Carvalho Olavo, O Jardim das Aflições PDF Imprimir E-mail

Mário Porto 

 

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Este livro do Olavo é muito bem elaborado do ponto de vista estrutural e ele condena a filosofia de Epicuro, motivado por uma palestra que pretendia reavivar a memória de Epicuro na sociedade brasileira nos idos dos anos 90, promovida pelo professor José Américo Motta Pessanha, falecido em 1993. Apesar de ser um livro que vale a pena ser lido, pela enorme erudição, pelos desdobramentos e pelo brilhante apêndice contendo uma polêmica com a SBPC, exatamente sobre o livro, acredito que Olavo de Carvalho estava equivocado e fortemente influenciado por uma tendência de cunho religioso, pois Epicuro sempre foi um contundente crítico das religiões e clérigos. Uma certeza que transparece também é que Olavo destilou sua ironia e crítica devido ao fato de que José Américo Motta Pessanha, o organizador das palestras que motivaram a elaboração do livro, na segunda conferência do ciclo de Ética pronunciada por ele próprio ter feito "uma rasgada profissão de fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro, pintando o epicurismo como uma das maiores filosofias de todos os tempos, portadora da solução para todos os males humanos (sic)".

A análise das cosmogonias de Demócrito e Epicuro é expressada através de um tom irônico desprezando o fato de que ambos especulavam, pois não tinham condições de conhecer a física dos átomos e por si só a especulação de Demócrito, revisada, pelo bem ou pelo mal por Epicuro, já é um enorme salto. Depois que Olavo identifica o Tetraphármakon como programação Neuro Linguística (PNL) ele se detém em técnicas de PNL, hipnose e Pavlov e praticamente esquece Epicuro por cerca de 15 páginas, voltando depois no parágrafo 14 com Porcarias Epicúreas, onde classifica o filósofo epicurista como antifilósofo e misósofo, alguém que aborrece a sabedoria e foge dela.

O que me surpreendeu foi notar que na realidade o epicurismo é uma das filosofias talvez mais distorcidas desde a antiguidade aos nossos dias. Tenho a convicção que isto aconteceu em virtude, principalmente, da crítica de Epicuro ao clero e as papel dos deuses e ao seu antagonismo a algumas ideias de Platão e Aristóteles. Sabemos que uma ideia que se opõe ao “establishment” vigente pode amargar consequências desastrosas para o seu entendimento pelas gerações futuras.

O epicurismo não tem nenhuma relação com a busca desenfreada do prazer pelo prazer como se apregoa como lugar comum em círculos menos esclarecidos e pouco informados sobre a filosofia de Epicuro, que não é o caso de Olavo, que sequer se preocupa com este tipo de crítica. O viés de sua diatribe se apresenta em outras questões, quando por exemplo, baseado no fato de que Marx publicou uma tese sobre Epicuro, Olavo afirma, especulativamente, que as piores atrocidades do regime comunista seria uma herança mórbida que, através de Marx, veio do epicurismo, afirmação que chega a ser patética. Até concordo, no entanto, com a crítica referente ao abandono por Epicuro e seus seguidores de todo o empenho de reformar a sociedade, retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo.

Impressiona-me a lucidez deste filósofo da antiguidade em relação a alguns fenômenos da natureza, que ele não sabia explicar, mas procurava uma explicação fora das superstições ou esperava que algum dia o fenômeno pudesse ser explicado pelo estudo da ciência da natureza.

Não se pode confundir epicurismo com hedonismo (hedonê). Epícuro prega o estado de eudaimonia que implica em razão moderação, e na priorização dos desejos essências para a felicidade e sua busca pela felicidade é pautada em dois conceitos, aponia e ataraxia que significam o mesmo que mente sã em corpo são e representam respectivamente a supressão da dor física e a eliminação dos distúrbios mentais. Os seus quatro remédios, ou Tetraphármakon, não são remédios de origem física.

Realmente, excetuando a retirada para a solidão no seu Jardim, não li nada que criasse impedimento para a adesão ao epicurismo, ou seja, não percebi nada de mal na filosofia que é tão distorcida e sofre da maledicência de muitos. Que o mestre Olavo me desculpe a heresia, pois quem sabe talvez eu não tenha sido capaz de entender inteiramente o Jardim das Aflições! Aliás, já me disseram alguns de seus admiradores com intimidade com a filosofia, que só leem sua produção jornalística e política e nunca ousam ler seus livros de filosofia para não correrem o risco de não concordarem com ele.

 

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