37). Outros vêem um aspecto antidocetista na ênfase dado ao nascimento de Jesus. Brown, no entanto, crê que mais plausível é a narrativa do nascimento de Jesus em Belém objetivar responder a um judaísmo que não acreditava em um Messias que vinha da Galiléia. Se o judaísmo já começava a acusar Jesus de ilegítimo, a concepção virginal oferecia uma explicação que levava em conta uma irregularidade no nascimento, ao mesmo tempo que defendia a pureza da mãe e a santidade do menino. Na verdade tanto fatores teológicos quanto apologéticos influenciaram o desenvolvimento das narrativas da infância mateana e lucana.

A análise da historicidade das narrativas não foi o escopo principal de sua obra. Brown acredita que a obsessão de "provar" a historicidade é regressiva e força a discussão prolongada de áreas pelas quais os evangelistas não demonstraram nenhum interesse primordial" (p. 684). Mas quanto as narrativas serem históricas, Brown diz que "a análise cuidadosa das narrativas da infância torna improvável que qualquer um dos relatos seja histórico" (p. 46). Devido a essa descrença, o autor recebeu críticas negativas dos conservadores (principalmente dos católicos) por ele não ter aceitado as narrativas como factuais. Mas o que levou o autor a descrença quanto à historicidade das narrativas? Ele explica que "por causa da discordância entre as duas narrativas da infância, da falta de confirmação de seu material em qualquer outra passagem do Novo Testamento, da ausência de confirmação extrabíblica de acontecimentos altamente públicos nas narrativas, de aparentes incorreções (o recenseamento que afetou os galileus durante o governo de Quirino, no tempo de Herodes) e da total incerteza sobre as fontes dos evangelistas para o que é narrado, fiz um julgamento cuidadoso negando que os dois relatos possam ser completamente históricos e achando improvável que qualquer um deles seja completamente históricos" (p. 685).

Vimos assim que essa é mais uma obra de Brown que veio para enriquecer ainda mais o nosso conhecimento acerca dos Evangelhos e de Jesus. Quanto à questão do público destinado, para o contexto sociocultural brasileiro, essa obra, infelizmente, é inacessível para o público geral. Não em razão da massividade do texto, mas, pela deficiência na formação acadêmica dos brasileiros. Essa inacessibilidade, talvez, possa até se ampliar aos seminaristas, pois, contemplando o atual quadro no qual se encontram, como bem apontou o professor anglicano Carlos E. B. Calvani[2], não acredito que eles possam vir a compreender essa profunda análise laborada por Brown. Portanto, esse livro será mais uma das boas obras que servirão àqueles que se esmeram no estudo bíblico, alunos de faculdades teológicas, professores e especialistas do tema. Esses agradecem à Editora Paulinas por disponibilizar mais esse excelente fruto da erudição bíblica.


 


* Aluno de Teologia da PUC-RJ, autor de resenhas e artigos publicados na Revista Inclusividade do Centro de Estudos Anglicanos e Teologia e Cultura da PUC-SP/Editora Paulinas. Qualquer dúvida ou sugestão entrar em contato através do e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

[1] SCHERRER, apud. FITZMYER, Joseph A. Escritura, a alma da teologia, São Paulo: Loyola, 1997, p. 39.

[2] "Na condição de professor de teologia já há um bom tempo, confesso-lhes que às vezes me sinto extremamente frustrado com a falta de interesse de nossos atuais estudantes em pesquisas que buscam compreender o que há de mais recente na teologia". Diz ainda: "Tenho trabalhado como professor em Seminários Evangélicos presbiterianos, batistas, da Assembléia de Deus e interdenominacionais em diversos lugares e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de estudantes como nos últimos anos".

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