Pullman, Philip. The Good Man Jesus and The Scoundrel Christ PDF Imprimir E-mail

  

Aproximadamente há um mês tomei conhecimento através de um link no Twitter do mais novo livro de um escritor inglês, Philip Pullman, intitulado "The Good Man Jesus and The Scoundrel Christ, que em tradução literal quer dizer "O Bom Homem Jesus e o Canalha Cristo". Apressei-me logo para adquirir o livro, ainda sem tradução em português (se você veio pelo link da Livraria Cultura, percebeu que já existe uma versão em português, publicada em 2010, pela Cia das Letras).

Evidentemente esse é um título que tanto choca aqui como lá na Inglaterra, a ponto do autor ser interpelado sobre sua escolha em uma palestra, tendo se saído magnificamente bem na resposta. Veja no vídeo ao final dessa resenha.

No link a que me referi acima tive a impressão de que o livro era mais uma crítica ao papel de Paulo ao transformar Jesus em símbolo de uma nova religião, fundando a Igreja cristã. Na verdade, isso não está explícito na história. Isto é uma história, é assim que o próprio Pullman classifica seu livro, mas esse conceito está nas entrelinhas, principalmente, considerando-se que o autor afirmou em 2009 que iria explorar a idéia de que a transformação de Jesus em filho de Deus teria sido um plano de São Paulo.

Na história criada por Pullman para interpretar os Evangelhos, Maria dá a luz não a uma criança, mas a duas sendo uma denominada Jesus e a segunda, mais debilitada fisicamente, foi chamada de Cristo em virtude de José a ter indicado aos reis magos na manjedoura como sendo o Messias que estes buscavam em Belém.

As crianças crescem juntas, com o gêmeo Cristo sempre mantendo uma posição discreta e na sombra de Jesus, chegando a protegê-lo em certas situações embaraçosas que se apresentam como quando ele desaparece no templo entre os doutores da Lei.

Pullman não apresenta um gêmeo bom e um gêmeo ruim como pode parecer a princípio. Na verdade, é muito mais complicado do que isso. Posso garantir que nenhum dos leitores vai desgostar de qualquer um deles, ambos humanos e interessantes.

Quando Jesus inicia seu magistério público Cristo continua se mantendo discreto e evitando aparecer, mas mantendo uma proximidade que lhe permita acompanhar e começar a registrar os movimentos de Jesus. Primeiramente ele o faz diretamente, sempre a uma certa distância e depois convence um dos discípulos, cuja identidade não é revelada, para reportar os acontecimentos mais de perto quando ele estivesse ausente.

É quando Cristo começa a receber a visita de um estranho que não só o incentiva a continuar os registros, como também afirma que ele terá um papel importante e que seu nome brilhará com ainda maior esplendor, pois Jesus é apenas um homem, mas ele é a palavra de Deus. Que existe o tempo e existe o que está além do tempo.

Após sucessivas visitas do estranho, Cristo começa a considerá-lo um anjo e suas intenções começam a se tornar claras. Diz o estranho; Escrevendo as coisas como elas devem ser você está introduzindo a verdade dentro da história. Você é a palavra de Deus. Temos que nos assegurar que as narrativas desse dias considerem a exata importância da natureza milagrosa dos eventos pelos quais o mundo está passando. Você é o cronista perfeito e por isso seu nome brilhará. Você sabe como apresentar a história e seu verdadeiro sentido, com brilhantismo e clareza. E quando você acabar de montar a história sobre a qual o mundo está vivendo você adicionará aos eventos seu significado espiritual interior.

Cristo argumenta que já havia discutido a importância dos milagres e da organização de uma Igreja com Jesus e ele refutara a idéia preocupado apenas com a chegada do Reino de Deus. O estranho afirma que Jesus está errado e Cristo certo. Sem milagres, sem uma Igreja, sem escrituras, o poder de suas palavras e seus feitos será como a água derramada sobre areia. Encharca a areia por um momento e depois o sol vêm e a seca para, passados alguns minutos, não existir sinal de que ela esteve lá. Estamos discutindo a verdade não a história. Você pode viver a história, mas você deve escrever a verdade.

O estranho termina por dizer uma parte do papel que Cristo desempenhará além de produzir os registros, exatamente aquele destinado a Judas nos Evangelhos: entregar Jesus.

Após o sacrifício do Messias, Cristo termina seus dias, casado, trabalhando na confecção de redes e completando a história de Jesus. É tomado de uma angústia alimentada pelo remorso de ter suas mãos vermelhas com o sangue e com a vergonha e molhadas de lágrimas, enquanto isso termina a história de Jesus não somente pela graça de produzir um registro daquilo que aconteceu, mas pelo esforço de dar uma forma melhor à narrativa. O estranho classificaria isso como colocar a verdade dentro da história e Jesus chamaria a isso de mentiras. No entanto, essa é a tragédia; sem a história não haverá Igreja e sem a Igreja Jesus será esquecido.

Fica então claro que toda a alegoria de Pullman é uma crítica ao que se tornou a Igreja cristã. Uma organização que se alimenta de seus próprios dogmas e doutrinas distanciando-se bastante daquilo que um dia um judeu de nome Jesus pregou e cuja pregação jamais visou instituir uma Igreja, mas apenas liberar, segundo as escrituras judaicas, o povo judeu da dominação romana.

 

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