Nietzsche, Friedrich. O Anticristo PDF Imprimir E-mail
 

Nietzsche, Friedrich. O Anticristo, trad. Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2004, 112pp;

Júlio Fontana

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu na Prússia, no dia 15 de outubro de 1844. Sua família era luterana e contava, tanto do lado paterno quanto do materno, com vasta linhagem de pastores protestantes. Nietzsche, num primeiro momento desejou ser pastor como o pai, porém decidiu abandonar a Teologia em 1864. Em 1865 foi estudar filologia clássica na Universidade de Leipzig. Após formar-se, com apenas 24 anos, foi nomeado professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia. Por motivos de saúde renunciou à cátedra. Aliás, o ano de 1879 foi um dos piores anos de sua vida. Na primavera desse ano obteve uma ligeira recuperação e pode ainda se dedicar aos estudos filosóficos por mais dez anos, quando sobreveio a crise que interrompeu suas atividades (1889). Nietzsche (sobre)viveu por mais 11 anos. Morreu em Weimar, ao meio-dia de 25 de agosto de 1900.

Nietzsche escreveu diversas obras, entretanto, nenhuma delas lhe concedeu a fama e o prestígio que esperava. Na verdade, até 1888 Nietzsche era praticamente desconhecido, e o livro que veio a ser o mais vendido foi o seu Assim falou Zaratrusta. Ele sentiu o isolamento intelectual o qual fora submetido, como testemunha o Professor de filosofia da USP Scarlett Marton:

"Repetidas vezes, tentara compreender as razões da indiferença que o cercava. Na correspondência e nos livros, referiu-se ao silêncio que pesava sobre sua obra, a solidão que envolvia sua vida. Raros amigos, escassos leitores. Nos últimos textos acreditava ter nascido póstumo; seus escritos antecipavam-se àqueles a quem se destinavam" (p. 19).

Talvez em razão desse nascimento intelectual pré-maturo que algumas pessoas sentiram e ainda sentem muita dificuldade em compreendê-lo, como testemunha Scarlett ao dizer:

"Quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu respeito; quem não o compreendeu, julgou-o equivocado" (p. 19).

O livro O Anticristo contraria essa tendência, pois a obra é muito clara e coerente. Nietzsche fala diretamente aquilo que pensa. Todavia, ela é por muitas vezes vítima de eisegese, ou seja, interpretação incorreta. Mauro Araújo de Souza chama atenção para esse fato:

"o livro O Anticristo é lido com um sem-número de interpretações que se afastam do objetivo maior do filósofo, que era o de abrir caminho para uma crítica dos valores estabelecidos em dois mil anos de cristianismo e propor a inversão e a criação de novos valores" (p. 20).

Partindo desse ponto já podemos compreender qual o ponto central da obra resenhada. Ela não é uma crítica direta ao cristianismo. O plano maior de Nietzsche é sempre o da "transmutação de todos os valores". Nietzsche não se preocupa com a fé cristã, e sim, com a religião como instituição emanadora de regras de conduta e valores morais, os quais estão cristalizados há dois mil anos. Isso pode ser verificado pelo próprio plano da obra. O Anticristo fazia parte de algo pretendido pelo filósofo, que era colocá-lo como primeiro livro, entre outros três, perfazendo um conjunto de quatro que seriam intitulados Vontade de Potência, obra que não acabou sendo realizada e que veio à tona pela sua irmã Elizabeth-Föerster Nietzsche, a qual deturpou toda uma cronologia dos fragmentos nietzscheanos, além de expor o pensamento do irmão usando de má-fé, como uma verdadeira mercenária que, em nome do sucesso, vendia-se às mais perversas ideologias nazistas (p. 21). Além da ordem, Renato Barilli, mostra o valor da ética de Nietzsche também mostra que o propósito da obra não é um ataque direto à fé cristã:

"O principal ídolo polêmico combatido por Nietzsche é o de uma moral e de um costume supostamente dados uma vez para sempre e que reivindiquem da parte da humanidade uma obediência cega, total, ‘incondicionada'. Sobre um ponto, em todo caso, Nietzsche é peremptório: nenhum homem pode delegar a outro o direito de decidir sobre a sua conduta; ele deverá raciocinar sempre com a própria cabeça, conferindo toda decisão com a sua experiência pessoal. Nós todos somos ‘pequenos estados experimentais', como está muito bem expresso em Aurora. E se a interrogação sobre nós mesmos, sobre nossas razões de vida, nos leva a conclusões diferentes das da moral dominante, não deveremos hesitar em reformá-la, em corrigi-la".[1]

Por que Nietzsche combatia o cristianismo? Como falei a preocupação principal do pensamento nietzscheano era filosófico e não religioso. Se ela ia contra o cristianismo é que ele via nessa religião algo que era obstáculo ao seu programa de transmutação. Esse obstáculo era o platonismo inerente a doutrina e a teologia cristã.[2] Sua luta, portanto, é contra a metafísica, contra os dualismos proporcionados entre corpo e alma, terra e céu, e assim por diante. Mauro Araújo de Souza conta um evento ocorrido nos anos setenta que mostra muito bem aquilo que Nietzsche pensa sobre a metafísica, o platonismo e o cristianismo.

"um graffiti tornou-se bastante conhecido, e de certa forma, é utilizado até os dias atuais para ironizar Nietzsche. Assim é: ‘Deus está morto', assinado Nietzsche. ‘Nietzsche está morto', assinado Deus" (p. 22).

Mauro Araújo de Souza comenta:

"quão não é ainda, a alegria de muitos crentes naquele Ser metafísico (Deus, no caso) que vê nisso uma vitória do Onipotente e o desmascaramento da fraqueza do anticristo. Porém, a realidade é outra. O filósofo, com certeza, escreveu a primeira frase. Agora, um anônimo escreve a segunda em nome de Deus. Eis a ironia. Portanto, aquilo que parece estar contra Nietzsche, está a seu favor. Tudo não passa de criação humana, nada mais que isso. É a vontade de potência, criadora e destruidora, mas sempre como vir-a-ser, num eterno devir, que esteve presente tanto em Nietzsche como naquele que foi autor do graffiti aqui citado".

Aqui penetramos na doutrina do eterno retorno de Nietzsche que também é mal entendida. Para o filósofo tudo na vida se refere à criação e destruição contínuas, sem uma finalidade, porque até o que é chamado de sujeito nada mais é que vontade de potência em suas múltiplas relações de forças, que se organiza de um modo aqui e de outro acolá, que se forma cá e se desfaz lá em algum ponto do que parece a todos como uma grande unidade, mas que não é outra coisa senão essa pluralidade de forças e que é denominado de universo (p. 23). Battista Mondin comenta que essa doutrina não é nova, mas em Nietzsche ela "assume um significado novo. Nele o eterno retorno não é um evento cósmico que se processa fora do homem, mas um evento que tem por centro o próprio homem. Não é o mundo que segue um ritmo cíclico no qual se fixam, como pontos, as exigências humanas. O centro do devir cósmico é a vontade humana; é ela que dá sentido e ordem à ‘varredura lançada ao acaso' e os dá a todo instante. É uma ‘eterna criação de si mesmo' que se fecha sobre si mesma naquela que Nietzsche chama ‘a felicidade do círculo'".[3]

Nietzsche também apresenta nessa obra uma boa conjugação de filosofia, porque não dizer também "teologia", com teologia bíblica, a qual nota-se estar fundada no historiador e filósofo francês Ernest Renan. Seguindo os passos de Renan, Nietzsche herda como maior problema o apóstolo Paulo: o apóstolo helenizado. Por que? Porque Paulo incultura o cristianismo judaico no ambiente helenista, para isso utiliza-se da terminologia platônica[4]. Diante disso percebe-se que o alvo das críticas de Nietzsche não é Cristo, e sim, as fórmulas platônicas inerentes ao cristianismo (p. 73). Quem é Cristo para Nietzsche? Alguém que combateu e afrontou a hierarquia religiosa de sua época e que, em nenhum momento, deixou de escapar os fariseus. Jesus Cristo fora alguém que criara um novo estilo para viver e que chocou-se com as doutrinas farisaicas. Ora, desse ponto de vista, Nietzsche não teria nada contra Cristo, pois colocou em questionamento toda uma cultura assentada numa cultura de rebanho, que o cristianismo, este sim, vai herdar. Isto é, o cristianismo não vêm de Cristo, vem do modo de fazer instituições religiosas desde o judaísmo legalizado na figura do farisaísmo (p. 29).

Finalizo essa resenha mostrando que Nietzsche mesmo não tendo aprofundado a sua proposta nesse ponto em específico, percebo na obra o Anticristo uma nova forma de se definir o que é ser cristão. Será que somos cristãos segundo o modelo criado por Jesus? Nietzsche disse: "... Só a prática cristã. Uma vida tal como viveu aquele que morreu na cruz, é cristã..." (p. 74). E isso é possível hoje? Nietzsche responde afirmativamente: "Nos nossos dias uma vida semelhante é ainda possível e para alguns mesmo necessária: o cristianismo autêntico, o cristianismo primitivo será possível para todas as épocas... Não uma fé, mas uma ação, um não fazer certa coisas e, sobretudo, um modo diferente de ser..." (p. 74). Destarte, as pessoas que criticam pensamentos, filosofias e teologias sem ao menos se esmerarem no estudo do tema estão sempre fadadas à incompreensão, a intolerância e ao dogmatismo. Não sejamos fundamentalistas! Devemos examinar e avaliar as outras opiniões, mesmo que sejam muito diferentes ou até mesmo antagônicas às nossas. Nietzsche é uma prova disso. Pessoas que jamais leram qualquer uma de suas obras fazem comentários negativos, criticam e anatematizam o pensamento desse brilhante filósofo. Os verdadeiros teólogos não podem estar alheios às chamadas "teologias atéias" (Jürgen Moltmann). Devem examinar e considerar essas filosofias como potenciais princípios hermenêuticos visando a renovação teológica que mais do que nunca está sendo requisitada.

Anticristo_Nietzche.jpg
 

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 [1] Apud Mondin, op. cit., p. 81s.

[2] Ver NIETZSCHE, Para Além do Bem e do Mal, prólogo. "O cristianismo é platonismo para o povo".

[3] MONDIN, Battista. Curso de Filosofia, vol. 3, São Paulo: Paulus, 8ª edição, 2003, p. 81.

[4] Corrigindo Nietzsche afirmo que Paulo, aliás, não só ele, traduziu o evangelho segundo bases gnósticas.

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Comentarios (6)add
Boas comentário
escrito por Alan da Silva Véras , 20 outubro 2007
Gostei do seu comentário,quero apenas acrescentar, que aos meus olhos parece que realmente Nietzsche está colocando os principios cristãos em xeque. A humildade, o "dar a face", o amar o próximo seriam para ele uma forma de odiar também, uma forma de ataque, como quem diz: "Deus vai lhe condenar por isso". Ou seja há aqui o desejo de condenação para com o outro. Por esse motivo o cristianismo seria uma contradição a si mesmo.
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escrito por bruxiara , 22 outubro 2008
!!!!!!!!!!!!!! adorei o seu comentário, sempre pensei estar equivocada à respeito da idéia que ele transmite em "o anticristo" e vejo que + alguém percebe a mesma coisa, sinto pena das pessoas que odeiam Nietzsche por achar que hitler fez o que fez, inspirado em nietzsche. -hipócretas!!! creio que ele é o cara + cristão que já existiu depois de cristo, pelo menos na idéia ou em seu modo de ver o erro na religião. e pra finalizar, "cristo" é um adjetivo(qualidade) qualquer um pode ser!!!
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escrito por adelio , 05 agosto 2009
O QUE MAIS ASSUSTA E AO MESMO TEMPO NOS FORTALECE,E QUE NIETZSCHE TIRA O NOSSO CHAO CRISTAO E DEPOIS OLHA DENTRO DOS NOSSO OLHOS E DIZ:**TORNA TE QUEM TU ES**.SIMPLESMENTE MARAVILHOSO.ESSE FOI O FILOSOFO POR EXCELENCIA.OBRIGADO A VIDA PELA SUA EXISTENCIA NIETZSCHE!!!
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Cuidado
escrito por Athyro , 11 agosto 2010
Saibam que êles criaram uma tramóia para governar numa espécie de trilogia! Primeiro FHC, depois xxxx, a aí então aquela xxxxxx! E é muito fácil! Êles corromperam o TSE, e nossas urnas eletrônicas já são pré-programadas, e êles são espertos o bastante para programarem numa porcentagem não muito alta, tipo 63% dos eleitores? Os 3 que foram presos nos anos 60 por sêrem militantes comunistas, agora governam e governarão nosso país! Estamos numa ditadura e ninguém faz nada.

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Acorda Athyro, em que mundo vc vive!!!!!
escrito por Alvaro , 02 setembro 2011
Embora vc tenha escrito em 2010, vou te responder já que sua opinião ainda continua postada aqui. A teoria da conspiração nao tem nenhum fundamento. Vc esquece dos institutos de pesquisas que apontam a intenção de votos dos eleitores? A nossa eleição com urnas eletronicas é muito segura e transparente, amigo! Vc se esquece que as ultimas 4 eleições houve uma polarização entre os dois partidos o PSDB E O PT, ambos disputaram o segundo turno, numa disputa acirrada para presidente. De onde vc tirou esse combinado entre os dois partidos no país?
___________
Nota da MPHP: A resenha de Julio Fontana não trata desse assunto, o comentário acima é em resposta a um comentário anterior do visitante Athyro, postado em Agosto de 2010, e que não tem relação com o texto de Fontana nessa resenha.
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Igreja
escrito por Beumer , 29 novembro 2012
Pois é, pelo tanto de gente que tem rezando por ae, sobretudo cristãos, no mínimo a fome do mundo já deveria ter diminuído. O problema é que para ser como cristo não basta ser cristão (ir à igreja, rezar, pagar dízimo e outras baboseiras). Esse cidadão tem que viver como cristo ou pelo menos tentar. Pra começar deveria pegar o dinheiro do dízimo e ao invés de dar para igreja, dar aos pobres (se tiveres duas túnicas dará uma ao seu próximo e não a igreja, ainda que seja meia túnica).
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