Young, P. William, A Cabana PDF Imprimir E-mail
Mário Porto 

Recebi o livro emprestado de minha filha para que lesse e lhe adiantasse uma opinião antes dela própria ler, pois ela não estava, no momento, com disponibilidade de tempo para iniciar a leitura.

A projeção que esta obra está tendo com chamadas de marketing do tipo "esta história deve ser lida como uma oração..." ou "As respostas que Mack encontra vão surpreender você e podem transforma sua vida de maneira tão profunda como aconteceu com ele" e obviamente os níveis de vendagem mundial, criaram uma expectativa muito grande nos leitores. No entanto, como ao ler o livro esta expectativa não se concretizou na direção que eu imaginava resolvi dar minha opinião de forma mais ampla, publicando esta resenha.

É preciso deixar claro que a minha expectativa frustrada se deu em função daquilo que eu esperava e não analisando o que encontrei. Esperava uma trama de ficção e encontrei um tratado teológico tendo como pano de fundo uma trama de ficção.

Do ponto de vista da nova situação considerando-se a questão teológica devo registrar que existem discussões tratadas de uma forma original, mas tudo ainda alicerçado em mitos e lendas e considerações de fé que fazem com que a obra seja, evidentemente, direcionada ao público religioso e sem nenhum poder de convencimento fora deste estrato social como as chamadas querem fazer crer.

A história se inicia depois de decorridos três anos de uma tragédia pessoal sofrida pelo chefe de família Mackenzie Allen Phillips durante um fim de semana bucólico com três de seus filhos, sem a esposa, no qual sua filha mais nova, de seis anos, é seqüestrada e morta. Os indícios definitivos de assassinato, perpetrado por um matador em série de crianças, foram encontrados em uma cabana abandonada próxima a colonia de férias em que Mack estivera com os filhos.

Mack e sua família, especialmente a esposa que costumava se referir a Deus como Papai, cultivava uma elevada devoção religiosa, embora ele mesmo estivesse, desde a tragédia, um pouco afastado de Deus culpando a si e ao próprio Deus pelo mal que lhe tinha sido enviado.

É nesse ambiente, denominado por ele de "A Grande Tristeza", que nosso protagonista recebe um bilhete assinado por Papai alegando que já faz um tempo, que sentia sua falta e no final informando que se Mackenzie quiser encontrá-lo estaria no fim de semana seguinte na cabana aonde o crime ocorrera.

Após um primeiro momento de surpresa, acompanhada de raiva pensando tratar-se de um trote, ele acaba interpretando que o missivista era o próprio Deus.

A história se desenrola com Mack decidindo viajar sozinho à cabana evitando relatar à esposa e lá, a princípio sem saber se em sonho ou realidade, travando contato com três representações na pele de pessoas estereotipadas como Deus, Jesus e o Espírito Santo, com as quais ele mantém diálogos sobre a sua situação, sobre o perdão, a liberdade e vários princípios cristãos ao mesmo tempo que vive momentos e experiências especiais numa natureza deslumbrante durante os dois dias do fim de semana narrados com bastante lirismo.

A partir deste momento a história que vinha se desenvolvendo de uma forma interessante prognosticando uma boa trama cai num marasmo de lugares comuns e interpretações bíblicas e religiosas embora tratadas como uma roupagem original. Há certo sincretismo, pois ao mesmo tempo em que existem aspectos de catolicismo e evangelismo os diálogos trazem também noções conhecidas da doutrina espírita.

A forma de descrever os membros da Santíssima Trindade como seres humanos, preocupados com assuntos comezinhos como arrumar a casa e confeccionar uma torta na cozinha, preparar um jardim é até interessante e no início oferece uma perspectiva de uma narrativa instigante, mas logo se vê que a intenção tem cunho religioso embora com o mérito de não se fixar numa religião específica nem mesmo o cristianismo

Para comprovar isto, em um dos diálogos mais interessantes, Jesus respondendo um questionamento de Mack, afirma: "Quem disse alguma coisa sobre ser cristão? Eu não sou cristão."

Mas o livro usa de muitas passagens cristãs e até mesmo episódios controvertidos como o passeio de Jesus sobre as águas, proeza sobre a qual o Jesus da Trindade, no livro, faz com que o próprio Mack também realize no lago próximo à cabana. Neste capítulo, a vontade de abandonar a leitura me assolou, mas prossegui a leitura e não me arrependi muito.

A partir da confusão mental em que se encontra Mackenzie devido ao que ele considera uma injustiça divina com sua filha, nos deparamos com a abordagem de um dos dilemas mais importantes da religião; o Problema do Mal.

Resumidamente, podemos caracterizar o problema do mal da seguinte maneira:

Se Deus não sabe que existe o mal Ele não é Onisciente. Se Deus sabe que o existe o mal, mas não pode evitá-lo Ele não é Onipotente. Se Deus sabe que existe o mal, pode evitá-lo, mas decide não fazê-lo Ele não é Benevolente.

O livro tem a ousadia de abordar o tema, mas como sempre se valendo do princípio do livre arbítrio, e num café da manhã saboroso entre a Trindade e Mack, Deus (Papai) diz o seguinte a Mack quando este questiona que a Trindade não faz nada para conter o mal:

Nós respeitamos cuidadosamente as sua escolhas e por isso trabalhamos dentro de seus sistemas, ao mesmo tempo que procuramos libertá-los deles

Em outra conversa com Mack, Jesus completa:

O mundo está partido porque no Éden vocês abandonaram o relacionamento conosco para afirmar sua própria independência. A maioria dos humanos expressou isso voltando-se para o trabalho das mãos e para o suor do rosto em busca de identidade, do valor e da segurança. Ao optar por definir o que é bom e o que é mau, vocês buscam determinar sei próprio destino. Foi esta reviravolta que causou tanta dor.

Não existe até hoje nenhum argumento que reconcilie o livre arbítrio com a onipotência. A argumentação de que Deus não impõe nada no curso dos eventos e as opções de escolha de ações são livres para o homem não soluciona absolutamente nada porque foge da questão central. Como pode um evento ser livre se Deus tem conhecimento infalível do seu desfecho antes do acontecimento?

O livro é uma grande tentativa de humanizar o diálogo com Deus através de um enredo bem urdido, mas não apresenta, como nas propagandas de marketing, nenhuma resposta capaz de transformar a vida de ninguém que já não esteja "transformado" pela fé religiosa. Nem tampouco acredito em alguns prognósticos fervorosos que imputam ao livro a capacidade de se igualar à própria Bíblia como livro mais lido da humanidade.

Ao final, no retorno da cabana, o autor ainda cria um acidente que leva Mack ao hospital por meses introduzindo, após sua recuperação, a dúvida no leitor; "sonho ou realidade". Assim, inteligentemente, agrada também aos que não tem fé religiosa abrindo a possibilidade sobre toda a história ter sido uma alucinação do inconsciente e dos efeitos da morfina embora um detalhe, que prefiro não revelar na resenha para não estragar a surpresa, pende a questão mais para realidade do que sonho.

Em razão de ser um livro bem escrito, por alguém afeito a temas teológicos, não é um livro para todas as camadas da população se levar em conta o nível cultural dos leitores. Muitos evangélicos, sem suficiente preparo teológico, como já notamos em diversos comentários na Internet, irão se deleitar com o lirismo do texto e talvez nem percebam as características espiritualistas de certos trechos que com certeza receberão a desaprovação de seus mentores.

Em resumo, os debates criados pelo autor, ajudado pela forma encontrada por esse para apresentá-los, credenciam o livro "A Cabana" e não podemos deixar de recomendar, em que pese nossas observações críticas expostas nesta resenha.

Comentarios (3)add
Comentário à resenha
escrito por Suzana , 02 julho 2009
Mário Porto,

Muito boa a sua resenha. Você disse exatamente o que penso do livro também. Resolvi lê-lo movida pelos comentários. No entanto, confesso que me decepcionei.
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magnífico!
escrito por MARIA DAS MERCES SOARES ANDRADE , 26 julho 2009
MAGNÍFICA SUA RESENHA, PARABÉNS. COMO DIZ KAFKA "CERTAMENTE ALGUÉM" QUER LUCRAR E MUITO EM CIMA DA VENDAGEM DOS EXEMPLARES E NÃO NECESSARIAMENTE PROMOVER UM NOVO QUESTIONAMENTO TEOLÓGICO. MAS COMO AINDA CONTINUAMOS HUMANOS MESMO CONVIVENDO NUMA SOCIEDADE DE EXCLUSÃO É LOUVÁVEL A LEITURA DO LIVRO "A CABANA" MUITO BEM DESENVOLVIDA A PROBLEMÁTICA SOBRE A IMPORTÂNCIA DO PERDÃO COMO UMA POSSIBILIDADE DE PERMANECERMOS HUMANOS E LUTARMOS PELA EXPECTATAITVA DA INCLUSÃO, NEM QUE SEJA SONHO E DAÍ, SONHAR TAMBÉM FAZ PARTE DO SER HUMANO. TAL QUAL TER O DIREITO DE PODER LER BONS QUESTIONAMENTOS TEOLÓGICOS NUMA LINGUAGEM ACESSÍVEL A GRANDE MAIORIA DA POPULAÇÃO. ESSA FOI A MELHOR COISA QUE ENCONTREI NO LIVRO: "LINGUAGEM ACESSÍVEL E ATUAL".
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Final
escrito por Marcia , 04 fevereiro 2010
Tive a duvida de "sonho ou realidade"no final pelo diálogo de Mack com seu amigo, que emprestou o carro. Foi isso com voces também?
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