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Oliver Stone, Alexandre O Grande, 2004 - Filme |
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Mário Porto
Primeiramente, assim como na resenha anterior do filme de 1956, minha análise é a de um espectador conhecedor dos eventos históricos envolvidos. Assim, a análise é técnica, se considerarmos o roteiro, e apenas de um espectador quanto às interpretações artísticas e qualidade da direção.
Esclarecido isso, diferentemente da versão de Robert Rossen de 1956, o filme de Oliver Stone rodado em 2003 e lançado em 2004 procurou se alinhar com os relatos históricos antigos e utilizou de tecnologia não disponível em 1956 para produzir uma peça cinematográfica bastante fiel aos acontecimentos. Em um documentário do Canal Discover ficamos sabendo como a equipe foi treinada militarmente no deserto do Marrocos, passando por condições semelhantes ao exército de Alexandre e como Colin Farrel foi treinado como líder do grupo para entrar no clima de Alexandre.
Isto não quer dizer que não existam discrepâncias históricas. Existem, mas são de uma magnitude insuficiente para condenar o diretor, com a exceção de um fato que abordaremos ao tratarmos da Batalha de Gaugamela. A assessoria histórica foi fornecida pelo Professor Robin Lane Fox, historiador da Universidade de Oxford e autor de um livro abordando a vida de Alexandre.
Realizado em uma época de maior liberdade nos costumes o filme não se furta de abordar aspectos tais como o suposto relacionamento de Alexandre e Hefastion e de mostrar os verdadeiros motivos pelos quais Pausânias decidiu participar, como peça chave, no assassinato de Felipe. O relacionamento Alexander - Hefestion é mostrado de forma sutil sem chocar os mais conservadores. Sobre isso, é conveniente ressaltar que essa interpretação é uma leitura do diretor, de certa forma midiática, para ganhar a simpatia de espectadores do segmento gay. Segundo análises de críticos, Stone pagou por essa ousadia com a queda na arrecadação prevista. Não existe nada nas fontes antigas, que possa sugerir essa interpretação e o termo homossexualismo não é o mais adequado para representar o costume dos antigos gregos nos relacionamentos entre homens adultos com jovens do mesmo sexo.
Em suas entrevistas sobre o filme, especialmente nos extras do DVD comercializado, Stone afirma que como a história é muito intensa e vasta procurou selecionar os temas para não cair no que ele considerou, na versão de Rossen de 1956, excesso de cenas na Grécia antes da invasão da Ásia.
Na verdade, considero que Stone resumiu demasiadamente a fase da campanha que se passa em solo europeu deixando no espectador, não conhecedor da história, uma enorme lacuna sobre os acontecimentos que precederam a campanha asiática, ao concentrar-se apenas nas relações entre Alexandre, Aristóteles, Felipe e Olympias. Vale dizer, que nesta fase do filme tais relações são mostradas com bastante fidelidade. Alguns críticos alegam que Angelina Jolie, que encarna Olympias, tem sua atuação prejudicada pelo fato de ser apenas 10 meses mais velha do que Colin Farrell, que representa Alexandre. Não acho que isso tenha comprometido sua atuação, pois ela possui uma excelente presença em cena e encarnou corretamente a mística Olympias.
A Batalha de Queroneia, extremamente, importante e que significou a estréia de Alexandre em batalhas ao lado de seu pai não é mostrada e na verdade apenas são mostradas a batalha de Gaugamela que inclui, no filme, alguns acontecimentos que ocorreram não propriamente nela, mas na Batalha de Granico e uma batalha no interior da Índia. É verdade que a história completa é longa e sua totalidade envolveria um filme de duração, demasiadamente, longa. O segredo está na escolha correta dos eventos, mas sempre alguém achará que falta alguma coisa.
Stone não se utiliza de um roteiro cronológico e após o assassinato de Clito em 328 AEC retorna 8 anos para mostrar os eventos do assassinato de Felipe em Aegae. Isto pode confundir um pouco o espectador não afeito aos acontecimentos históricos.
Na narrativa desse assassinato Stone comete a mesma falha apontada no filme de Rossen. Coloca Atalo na cena do crime, quando este estava na Ásia Menor com Parmênio preparando a invasão de Felipe. Um pecadilho menor, sem muita importância, ao contrário de um erro enorme que Stone coloca nas palavras dirigidas por Alexandre para a tropa antes do engajamento em Gaugamela.
A cena da batalha de Gaugamela é auxiliada por recursos computacionais e tenta, o que não é muito fácil, explicar a estratégia de Alexandre. Batalhas da antiguidade não são coisa fáceis de serem entendidas. O filme tem o mérito de tentar esta explicação embora não seja muito claro e, certamente, deixa dúvidas na cabeça do espectador. Antes da batalha, Alexandre exorta seus homens se dirigindo a muitos pelo nome, tentando afastar o natural medo do combate próximo. Na verdade, essas palavras não foram ditas em Gaugamela, mas antes da batalha de Issus, que não é mostrada no filme. É nessa hora que Stone coloca na boca de Colin Farrell, Alexandre, a frase que expressa que eles, macedônicos, estariam lutando pela glória da Grécia.
Evidentemente, Alexandre jamais teria dito isso, embora na tradução das Edições Penguin Classics, da obra de Arrian "The Campaigns of Alexander", um grego, essa frase esteja apresentada no discurso de Alexandre antes do engajamento em Issus. Na mesma página, exatamente 2 parágrafos antes, Alexandre fala: "Nossos inimigos são os Medas e os Persas, homens que por séculos têm vívido uma vida fácil e luxuriosa; nós da Macedônia, por gerações, temos sido treinados na dura escola do perigo e da guerra".
Alexandre incluía a Grécia em substituição à Macedônia, somente quando procurava justificar a guerra revanchista em que se envolvia, como vingança pelas invasões e destruições que tinham acontecido nas cidades-estado gregas, não na Macedônia.
Alexandre era Macedônico e a despeito da propaganda moderna dos Gregos, que hoje ocupam parte das terras da antiga Macedônia por força dos tratados após as guerras dos Balcãs em 1913, macedônios não eram gregos. Se macedônios fossem Gregos, por que a campanha anterior de Felipe e depois do próprio Alexandre tentando pacificar e ter a Grécia ao seu lado, na retaguarda, nomeando primeiro um e depois confirmando o outro, como Capitão Geral da Grécia? Campanha que custou muitas mortes, com a destruição de Tebas e rendição de Atenas. Se macedônios fossem gregos, por que deixar com Antipater em Pella 15.000 homens treinados para evitar rebeliões nas cidades gregas?
Não, esse é um erro alimentado e propagado hoje pelos Gregos que ocupam grande parte das terras do antigo reino da Macedônia, por força de tratado assinados no século 20. A herança de Alexandre não é grega, mas sim macedônica, representada pelo pequeno estado FYROM (Former Yugoslav Republic of Macedonia), que ainda hoje é impedido pela Grécia, em fóruns internacionais, de usar o nome de, simplesmente, República da Macedônia.
O filme entra na sua fase final com a narrativa das conspiração dos págens, após a qual Alexandre mandou matar seu amigo de infância Filotas e seu pai Parmênio. Vemos depois a discussão de Alexandre com Clito que resultou no assassinato deste por Alexandre. A batalha contra Porus na Índia, na qual o exército de Alexandre enfrentou elefantes é mostrada com rara beleza cinematográfica. Assistimos a rebeldia do exército, especialmente os macedônicos, pois nessa época o exército já incluía em suas fileiras muitos soldados locais persas. Os generais e o exército criticavam a campanha longa sem retorno ao lar e o fato de Alexandre, cada vez mais, adotar costumes persas. Em seguida, acompanhamos a morte de Hefastiom e o desespero de Alexandre com o fato, e finalmente o retorno, com a morte de Alexandre.
Resumindo, o filme consegue dar uma excelente idéia de toda a trajetória de Alexandre, seu caráter, paixões e ideais e ainda usa o recurso da narrativa de acontecimentos não mostrados que são ditados por Ptolomeu, um dos generais de Alexandre, encenado por Anthony Hopkins, a seus escribas, 40 anos após sua morte.
O filme ainda tem o mérito adicional de creditar à Felipe grande parte do sucesso que Alexandre um dia alcançaria, principalmente, por legar-lhe um exército bem treinado. A fidelidade histórica é bastante aceitável e Hollywood fica apenas nos devendo uma narrativa mais completa e que talvez, para isso, tenha que dividir toda a história em três filmes, como é comum em séries como Matrix e X-Man. Uma sugestão seria uma primeira parte até Queronéia. Uma segunda de Queronéia até o final de Gaugamela com a morte de Dario e uma terceira com a campanha da Índia, as conspirações, o retorno e a morte de Alexandre. Alexandre, mais do que ninguém, merece.
Segue abaixo uma das cenas mais marcantes do filme.
Comentário sobre essa cena: A cena representada acima, com uma enorme beleza plástica, embora não possamos ter a certeza de sua historicidade ou se seria mais um dos mitos criados sobre o personagem Alexandre, foi descrita por uma de suas fontes primárias, o historiador grego do período greco-romano, Plutarco ( 46 a 126 d.C), em suas "Vidas Paralelas". Bucéfalo acompanhou Alexandre em todas as suas batalhas e quase até ao final de sua vida. O diretor Oliver Stone soube captar a essência do fato, retratando-a de maneira brilhante. A águia, que aparece sobre a cavalgada, é uma marca registrada em todas as ações importantes de Alexandre durante o filme.
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Leia Também a Resenha sobre a versão de 1956 de Robert Rossen
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Em vista disso resolvi, eu mesmo, fazer um comentário, enfocando algumas resenhas que li sobre o filme, escritas por críticos profissionais de cinema.
Fiquei impressionado com a mediocridade da análise desse supostos especialistas que, certamente, desconhecem os fatos históricos da vida de Alexandre e que essa versão, em grande parte, teve o mérito de considerar. Não poderia ser diferente, visto que o consultor do filme foi um renomado historiador.
Esses críticos se fixam na mocidade de Angelina e no aspecto chorão do Colin Farrell (o que aliás concordo) esquecendo-se, completamente, das virtudes incontestáveis do filme, tais como creditar a Felipe II a criação e preparação do exército de Alexandre.
Enfim, essas coisas apenas me fazem ter mais reservas com relação a críticos de cinema quando considerar assistir qualquer filme.