Horsley, Richard, Paulo e o Império PDF Imprimir E-mail
 

Mário Porto

Acostumamo-nos a sempre encarar a oposição de Paulo direcionada aos judaizantes ou judeus-cristãos, mas recentemente estamos vendo alguns especialistas levantarem a hipótese do evangelho de Paulo ser contra-imperial.

É exatamente esta a tese de Richard Horsley em seu livro Paulo e o império: religião e poder na sociedade imperial romana, Paulus, 204.

Dividido em 4 partes contendo 14 capítulos escritos por diferentes especialistas o livro pretende demonstrar que o cristianismo foi um produto do império e que numa das grandes ironias da história o que veio a ser a religião estabelecida do império começou como um movimento anti-imperial. Na verdade, este é o primeiro de dois livros organizados por Horsley que trata do assunto, um mais recente, ainda não publicado no Brasil, tem como título Paulo e a ordem imperial.

Nas duas primeiras partes do livro compreendendo 7 ensaios são abordados dois temas preliminares para a introdução do evangelho contra-imperial. São elas, na Parte 1, O Evangelho da Salvação Imperial que aborda a disseminação do Evangelho de Cesar que já se estabelecera em cidades como Filipos, Tessalônica e Coríntio e na Parte 2 Patronato, Sacerdotados e Poder.

Nestas introduções Paulo e sua obra, praticamente, não são tratados e o enfoque se situa na religião-política da Roma Augustana.

Na primeira parte o "culto ao imperador" é contraposto em 4 ensaios ao cristianismo da Igreja Primitiva.

Na segunda parte em 3 ensaios Relações Patronais do Poder, Patronato na Corinto romana e o Véu do Poder, de autores distintos, produzem um interessante estudo sobre as relações de poder no império romano e tentam explicar como uma administração imperial de pouca complexidade conseguiu manter íntegro um império remoto e complexo.

Ao desfilarmos sobre os ensaios sobre o patronato não podemos deixar de identificar uma estreita relação com as relações de poder na sociedade brasileira. É tão grande a similaridade que me inspirou a escrever um pequeno artigo que intitulei Roma Imperial é aqui.

É de se destacar, para evidenciar a institucionalização do patronato e do tráfico de influência, o conselho de Plutarco, filósofo e prosador grego do período greco-romano, que viveu certo período em Roma, de como um jovem devia agir para conseguir um cargo político local que se constitui em um indicativo de como funcionava o sistema:

Não só precisa o homem de Estado manter a si e à sua cidade ilibados aos olhos dos dirigentes, mas ter sempre algum amigo nos círculos dos mais poderosos (em Roma) como um firme apoio à cidade. Porque os próprios romanos mostram-se mais simpáticos aos esforços cívicos dos amigos. E é bom que quem goza de benefícios em função da amizade com os poderosos os usem em favor da prosperidade do povo (Moralia 814C).

Na parte 3 O Evangelho contra-imperial de Paulo, com o conteúdo de 4 ensaios, Deus virado de Cabeça para baixo, A ideologia Imperial e a Escatologia de Paulo em 1 Tessalonicences, A Mensagem Imperial da Cruz e Romanos 13: 1-7 no contexto da propaganda imperial, entramos finalmente no objeto do livro.

Alerto aos leitores que as evidências da tese não se mostram de forma clara e podem dar margem a contestações. Três cartas de Paulo são apresentadas como as que possuem maior testemunho da ação política contra-imperial de Paulo: Romanos, Filipenses e Tessalonicenses.

As análises partem do uso de termos específicos em grego que denotariam o sentido político ou imperial.

No terceiro ensaio, A Mensagem antiimperial da cruz, Neil Elliott aborda o caráter político da morte de Jesus e de como a chamada "Pax Romana" é desprezada por Paulo.

No quarto ensaio desta parte o mesmo autor examina Romanos 13:1-7 no contexto da propaganda imperial e procura explicar a questão do propósito da carta em relação à surpreendente orientação contida nestes versículos.

Na parte 4, A construção de uma sociedade alternativa, os três ensaios, procuram situar a missão de Paulo em um estágio bem maior do que a fundação de uma nova religião e afirmam categoricamente que é historicamente sem fundamento imaginar que já existisse na época de Paulo uma religião chamada judaísmo e outra chamada cristianismo.

Uma interessante análise sobre um importante termo utilizado por Paulo procura mostrar que ekklesia não pode ser traduzido como "Igreja". Ekklesia seria um termo político com certas tonalidades religiosas.

As ekklesias de Paulo seriam, portanto, comunidades locais de uma sociedade alternativa à ordem imperial romana. Realmente algo que está longe dos púlpitos de pregação paulina.

O primeiro ensaio desta parte estuda Os Cultos Imperiais de Tessalônica e o Conflito Político em 1 Tessalonicences. Aqui o conflito mal explicado de Atos 17 quando a casa do patrocinador de Paulo, Jasão, foi atacada é analisado de forma política. Quais são os dogmata kaisaros que Paulo e seus companheiros violaram?

O autor do ensaio Karl Donfried levanta dados argumentando que as tribulações mencionadas em Ts 1:6 podem ter relação com o culto ao deus imperial no templo de César existente em Tessalônica, construído no reinado de Augusto. A alegação de Paulo de que Satanás o impediu várias vezes de visitar a cidade em TS. 2:18 poderia ser uma indicação da oposição política?

No último ensaio do livro, 1 Coríntios: estudo de caso da Assembléia de Paulo como sociedade alternativa, o organizador Richard Horsley, faz uma releitura desta generosa fonte de textos usada pelos cristãos como bases bíblicas e de doutrina teológicas para dar atenção a outro horizonte em cujo âmbito Paulo compreende as lutas da assembléia, bem como à radical oposição de Paulo à ordem imperial romana.

Não podemos deixar de notar que a tese é revolucionária e está sendo abraçada por muitos especialistas, mas muita água deve rolar ainda até que seja suficientemente entendida e aceita.

Na minha primeira leitura do livro, em que pese ter apreciado logo de início as duas primeiras partes, foi de rejeitá-lo, mas lendo e relendo com cuidado comecei a achar que muita coisa faz sentido.

O segundo livro que mencionei acima não parece ter ainda tradução em português, mas quem se interessar existe uma resenha no site Review of Biblical Literature.

Para os que gostam do tema vale a pena a leitura de Paulo e o império, Paulus, 2004.

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