Maestria na Ficção de Cunho Histórico PDF Imprimir E-mail

Mario Porto  

 

Maurice Druon (Paris, 23 de Abril de 1918 — Paris, 14 de Abril de 2009) foi um escritor de romances históricos notável. Sua série os Reis Malditos, composta de 7 livros, conta a história do reino da França, entre 1285 e o início da Guerra dos Cem nos em 1337.

Sua narrativa soma ficção com história, sem alterá-la e compondo diálogos, embora ficcionais, dentro de uma possibilidade real, retratando, perfeitamente, o contexto da época.

No primeiro livro da série, ele nos brinda com um excelente diálogo, entre Felipe o Belo e sua filha, que bem poderia ter acontecido e se não aconteceu não muda a história.

Isabella teria ido à Paris encontrar com seu pai e reclamar das esposas escolhidas por seus irmãos, que ela considerava rameiras, em uma viagem que também não podemos ter certeza da historiecidade, mas que também pouca diferença isso faz em termos históricos.

Antes de entrar nos assunto de sua viagem, que não é nosso foco aqui, Isabela introduz a conversa com seu pai falando de sua infelicidade.

- Meu pai.- disse ela -, meu pai, como sou infeliz! 

Ah! como a França me parece longe, desde que sou rainha da Inglaterra! E como lamento os dias que já se passaram! . E teve de lutar contra um inimigo imprevisto: as lágrimas

Após um momento de silêncio, sem se aproximar dela, docemente mas sem nenhum calor, Filipe, o Belo, perguntou: - Foi para me informar sobre isso, Isabel, que empreendestes toda esta viagem? 

- E se não for a meu pai, a quem direi eu que não conheço a ielicidade? - respondeu ela. 

O rei olhou a noite por trás da janela de vidraças brilhantes, depois as velas, depois o fogo. 

- A felicidade. .. - disse ele, lentamente. - Que é a felicidade, pois, minha filha, senão a aceitação do próprio destino? Senão aprender a dizer sempre sim a Deus. .. e muitas vezes aos homens? 

Estavam sentados face a face, em cadeiras de carvalho, sem almofadas. 

- Eu sou rainha, é verdade - disse ela, em voz baixa. 
- Mas por acaso tratam-me como rainha, lá onde vivo? 

- Maltratam-vos? 

Ele pusera bem pouca surpresa no tom de sua pergunta. 

Sabia muito bem o que ela ia responder. 

Ignorais quem é aquele com o qual me casastes? _ disse ela, vivamente. - E um marido, aquele que desertou de. meu leito desde o primeiro dia? Aquele a quem nem os CUidados, as atenções, os sorrisos que venham de mim arrancam uma palavra? Aquele que foge de mim como se eu fosse doente, e distribui, nem mesmo a favoritas, mas a homens, meu pai, a homens, os favores que me negou? 

Filipe, o Belo, sabia tudo aquilo havia muito tempo, e sua resposta também, havia muito tempo, estava pronta. 

- Eu não vos casei com um homem - disse ele, mas com um rei. Não vos sacrifiquei em conseqüência de um erro. Será preciso que eu vos ensine a vós, Isabel, o que devemos aos nossos Estados, e que não nascemos para nos deixar dominar pelas dores das pessoas? Não vivemos nossas próprias vidas, mas as dos nossos reinos, e só nisso poderemos encontrar satisfação...se nos dobrarmos ao nosso destino. 

Ele se aproximara um pouco dela, falando, e a claridade das chamas esculpia as sombras sobre seu rosto e melhor lhe desenhava a beleza e acentuava aquele ar de sempre desejar vencer-se, e de se sentir orgulhoso por se ter vencido. 

Mais do que as palavras, aquela expressão do rei e aquela beleza libertaram Isabel de toda a debilidade. "Eu não poderia amar senão um homem que se parecesse com ele", pensou a rainha, "e não amarei nunca, nem serei amada, por­que não encontrarei jamais um homem que se lhe assemelhe." 

Depois, em voz alta: 

- Gostei que me recordásseis aquilo a que devo veneração. Não foi para chorar que vim à França, meu pai. Gostei também de ouvir-vos falar no respeito de si próprio que convém às pessoas reais, e dizer que a felicidade não deve contar para nós. Gostaria apenas que em torno de vós todos pensassem da mesma maneira. 

Fonte:O Rei de Ferro, romance histórico, Maurice Druon

Imagem: À esquerda, Felipe IV, o Belo: à direita, Isabella retornando à Inglaterra, 1326

Palavras-Chave: Felipe o Belo, Isabella de França, Maurice Druon

Primeiramente Publicado em: https://www.facebook.com/ConversandoSobreHistoria 


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