Brown, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado PDF Imprimir E-mail

Trad. Euclides Carneiro da Silva. São Paulo: Paulus, 4ª edição, 2003, 216 pp.

Júlio Fontana

Raymond Edward Brown é considerado internacionalmente o decano dos especialistas do Novo Testamento. Como ilustre professor emérito de Estudos Bíblicos de Auburn, no Union Theological Seminary de Nova Iorque, recebeu cerca de trinta títulos honoríficos de universidades católicas e protestantes pelo mundo afora. Além de ser ex-presidente da Society of Biblical Literature, da Catholical Biblical Association e da Sociedade of New Testament, foi o único norte-americano escolhido por dois papas para integrar a Pontifícia Comissão Bíblica. Brown é também um dos mais conhecidos comentaristas joaninos do mundo. Durante sua vida escreveu mais de trinta e cinco livros sobre a Bíblia. O padre Raymond Brown já se encontra em seu lar definitivo desde 1998.

A obra em tela é uma epítome do pensamento do autor sobre o cristianismo joanino desenvolvido nos seus trabalhos anteriores. Comenta Brown que o pensamento joanino marca um ponto alto na cristologia e na eclesiologia primitivas, mas também oferece perigos terríveis até nossos dias. Vale a pena citar um parágrafo do prefácio do livro onde Brown faz uma consideração geral sobre a importância do quarto evangelho para se compreender as origens do cristianismo primitivo. 

Tem-se afirmado muitas vezes que os escritos de João podem ser a peça mais importante na solução do enigma das origens cristãs - a pedra angular do arco da Igreja primitiva. Reconstituíram-se padrões da história da Igreja do primeiro século a partir do corpus da literatura paulina, dos Atos, de Lucas e de Mateus. Entretanto não tem sido fácil adaptar João na visão geral. O quarto evangelho é de todo em diferente dos outros evangelhos na sua apresentação de Jesus e surpreendentemente diferente das epístolas pastorais e do livro dos Atos na sua visão das realidades eclesiais, a ponto de os estudiosos terem teorizado que o cristianismo joanino pode ter sido fenômeno sectário de isolamento. Espero mostrar que, longe de ser um cristianismo de isolamento, ele foi um confronto em plena corrente com as sinagogas e outras igrejas, e que apesar de tendências sectárias, ele orava pela unidade com os outros cristãos. Mas era um cristianismo desafiadoramente diferente e volátil - tão volátil que estava destinado a ser absorvido nos movimentos cristãos mais amplos (de direita e de esquerda) que surgiam no primeiro século (p. 9).

A obra de Brown é dividida  em 5 capítulos, onde o primeiro trata do problema e do método para discernir a eclesiologia joanina; o segundo analisa a primeira fase da comunidade joanina, o terceiro, a segunda fase, o quarto, a terceira fase; o quinto, a quarta fase. No final do livro contamos ainda com dois apêndices; o primeiro fala sobre as reconstituições recentes da história da comunidade joanina e o segundo sobre os papéis de mulheres no quarto evangelho.

Sobre o método para se pesquisar a história da comunidade joanina, Brown explica que, primeiramente, devemos considerar que os evangelhos nos falam como cada evagelista concebia Jesus e o apresentava a uma comunidade cristã no último quartel do primeiro século, apresentação essa que nos dá indiretamente uma visão da vida dessa comunidade, no tempo em que o evangelho foi escrito. Em segundo lugar, através da análise das fontes, os evangelhos nos revelam algo sobre a história pré-evangélica dos pontos de vista cristológicos do evangelista. Indiretamente, eles também revelam algo sobre a história da comunidade, antes, no começo do século, especialmente se as fontes usadas pelo evangelista fazem parte da herança da comunidade. Em terceiro lugar, os evangelhos oferecem meios limitados para reconstruirmos o ministério e a mensagem do Jesus histórico. Conseqüentemente, se as fontes pré-evangélicas, a que podemos ter acesso, ou as tradições foram formadas numa fase inicial da vida da mesma comunidade que recebeu o evangelho final, elas nos ajudam a descobrir a história da comunidade; mas se eles foram compostos fora da comunidade e para ela trazidos para suplementar (ou até corrigir) o pensamento da comunidade, eles poderão fornecer pouquíssimas informações eclesiásticas sobre a própria comunidade.

Como vimos, Brown propõe uma reconstrução da vida da comunidade joanina em quatro fases, a qual são distribuídas nos capítulos dos seus livros, portanto, enquanto estivermos falando dessas fases, pressupõe-se essa divisão de capítulos, sendo que a primeira fase da vida da comunidade joanina é estudada no segundo capítulo e assim por diante. A primeira fase é a era pré-evangélica, a qual abrange inclusive as origens da comunidade e sua relação com o judaísmo da metade do século primeiro. Brown afirma que o grupo que depois formou a comunidade joanina tem sua origem na Palestina ou perto dessa região (p. 40). Esse grupo era composto de judeus que tinham esperanças relativamente semelhantes à de seus concidadãos, inclusive os seguidores de João Batista que aceitaram sem dificuldade Jesus como o Messias davídico, o realizador das profecias, e cuja missão era confirmada por milagres, enfim, eles adotavam uma cristologia baixa. No meio deste grupo havia um homem que tinha conhecido Jesus durante seu ministério, e que veio a tornar-se o Discípulo Amado (p. 32). Mais tarde, surgiu uma cristologia mais alta que levou a comunidade joanina a declarado conflito com os judeus, que a consideravam como uma blasfêmia, e este litígio impeliu o grupo joanino a afirmações cada vez mais arrojadas (p. 25). Brown afirma que o "catalizador" da cristologia da comunidade joanina foi um grupo o qual constava de judeus com opinião formada contra o Templo, que converteram samaritanos e assimilaram alguns elementos do pensamento samaritano, inclusive uma cristologia que não era centrada num Messias davídico (p. 39). Brown diz que nessa fase também ocorreu o ingresso do elemento gentio na comunidade joanina (p. 57). Finalizando, o autor lembra que em nenhum estágio da história do pré-evangelho existiu uma aguda luta interna dentro da comunidade joanina: suas lutas eram com pessoas que estavam fora da comunidade (p. 58). Brown data essa fase entre as décadas de 50 e 80 d.C.

A segunda fase da comunidade joanina cobre o intervalo o qual o Evangelho foi escrito. Podemos abstrair do quarto Evangelho que existia uma animosidade entre os não-crentes e os cristãos da comunidade joanina. Portanto, houve uma tendência cada vez maior de separação entre os joaninos e o mundo, entretanto, isso não quer dizer, como alguns especialistas afirmam que o Evangelho tenha sido elaborado na fase de perseguição do Imperador Domiciano. A atitude para com o Imperador e Pilatos no Evangelho não tem o tom implacável em relação a Roma que se encontra em Apocalipse. Brown diz que quando muito pode ter havido hostilização local por parte dos oficiais romanos relacionada com as lutas entre a sinagoga e a igreja (p. 67). Quanto a relação dos cristãos joaninos com o judaísmo, Brown diz que no tempo em que o Evangelho foi escrito estes cristãos tinham sido expulsos das sinagogas (p. 68) porque eles reconheciam Jesus como Deus. Tal expulsão reflete a situação no último quartel do século primeiro, quando o centro de ensino do judaísmo era em Jâmnia (Jabneh) - um judaísmo que era predominantemente fariseu e assim não mais tão pluralístico como antes de 70. Aponta Brown para o erro o qual muitos estudiosos foram levados, ou seja, embora o Evangelho tenha sido escrito depois deste ponto no tempo, a história pré-evangélica certamente incluía as controvérsias entre os cristãos joaninos e os chefes da sinagoga. Na primeira fase, anterior a elaboração do Evangelho, vimos que ocorreu a entrada na comunidade de um segundo grupo formado por judeus de tendências contrárias ao Templo, que acreditaram em Jesus e fizeram convertidos em Samaria. Eles entenderam Jesus segundo uma cristologia alta, ou seja, criam na preexistência e na divindade de Jesus. Essa cristologia mais alta, posteriormente, levou a debates intensos entre os cristãos joaninos e os "judeus" (criptocristãos). Os criptocristãos eram àqueles cristãos os quais pertenciam as sinagogas e não confessavam publicamente serem cristãos a fim de não serem expulsos das sinagogas. Estes pensavam que a comunidade joanina estava abandonando o monoteísmo judaico, fazendo de Jesus um segundo Deus. Posteriormente esses cristãos joaninos foram expulsos das sinagogas, e assim, alienados dos seus, viram os "judeus" como filhos do diabo. Proclamavam a realização das promessas escatológicas em Jesus para compensar o que tinham perdido no judaísmo. O Discípulo que fez esta transição e ajudou outros a fazê-la, segundo o autor, foi o Discípulo Amado. A expulsão das sinagogas já passou, mas a perseguição (16.2-3) continua, e há profundas cicatrizes na alma joanina em relação "aos judeus". A insistência numa alta cristologia, tornada cada vez mais intensa pelas lutas com "os judeus" afeta as relações da comunidade com os outros grupos cristãos, cuja avaliação de Jesus é inadequada segundo os padrões joaninos. As tentativas de proclamar a luz de Jesus aos gentios podem também ter encontrado dificuldades, e o "mundo" tornou-se um termo geral para todos aqueles que preferem as trevas à luz. Esta fase nos fornece informações detalhadas sobre o local da comunidade joanina num mundo pluralístico de crentes e não-crentes, no final do século (Éfeso). Outro grupo importante para a história da comunidade joanina são os adeptos de João Batista. Como as demais comunidades a comunidade joanina também teve desentendimentos com os seguidores do Batista, entretanto, notamos que nessa comunidade os confrontos foram bem mais intensos dos que nas demais comunidades cristãs do primeiro século. Brown coloca também na constituição dessa fase da história da comunidade joanina a presença de um grupo de cristãos judeus de fé inadequada (p. 77). Estes foram cristãos que deixaram a sinagoga (ou dela foram expulsos), que eram conhecidos publicamente como cristãos, que formavam igrejas, e contudo João tinha para com eles uma atitude hostil no final do século. Sabe-se da sua existência pela presença no Evangelho de judeus que eram publicamente crentes ou discípulos, mas cuja falta de fé verdadeira é condenada pelo autor (6.60-66). 

A terceira fase envolvia a situação de vida nas comunidades joaninas agora divididas, no tempo em que foram escritas as epístolas, provavelmente por volta do ano 100 d.C. Nesse momento, a luta acontece entre dois grupos dos discípulos de João, que estão interpretando o evangelho de maneiras opostas, no que se refere à cristologia, a ética, à escatologia e à pneumatologia. Os temores e o pessimismo do autor das epístolas sugerem que os separatistas estão tendo maior sucesso numérico (1 Jo 4.5) e o autor está tentando defender seus adeptos contra posteriores incursões de falsos mestres (2.27; 2 Jo 10.11). O autor sente que é "a última hora" (1 Jo 2.18). Sendo mais claro, os adeptos do autor das epístolas que acreditam que para ser filho de Deus a pessoa deve confessar que Jesus Cristo veio na carne e deve observar os mandamentos, enquanto os separatistas creêm que aquele que desceu do alto é tão divino que não é totalmente humano, ele não pertence ao mundo, nem sua vida neste mundo nem a vida do crente têm valor salvífico. Para eles, conhecer que o Filho de Deus veio a este mundo é o que há de mais importante, e os que creêm realmente nisto já estão salvos.

Finalizando, a quarta fase viu a dissolução dos dois grupos joaninos depois que as epístolas foram escritas. A maior parte da comunidade joanina parece ter aceitado a teologia separatista. Estes, não mais em comunhão com a ala mais conservadora da comunidade joanina, provavelmente tenderam mais rapidamente no século segundo para o docetismo, o gnosticismo, o cerintianismo, e o montanismo. Isto explica por que o quarto evangelho, que eles levaram consigo, é citado mais cedo e mais freqüentemente por escritores heterodoxos do que por escritos ortodoxos. Os adeptos do autor de 1 Jo no começo do século segundo parece terem gradualmente se incorporado no que Inácio de Antioquia chama "a Igreja católica", como se demonstra pela aceitação crescente da cristologia joanina da pré-existência do Verbo. Comenta Brown que esta incorporação deve ter custado o preço da aceitação joanina da estrutura autoritária do ensino da Igreja, provavelmente porque o seu próprio princípio do Paráclito como o mestre não ofereceu defesa suficiente contra os separatistas. Como os separatistas e seus descendentes heterodoxos usaram mal o quarto evangelho, ele não é citado como Escritura pelos escritores ortodoxos na primeira parte do século II. Contudo, o uso das epístolas como um guia correto para interpretar o evangelho finalmente conquistou para João um lugar no cânon da Igreja. Finalizando, o autor diz que muito deste reconhecimento mostra uma comunidade cuja avaliação de Jesus era aguçada pela luta, e cuja elevada apreciação da divindade de Jesus levava a antagonismos fora da comunidade e a cismas dentro dela.

No final do livro de Brown contemplamos quadros de resumos que facilitam a compreensão do tema exposto pelo autor (pp. 174-177). Brown também descreve as últimas reconstituições da história da comunidade joanina propostas respectivamente pelos seguintes estudiosos: J. Louis Martyn, Gerorg Richter, Oscar Cullmann, Marie-Emile Boismard e Wolfang Langbrandtner. Finalizando a obra, o autor discute o papéis de mulheres no quarto Evangelho.  

Do que foi exposto por Brown no seu livro A comunidade do discípulo amado, não cabem muitas críticas. Chamo atenção apenas para o fato do autor não explicar muito bem o propósito que levou a comunidade joanina a se transferir da Palestina para a Diáspora. Um fato que deve ressaltado é o conflito entre "judeus" (criptocristãos) e cristãos na década de 40-50. Pode parecer que ocorreu somente na comunidade joanina, em virtude da cristologia alta que adotaram, mas o conflito entre o judaísmo e cristianismo nessa mesma época se estende a todas as comunidades cristãs como observamos os reflexos nos demais Evangelhos. Salvo essas considerações, o livro de Raymond Edward Brown é de suma importância para o contexto brasileiro, tão carente de conhecimento sobre as origens cristãs, talvez não por falta de material publicado sobre o tema e sim pela falta de interesse tanto dos teólogos como dos cristãos das igrejas brasileiras. Notamos estudiosos importantes do quadro teológico nacional manifestando uma grande falta de conhecimento acerca do cristianismo do primeiro século. Isso ocorre, em razão da maior parte deles crerem que a Bíblia é a visão do "todo". Na verdade, ela traz a respeito das origens cristãs uma visão essencialmente "católica" da história da Igreja. Nesse ponto a reconstrução das comunidades dos Evangelhos está sendo de fundamental importância, pois, estamos conhecendo e compreendendo a face cristã que até então estava esquecida. Quanto mais investigamos sobre essas comunidades mais compreendemos alguns versos isolados do livro de Atos que até hoje não faziam o menor sentido.  Destarte, creio que este livro está recomendado para todos os cristãos que almejam conhecer uma das primeiras formas que assumiu a Igreja de Cristo.

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Comentarios (4)add
uma visão não divulgada na liturgia catolica
escrito por pedro paulo de mattos russo , 26 janeiro 2008
uma pergunta surge sempre enquanto encontro-me numa celebração eucarística: porque os padres não fazem alusão a aspectos históricos contidos nos evangelhos? Porque não ampliam suas homilias mostrando que embora a Palavra de Deus está intuída no pensamento dos evangelistas mas que esses evangelistas eram homens normais e não seres especiais e mais, que a palavra com o tempo sofre transmutações e adequações linguisticas à epoca. Cabe então refletir como J.Dominc Crossan sobre outra pergunta clássica: quem matou Jesus? Os evangelhos são profecia historicizada ou história relembrada?


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A Comunidade do Discípulo Amado
escrito por Eduardo Hoornaert , 06 março 2008

Porque Raymond Brown não desenvolve a proximidade entre o evangelho de João e as cartas de Paulo, de um lado, e com o ensino de Marcião, do outro lado? Os três grandes teólogos dos primeiros temnpos concordam em dizer que não existe 'história da salvação' (que se desenvolve linearmente dos patriarcas até Jesus e implica logicamente na superioridade do cristianismo sobre o judaísmo). O Deus que se revela em Jesus é um 'Deus estranho', tanto para os judeus como para os cristãos. Ele é estranho pois se revela numa pessoa que morre numa cruz.
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Resposta a Hoornaert
escrito por Julio Fontana , 07 abril 2008
Olá. Há possibilidade de se fazer uma teologia partindo do Evangelho de João, das cartas de Paulo e do ensino de Marcião. Todas elas foram elaboradas segundo uma terminologia gnóstica, conforme já defendi no caso de Paulo na revista Ciberteologia. A teologia cristã, segundo o meu ponto de vista deveria iniciar a partir do Novo Testamento como já defendeu Emil Brunner. Não sei te informar porque Brown não desenvolveu tal teologia a partir do textos os quais mencionou, deve ser por causa das amarras confessionais.
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Paulo, gnóstico???????
escrito por Rodrigo , 13 abril 2009
Bem, acredito que depois do trabalho de E.P.Sanders, N.T.Wright, James D. G. Dunn,Stephen Westerholm,F. B. Watson e J. Christaan Beker, é completamente inadmissível, inapropriado e incongruente, de maneira completa e definitiva, associar o pensamento de Paulo vinculado ao gnosticismo e a distorção anti-judaica de Marcião e ao gnosticismo, tal como inferir que 2+2=3. Mal entendidos com passagens particular entre carne, lus, trevas, etc., não podem servir para forçarmos a barra para abrir um campo de especulação etéreo.
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