Quando
postei as resenhas dos dois filmes sobre Alexandre o Grande (1957 Rossen
e 2004 Oliver Stone) eu cultivava a ideia de que era mais adequado
fazer duas resenhas separadas, evitando comparações. Postei-as,
separadamente, mas não consegui evitar as comparações.
No entanto, ao me propor a realizar as resenhas dos dois filmes de Hollywood
sobre o livro "O Fio da Navalha" (The Razor's Edge), de Somerset Maugham, achei
melhor fazer as duas ao mesmo tempo, pois a produção de 1984 dirigida
por John Byrum foi sem sombra de dúvidas muito influenciada pela
produção de 1946 dirigida por Edmund Goulding, no sentido do diretor
tentar fazer algo diferente da versão primitiva, versão essa que se portou bastante fiel ao texto
de Maugham, o que acabou criando um novo roteiro completamente
desvirtuado da produção literária.
Vou partir do princípio que os leitores conhecem o enredo de "O Fio da Navalha"
e por isso transcrevo apenas uma breve sinopse da trama que envolve Larry Darrell, sua noiva Isabel e os amigos Gray Maturin
e Sophie MacDonalds, além é claro do tio Elliott Templetom.
Larry Darrell é um próspero morador de Chicago que rompe seu noivado
com Isabel Bradley e viaja pelo mundo, procurando esclarecimento interior, até que finalmente encontra seu guru na Índia.
Paralelamente Isabel se casa com Gray Maturin. Após o crash da bolsa em 1929, ela é convidada para viver em Paris
com seu rico tio Elliott Templeton. Durante uma passagem por lá Larry, que tinha atingido seu objetivo, se reencontra
com Isabel. Uma noite Larry, Isabel e amigos ficam chocados ao descobrir que Sophie Nelson, uma amiga de Chicago,
tinha perdido o marido e sua criança em um trágico acidente e por causa disto estava vivendo com a ajuda de drogas. Larry tenta
reabilitar Sophie, mas os esforços dele são sabotados por Isabel, que está enciumada, pois tem tentado em vão reacender o interesse
de Larry por ela.
Eu entendo que um roteiro cinematográfico precisa adaptar a obra escrita, para
isso servem os roteiros. Não é possível levar para a tela a multiplicidade de situações e locais que podem na maioria das vezes
ser condensadas em um só momento e local sem perder a essência da obra literária. O que não compreendo e aceito é a modificação
profunda das passagens de um livro alterando a criação do autor sob o pretexto de adaptação para o cinema. É exatamente isso, que
a versão de 1984 faz.
Para começar, cenas e diálogos iniciais do livro que se passam em ocasiões diferentes e em reuniões de jantares,
piqueniques e no apartamento de Elliott Templetom, um dos mais interessantes personagens do livro, são levadas no filme de 1984
para uma comemoração, ao ar livre do, 4 de julho, a independência americana. Isso não seria demais e aceitável dentro de uma adaptação se ao mesmo tempo a participação
na 1ª guerra mundial, do protagonista principal do livro, Larry Darrell,
não fosse transformada de aviador militar em motorista de ambulância militar, tendo como acompanhante Gray Maturin, outro protagonista
importante e que sequer esteve na guerra, liberado por problemas médicos. Segundo relatos dos bastidores, o discurso que Bill
Murray (Larry) faz ante o cadáver de um companheiro de ambulancia, Piedmont, sequer existente no livro, foi em homenagem a seu
colega ator John Belush, que havia falecido no ano anterior.
Por sinal, não existem no livro passagens da guerra, a menos de relatos breves
e comedidos de Larry Darrell, para Isabel ou para o próprio Maugham que aparece narrando a trama. Isso é respeitado na versão
de 1946, mas não o é na de 1984, na qual existem longos 15 minutos de momentos de Larry e Gray na guerra, como dissemos no parágrafo
anterior, de forma diversa da obra original. Alguns críticos argumentam que a ênfase nas passagens que referenciam a experiência de guerra de Larry, visa mostrá-lo apenas chocado, desvalorizando a busca pelo conhecimento que parece ser a razão principal de sua jornada na história.
Sabemos que Somerset Maugham produziu um "screenplay" para o filme
de 1946, embora não saibamos com certeza se foi utilizado, eu tendo a considerar que se não foi usado foi devidamente lido, visto
o roteiro ter sido bastante fiel à obra, com inúmeros textos pode-se dizer ao pé-da-letra, o mesmo não acontecendo
com a versão de 1984. No livro, Somerset Maugham é o narrador da trama e personagem menor, que está presente em acontecimentos
marcantes e decisivos da história. Muitos detalhes sabemos das conversas que os personagens têm com Maugham, sobre fatos passados,
em ocasiões diversas. Isso é repoduzido de certa forma na versão de 1946, mas não aparece na direção de John Byrum em 1984.
Li algumas
das resenhas sobre o filme de 1984 no qual Bill Murray protagoniza Larry Darrell, Teresa Russel atua como Sophie
MacDonnalds e Catherine Ricks como Isabel Bradley e de certa forma me
surpreendi com a cotação favorável a Bill Murray, no papel de Larry.
Certamente esses críticos não conhecem a obra de Maugham, pois a interpretação de Murray nada tem em comum com o
perfil descrito para Larry pelo autor. Talvez ele tenha se sugestionado com o fato de Maugham ter deixado escrito na abertura
de seu roteiro: "Por
favor, notem que isso é no fundo uma comédia e deve ser interpretada de forma leve por todos, exceto nas passagens definitivamente
sérias".
A versão de 1946, indicada para o prêmio de melhor filme do ano,
tinha Tyrone Power no papel de Larry, Gene Tierney no de Isabel, Anne Baxter como Sophie e Clifton Webb como Elliott. Anne
Baxter foi ganhadora do Oscar com atriz coadjuvante e Clifton Webb um dos indicados também para o mesmo prêmio masculino.
Diferentemente de Bill Murray, Tyrone Power interpreta um Larry mais perto do que Maugham descreve, mas ambos fogem aos
traços do autor quando em um episódio inexistente no livro tentam retirar Sophie MacDonalds das garras de seu cafetão e iniciam
uma agressão corporal que termina com a expulsão de Larry do local.
Uma grande diferença entre as duas versões é a importância dada ao papel de Elliott
Templeton, personagem interessante e que tem um destaque grande na obra impressa, apenas referendado pela direção de 1946,
o que culminou com a indicação de melhor ator coadjuvante para Clifton Webb. Outro destaque na versão de 1946 são
as conversas entre Larry e o Guru, seu mestre na Índia. É dessa conversa que surge o nome da obra quando o monge diz a Larry: "O
caminho da salvação é estreito e tão difícil como andar sobre o fio da navalha."
Muito se tem escrito sobre a suposta misoginia de Maugham e O Fio da Navalha certamente
contribui para essa pecha visto que as mulheres na trama não se apresentam como exemplos de nobreza e dignidade, mas somando-se
a mulheres como Isabel e Sophie, Maugham também retratou personagens do sexo feminino de rara qualidade, portanto, essa discussão
nunca vai ser totalmente resolvida entre seus críticos e admiradores.
Por tudo isso, parece bem claro que recomendamos a versão de Edmund Goulding de
1946 reputando a versão mais moderna de 1984 como não merecedora de aplausos, que aliás também não recebeu do público.
Eu duvido que o próprio Somerset Maugham aprovasse essa versão e não sei como os detentores de seus direitos permitiram
tamanho vilipêndio de sua obra. Essa não é com certeza uma versão de Maugham, mas de Bill Murray que faria melhor permanecendo em suas comédias.