Onfray, Michel: Tratado de ateologia PDF Imprimir E-mail

Fundador da Université Populaire de Caen (França), onde ministra cursos abertos de contra-história da filosofia que atraem multidões de todo o país, Michel Onfray é figura controvertida em tudo que escreve. Autor prolífico, seus mais de 30 livros propõem um projeto de vida hedonista, ético, político, erótico, pedagógico, epistemológico e estético que bate, frontalmente, de encontro à corrente teológica da herança judaico-cristã dominante.

O livro é escrito em linguagem direta, creio eu, para o não especialista. Porém, não se trata de livro didático, nem mesmo paradidático, apesar do título. Após um longo Prefácio (6 pp.) e uma igualmente longa Introdução (7 pp.), apresenta-se a Primeira parte (Ateologia). Nela, as bases da disciplina são discutidas de maneira não sistemática, porém bem fundamentada. O autor recorre à história, à filosofia, à psicologia, à psicanálise, à metafísica, à epistemologia, à dialética, à hermenêutica, à lingüística, etc., para apresentar seus argumentos, questionamentos e pontos de vista. A segunda parte (Monoteísmos) analisa, com ironia cortante, como a teologia influenciou e moldou todo o pensamento ocidental e como direciona, fundamentalmente, todos os aspectos da vida moderna (mesmo para os não crentes): a visão política, a ética, a sexualidade, os valores estéticos, a dietética. Nada, segundo ele, escapa ao domínio da teologia: toda "a carne ocidental é cristã. Inclusive a dos ateus, dos muçulmanos, dos deístas, dos agnósticos educados, criados ou formados na zona geográfica ou ideológica judeo-cristã" (p. 34).

A terceira parte (Cristianismo) analisa, sucintamente, o Jesus teológico, o cristianismo paulino e suas conseqüências na formação da civilização ocidental e na vida das pessoas. A quarta parte (Teocracia), a mais contundente do livro, aborda as aplicações práticas dos conceitos teológicos na organização do Estado e dos governos. Claro, a análise não é completa e, muito menos, linear. Mas, abrange aspectos desde a Torah até certos documentos pontifícios (ou a ausência deles) sobre Hitler e o nazismo. A última parte (Bibliografia) comenta autores e obras que tratam do tema. Um dos méritos deste capítulo é reunir, de maneira quase didática, informações esparsas dos mais relevantes autores que publicaram sobre o tema na Europa (especialmente na França e na Alemanha).

O autor é, obviamente, ateu. Mas, prega um ateísmo light, simpatizante dos crentes e suas fraquezas. Porém, não perdoa quem se aproveita de sua fé para submetê-los, colocando-os a seu serviço. Para ele, os meios para se desvencilhar das amarras teológicas são encontrados na filosofia e na introspecção bem conduzida. Mas, atenção! Ateísmo não é terapia. É, antes, saúde mental recuperada! Combate-se o obscurantismo, tecido nutritivo das religiões, com a tradição racionalista ocidental. Com a vontade de "andar em pé" (i.e., usar a razão e o conhecimento), logra-se o recuo dos fantasmas, dos sonhos e dos delírios "de que os deuses se nutrem" (p. xxi). Por exemplo, segundo ele, todo o radicalismo anti-hedonista do cristianismo provém de Paulo de Tarso e não de Jesus. Este nunca prescreveu regras rigorosas no terreno da sexualidade. Paulo, sim, era obcecado com a sexualidade e implicava, se maneira altamente suspeita, com as mulheres.

O autor fustiga, com igual rigor, os três monoteísmos (judaísmo, cristianismo, islamismo). Javé é acusado de ter inventado o genocídio com o célebre "eu os exterminarei"(Ex 23:23) e a guerra biológica (Ex 12:12), além de outras mazelas. O cristianismo paulino é acusado de se aliar aos poderosos para oprimir os pobres e se enriquecer, desde Constantino até nossos dias. Esta aliança funesta não se empalideceu nem perante Hitler. Os episódios da "Noite dos cristais" (1938), da benção concedida aos tripulantes do Enola Gay, que bombardeou Hiroshima (1945), o réquiem em memória do Füher, o genocídio dos Tutsis em Ruanda são citados. Onfray lembra que o autor de Mein Kampf tinha simpatias explícitas pelo catolicismo, a ponto de recomendar que seus seguidores mais próximos permanecessem "no seio da Igreja católica como ele o fará até seu último dia" (p. 160). Foi ele também que mandou inscrever, no cinturão de seus soldados, os dizeres "Gott mit uns" (Dt 20:4). Em contrapartida, depois da queda do regime, o Vaticano teria organizado e facilitado a retirada de criminosos de guerra para fora da Europa.

Igualmente, a intolerância, o culto à pulsão de morte, as expedições punitivas, os assassínios, a abjeta opressão feminina, o jihad seriam as "contribuições" dos muçulmanos para a humanidade. Na visão do autor, todas as teologias derivadas dos monoteísmos tendem à teocracia, direta ou disfarçada e "toda teocracia torna impossível a democracia" (p. 151). Não deixa de ser exagero atribuir a essas três religiões, per se, a falta de democracia. Existem regimes totalitários (e.g. República Popular da China) que não estão fundamentados em dogmas religiosos. No entanto, a democracia não viceja por lá...

Para Onfray, as mulheres são as vítimas prediletas dos seguidores dos monoteísmos, pois essas religiões "detestam as mulheres: gostam apenas das mães e das esposas" porque estas estão a seu serviço e lhes são submissas. Eles "preferem mil vezes o Anjo à mulher" (p.85). Aqui também é preciso reconhecer que embora isto seja fundamentalmente verdadeiro, não se trata de característica exclusiva dos monoteísmos. Em muitíssimas culturas, muitas delas não cristãs e outras até animistas, oprimem a mulher e as minorias. A extirpação do clitóris, por exemplo, é praticada por certas tribos animistas da África!

O misticismo oriental e todas as suas ramificações, com potencial de domínio e acúmulo de riqueza, recebem do autor um obsequioso silêncio. Também estas crenças mereceriam igual análise, rigorosamente dialética.

A tradutora fez um bom trabalho, embora, por vezes, com resultado irregular. Na maior parte, o texto está bom, porém há falhas de revisão ("lago de Genésare", sic, p. 149), períodos ininteligíveis (p.154), porém perfeitamente inteligíveis no original. Também a adesão à norma culta deixa a desejar no quesito pontuação, especialmente no uso da vírgula. Este fato, freqüentemente, dificulta a leitura. Numa possível segunda edição em português, tudo isto precisaria ser revisto. Apesar desses senões, a leitura flui.

Num mundo inundado de sectarismos de toda sorte, a visão distinta, embora apaixonada, oferecida pelo autor é refrescante e atinge o leitor como uma lufada de vento frio que entra pela janela em noite de inverno. O problema com lufadas geladas é que elas podem adoecer organismos debilitados ou mal nutridos! Este livro é, principalmente, um convite veemente para se voltar ao "Século das Luzes", ao predomínio da filosofia e da racionalidade. Um desafio e tanto...

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Comentarios (6)add
Respondendo...
escrito por eva nogueira , 16 novembro 2007
È bom ler
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Resenha do Tratado de Ateologia
escrito por Maria Aparecida , 28 dezembro 2007
smilies/wink.gifExcelente a resenha apresentada pelo Tarciso Filgueiras! Recomendo a leitura do livro do Michel Onfray principalmente para quem está procurando se libertar das amarras do misticismo e das crenças!!!
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Excelente Resenha
escrito por Ailton Mendes , 08 setembro 2008
Excelente Resenha. Pontual, minuciosa, clara e abrangente. Tarciso Filgueras expôs de forma concisa todos os 'arredores' da obra de Michel Onfray. Indicou o livro positivamente e deixou uma bela ressalva, a qual eu, particularmente, creio ser muito importante: "...O problema com lufadas geladas é que elas podem adoecer organismos debilitados ou mal nutridos!"
Parabéns.
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Precipitado
escrito por Robson Reis , 28 abril 2010
Acredito que a Idade Média e todos os regimes totalitário do ocidente deixou uma ferida aberta através dos séculos sobretudo no ocidente. Entendo que Deus confio a nós mortais mostra-lo de uma forma imperfeita e lenta, o que Ele poderia fazer num piscar de olhos e de forma perfeita. Paulo não era machista nem complexado,só era influenciado por sua cultura (judaica), o que é sociologica e antropologicamente normal. É de conhecimento de qualquer antropologo sincero que o ser humano é por natureza, algo que não se pode negar, religioso, isso é intríssico à condição humana. O século das luzes tem mostrado isto, não obstante o fato de homem ter se "libertado da religião", nunca estivemos tanto em crise existencial com agora. Falta-nos a humildade necessário e o bom senso para reconhecermos nossa dependencia de Deus e separarmos Deus dos homens. smilies/cry.gif smilies/cry.gif
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Um excelente livro para aprender a desaprender!!!
escrito por Vanessa Yara Gonçalves , 03 maio 2010
O "filosófo" leu Freud nas coxas e depois vai e me escreve um liv(x)ro como esses!!! Porque as pessoas acham tempo para lerem "quem leu" ao invéz de ler as coisas no original??? Leiam Freud no original, a história da psicanálise, ou mesmo, além do que Freud escreveu, o que seus discipulos escreveram, a história do cristianismo e depois voltem a ler o livro do filósofo e verão o quão foram enganados!!!!
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Livro para mentes livres
escrito por Karim Abdoula Kirst , 20 setembro 2012
Religião nada tem a ver com o divino mitológico.. que em essência é criatura humana..mente humana cria e recria os mitos ancestrais sempre acrescenta-lhe sua visão de época...deus..deuses e divindades são projeções humanas nunca verificadas ou sem evidencias sólidas...são sonhos da sabedoria perdida.
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